Paredes de ar
3 Porque a morte é vermelha, e o vermelho...
Estava escuro.
E no escuro... não era, acaso, no escuro que se tornavam cegos os videntes e que aos ouvintes tudo era medo? Correntes rangendo, respiração descompassada, passos sumindo ao longe... ou seria o entorpecer que fazia deles mais distantes do que de fato eram? Talvez, pois tudo era preto. Mesmo o sangue que lhe banhava as mãos, sem a luz para revelar seu brilho vermelho, era preto.
No escuro, os movimentos eram sem sentido, por isso, parou de se mover. Assim imóvel as correntes não raspavam nas feridas dos pulsos, e o que era ardência aos poucos se tornava entorpecer. E o entorpecer se tornava silêncio. Silêncio que era nada senão mudez.
A mudez enlaçava os braços nos ombros do tempo (que não parava), e na noite sem fim, onde tudo era preto e do preto surgia o entorpecer, de que nascia o silêncio e o silêncio que era nada senão mudez, surgiam os olhos da morte: vermelhos, vivos como o sangue de um guerreiro caído, quentes qual calor que impera nas chamas, abismo que de tão fundo se perde em si mesmo.
Pois eis que a morte era vermelha, e ela era tão bela que no preto reluzia mais intensa do que o entorpecer, o silêncio e a mudez. A morte era a luz da esperança, uma esperança vermelha que guarda em si o desespero. Desespero que termina em entorpecer. E em silêncio. E em escuridão. Mas ali no escuro o vermelho era belo e esse ser belo era a esperança última. Um momento de mais alto deleite, de emoções escaldantes e dor, muita dor, a dor mais vívida que se sente antes da morte.
Só que a morte era entorpecer. Desse modo, o calor esfriou, as emoções ruíram e a dor esvaneceu. Tornou-se preto. Tudo preto.
Estava escuro. E no escuro...
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