Paredes de ar
30 Memória (ou ausência dela)
Se em algum momento Angélica tivesse se dado conta de que os momentos eram tão eternos quanto imutáveis, enquanto a memória era vaga e fragmentada, ela teria capturado os instantes em palavras e escrito em todos os lugares possíveis. Ao menos assim, ainda que as palavras fossem influenciadas por emoções, e as emoções borrassem a imagem final, não mudariam a imutabilidade das palavras e ao final saberia quem tinha sido. E ao saber quem tinha sido imaginaria, mesmo que por meio de fragmentos, o que acontecera de fato e seria melhor que olhar para um completo limbo.
Porque agora, só com a xícara de café trincada diante dela, já duvidava até mesmo que a xícara tinha mesmo sido um presente ou se era tudo invenção, como das tantas vezes que comprara os próprios presentes e atribuía o feito a pessoas das quais desejava ganhar — mas de quem não recebia nada.
E de repente a memória de alguém que lhe dava presentes mesmo quando não os merecia se tornou tão fantasiosa que num momento de loucura Angélica queria irromper porta a fora e procurá-lo em cada esquina, em cada loja, em cada casa que ele pudesse estar apenas para comprovar que ele existira, que não era uma fantasia agridoce e que tudo tinha acontecido.
E seu corpo respondeu a isso, seus dedos apertados e uma decisão: ela o procuraria em todos os lugares que poderia estar, usaria da memória, tão débil, para firmar uma certeza, construir bases sólidas, buscar o incerto e quebrar a certeza dos dias.
Usar a certeza para buscar o incerto, algo novo que ela nunca pensou fazer, mas que estava disposta. Porque dessa vez ela levaria a sério, ela tentaria o que não tinha tentado e faria tudo funcionar. E a força que corria em seus nervos serviria a um fim novo e renovador que poderia trazer tudo de volta.
Mas antes de alcançar a porta, a percepção da dificuldade, do quanto de esforço seria necessário para a conclusão do ato a acometeu, como um choque que se sente ao tocar em uma maçaneta de metal. Angélica então esmaeceu, o sangue esfriou, tão morno quanto o café da xícara trincada, e tal qual uma chama que incendeia a palha apenas para se apagar no instante seguinte, a loucura se dissipou, deixando-a imóvel, com os braços frouxos caídos aos lados de seu corpo, os punhos cerrados se soltando e os dedos gotejando um a um, até que se findasse num suspiro enfastiado.
Porque a loucura era temporária como sua memória e por fim ela se pôs outra vez sentada diante da xícara, abraçando a incerteza de uma memória com tanta paz quanto aceitara a certeza dos dias e a monotonia do certo, sem esforço, na inércia.
Fale com o autor