Paso Doble
3 Capítulo 03
FRANCES
“O dia vai ser longo”, pensei comigo mesmo enquanto bocejava, aproveitando a oportunidade na qual os alunos reproduziam alguns passos na frente do espelho. A manhã ainda estava na metade e já tinha uns oito alunos, todos de meia idade, sem o menor talento para a dança, mas que queriam fazer bonito em bailes da terceira idade. Peter era o que parecia mais jovem — e ele já tinha ultrapassado a barreira dos 50. Na verdade, eu tinha sorte — as aulas de canto eram bem mais traumáticas.
A música terminou e agradeci a presença de todos, convidando a voltarem no dia seguinte. Precisava dos meus alunos, eram eles que me sustentavam ali. Não sabia se teria outra turma logo em seguida, mas, após a saída do último aluno, notei uma figura já conhecida recostada no batente da porta.
— Sozinha, Francie?
Dominic. Como eu odiava aquele sorriso vencedor, se ele soubesse não o exibiria para mim nunca mais. Estava vacinada contra os encantos daquele latino maldito, mas não conseguia me livrar dele. Alguns hóspedes chegaram e entraram no salão antes que eu pudesse pensar em respondê-lo.
— Nunca fico sozinha no Keller, Dominic. Veio aprender o cha-cha?
— Talvez prefira aulas particulares.
Ele se aproximou como um felino e me obrigou a esquivar. Fui na direção do som para trocar a música e escolher um ritmo diferente — não aguentava mais ouvir a mesma coisa. Informei aos alunos que aprenderíamos o mambo.
— Dominic, aposto que tem muita gente interessada na sua cantada, mas eu não. Se não tem trabalho a fazer, ajude-me com as aulas.
Ele sorriu debochadamente e tirou a camiseta que vestia com um puxão. Odiava ainda mais aquele exibicionismo gratuito, ninguém estava interessado em ver seu peito definido ou sua barriga de tanquinho. Sem se importar com isso, Dominic colocou-se à frente dos espelhos e bateu palmas duas vezes para chamar atenção das senhoras que, vestindo bermudas com o comprimento no joelho, chegavam para arriscar alguns passos de dança. Nem precisava de tudo aquilo, já que vestia apenas uma calça preta que demarcava suas formas bem feitas.
— Bom dia! Meu nome é Dominic Lacan e, juntamente com a linda Frances, vou instrui-las nessa aula. Vamos apresentar alguns passos, por favor tentem nos imitar.
Oh, droga, eu não estava muito a fim de lidar com ele. Ter ajuda não seria de todo ruim, porém não precisava de jogos de sedução logo no primeiro dia de trabalho. Já estava me preparando para gastar uma hora me esfregando naqueles músculos perfeitos quando três hóspedes atrasados chegaram com intenção de se juntarem ao grupo. Surpreendi-me ao notar que eram eles, a família dos três jovens que me chamou atenção na recepção. E a garota continuava mexendo no telefone sem demonstrar qualquer vontade de estar ali.
— Viemos para a aula de dança. — Um dos rapazes disse.
— Chegaram atrasados, voltem para a próxima.
Dominic disparou. Encarei-o aborrecida; aquela era a minha aula e ninguém se metia nela. Eu que decidiria quantos alunos teria.
— Precisamos fazer com que nossa irmãzinha mostre que tem sangue latino nas veias ou nossos pais vão nos fazer jogar bacará ou brincar com os animadores como se tivéssemos doze anos. — Ele explicou. Ele, a perfeição masculina que fez minha manhã mais alegre pela segunda vez seguida.
— E vocês têm o que, quinze anos?
— Dominic, cale-se. — Intervim. — Venham, garotos, juntem-se ao grupo. Estamos para iniciar os movimentos do mambo.
Adotei uma expressão séria, aumentei o som e me posicionei à frente de Dominic para iniciarmos a dança — e mostrarmos aos ‘alunos’ como se fazia. Por trinta segundos, desenvolvemos alguns passos do mambo e deixamos os alunos impressionados, como sempre. Já que ninguém ali sabia fazer nada daquilo, para eles era impossível. Bem, para alguns, era mesmo. Sem contar que Dominic exalava sensualidade e nossa plateia era quase que exclusivamente feminina.
— Posso fazer isso também?
— Qual é o seu nome?
— Roberto Mendez.
— Se você comparecer a todas as aulas até o final do verão, pode ser que dance o mambo. Mas não sei se fará como nós, pois somos profissionais.
— Isso é uma perda de tempo.
A garota ainda não tinha deixado o telefone um minuto sequer, nem mesmo para nos ver dançar. Se eu fosse a mãe dela, já teria desaparecido com aquele aparelho irritante.
— Cala a boca, Mercedes. Vamos dançar.
Algumas risadinhas dispersaram a conversa e fizemos alguns passos que eles deveriam seguir. Era uma brincadeira, mas podia ser levada a sério caso alguém quisesse realmente aprender a dançar. Enquanto as senhoras arriscavam imitar nossos movimentos, eu e Dominic circulávamos entre eles para auxiliar. Tentei não focar muito no hóspede que me causava calafrios, preocupava-me que todo mundo percebesse a forma como eu olhava para ele.
— Você tem molejo. — Ouvi Dominic dizer e virei-me para ver com quem falava. — Não sei o que está fazendo aqui, mas aposto que não precisa dessa aulinha para dançar. Francie, venha cá.
Droga, Dominic. Estava tentando me manter neutra e afastada do rapaz, mas não podia fingir que ele não estava ali.
— Estou ocupada.
— Não seja estraga-prazeres… venha dançar com esse garoto, aqui.
Meu parceiro mudou a música e os hóspedes pararam o que faziam, confusos. Claro, o ritmo ficou bem mais rápido. Não queria ficar tão próxima do rapaz — dançar com ele era uma péssima ideia, só que não tinha como dizer isso. Aquela era uma estratégia comum, selecionar um hóspede talentoso e utilizá-lo como curinga nas aulas, para fingir que todos seriam capazes de dançar e, com isso, arrebanhar mais alunos. Se eu recusasse, o que pensariam? Não teria uma justificativa válida.
O jovem não parecia muito interessado em participar, mesmo com a curiosidade que todos demonstravam. Sorri e ofereci-me para guiar a dança. Tão próxima dele pude sentir seu perfume, uma mistura almiscarada com suor e… bacon. Meu estômago roncou.
— Pode deixar que eu guio.
Ele fez um movimento corporal e me segurou pela cintura. Assustei-me e Dominic caiu na risada, divertindo-se com minha desgraça. O menino não tinha apenas molejo, ele sabia o que estava fazendo. O mambo não parecia ter mistérios para ele, que demonstrou enorme desenvoltura durante a dança. Foi como se eu estivesse fazendo aquilo com Jordan ou Dominic, porém com nenhum deles eu ficava tão extasiada.
Depois que a música acabou, todos aplaudiram e retomaram suas lições. Fiquei atordoada e saí cambaleando por entre os alunos para fingir que os observava, mas minha atenção ainda estava nele, no meu mais recente parceiro de dança.
— Parabéns, garoto. Qual é o seu nome?
— Rafael.
— Você tem ginga, pode voltar para o papai e para a mamãe e dizer que o tio aqui te dispensou da aula. Se seus irmãozinhos dançarem como você, mando eles para casa também.
— Obrigado, mas preciso ficar e esperar minha irmã. Se conseguir convencê-la a ter aulas de dança ensiná-la metade do que eu sei, deixo para vocês um pagamento extra no final do mês.
Abusado ou ousado, ele não mediu palavras para falar com Dominic, que geralmente intimidava quem se aproximasse. Não ia ter jeito de me livrar daquelas crianças, eu teria que aturá-los pela manhã, talvez por outras manhãs durante as férias.
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