Paris is always a good idea
6 Ringarde
Notas iniciais
Capítulo 6: Ringarde
O aroma de café fresco e croissants recém-saídos do forno que pairava no pequeno pátio interno do bistrô Le Jardin de Christine não era suficiente para dissipar o torpor emocional que ainda envolvia Bella Swan. Sentadas ao redor de uma mesa de ferro batido pintada de branco, Alice Brandon e Rosalie Hale debatiam animadamente sobre as tendências da próxima semana de moda de Paris, enquanto Bella apenas girava uma colher de prata dentro de sua xícara de café au lait. A cumplicidade entre as três havia se consolidado em uma velocidade surpreendente; Rosalie trazia a segurança e o conhecimento afiado das elites parisienses, enquanto Alice equilibrava o trio com sua alegria contagiante e energia puramente elétrica.
— Eu continuo dizendo que a alfaiataria oversized vai dominar os desfiles deste outono, Rose — Alice comentou, gesticulando com um pedaço de brioche. — Bella, você precisa me apoiar nisso. Diga a ela que Seattle inteira já usava isso antes de virar tendência na Europa.
— Ahn? Sim, com certeza... — Bella respondeu, forçando um sorriso, mas seus olhos estavam fixos na entrada do pátio.
A atmosfera leve mudou drasticamente de figura quando a silhueta alta e familiar de Edward Mansen cruzou o arco de pedras do bistrô. Ele vestia uma camisa de linho cinza com as mangas dobradas até os antebraços e trazia os cabelos bronze desalinhados pelo vento matinal. Edward havia passado os últimos dias tentando encontrar uma brecha para romper a barreira de gelo que Bella erguera entre eles desde a noite na exposição de Van Gogh. Ao avistar o trio, os olhos cor de topázio dele focaram instantaneamente em Bella, carregados de uma intensidade que fez o estômago dela revirar.
— Bonjour, garotas — Edward cumprimentou, a voz barítona e britânica saindo um pouco mais baixa e contida do que o habitual. Ele aproximou-se da mesa, deixando uma mão pousada casualmente no encosto da cadeira de Rosalie, inclinando-se para dar um beijo terno no topo da cabeça da namorada. — Rose, passei para deixar as chaves do carro que você me pediu.
— — Ah, obrigada, mon chéri — Rosalie sorriu, inteiramente confortável e alheia à corrente elétrica de tensão pura que acabara de se instalar entre o namorado e a nova amiga. — Você quer se sentar conosco? A Alice estava justamente tentando me convencer de que o pragmatismo estético vai vencer a alta costura este ano.
Edward não respondeu imediatamente. Ele manteve o olhar fixo em Bella, observando o modo como ela desviava os olhos e fingia uma súbita e intensa atenção ao seu guardanapo de papel. O ciúme que ele sentira ao vê-la com Lorenzo St. John na manhã anterior ainda ardia em seu peito, misturado com uma necessidade desesperada de esclarecer as coisas.
— Eu adoraria, mas depende se a mesa aceita a presença de um chef inglês intruso — Edward disparou, o tom de voz carregado de uma provocação sutil que apenas Bella soube decifrar.
O clima ficou instantaneamente pesado, espesso o suficiente para fazer Alice pigarrear, alternando olhares curiosos entre os dois. Bella sentiu que o oxigênio do pátio havia simplesmente evaporado. Ela empurrou a cadeira para trás, o som do ferro raspando contra o chão de pedra ecoando de forma abrupta.
— Eu acabei de me lembrar que tenho uma reunião preparatória crucial na agência Platt antes do horário normal — Bella mentiu descaradamente, a voz saindo um pouco mais alta do que o necessário enquanto ela recolhia sua bolsa tiracolo com pressa. — Desculpe quebrar o café da manhã, meninas, mas o dever me chama. Rose, Alice... vejo vocês mais tarde. Edward.
Sem dar tempo para que ninguém contestasse ou para que Edward fizesse qualquer movimento, Bella girou nos calcanhares e praticamente marchou em direção à saída do bistrô, usando o pretexto profissional como um escudo para fugir do olhar magnético e sufocante do vizinho do quarto andar.
A urgência profissional de Bella, contudo, transformou-se em uma realidade assustadora duas horas mais tarde, dentro da sala de reuniões principal da agência Platt. Esme Everson, vestindo um terno de alta costura azul-marinho que acentuava sua postura gélida e aristocrática, jogou uma pasta de couro legítimo sobre a mesa de vidro. Paul e Benjamin mantinham expressões de pânico contido.
— O maior, mais valioso e mais difícil cliente da história da moda francesa está prestes a deixar a nossa cartela de clientes — Esme anunciou, a voz cortante como uma lâmina de vidro. — O estilista Aro Volturi está insatisfeito com a nossa abordagem de posicionamento digital. Ele acha que estamos tornando a grife dele comum. Se perdermos a Maison Volturi, a Platt perde metade de sua relevância no mercado europeu.
Bella sentiu a adrenalina disparar. Aquela era a oportunidade de ouro que ela precisava para consolidar sua carreira e canalizar toda a sua frustração amorosa em trabalho puramente estratégico.
— Deixe-me falar com ele, Esme — Bella pediu, adiantando-se com os olhos brilhando de determinação. — Eu posso apresentar uma proposta que equilibre o mistério da alta costura com o alcance da era digital. Uma estratégia que expanda o império dele sem perder a exclusividade.
Esme olhou para Bella de cima a baixo, um misto de ceticismo e desespero brilhando em seus olhos cinzentos.
— Aro Volturi é um gênio excêntrico, Mademoiselle Swan. Ele não tolera mediocridade. Mas, dado que não temos outra alternativa, você me acompanhará ao atelier dele hoje à tarde. Tente não nos envergonhar com seu excesso de entusiasmo americano.
O atelier de Aro Volturi, localizado na prestigiada Avenue Montaigne, era o próprio santuário do luxo. Paredes de mármore branco, espelhos com molduras douradas rococó e manequins exibindo vestidos que pareciam esculpidos em névoa e pedrarias criavam uma atmosfera quase religiosa. Quando a porta dos fundos se abriu, o próprio Aro Volturi entrou no salão. Ele era um homem esguio, de cabelos longos e negros que contrastavam com uma pele extremamente pálida, vestindo um terno de veludo bordô sob medida. Seus olhos escuros e teatrais pareciam analisar a alma de qualquer um que cruzasse seu caminho.
— Esme, minha querida — Aro começou, a voz teatral e arrastada, ignorando Paul e Benjamin completamente. — Eu estou cansado de algoritmos. A moda é sobre drama, sobre o intangível. Vocês querem transformar minhas criações em meras imagens de rolagem rápida em telas de celulares.
— Monsieur Volturi, se me permite... — Bella deu um passo à frente, com seu melhor sorriso profissional. — Eu criei um plano de marketing que protege a sua mística. Nós podemos usar as redes sociais para criar um sentimento de elitismo cultural, tornando o acesso aos bastidores algo tão exclusivo quanto um convite para a primeira fileira do seu desfile.
Aro Volturi parou. Ele inclinou a cabeça para o lado, observando Bella pela primeira vez. Ele deu dois passos lentos na direção dela, o olhar descendo de suas feições até a bolsa de lona e couro que ela carregava a tiracolo. Seus olhos focaram em um detalhe específico: um chaveiro de pompom felpudo e metálico que estava pendurado na alça da bolsa, balançando de forma descontraída.
As feições de Aro transformaram-se em uma expressão de absoluto e teatral horror plástico. Ele deu um passo para trás, cobrindo a boca com a mão coberta de anéis de rubi.
— O que... o que é essa abominação pendurada nesta bolsa? — Aro sibilou, a voz gotejando um desprezo aristocrático. Ele olhou para Esme como se tivesse sido insultado. — Esme, você traz para o meu santuário uma garota que usa acessórios saídos de uma loja de conveniência de aeroporto? Ela é uma... uma ringarde.
A palavra ecoou pelo salão luxuoso como um tapa. Ringarde. O termo francês para brega, básica, cafona; alguém completamente desprovido de estilo ou relevância cultural.
— Monsieur Volturi, este chaveiro é apenas... — Bella tentou se defender, sentindo o rosto queimar de humilhação.
— Não, não comece! — Aro interrompeu, girando dramaticamente nos calcanhares. — Eu não posso confiar a alma da minha grife a uma ringarde. A Platt está oficialmente dispensada. Nossa parceria termina ao final deste contrato. Tenham uma boa tarde.
Bella voltou para a agência em um estado de absoluto entorpecimento. O silêncio no carro de Esme havia sido pior do que qualquer grito, e as piadas sussurradas de Paul e Benjamin no corredor da Platt haviam destruído o resto de seu orgulho. Sentada em sua mesa, Bella encarou o chaveiro de pompom sobre o teclado. Ela estava arrasada. Paris parecia estar rejeitando cada pedaço de quem ela era, tanto no amor quanto na carreira.
No final da tarde, contudo, enquanto revisava suas anotações, Alice Brandon ligou para ela. Ao ouvir o relato choroso da amiga, Alice adotou sua postura de mentora de estilo de vida.
—Bella, escute: você não vai deixar um homem de veludo bordô ditar o seu valor. Eu sei que o Aro Volturi vai assistir à ópera no Palais Garnier hoje à noite. Ele tem um camarote fixo. Você vai colocar o seu melhor vestido, vai entrar lá e vai fazê-lo te escutar. Audrey Hepburn nunca desistiria diante de um estilista dramático!
Inspirada pelas palavras de Alice e pela eterna determinação de sua musa cinematográfica, Bella tomou uma decisão ousada. Ela usou seus contatos recém-adquiridos no evento de influenciadores para conseguir um ingresso de última hora para a apresentação daquela noite no Palais Garnier.
O Palácio Garnier era uma obra-prima arquitetônica de opulência, com sua lendária escadaria de mármore, afrescos de Chagall no teto e candelabros de cristal gigantescos iluminando a elite de Paris vestida com peles e joias. Bella, usando um vestido longo de seda verde-esmeralda, o mesmo tom do cachecol que Alice lhe dera semanas atrás , manteve os olhos fixos no segundo andar durante todo o primeiro ato da ópera.
Assim que as luzes se acenderam para o intervalo, ela respirou fundo, contornou os corredores acarpetados de vermelho e subiu os degraus em direção aos camarotes privados. Seu coração martelava contra as costelas de forma ensurdecedora. Ela localizou a porta de jacarandá com a placa de latão gravada com o nome d e Aro Volturi. Sem dar tempo para o medo assumir o controle, Bella empurrou a porta e entrou no espaço reservado.
Aro Volturi estava sentado em uma cadeira de veludo vermelho, segurando uma taça de champanhe, conversando com um jovem que estava de costas. Ao ouvir o barulho, o estilista virou-se e suas sobrancelhas ergueram-se em puro choque ao reconhecer a americana.
— Mas o que significa isso? Segurança! — Aro começou a clamar, a voz dramática ecoando no camarote.
— Monsieur Volturi, por favor, me escute por apenas um minuto! — Bella interveio, dando um passo à frente, a voz firme e carregada de uma sinceridade cortante que preencheu o espaço. — O senhor me chamou de ringarde. Me chamou de brega, de básica. E quer saber? O senhor está absolutamente certo. Eu sou uma ringarde. Eu sou exatamente o tipo de garota que compra o chaveiro de pompom, que usa roupas confortáveis e que sonha com Paris assistindo a filmes antigos no sofá.
Aro piscou, desarmado pela audácia e pela honestidade brutal das palavras dela. O jovem sentado ao lado dele virou-se lentamente, revelando feições extraordinariamente atraentes, olhos expressivos e um sorriso de canto repleto de curiosidade.
— Mas o que o senhor não entende — Bella continuou, dando mais um passo, os olhos castanhos brilhando sob a luz do teatro, é que são as garotas básicas como eu que movimentam o seu império. Nós somos as garotas que entram nas suas lojas de departamento apenas para comprar o batom mais barato da sua marca, só para ter uma sacola com o logotipo da Volturi nas mãos. Nós somos as garotas que assistem aos seus desfiles pela tela do celular e compramos as réplicas e os perfumes que financiam a sua alta costura multimilionária. Nós amamos a sua moda porque ela nos faz sonhar. Se o senhor desprezar as ringardes, o senhor estará desprezando a própria base que sustenta o luxo do seu nome.
O silêncio que se seguiu no camarote foi absoluto, quebrado apenas pelos sons distantes da orquestra afinando os instrumentos no fosso abaixo. Aro Volturi permaneceu estático, os olhos fixos em Bella. Lentamente, um sorriso teatral e genuinamente impressionado começou a se desenhar em seus lábios finos. Ele soltou uma risada baixa, batendo palmas de forma lenta e aristocrática.
— Magnifique... — Aro murmurou, os olhos brilhando com o drama que ele tanto idolatrava. — Que discurso deliciosamente audacioso, Mademoiselle Swan. Você tem fogo. Você tem o tipo de paixão que a maioria dos meus diretores de marketing engravatados perdeu há anos. Eu respeito a audácia. Está bem... a Platt continua com a minha conta. Mas com uma condição: você será a mente responsável por cada postagem sobre a minha grife.
Bella sentiu um alívio tão imenso que suas pernas quase fraquejaram. Ela sorriu, os olhos marejados de gratidão.
— Muito obrigada, Monsieur Volturi. O senhor não vai se arrepender.
— Sabe, meu tio tem uma queda incurável por discursos teatrais, mas eu devo admitir que você foi absolutamente brilhante, Bella — uma voz jovem, aveludada e extremamente charmosa soou ao lado dela.
Bella virou-se e focou no jovem que acompanhava Aro. Ele levantou-se da cadeira, revelando um porte atlético sob um terno de corte moderno cinza-chumbo. Seus traços eram finos e marcantes, e ele trazia um brilho de admiração e puro flerte em seus olhos escuros.
— Sou Alec Volturi — ele se apresentou, dando um passo em direção a ela e pegando a mão de Bella, depositando um beijo demorado e suave sobre a pele dela, mantendo o contato visual de uma forma que fez o pulso de Bella acelerar instantaneamente. — Sou o sobrinho do Aro e o responsável pelas relações públicas da grife internacional.
Um clima inegável de atração e magnetismo surgiu entre os dois ali mesmo, sob a penumbra dourada do camarote da ópera. Alec mantinha um sorriso aberto, de canto, que exalava o charme clássico da juventude dourada parisiense, mas com uma atenção inteiramente focada em Bella. Depois do caos emocional com Edward e da noite passageira com Enzo, Bella sentiu uma nova e excitante faísca acender em seu peito diante daquele homem que parecia fascinado por sua audácia americana.
— É um prazer conhecer você, Alec — Bella respondeu, a voz caindo para um tom sutilmente suave, sustentando o olhar dele enquanto Aro observava a interação com um sorriso divertido por trás de sua taça de champanhe. Em meio aos perrengues e às rasteiras de Paris, Bella Swan estava aprendendo que o seu toque "básico" tinha o poder de conquistar até mesmo os corações mais implacáveis da Cidade Luz.
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