Notas iniciais
Espero que gostem :) e desculpem se houver erros.

Ália

Durante dias nos encontramos na clareira. Eu lia e algumas vezes conversávamos. Eram conversas breves, cheia de risadas por minha parte, mas não pela dele. Algumas vezes eu sentia que o fato de ser Rei impedia Aaron de ser ele de verdade. Eu estava voltando para a clareira e pela segunda vez eu o encontrei no chão, como na primeira vez ele chorava e tremia. Eu sabia que a dor não era dele. Que outra pessoa deveria estar passando por isso, não ele. Por isso eu não falei nada, tentei fazer barulho nenhum ao me aproximar e me sentar ao seu lado. Ele tremia muito, não pude evitar tocar sua testa para constatar que ele estava com febre. Alta.

—Oh meu Deus!- Eu pus a cabeça dele em minhas pernas e afastei o cabelo que estava grudado no rosto dele. Ele escondeu o rosto na saia do meu vestido de uma maneira infantil.

—Não quero que me veja assim.- Falou abafado pela minha saia.

—Pare de besteira. Você está doente.- sussurrei assustada.

—Está tudo bem. Não se preocupe.

Nesse dia eu descobri o quanto o rei era pesado. Quando ele dormiu eu tentei arrastá-lo até o rio, mas era um objetivo impossível. Precisei equilibra-lo em cima do cavalo Felicity e levar o cavalo, rezando para que Aaron não caísse.

Aparentemente minhas preces foram ouvidas, pois chegamos, nós três, inteiros ao rio. Desci Aaron do cavalo e ele despertou. Sonolento por causa da febre.

—Mas o que...- ele me encarou confuso.

—Você está alucinando.- Deitei-o na beira do rio e mergulhei as mãos em concha na água. Estava prestes a jogar nele, mas percebi que poderia causar um choque térmico.

—Hellena...- ele provavelmente ia começar a protestar, mas eu tapei os olhos dele

—shhhh. durma.- Ele suspirou aborrecido. Provavelmente aceitou que precisava de ajuda. Rasguei um pedaço da minha anágua* e a encharquei. Molhei o rosto do rei lentamente para a febre. Depois o pescoço e as mãos. Ele adormecera novamente no meu colo. Molhei o cabelo comprido dele devagar por fim velei o sono dele, molhando-o periodicamente e acompanhando a febre que estava diminuindo. Algumas lágrimas escorriam dos olhos enquanto ele dormia, mas só quando ele passou a murmurar coisas sem nexo com o cenho franzido fui entender que ele tinha um pesadelo.

—Aaron.- balancei o ombro dele.- Majestade acorde! É apenas um sonho.-Ele não acordou, mas parecia estar mais calmo.

Deixei-o dormir por toda a tarde, ele parecia precisar desse sono.

***

Estava escurecendo quando acordei-o.

—Eu dormi tanto assim?- ele perguntou olhando o céu escuro. Eu acenei com a cabeça. Ele levantou-se e sentou ao meu lado. O cabelo caiu sobre o ombro. As olheiras desaparecidas.

Nos fitamos em silêncio.

—Muito obrigado.- Acenei uma vez e ajudei-o a subir no cavalo. Parti para o reino em seguida. Esperava profundamente que ficasse tudo bem durante a noite.

Aaron

Ninguém nunca tentou fazer minha dor diminuir antes. Ninguém nunca tentou abaixar minha febre, ou me acordar de um pesadelo.Ninguém nunca me fez acreditar por um breve instante que estava tudo bem, quando na verdade tudo estava mal.

Por isso Ália me intrigava.

Por toda a minha vida eu fui solitário, as pessoas não se aproximavam de mim. E até hoje eu sou uma presença desagradável demais para a vida obrigatoriamente feliz deles. Exceto por Mariah, eu nunca tive amigos e Ália foi a única pessoa que tentou me fazer sentir menos miserável.

Eu entrei no castelo em silêncio. Durante a noite ele podia parecer um pouco assustador. Ele era enorme e com o silêncio da noite parecia ainda maior. Meu quarto estava arrumado e limpo. A coroa pousada delicadamente no suporte parecia me fitar como um peso. Parecia-me um fardo pesado de mais, grande demais que me aprisionava. E eu não podia fugir.

Tomei um banho quente e me preparei para dormir. Isto é, se o sono viesse.

***

Eu estava no bosque, sozinho, durante a noite. As estrelas estavam piscando e a Lua iluminava com um brilho pálido a clareira. Eu olhava o céu em silencio, encantado. Nunca tinha visto noite tão bela em toda a minha vida.

—Aaron? — A voz dela ecoou pela clareira e me fez olhar para frente. Ela estava na minha frente. Os cabelos caindo em cascatas ao seu redor. os Cachos bem formados pousados nos ombros e alcançando sua cintura. Usava um vestido de cor de vinho que destacava suas curvas e caía até o chão, deixando visível apenas os dedos descalços dos seus pés. Os olhos levemente puxados e o rosto de fada me encaravam docemente. Misteriosamente. A mão segurava uma rosa de um tom vibrante de vermelho. Ela parecia irradiar luz e calor de si mesma e quando sorriu, para mim, parecia querer incendiar-me. -Esperava encontrar você aqui.

De repente eu estava de pé. Uma mão estendida para ela, convidando-a. Ela aceitou a mão, tímida. Segurávamos a rosa juntos. Tomei a cintura dela com cuidado e ela pousou a outra mão sobre meu ombro.

Estávamos dançando. Sem música, sem sinfonia, sem coreografia. Apenas nos movendo juntos ao som da noite. Rodopiávamos pela clareira. Ela parecia ser feita de plumas, e eu girava-a em silencio. Nenhum ousando quebrar o encanto do momento.

Por nenhum motivo paramos. Nos encarávamos. Ela sorrindo, eu sério.

—Hellena, eu...- comecei a falar.

—Meu nome é Ália.- corrigiu. Encarei-a confuso, mas ela apenas sorriu. E se aproximou, fechou os olhos e entreabriu os lábios vermelhos.

No instante seguinte eu a beijei. um beijo profundo e calmo. Parecíamos nos moldar um ao outro, ela pareceu pertencer aos meus braços.

E eu acordei. O quarto escuro pelas cortinas pesadas. A cama macia e os lençóis emaranhados ao meu redor. Arregalei os olhos em duas placas. A sensação dos lábios dela permanecia marcada nos meus. E eu ainda podia sentir o molde de sua cintura na minha mão. Mas ela não estava li. Nunca estivera. Era um sonho.

Mas em Pasárgada um rei nunca sonhava.

*Anágua- Roupa de baixo que as mulheres usavam antigamente para que as roupas íntimas não ficassem visíveis.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.