Àlia

Acordei com os raios de sol batendo no meu rosto, pisquei seguidas vezes e esfreguei os olhos para espantar o sono. Meados do Outono, eu podia sentir. Aquele aroma de flores específico dessa estação adentrou meus sentidos. Permaneci deitada, olhando para o teto, poderia ter ficado por muitos minutos mais, porém ouvi o som da voz de meu pai, que aparentemente havia voltado da pescaria. levantei em um pulo e corri para a sala, aonde ele conversava com minha mãe. Ainda de camisola pulei nos braços dele abraçando-o.

—Voltou um dia mais cedo!- exclamei dentro do abraço dele.

—Você contou?- ele perguntou. Minha mãe nos observava com um sorriso no rosto.

—Óbvio que sim!- ele me soltou e deu uma risada alta. Depositei um beijo no alto da cabeça da minha mãe, que estava sentada, acariciando seus cabelos loiros.-Bom dia, tenho que me trocar.

Dei meia-volta para meu quarto e repeti todo o meu ritual matinal, que deveria ter feito antes de levantar. Lavei-me, limpei os dentes, troquei a camisola por um vestido simples, escovei os cabelos e arrumei a cama. Então fui tomar café da manhã, que meus pais já haviam terminado. O fiz conversando com eles, curiosa por saber de meu pai, como foi a pescaria dele.

—...Mesmo assim não pescamos tanto assim, mas pescamos peixes maiores, acreditamos que conforme avançamos mar adentro, maiores são os peixes, então estamos programando uma nova viagem para daqui um mês. esperamos voltar com muitos peixes.

—Isso é ótimo papai.-comentei com os braços sobre a mesa. Já havia terminado de comer e minha mãe lavava as louças.

—Meninas- meu pai falou bocejando- se não se importam, eu vou me retirar para descansar. Não dormi a noite toda, pois era meu turno de trabalho. Com licença.

—Licença concedida- permiti sorrindo.

—Querido, trabalharei apenas a tarde, irei fazer-lhe companhia. Querida, Podes terminar de secar as louças para mim por favor?

—Claro-concordei, e peguei o pano de prato que ela me estendia. sequei louça por louça e por fim arrumei a mesa. Fazia um dia bonito, ensolarado, por isso, prendi o cabelo, calcei sapatinhas confortáveis e vesti a capa.

—Mãe, Pai, vou ao bosque!-Avisei-lhes e saí. caminhei lentamente, apreciando a sensação ardida que o sol causava na minha pele.

—Olá, Ália. Lindo dia, não?- alguém fala do meu lado. Eliot. Meu velho amigo.

—Olá Eliot, abracei-o pelos ombros.- Quanto tempo eu não o vejo! Por onde andou?

—Estive doente,por muito tempo. Tive que ficar de quarentena. Para onde está indo?

—Ao bosque, quer ir comigo?- convido-o mesmo sabendo que (muito) provavelmente ele vai recusar, poucos gostam do bosque, por fora ele parece amedrontador.

—Não, o bosque me apavora.- damos uma risada discreta.- não sei como tem coragem de se embrenhar por lá. Sempre que me aproximo de lá eu sinto como se a qualquer momento uma fera vai surgir e devorar minha cabeça.- Dessa vez eu solto uma sonora gargalhada. Eliot sempre teve uma imaginação muito fértil.-Além disso, o sol está muito forte, vou acabar pegando uma insolação. E você também.

—Não vou não, daqui pouco tempo as nuvens vão tomar conta do céu, e os raios solares não vão estar tão agressivos assim.

—Eliot me encara surpreso.

— Como você sabe?

—Eu só...sei. É difícil explicar, mas acredite em mim.

—Eu não duvido, você sempre sabe dessas coisas. Mas te acompanho até os limites da floresta.- sorrio agradecendo.- Lembra-se de quando eu te mostrei uma planta que cuidava, ela estava verdinha e florescendo, mas você disse-me que ela morreria em poucos dias, me orientou um série de cuidados, que eu ignorei e assim como você previu ela morreu em poucos dias? Ainda me pergunto como você sabia disso.

—Eu senti, Eli.- Ele me observava atentamente, divertido.- Eu pude sentir que ela precisava de cuidados, senti que a energia vital dela estava se esgotando.- dou de ombros.

—Que papo é esse?- ele ri baixinho.- Ália, tinhamos 7 anos na época...

—E mesmo assim eu lembro da sensação que tive quando... Senti.- dei uma enfase misteriosa no final que o fez rir, satisfeito com a resposta. Ou cansado de perguntar.

Conversamos por mais alguns longos minutos e chegamos enfim aos limites da clareira. Ele olhou para o céu e viu as nuvens se aproximando. Riu e balançou a cabeça encabulado

—Você é inexplicável.- eu sorri largo e dei novamente de ombros

—Eu já sabia.- eu abracei-lhe novamente- O convite ainda está de pé, quer entrar na floresta?

—Não mesmo, já estou tendo arrepios desta distancia.- eu ri.

—Tudo bem. então nos vemos amanhã?-Proponho.

—Pode ser.- ele concorda.

Ele vira de costas e volta para o reino, enquanto eu adentro a floresta. Inicio a corrida de aquecimento apreciando o vento chicoteando meus cabelos e abaixando o capuz.

***

Chego ao bosque com o cabelo ainda preso (por incrível que pareça) e a sapatilha e barra do vestido sujas. Aparentemente chovera em uma região do bosque durante a noite enlameando o solo. Quando cheguei Ele estava lá. Recostado em uma árvore baixa, o rosto sombreado. Os músculos sob uma camiseta branca e fina, e o terno real, cheio de broches levemente aberto. Os cabelos loiros depositados sobre os ombros dele, estava sem a coroa Hoje, mas ele não precisava. o olhar imponente e firme, as vestes e principalmente a postura gritavam a realeza que existia nele. Os lábios vermelhos e feridos sérios. parecia que estava trincando os dentes, pois a têmpora e o largo maxilar estavam tensionados. Um dos joelhos dobrado e outra perna esticada. Os braços fortes ao lado do corpo. Levantou o olhar ao me ver chegar e manteve o contato visual até que me aproximasse sorrindo.

—O que faz aqui?- perguntou sério.

—O mesmo que você. Nada.- respondi sentando recostada ao outro lado do mesmo tronco ao qual ele também estava recostado.

Ele respirou fundo, mas não falou mais nada. Do mesmo modo, eu também não falei mais nada, peguei o livro que havia trago e abri retomando a leitura. Ficamos desse modo a tarde toda, exceto quando me levantei, colhendo as mesmas frutinhas que colhi da última vez, dividi para mim e para ele. Desta vez ele comeu. O silêncio foi mantido, se desconsiderar o ruído de ambos mastigando e o ruído vivo da floresta. Isso é, até que eu quebrei-o perguntando

—Aonde está seu cavalo?- Ele suspirou pesado, pouco disposto para responder.

—Amarrado á uma árvore próxima daqui. — o tom de voz e a resposta vaga mostrava a desconfiança pela minha pergunta.

—Hmm.- Levantei me sob a supervisão de seu olhar e colhi mais frutinhas, as quais levei para seu cavalo. Ele recebeu de bom grado e agradeceu-me com os olhos.

Recolhi minhas coisas, ao voltar para o bosque, vesti a capa e cobri a cabeça com o capuz.

—Com Licença Majestade.- Virei-me para a direção do reino quando fui interrompida.

—Aonde vai?-Perguntou com uma voz que jurei estar tremida.

—Para casa- Respondi-lhe simplesmente.

—Não vá.- Ordenou me encarando com aqueles olhos imponentes. Não desobedeci, nem o queria fazer.Então deixei o livro no chão e deitei-me ao seu lado dessa vez. Não recostada ao tronco, distante como estava anteriormente.

Estava anoitecendo, e o crepúsculo não estava distante. Observei quieta a escuridão tomar o céu, e pouco a pouco, uma a uma, as estrelas chegarem. Alguns momentos podia sentir seu olhar sobre mim, me observando, mas não retribui o olhar. O rio próximo fazia um ruído que me trazia uma paz. aquela atmosfera me roubou alguns suspiros capturados pelo olhar instigante do Rei. Quando enfim me levantei para ir, estávamos sob a penumbra, iluminados apenas pela lua cheia. Levantei-me e sorri para ele, dessa vez ele não me impediu. Parti de volta para o reino, e poucos passos adiante pude ouvir o cavalo real iniciar um galope distante.

Voltei sem pressa para casa. O dia agradável deixou-me relaxada, leve. A companhia do Rei me fazia bem, apesar do peso do encantamento que não lhe permitia sorrir. ele possuía a quietude que faltava no reino, nos plebeus, em mim.

E foi sob as incontáveis estrelas, sob a penumbra da noite, ao som dos piados tímidos das corujas e uivos de lobos que eu voltei para casa.