Pase lo que pase - VONDY
13 Apartamento em La Condesa
P.O.V UCKER
Ser notícia constante na mídia mexicana estava tirando o meu sono. Desde que apaguei todas as fotos e menções ao meu relacionamento com a Sam nas redes sociais, os paparazzi não me deram mais paz. Estavam sempre à espreita, em cada esquina, esperando que eu cometesse o próximo deslize ou desse alguma pista sobre minha vida pessoal. Não que toda essa atenção fosse necessariamente ruim; as músicas que lancei como prévias do meu álbum estavam alcançando números impressionantes, mais do que eu poderia imaginar. A ironia? Estava capitalizando com a mesma exposição que, ao mesmo tempo, parecia me devorar.
Teria como ser mais hipócrita do que isso? Eu, que sempre reclamei da invasão de privacidade, agora me beneficiando dela, mesmo que à custa de minha sanidade. Eu estava em um impasse. Sufocado pelas expectativas, perdido entre a arte que produzia e a vida pessoal que parecia desmoronar.
Estava no estúdio, tentando me concentrar em uma nova faixa, quando meu celular vibrou. Era uma mensagem da Dulce. O conteúdo era simples, mas direto: ela queria se encontrar comigo no meu apartamento em La Condesa. Aquele mesmo apartamento onde tantas vezes nos encontramos durante os momentos mais caóticos da minha vida. Era lá que, escondidos do mundo, trocávamos juras de amor, tentando manter nossa relação longe dos holofotes e da especulação pública.
O mais curioso era o timing. O fato de ela me chamar para aquele lugar específico, justo agora, quando as coisas pareciam tão incertas. Não pude deixar de sorrir diante da ironia. Aquele apartamento sempre havia sido um refúgio para nós, um espaço onde podíamos ser vulneráveis sem medo de julgamentos. Mas por que ela queria me ver agora? Depois de tanto tempo, seria um pedido de ajuda, uma necessidade de retomar alguma conexão antiga, ou... algo mais?
Guardei o celular no bolso, já sabendo que eu não teria paz até descobrir o motivo. Peguei minhas chaves e saí do estúdio, com a cabeça cheia de perguntas e o coração acelerado. No caminho, tentei imaginar o que ela queria conversar. Nosso passado sempre foi uma mistura de intensidade e complicações, e algo me dizia que o encontro de hoje não seria diferente.
Ao chegar em La Condesa, senti o ar familiar daquele bairro boêmio, cheio de vida e movimento. O apartamento me esperava, como uma cápsula do tempo, guardando memórias que eu tentei, mas nunca consegui enterrar completamente.
Quando finalmente abri a porta, senti aquele silêncio pesado, carregado de expectativa. A sala ainda tinha o mesmo cheiro, a mesma energia de antes, como se nada tivesse mudado desde nossa última vez ali. Fechei a porta atrás de mim, tentando controlar a ansiedade que subia pelo meu corpo.
Eu sabia que o que quer que viesse a seguir não seria fácil. Mas algo me dizia que esse encontro com Dulce era inevitável – e talvez, a única chance de finalmente resolvermos as questões que nos assombravam há tanto tempo.
Quando Dulce entrou no apartamento, parecia que o ar mudou. Tudo ao meu redor ficou em segundo plano. O som da porta se fechando ecoou por um instante, e eu senti meu peito apertar. Ela sempre teve esse efeito sobre mim, mesmo depois de tanto tempo e tantas mudanças. Eu estava sentado no sofá, com os dedos tamborilando nervosamente na perna, mas quando a vi, meus pensamentos se desorganizaram de repente. Dulce, com a postura firme e a presença inconfundível, preenchia o ambiente de uma maneira que eu nunca consegui ignorar.
Eu a observei se aproximar com passos controlados, cada movimento transbordando uma confiança natural, uma força que sempre me impressionou. Seus olhos castanhos, tão intensos e profundos, carregavam uma mistura de cansaço e algo mais... algo que eu não conseguia decifrar de imediato. Ela tinha aquele jeito de encarar o mundo, como se nada pudesse derrubá-la, mas eu sabia que, por trás dessa fachada, havia uma mulher que carregava mais do que qualquer pessoa deveria.
Eu a conhecia melhor do que a maioria. Sabia que ela era muito mais do que a artista brilhante que todos viam. Eu conhecia a Dulce real – a que carregava fardos silenciosos, que era mãe devotada, mulher forte, mas também vulnerável. Essa era a Dulce que eu amava, ou que, pelo menos, nunca conseguira parar de amar por completo. Não havia como ignorar o quanto ela mudara minha vida, moldando parte de quem eu era hoje.
Quando ela finalmente se sentou no sofá ao meu lado, o perfume dela me envolveu. Era um cheiro familiar, que sempre me fazia lembrar de noites sem fim e promessas sussurradas no escuro. O cabelo dela caía levemente sobre os ombros, solto, como se tivesse sido arrumado sem esforço, mas de uma maneira que parecia perfeita. Ela cruzou as pernas com um gesto natural, mas o olhar que me fitava era sério, carregado de emoções que estavam prestes a se derramar.
Eu queria dizer algo, mas as palavras pareciam ter evaporado. Como se, ao vê-la ali, tão perto e ainda assim tão distante, eu não conseguia articular o que realmente estava sentindo. O silêncio entre nós era pesado, carregado de histórias e de uma conexão que nunca desapareceu por completo. Eu sabia que Dulce tinha a capacidade de suportar muito, de ser resiliente como poucas pessoas eram, mas eu também sabia que aquilo estava pesando sobre ela e essa era a parte que me matava.
Finalmente, eu quebro o silêncio.
— Você sabe, eu nunca quis que chegássemos aqui... assim — eu disse, a voz baixa, mas carregada de sinceridade.
Dulce não respondeu de imediato, apenas o encarou por um momento que pareceu durar uma eternidade. Eu sabia que o que estava por vir não seria fácil, mas, de alguma forma, eu também sentia que aquele momento, naquele apartamento que guardava tantas lembranças deles, era inevitável. Ela sempre foi a única pessoa capaz de ver através de mim, e eu sabia que dessa vez não seria diferente.
— Acho que não te surpreende saber que terminei com a Sam, né? O que você deve ter visto nas redes já conta metade da história.
— Eu vi. Não vou mentir, fiquei surpresa quando percebi que você apagou tudo. O que aconteceu?
— Não foi fácil, Dul. A gente já vinha mal há um tempo, sabe? Tentamos fazer funcionar, mas no fim das contas, acho que estávamos em direções completamente opostas. Sam queria algo que eu não podia oferecer. Ela queria estabilidade, previsibilidade... coisas que simplesmente não cabem na minha vida agora, com tudo que está acontecendo com a carreira e... comigo.
Ela observa atentamente, inclinando-se levemente para frente
— E você? O que você queria?
— Não sei se sei a resposta para isso ainda. Eu me sentia preso, sufocado. Ela é uma boa pessoa, mas cada vez mais parecia que eu estava interpretando um papel, tentando ser alguém que ela precisava que eu fosse, e não quem eu realmente sou. E... — Pauso, desviando o olhar — No fundo, eu sabia que eu nunca ia poder amá-la da maneira que ela merecia. Quando percebi isso, sabia que não podia continuar enganando nós dois.
— Eu entendo. Às vezes, o mais difícil é aceitar que não podemos ser o que o outro espera, mesmo querendo tanto que as coisas funcionem. E como ela reagiu?
— Não foi fácil. Ela ficou magoada, mas não seria justo. Eu já estava emocionalmente distante. Terminar foi como cortar o último fio que ainda nos mantinha conectados. E então veio a reação das redes sociais... parece que minha vida virou um circo de uma hora para outra.
— Isso foi o que realmente mexeu com tudo, não foi? Eu imagino o quanto deve ter sido difícil. A pressão das redes sociais e as especulações.
— Exatamente. A explosão dos vídeos, as fãs enlouquecidas, as comparações... eu devia ter previsto, mas não tem como se preparar de verdade para algo assim. E agora parece que tudo o que eu faço ou digo é interpretado da pior maneira possível. Mas, honestamente, Dul, acho que o pior de tudo foi o que isso causou para você e o Paco.
— Sim... as coisas pioraram muito depois do seu término. Paco ficou furioso. As fãs não deixaram barato, e de repente, nós dois estávamos no centro de algo que nem sequer fizemos parte. A convivência ficou insustentável.
— Dulce, eu sinto muito. Eu nunca quis que você passasse por isso por minha causa.
— Não foi sua culpa. Eu sei que tudo isso não era algo que você controlava, mas o Paco... ele começou a usar isso como desculpa para o afastamento. A verdade é que ele já estava distante muito antes de tudo isso. A questão com as fãs só foi o estopim. Ele estava sempre ausente, sempre mergulhado no trabalho, e as brigas foram aumentando. Quando Maria Paula começou a sentir tudo isso, foi o fim para mim.
— E o que você vai fazer? — pergunto
— Eu não sei, Chris. Honestamente, não sei. Pedi um tempo, mas cada dia que passa sinto que nosso casamento chegou a um ponto sem volta. Ele se afastou de mim, se afastou da nossa filha... e agora estamos nesse limbo. A única coisa que me importa nesse momento é proteger a Maria Paula.
Eu toco levemente em seu braço e com um olhar preocupado eu começo a falar
— Você não precisa enfrentar isso sozinha, Dulce. Eu estou aqui, sempre estarei.
— Eu sei, Chris. E agradeço por isso, de verdade. Mas algumas coisas... eu preciso resolver por mim mesma. Você entende?
— Entendo. Só quero que saiba que, independentemente de tudo, estou do seu lado. Sempre estive.
— Eu sei. Isso nunca mudou, né?
— Não, nunca. — Eu sorrio e por um momento parece ficar mais calmo.
O silêncio entre os nós dois era pesado, cheio de lembranças, saudades e promessas não ditas. Era um momento de compreensão mútua, onde palavras não eram necessárias para que ambos soubessem o que o outro sentia. Mesmo depois de tanto tempo e tantas mudanças, havia algo entre nós que nunca se apagou completamente.
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