—Então? -Lucrécia permanecia parada na porta, esperando. -Posso entrar?

—Claro! Entre! -Shura lhe deu passagem e a senhora caminhou até o centro da sala. -Quer beber algo? Um suco ou...

—Vamos direto ao ponto. -ela o cortou imediatamente. -Você me parece ser um bom rapaz, mas serei sincera ao lhe dizer isso. Não o considero adequado a minha caçulinha.

—Adequado? -Shura ficou digerindo aquele comentário antes de prosseguir. -O que a senhora consideraria adequado a Maíse?

—Um homem que possa dar estabilidade a ela. -falou sentando-se numa cadeira. -A auto independência de Maíse sempre me preocupou. Não vou negar isso. Quero o melhor para ela e seu futuro.

—Senhora Lucrécia, eu amo sua filha e...

—Eu não disse que não a amava, meu jovem. Mas não estou falando de amor. O amor é um sentimento lindo, que sabemos que em determinados casos acaba nos primeiros momentos de penúria de um casal. Eu me refiro ao que você pode dar a minha filha. Que futuro você poderá dar a ela?

—Futuro?

—Maíse disse que é segurança, correto? Daquela milionária japonesa que está morando aqui na Grécia. Mas não é uma profissão incerta e perigosa? E se algo acontecer com você durante seu trabalho? Como ela ficaria? E se estiverem casados e com filhos, o que seriam de meus netos? -ela para de falar e o encara, percebendo que Shura ficou pensativo demais com estas palavras. –Pode ter certeza de que com a sua escolha de vida, poderá um dia sair de manhã para proteger essa milionária e voltar vivo para sua esposa ao final do dia? Tem tantos malucos nesse mundo! É essa vida que você quer para a minha Maíse?

Shura ponderou sobre o que ela dizia, não havia mentiras em suas indagações. Ficou imaginando como seria a vida deles se ela aceitasse se casar com ele. Ela jamais deixaria sua vida para viver no santuário, e se o fizer seria feliz? O estilo de vida que ela tinha era diferente daqueles que moravam no Santuário.

E ela aguentaria ser a esposa de um cavaleiro? A incerteza de seu retorno quando partisse em missão? Estaria segura lá se algum inimigo declarado de Atena resolvesse aparecer? E se morresse, como ela ficaria? Não era uma vida para uma pessoa normal como Maíse, admitiu isso com uma pontada em seu coração.

—Shura? -a voz de dona Lucrécia o despertou. -Eu acabei enchendo sua cabeça de dúvidas. Me desculpe, mas...é o que eu penso como mãe. Tenho medo do que o futuro reserva a minha filha!

—Se já disse o que queria. -falou abrindo a porta para que ela saísse.

—Entendo. -caminhando para fora, parou na porta um instante antes de dizer mais uma coisa. -Ambos queremos o melhor para ela, não é verdade? Afinal, a amamos.

—Sim.

—Boa noite. -ela saiu.

Shura fechou a porta e sentou-se no sofá, ainda pensando no que Lucrécia havia dito. Ficou pensando naquelas palavras, na verdade cruel que elas tinham. Era justo isso? Mas o sentimento que compartilhavam era mais forte que isso!

A campainha tocou e Shura abriu a porta desanimado, Kamus e Milo entravam com alguns pacotes de um mercadinho.

—Está vendo, Kamus? Chegamos cedo! -avisou Milo.

—Você reclama demais. -respondeu Kamus, notando a inquietude de Shura. -Algo errado?

—Cuidem de tudo. Preciso sair. -respondeu o espanhol ganhando a rua.

—EI! Mas os cunhados são seus! -protestou Milo. -O que houve com ele?

—Não sei. Mas não me parece bom.

Shura ficou caminhando a esmo pelas ruas da cidade, pensando no que devia fazer. Observou os casais nas ruas, alguns passeando com seus filhos e deu um sorriso triste se imaginando assim com Maíse.

“—Eu não estava preparada para casar, ainda não estou.

Lembrou-se do que ela havia lhe dito.

Uma vida ao lado de um cavaleiro não era o melhor para uma pessoa normal. Quem impedirá um maluco de querer usar as pessoas que são próximas a eles para atingi-los? Dione, namorada de Milo, é a filha e irmã de Cavaleiros e está habituada a esta vida, sua família servia ao Santuário há gerações. Marin era uma amazona, ela completava Aiolia.

Será que Kamus tinha o mesmo dilema com Desirée? Eles já tinham um filho juntos, mas nunca parou para reparar se ela havia se habituado a uma vida de privações no Santuário, a ter que abandonar sua antiga vida para ficar com o cavaleiro de Aquário. Estaria arrependida?

E Maíse? Ela amava a vida que mantinha. Será que abandonaria tudo também?

Shura não sabe por quanto tempo caminhou, mas já estava dentro do Santuário quando percebeu. Estancou ao ver quem o esperava sentada nos primeiros degraus das doze casas. Maíse que tinha por companhia Mu de Áries.

—Eu os deixarei a sós. -falou o ariano, subindo para a sua casa.

Like a ghost don't need a key

Your best friend I've come to be.

And please don't think of getting up for me

You don't even need to speak.

Ficaram em silêncio algum tempo antes que Maíse começasse a falar:

—Quando os meus cunhados falaram que você não apareceu para jogar fiquei preocupada. Então voltei para casa e os rapazes estavam lá. -começou. -Obriguei o Kamus e o Milo a me acompanharem até aqui. Como não estava, resolvi esperar.

—Eu precisava...

—O que houve? Algo errado? -ela perguntou quase chorando e se levantando. -Eu fiquei preocupada e...

—Eu apenas sai para caminhar e já ficou aflita? -Shura evitou que ela o tocasse. –Só queria espairecer e pensar...pensar sobre nós.

—E o que pensou?

—Acho que...não vai dar certo.

When I've been here for just one day

you'll already miss me if I go away

So close the blinds and shut the door

You won't need other friends anymore

—Do que está falando?

—Maíse...eu vou ser sincero com você. Não dará certo! Este nosso relacionamento não dará certo! -como odiava dizer aquilo.

—Shura...

—Eu sou um cavaleiro, Maíse. -parou de falar para não fitar o rosto de Maíse. -Sinceramente, não pertenço a seu mundo e nem você ao meu.

—O que quer dizer? Foi por causa da minha família? O que... foi minha mãe que lhe disse algo?

—Não é a sua família! Não é a sua mãe. –mentiu. -Olha como vivo! Esse lugar parou no tempo! –ia falando. –Não é uma vida com a qual estaria acostumada!

—Shura... não estou entendendo...

—Não daria certo.

Oh, don't leave home

Oh, don't leave home

—Mas eu pensei que tudo estava bem entre nós. Até outro dia estávamos comemorando seu aniversário, parecia estar tudo bem...

—O fato do sexo entre nós ser bom não quer dizer nada! -sufocou a vontade de se matar ao ver o olhar perplexo dela. -Olha, Maíse...

—É melhor você se calar. -ela ordenou nervosa.- Se quer terminar comigo, diga de uma vez. É mais decente que tentar me humilhar com essas palavras.

—Eu realmente quero uma companheira, uma mulher Maíse. E você não se enquadra no que eu procuro.

—E quem se enquadra? Shina?

And if you're cold, I'll keep you warm

And if you're alone just hold on

cause I will be your safety

Oh, don't leave home

—Sim. Shina talvez.

Maíse parecia confusa. Naquela tarde parecia que estava tudo bem, apesar do incidente do jogo de tênis. E agora, ele lhe dirigia palavras duras, querendo terminar tudo. Não parecia o mesmo homem pelo qual se apaixonara.

—Acho que eu realmente me enganei a seu respeito, Shura. Não era o homem que eu pensei estar amando.

—Sinto muito decepcioná-la. -falou com frieza, querendo na realidade gritar que era tudo mentira.

Ela não disse mais nada. Apenas deu-lhe as costas e saiu. Shura viu suas lágrimas e lutou com a tentação de abraçá-la.

—Vai ser melhor para você. Ficar longe do Santuário, de mim...ter uma vida normal. -murmurou vendo-a se afastar.

I arrived when you were weak

I'll make you weaker, like a child

Now all your love you give to me

when your heart is all I'll need

Oh, don't leave home

Oh, don't leave home

—Não entendo sua atitude, Shura. -falou Mu aparecendo. -Não parecia você com aquelas palavras.

—Não se intrometa, Mu. -avisou Shura subindo as escadas. -Se está tão preocupado assim com a Maíse, acompanhe ela até em casa...

Mu percebeu que não conseguiria tirar nada de Shura naquele momento, e percebeu que seus modos grossos era um pedido velado para que não deixasse a jovem ir para casa sozinha àquela hora.

Balançou a cabeça numa negativa, antes de se apressar em alcançar Maíse.

And if you're cold, I'll keep you warm

And if you're alone just hold on

cause I will be your safety

Oh, don't leave home

Subir aquelas escadas nunca lhe pareceu tão penoso quanto agora. Por que era tão difícil? Já namorou outras mulheres antes, mas nunca sentiu tanta dor quanto agora. Seria normal isso?

“—Claro que é, seu idiota. -reprimia-se em pensamento. -Você a ama. Até ia pedi-la em casamento.

Com uma praga entrou na Casa de Capricórnio, diretamente para seus aposentos. Sentou-se em sua cama, sem motivação alguma e olhou para a caixa de presente pequena em sua cômoda. O anel de noivado que havia comprado.

Pegou a caixa e a jogou em um canto qualquer do quarto, não queria olhar para aquilo sem se lembrar dela.

Oh how quiet, quiet the world can be

when it's just you and little me

Everything is clear; everything is new

So you won't be leaving, will you?

And if you're cold, I'll keep you warm

And if you're alone just hold on

cause I will be your safety

Oh, don't leave home

cause I will be your safety

I will be your safety

I will be your safety

Oh, don't leave home

x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x

Maíse não foi para casa como havia dito a Mu. Estava no hotel onde a família se hospedara e foi diretamente ao quarto de sua mãe. Bateu insistentemente na porta até que a senhora atendeu.

—Maíse, o que faz aqui? -perguntou espantada.

—O que disse a ele? -perguntou friamente.

—Não sei do que... -Maíse entrou no quarto e encarou a mãe.

—Não me enrole, mãe. O que disse a ele?

Lucrécia suspirou e respondeu.

—Eu perguntei que tipo de vida ele lhe daria. Se era adequada. Pedi que avaliasse a vida dele, o que poderia lhe oferecer tendo um trabalho tão perigoso. E se alguma coisa acontecesse com ele, o que seria de você?

—Isso explica muita coisa. -Maíse deu uma risada nervosa. -Por que faz isso, mamãe? Por que não me deixa fazer as minhas escolhas?

—Eu quero apenas te proteger! Garantir que tenha uma vida estável quando eu partir deste mundo! Não sou tão jovem assim! -exasperou.

—Não pode me proteger sempre. Eu preciso enfrentar as consequências de minhas escolhas, sejam quais forem elas. -suspirou. -Escolhi amar aquele homem, e o afastou de mim.

—Eu faço isso porque te amo!

—Eu te amo, mamãe. Mas desta vez foi longe demais!

Saiu do quarto o mais rápido que pode.

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Não havia amanhecido ainda, e Shura estava acordado. Na verdade não havia dormido. Sentado em um canto no quarto, observava o sol nascer, segurando a aliança em sua mão.

Ouviu um som na casa e percebeu que não estava sozinho. Levantou-se para ver quem estava ali, e percebeu que conhecia bem aquele cosmo. Ao chegar na sala principal ele a viu.

—Maíse?

Continua...

Notas finais
Nota: A música é Don't Leave Home, da Dido.