FRANCES

Mentir, mentir e mentir. Não fazia isso sempre, mas naquele verão eu estava me superando. Quando não mentia para mim mesma, mentia para os outros. Inventei uma indisposição estomacal para explicar a Tim Keller meu sumiço e minha ida à cidade — precisei de atendimento de emergência. Como continuava passando mal, não participaria dos festejos da noite e repousaria para dar o meu melhor, na manhã seguinte. O que mais eu diria a ele? Que fui almoçar com um hóspede? Ele não ia gostar da verdade, então a mentira acabou sendo necessária.

Meus amigos precisaram tomar conta da minha retaguarda, então, para eles não pude mentir.

— Você passou a tarde com o hóspede? Sério, Francie? Pensei que não se deixasse seduzir por um conversível.

Dominic fingia zombaria, mas estava sério. Eu nem ligava tanto para o que ele pensava, mas ele tinha razão — e eu odiava que ele tivesse razão.

— Toda mulher se seduz por um carro sem capota! — Alicia desdenhou. — Mas mesmo assim, Francie… ele é muito jovem, não acha?

— Ele é mais jovem, mas não é como vocês pensam. Acho que ficamos com a impressão errada.

Tentei me defender, mas era ainda pior do que entrar na gozação.

— Porque agora você o conhece muito bem e pode afirmar que o menino é isso ou aquilo.

Jordan estava bastante chateado, mas dele eu não esperaria compreensão, mesmo. Era apaixonado por mim há anos e não fazia o menor esforço para esconder isso de ninguém. Eu ficava desconfortável todas as vezes que ele deixava transparecer que me queria mesmo que eu não o quisesse, mas estava me acostumando.

— Não o conheço bem, mas tivemos tempo de conversar. Dá para apagar a primeira impressão errada que tive dele. Rafael é um homem divertido e simpático, então vocês podiam parar de implicar.

— Ninguém está implicando com você, Francie. — Dominic se aproximou e beijou-me na testa. Os lábios dele ardiam na pele como se fossem feitos de fogo e não sabia quem tinha dado a ele autorização para me tocar daquela forma. — Mas você sabe como é isso. Hóspede, rico, de Hollywood. O que vai acontecer depois do verão?

— Eu não vou me envolver com ele, Dominic. Foi apenas um almoço.

Aquela foi outra mentira em que ninguém acreditou. Eu não convenceria meus amigos que não pretendia me envolver com Rafael Mendez porque eu não acreditava nem um pouco nessa história. Precisava, no entanto, me esforçar para evitar que os sentimentos contraditórios que sentia por ele fossem minha ruína. Contanto que eu não ficasse de coração partido nem que ele fosse responsável por minha decadência profissional, com o resto eu saberia lidar.

Já passava de vinte e uma horas quando os empregados retornaram para o conjunto. Eu estava lá, no quarto de Jordan, preparando tudo para a jogatina da noite. Por mais que parecesse esquisito nos reunirmos sempre para jogos e dança, aquele era o momento que significava liberdade — podíamos ouvir a música que queríamos e falar do assunto que sabíamos. Não precisávamos fingir.

Logo o quarto estava cheio e com música latina tocando em alto volume. Não ouvi a chegada de Rafael, que materializou-se na porta carregando uma caixa de papelão.

— Ora, vejam se não é o hóspede abusado que invadiu nossa festa ontem. — Jordan foi o primeiro a vê-lo. — Perdeu o caminho do quarto da mamãe outra vez?

— Vim ter minha revanche. Vocês não serão deselegantes a ponto de me tirar todo o dinheiro e não me permitir a chance de recuperá-lo.

— Isso aqui não é cassino. Dê a volta e retorne para o hotel, garoto.

— O que tem na caixa?

Dominic se aproximou. Fiquei observando para ver no que aquele enfrentamento masculino daria.

— Vinho. Não é educado visitar a casa de alguém sem levar um presente, então trouxe vinho. Uma safra especial de merlot, melhor do que esse xarope que bebem toda noite.

Rafael colocou a caixa sobre a mesa de cartas e Jordan e Dominic a abriram para conferir o conteúdo.

— Gallo? Moleque, uma garrafa desse vinho custa mais do que ganho por semana, trabalhando.

Aproximei-me e segurei uma garrafa nas mãos. Não entendia muito sobre vinhos, mas o aroma da caixa já indicava que se tratava de um produto de qualidade. Alicia não deu nem tempo de recusarmos — apareceu com um saca-rolhas e duas taças, entregando-as para Jordan.

— Não vamos desperdiçar vinho bom, certo?

Rafael tinha um sorriso vitorioso quando pegou o saca-rolhas e abriu a garrafa que estava na minha mão. Depois, pegou uma das taças, serviu a bebida, cheirou e, depois de permitir que o vinho respirasse, bebeu. Serviu mais um pouco e entregou a taça a mim, indicando que eu deveria provar. Ainda estava preocupada com o sorriso que ele deu segundos antes — aquele que eu só tinha visto em Dominic, até então, e contra o qual eu já me considerava imunizada. Pelo visto, estava enganada.

— Delicioso. — Disse, depois de beber um gole. — Espero que não tenha tido aulas intensivas de pôquer, pois pode ficar responsável por trazer a bebida da festa, a partir de hoje.

Minha piada fez com que Alicia e Dominic rissem, apesar da carranca que tinha se apoderado da face do meu lindo amigo Jordan. Ele não concordava com a presença de um hóspede no nosso meio, mas Rafael queria estar ali — e isso já fazia a situação bem diferente de qualquer outra. Na verdade, eu achava que ele tinha ciúmes de mais concorrência.

Os homens sentaram-se à mesa para jogar e decidi acompanhar por algum tempo, analisando-os. Rafael era péssimo e não tinha nenhuma habilidade no jogo. Esperava que ele atuasse melhor do que blefava, pois estava fracassando miseravelmente. Não demorou muito para que perdesse mais cinquenta dólares para os abutres da mesa, o que provavelmente não faria a menor diferença na sua conta bancária, mas garantiria uma pizza para os meninos.

— Acabou, para mim.

Ele disse, sem demonstrar desânimo, apenas fazendo uma cena. Sem saber se ele pretendia ir embora depois disso, decidi convidá-lo para dançar. Já estávamos todos um pouco ébrios com o vinho importado e muito elegante que nosso visitante levou e não tive constrangimento em segurá-lo pela mão e levá-lo até a pista improvisada de dança. Dayse tinha colocado o paso doble para tocar e, como Rafael tinha demonstrado conhecimento de danças latinas, seria bom testá-lo naquele desafio.

Mas foi demais para o hóspede.

— Para aprender como se faz precisa deixar Frances te guiar.

Dominic sugeriu, vendo-o misturar a salsa com a rumba.

— Não, melhor observar quem sabe.

Jordan empurrou-o para o lado e me segurou pela cintura, passando a conduzir a dança. Ele era muito bom — seu único competidor ali era Dominic. Os dois eram profissionais talentosos que nunca tiveram a oportunidade de ganhar dinheiro com a arte, assim como eu. Fazia algum tempo que não dançava com Jordan e ele estava melhor do que no ano passado. O show de encerramento prometia!

Rafael também não demonstrou constrangimento em observar mas não nos imitou. Alicia se ofereceu para ser sua parceira, mas recebeu um educado não. Dominic também me tirou para dançar e logo outros estavam dançando também — o tempo passava e ele não parecia entediado, mas manteve-se afastado, analisando todos os movimentos.

— Muito bem, hora da Cinderela virar abóbora! — Jordan disparou, por volta da meia-noite. — Amanhã temos nossos compromissos logo cedo, então vamos dormir.

Ele desligou a música e isso significava que a festa tinha acabado. Eu e Alicia, como sempre, nos encarregamos em organizar o lugar, recolhendo copos e pratos descartáveis. O pessoal não produzia muita sujeira, mas não tínhamos como lavar louça ali. Rafael quis ajudar e se ofereceu para levar o lixo para fora.

— Divertiu-se?

Perguntei, interceptando-o do lado de fora.

— Bastante. Muito mais do que com mímicas e bacará. Obrigado por me convidar e me aceitar no grupo, mesmo sendo visível que seus homens não gostam muito da minha presença.

— Meus homens?

— Jordan e Dominic. Eles nem se incomodam em esconder o interesse por você, acredito que não seja segredo. E, bem, eles demarcam o território muito bem. Então, obrigado.

Sorri, aproximei-me e o beijei na face. Aquele era o movimento mais arriscado que fazia na noite, totalmente inapropriado, mas ele merecia ser beijado, mesmo que de forma inocente. A proximidade era perigosa e quase me esqueci — desejei, na verdade, beijá-lo de outra forma. Mas o hóspede não tinha limites, então eu precisava traçar alguns.

Afastei-me, deixando-o no pátio, e fechei-me no quarto, recostando-me na porta. Não dava para negar; por mais que eu dissesse que não, Rafael mexia comigo. Podia ser ridículo, mas era verdade. Rafael era tudo que eu não precisava e devia ficar longe dele, mas repetir aquilo não me faria desejá-lo menos. Eu nem queria desejá-lo menos. Esbravejei algumas palavras enquanto arrumava a cama — dormir talvez fosse a melhor opção naquele momento. De repente a porta se abriu, assustando-me.

— Dominic! O que você quer aqui? Tomou vinho demais e errou de quarto?

— Tomei vinho demais, sim. O carinha sabe escolher uma boa safra… mas não errei de quarto. Precisamos conversar.

Olhei diretamente em seus olhos e não vi sinais de ebriedade.

— Não temos nada para conversar nesse horário.

Ele deu alguns passos em minha direção e senti-me enclausurada entre seu corpanzil e a parede. Dominic era grande e forte e tinha um físico desejável — e estava sem camisa, para completar o cenário. Eu estava excitada e ele me excitava, ou seja, aquela não era uma oportunidade em que eu iria resistir a qualquer investida dele.

— Você sabe que eu quero você, há muito tempo que quero. Aceito que diga não e que respeite a mocinha do Jordan; sei que ele não é páreo para mim e espero a hora certa. Só que agora as coisas estão diferentes, não é mais com Jordan que estou competindo.

— Do que você está falando? Não tem ninguém competindo aqui, Dominic; o que acha que sou? Um troféu?

Ele se aproximou mais e pude sentir o calor de sua pele. Aquilo não ia acabar bem — ou ia, bem demais.

— Tudo é uma competição. Só que, com esse moleque eu não sei disputar. E não vou te entregar de bandeja para ele, não vou, mesmo.

Dizendo aquilo, Dominic me segurou pela nuca e me beijou, como se eu tivesse lhe dado autorização. Eu já sabia, quando ele invadiu meu quarto, o que pretendia, mas não estava em condições de afastá-lo. Talvez eu precisasse de Dominic, precisasse que ele me trouxesse de volta para a realidade, que era bem diferente de um jovem ator sem malícia do abismo que nos separava.

Então, eu não iria expulsá-lo como faria em outra ocasião que ele decidisse tomar a iniciativa. Deixei-me levar pelo que sentia, por Rafael e por Dominic, mesmo que houvesse mais confusão do que decisão, e me entreguei. Não faria mais diferença.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.