Pase lo que pase - VONDY
19 O leão bailarino
P.O.V DULCE MARIA
Desde que pedi o divórcio ao Paco, posso dizer que as coisas estão melhores. Ele parece outra pessoa, não que a mudança seja por minha causa, mas pela Maria Paula. Embora ainda trabalhe muito, ele sempre encontra tempo para estar com ela e seus outros filhos, e isso tem aliviado um peso em nossos ombros.
Por outro lado, eu me vejo dividida entre ser mãe e continuar minha carreira como artista. Minha agenda está mais cheia do que nunca, e as oportunidades de trabalho continuam surgindo. Ariel tem sido incansável e, consequentemente, me feito trabalhar intensamente também. Hoje, por exemplo, tenho uma entrevista em um podcast sobre saúde mental, e estou muito feliz por poder contribuir e ajudar meus fãs que sofrem de distúrbios pós-pandemia, sejam quais forem. Sei bem o quanto é difícil lidar com isso, e foi a minha gravidez que me salvou da depressão. Sem ela, talvez eu nem estivesse aqui para contar minha história.
Ser atriz, cantora e compositora sempre foi uma parte fundamental da minha felicidade, mas ser mãe... isso é o que realmente me move. É o que me faz levantar da cama todos os dias, com propósito e força para enfrentar qualquer desafio.
Ao terminar de me arrumar, olho para a Maria Paula, que está brincando tranquilamente no chão da sala, e sinto uma onda de amor e gratidão me inundar. Eu sabia que, independentemente dos altos e baixos, tudo valia a pena por ela.
Peguei minha bolsa, respirei fundo, pronta para mais um dia de entrevistas e compromissos. Antes de sair, dou mais uma olhada na Maria Paula, que me lança aquele sorriso inocente e cheio de vida. Eu me agacho ao lado dela, beijo sua testa e sussurro:
— Mamãe vai sair rapidinho, mas logo estou de volta, tá bom?
Ela balança a cabeça e continua brincando, alheia ao turbilhão que às vezes toma conta da minha vida. Fecho a porta, sabendo que, por mais corrido que seja o dia, meu coração sempre volta para ela.
O caminho até o estúdio do podcast é tranquilo, mas minha mente está acelerada, relembrando todos os momentos recentes. A entrevista seria um espaço seguro para abrir o coração sobre o que tenho vivido, não só como artista, mas como mulher e mãe.
Chegando ao estúdio, sou recebida pela equipe do podcast. Sentada na poltrona confortável, o microfone à minha frente, me preparo para mergulhar em uma conversa profunda sobre saúde mental, um tema que toca tanto a minha alma.
A entrevista começa com um clima leve, mas carregado de expectativas. O apresentador do podcast, um homem de voz suave e palavras acolhedoras, me cumprimenta com um sorriso acolhedor.
— Hoje temos uma convidada muito especial, alguém que tem inspirado e tocado tantas vidas ao longo de sua carreira. Não apenas como cantora e atriz, mas também como uma voz ativa em temas tão importantes como saúde mental. Seja bem-vinda, Dulce María!
Sorrio, agradecendo com um leve aceno de cabeça enquanto ajeito o microfone à minha frente.
— Obrigada, é um prazer estar aqui. Acho que falar sobre saúde mental é tão importante quanto cantar uma música ou atuar em uma cena. Afinal, tudo começa na nossa mente, não é?
Ele concorda com um aceno antes de seguir para a primeira pergunta.
— Você sempre foi uma figura pública, e eu imagino que isso venha com suas próprias pressões e expectativas. Mas, com a pandemia, vimos uma mudança significativa na forma como todos lidamos com a vida. Muitas pessoas passaram a enfrentar questões de saúde mental de uma maneira mais intensa. Como isso impactou você pessoalmente?
— A pandemia nos forçou a lidar com o isolamento de uma maneira que nunca tínhamos experimentado antes. No meu caso, foi um momento de muita introspecção. Por um lado, eu estava aliviada de ter uma pausa, porque a vida de artista é corrida, não para nunca. Mas, ao mesmo tempo, aquele silêncio trouxe muitos fantasmas à tona.
Faço uma pausa, percebendo o peso das minhas palavras e sabendo que outras pessoas provavelmente sentiram o mesmo.
— Eu comecei a lidar com uma tristeza que não conseguia explicar. A pressão de manter uma carreira, de ser quem os outros esperam que você seja, de estar sempre disponível... isso começou a me consumir. Eu, que sempre fui uma pessoa otimista, me vi em um lugar muito escuro.
O apresentador me escuta atentamente, sua expressão séria, respeitosa.
— E então... veio a Maria Paula. — Minha voz suaviza ao mencionar minha filha. — Ela foi a minha luz em meio a toda aquela escuridão. A gravidez me salvou. Ela me deu um propósito, algo pelo que lutar. Durante a pandemia, enquanto o mundo parecia estar desmoronando, eu sentia que estava construindo algo lindo dentro de mim. Maria Paula me deu forças quando eu achei que não tinha mais nada a oferecer.
O apresentador faz uma pausa, como se estivesse absorvendo o impacto do que acabei de dizer.
— Isso é muito poderoso, Dulce. A ideia de que a sua filha foi o que te manteve de pé, enquanto o mundo lá fora estava desmoronando... Acho que muitas pessoas vão se identificar com essa parte da sua história. Durante a pandemia, muitos de nós sentimos essa sensação de vazio, de incerteza. E, para quem já lida com questões de saúde mental, isso foi amplificado.
— Com certeza — concordo. — O isolamento fez com que muitos de nós confrontássemos nossos medos mais profundos. Para alguns, foram questões de ansiedade, para outros, a depressão. E o que muitas vezes falta é o suporte, a compreensão de que não estamos sozinhos, mesmo que, naquele momento, pareça que estamos. Por isso, é tão importante falar sobre saúde mental, criar espaços para que as pessoas se sintam seguras em compartilhar suas experiências. Eu mesma me senti sufocada, presa dentro da minha própria cabeça... até que Maria Paula me mostrou que havia luz no fim daquele túnel.
— E isso nos leva ao que você mencionou sobre querer fazer mais projetos voltados para saúde mental. Isso é algo que você gostaria de aprofundar?
— Sim, eu acho que o entretenimento pode ser uma plataforma poderosa para esse tipo de diálogo. Tenho pensado em criar um podcast meu, algo mais focado nesses temas. Trazer especialistas, contar histórias, dar voz às pessoas que passaram por desafios pós-pandemia, ou que sofrem com distúrbios como ansiedade, burnout, depressão... Eu acredito muito no poder de compartilhar. Quando você escuta que outra pessoa passou pelo mesmo que você, isso pode mudar tudo.
— Isso seria incrível. Você já é uma inspiração para tantos, e abrir esse tipo de discussão com a sua audiência... seria algo transformador.
— Eu espero que sim. — Dou um leve sorriso. — É claro que ser atriz, cantora e compositora é uma grande parte de quem eu sou, mas ser mãe me fez enxergar a vida de uma maneira completamente nova. É isso que me faz querer levantar todos os dias, buscar formas de tornar o mundo um lugar melhor, especialmente para minha filha e para todos que enfrentam essas batalhas internas.
O apresentador agradece minha presença, e eu sinto uma espécie de leveza ao sair do estúdio. Como se cada palavra que tivesse compartilhado fosse um passo a mais para trazer mais clareza à minha própria jornada e à jornada de quem me acompanha.
Após a entrevista, saí do estúdio com uma sensação de alívio e dever cumprido. Compartilhar um pouco da minha jornada sempre me dava uma perspectiva nova, mas também reforçava o quanto eu ainda tinha para lidar, especialmente agora que o divórcio com o Paco estava se tornando realidade. No fundo, ainda havia uma mistura de emoções que me fazia questionar se eu estava realmente pronta para seguir em frente com tudo. O trânsito da Cidade do México me recebeu de volta à realidade, e enquanto dirigia, meus pensamentos voltaram para Maria Paula, Christopher e o que viria a seguir.
Cheguei em casa e, como de costume, fui direto ao quarto da Mapi. Ver sua carinha de felicidade ao me ver sempre me aquecia o coração. Ela estava brincando com as bonecas, e, por um instante, observei-a de longe, absorvendo aquele momento. Como mãe, eu sabia que tudo o que eu fazia era para ela, mas também sabia que precisava encontrar um equilíbrio para mim mesma.
Enquanto brincava com ela, meu telefone vibrou no bolso, uma mensagem de Christopher.
"Ei, como foi o podcast? Aposto que você arrasou. Todo mundo devia ouvir o que você tem a dizer sobre saúde mental."
Sorri ao ler a mensagem. Ele sempre sabia o que dizer para me fazer sentir melhor, mesmo quando eu estava exausta.
"Foi bom. Falei sobre o quanto a pandemia mexeu com todos nós, mas também sobre a Mapi. Ela foi minha âncora, sabe? A gravidez me ajudou a superar muita coisa."
"A Mapi é incrível, e você também. Falar sobre saúde mental é tão importante. Eu tenho certeza de que você tocou muita gente hoje."
"Obrigada. Às vezes, parece que eu ainda estou processando tudo o que aconteceu, mas compartilhar ajuda. Como foi seu dia?"
"Foi tranquilo, me encontrei com o Christian novamente, conversamos sobre a vida, como sempre. Ele está empolgado com os novos projetos e... claro, já quer voltar para o Brasil o mais rápido possível."
"Vocês dois nunca param. Eu adoraria ter esse pique. Mas fico feliz que as coisas estão caminhando bem. Precisamos nos ver logo. Sinto falta das nossas conversas cara a cara."
"Eu também sinto falta. Estou sempre aqui, você sabe. Quando puder, me avisa. A gente faz algo tranquilo, como nos velhos tempos."
Sorri ao ler a mensagem, sentindo uma pontada de nostalgia. Mesmo com toda a correria, era bom saber que ele estava ali, esperando.
"Vou fazer isso, prometo. Eu realmente preciso de um momento mais calmo, só nós dois. Mas por enquanto, vou aproveitar um pouco com a Mapi."
"Aproveita. Ela deve estar cheia de energia, como sempre. E lembra: estou a uma mensagem de distância."
"Você também. Me manda notícias, viu? Fico de olho em tudo que você faz."
"Pode deixar, Dul"
Coloquei o celular de lado, sentindo uma paz tranquila depois daquela conversa. Ele tinha esse efeito em mim, sempre soube me tranquilizar.
Era uma tarde tranquila, e eu finalmente consegui um momento livre para passar com a Mapi. Ela estava no seu mundinho, espalhando seus brinquedos pelo chão da sala, completamente concentrada em arrumar suas bonecas da maneira que só ela entendia. Eu a observava, fascinada com a sua energia e criatividade. Meu coração se enchia de amor sempre que olhava para ela.
— Mamãe, olha! — disse ela, segurando uma de suas bonecas com orgulho. — Ela vai para uma festa hoje.
Sorri, me abaixando ao lado dela no tapete.
— E o que ela vai vestir para a festa? — perguntei, entrando no jogo, sempre maravilhada com a imaginação da minha filha.
Ela pegou outra boneca e começou a trocar suas roupinhas com uma destreza que eu nunca imaginei que uma criança tão pequena pudesse ter. Enquanto ela fazia isso, eu me sentia grata por esses momentos. Desde que eu pedi o divórcio, passei a valorizar ainda mais esses instantes de tranquilidade com a Mapi. Ela era a luz que iluminava meus dias, o motivo pelo qual eu levantava todas as manhãs, mesmo nas piores fases.
— Mamãe, você pode arrumar o cabelo dela? — Mapi me entregou a boneca, seus olhinhos brilhando de expectativa.
— Claro, meu amor. — Peguei a boneca e comecei a "pentear" o cabelo. — Como você quer que eu faça?
— Igual o seu! — respondeu com entusiasmo, e meu coração derreteu. Mesmo com todos os desafios, saber que ela olhava para mim com admiração fazia tudo valer a pena.
Fiz o melhor que pude para imitar meu próprio penteado na boneca, e Mapi parecia absolutamente encantada quando viu o resultado.
— Está perfeito, mamãe! — Ela me abraçou com força, o que me pegou de surpresa, mas eu a envolvi nos braços, apertando-a contra mim.
— Você é perfeita, Mapi. — Sussurrei em seu ouvido, sentindo o calor da sua pele e o cheiro suave do seu cabelo, que sempre me trazia paz.
Ela se afastou um pouquinho, olhando para mim com um sorriso enorme no rosto.
— Eu te amo, mamãe.
Essas palavras, tão simples e puras, eram o que me mantinham firme, me davam forças para continuar em frente, mesmo quando o mundo parecia desmoronar ao meu redor.
— Eu te amo mais, minha princesa. — Respondi, beijando sua testa suavemente.
Mapi se aconchegou no meu colo, com sua boneca agora perfeitamente arrumada, e começamos a folhear um livro de figuras que ela adorava. Não havia nada no mundo que eu trocaria por aquele momento.
Enquanto folheávamos o livro, Mapi apontava para as figuras, inventando histórias para cada uma delas. Ela estava especialmente empolgada com as imagens de animais, criando diálogos engraçados entre os personagens.
— Olha, mamãe, esse leão tá dizendo que vai dançar balé! — Ela soltou uma risada alta, contagiando-me com sua alegria.
— Um leão bailarino? Essa é nova! — disse, rindo junto com ela. — Ele deve ser bem talentoso, não é?
— Sim! — respondeu Mapi, balançando a cabeça com entusiasmo. — Ele vai dançar no grande show, e todos os outros animais vão assistir.
O tempo parecia parar sempre que estávamos juntas assim. Eu sabia que esse tipo de momento seria essencial para ela lembrar no futuro, e queria que, apesar de tudo, a Mapi se sentisse segura e amada. Estava focada em ser a melhor mãe possível para ela, mesmo com tudo o que acontecia ao nosso redor.
Depois de um tempo, ela começou a se espreguiçar, visivelmente cansada. Apoiei sua cabecinha no meu ombro, e ela se aninhou ainda mais em meu colo, em um gesto de carinho que derretia meu coração toda vez que acontecia. Comecei a passar os dedos pelo seu cabelo, num gesto automático, sentindo o ritmo suave da sua respiração.
— Quer descansar um pouquinho, meu amor? — perguntei, já sabendo a resposta.
Ela murmurou um "sim" baixinho, com os olhos semi-fechados, enquanto lutava contra o sono. Levantei-me devagar, carregando-a no colo, e caminhei até o quarto dela. Ao deitá-la na cama, puxei seu cobertor preferido, aquele com estampas de unicórnio, e o arrumei sobre ela com cuidado.
— Dorme bem, minha princesa — sussurrei, beijando sua testa.
Ela abriu os olhos apenas por um segundo e sorriu para mim antes de voltar a fechar as pálpebras pesadas, caindo no sono quase que imediatamente. Fiquei ao lado da cama por um momento, observando-a dormir tão tranquila, com o coração aquecido por aquela paz que ela transmitia.
Saí do quarto silenciosamente, fechando a porta com cuidado. Na sala, suspirei profundamente. Esses momentos com a Mapi sempre me davam uma perspectiva diferente. Ela era meu ponto de equilíbrio, a razão pela qual eu nunca desistia, mesmo nos dias mais difíceis. Agora, com tudo se resolvendo em minha vida pessoal e profissional, eu me sentia mais forte para enfrentar o que viesse pela frente.
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