Parte de Mim
2 Lar, Doce Lar
Notas iniciais
A viagem foi feita de avião.
Poderíamos ter vindo de trem. Mas não! Tinha que ser primeira classe de um avião!
Ele tava tão desesperado que não quis ouvir ninguém!
Eu até entendo esse desespero. Mas custear tudo sozinho foi burrice!
Ele pagou a passagem dele! A minha passagem! E da Helena!
E tudo no crédito!
Céus! Preciso me acalmar!
Vou ter um negócio nesse ritmo!
Mas que ele foi um burro velho e teimoso, foi!
E eu juro que tentei colocar alguma razão naquela cabeça dura. Mas quem diz que ele ouviu?!
Eu até me ofereci para pagar o hotel e transporte, mas ele não deixou.
Eu tô ficando desesperado!
“Ah… Mask. Onde estamos indo?”
Levando em consideração que sou eu quem está dirigindo acho, SÓ ACHO, que ele podia me dizer algo.
“Entra naquela esquerda”.
Ele estava olhando pra fora, com a mão apoiando o queixo, totalmente compenetrado em pensamentos. Queria muito poder ler a mente dele e saber o que estava acontecendo.
Helena estava quietinha no banco de trás, esperta.
“Para o carro”.
Ele bateu duas vezes no painel e eu freie, foi um pouco brusco, mas pelo menos estamos de cinto.
Mask apenas suspirou cansado.
“Lar, doce lar”.
Ele então saiu do carro e gritou, tão escandaloso quanto o estereótipo. Só agora reparei que estávamos na frente de uma casa de campo com uma enorme plantação atrás e, pelo barulho dentro da casa, ninguém tava esperando aquele grito.
“Martino?... Martino!... MARTINO VOLTOU!! É O MARTINO!!”
Uma senhorinha, mas bem velhinha, estava apoiada na janela com um sorriso enorme.
“Nonna?! Ainda tá viva?!”
Quanta delicadeza… Quem faz uma pergunta dessa pra uma velhinha?!
O quintal da frente logo estava cheio, pelo jeito essa é a família do Mask. E todos queriam o abraçar e beijar, a minha presença e de Helena era praticamente ignorada.
Pera! A família do Mask?
Ah! Meu Deus! Eu tô conhecendo a família dele!
“ARGH!! MASK!!”
Dizer que eu não chamei a atenção de todo mundo seria mentira. Eu travei no lugar, não conseguia ver e nem afastar quem quer que estivesse me assediando. Socorro!
“Quem é essa, maninho?”
“É minha nora? Diz que sim, filho! É tão linda!”
“Por que nunca falou que estava namorando?”
“Olha, eles trouxeram a Helena!”
“Aquele não é o Afrodite Cardinalle Rose?”
“Quem?”
Era muita gente falando e ainda tem alguém me apalpando e fazendo comentários vergonhosos.
E, pela voz, era a “nonna”.
“Hum… Ancas gordas e firmes. Boa pra filhos fortes. Só esses peitos miúdos que talvez dêem problema na hora do leite”.
Ela deu a volta em mim e apertou meu peito, me tirando outro grito. Essa senhora é muito assanhada!
Mask, aparentemente, estava se divertindo, eu conheço aquele sorrisinho sádico na boca dele!
Helena apenas se afastou um pouco e ficou com as mãos cruzadas na frente da barriga. Era algo natural para ela, tanto que ela sorria levemente frente tanta animação.
Eu, por outro lado, estava em pânico!
Quanto tempo mais ele ia ficar enrolando pra me salvar?!
“Nonna! Esse é o Afrodite, não uma esposa!”
A senhorinha se afastou na mesma hora, olhando indignada para Mask.
“Ha! Pelo jeito vou morrer sem bisnetos mesmo!”
A família dele então o largou e foi receber à mim e Helena, todos muito animados e carinhosos.
“Eu não acredito! Meu Deus! Vou morrer! Martinho Amore Mio! Por que nunca disse que o seu Afrodite era O Afrodite?!”
“Você é muito bonito mesmo”.
“Perdoe a Nonna, ela já está meio gaga”.
“Ele sempre fala de você no telefone!”
Eu sorria envergonhado, não sabia onde enfiar a cara por várias razões.
No final, tudo acabou em risoto, bruschetta e vinho. E eu nem vi como!
Somente na mesa de jantar percebi o que estava acontecendo!
Eu conheci a família dele! E tô jantando na mesa da família dele!
Meu Deus! Tô tendo mini trecos de alegria!
“Então, Afrodite. Como é viver com o intragável do Martinho Amore Mio?”
“Mário! Cala a boca!”
“Aí… É só uma pergunta, seu chato!”
Eu já percebi que esse irmão dele joga no meu time. O que me deixa intrigado quanto ao preconceito dele.
“O Mask é legal, ele não é tão intragável depois que a gente conhece”.
“Minha nossa! Alguém que gosta do Martino! Temos que fazer uma missa e glorificar!”
“Não enche a porra do saco, tio!”
A família dele também era grande e animada, bastante brincalhona, mas pareciam tomar alguns cuidados na hora de brincar com Mask.
“Como viraram amigos?”
A irmã dele era um doce, o total oposto dele, carinhosa e voluntária. Ela até ajudou a descarregar o carro e preparou um banho para todos!
“Cláudia! O que falei sobre ser intrometida?”
“Martino! Que educação é essa? Se vamos hospedar esse moço ao menos o mínimo devemos saber!”
A mãe dele era igual a filha, quer dizer, a filha era igual a mãe. Mas aquela forma de dar bronca… Mask puxou a mãe.
“Ele salvou minha vida, senhora. Eu estava num momento ruim da minha vida e seu filho me salvou”.
Ela se emocionou com aquilo e puxou Mask para seu lado, beijando demoradamente seu rosto. Era impossível não sorrir com aquilo.
“Hey, Marte! O que você fez com a Lena?! Ela tá muito quieta!”
“Não, gente…”
“Eu não tenho nada a ver com isso!”
Ele bufou e revirou os olhos, os primos eram adolescentes recém-saídos da infância. Se ele não gosta de crianças, já descobri os possíveis culpados.
“Essa cara envergonhada dela diz o contrário!”
“Gente!...”
“Parem de encher o saco dela, poha!”
Os primos de Mask pareciam ser muito amigos de Helena. E Mask parecia não ter paciência para as brincadeiras.
“Martino, coma tudo antes que esfrie!”
“Vou comer, tia… Relaxa”.
Sua avó e tia realmente o mimavam bastante. A tia sempre apertava suas bochechas e beijava demoradamente. E a avó era uma senhorinha amável e protetora com todos os netos.
Ah… Quem me dera ter uma família assim…
“Afrodite. A comida está boa? Você parou de comer…”
A mãe dele segurou minha mão com preocupação, ela mal me conhecia e já me tratava como se eu fosse filho dela.
“Está ótimo! Eu só… Vocês são uma família muito bonita”.
“Afrodite!”
“Deixe o rapaz falar, Martino!”
Eu me sinto num mundo totalmente novo…
Quer dizer…
Aqui é um lar. Um lar de verdade.
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