Ouço-os, mas não os vejo. Os sons dos braços quase soltos se debatendo contra a porta de madeira ecoam pela casa. Não me preocupo, somente carne podre e ossos não rasgariam nem um pano.
Os grunhidos ficaram mais altos, talvez tenham chegado à janela. Como dormirei? Em paz, nunca. E com o cheiro exagerado de ferro, sangue, rondando a casa, não me tranquilizo, nem um pouco. Não durmo há três dias. Não saio há três dias. Somente armado com uma faca, nunca sairei desse lugar que chamo de fortaleza.
Computador. Nem a energia nem a internet caiu. Talvez haja uma notícia que me acalme. Minto. Nada me acalma. O som de minha respiração me confunde e para qualquer lugar para onde eu olhe me estressa. Sangue. Realmente é sangue para todo lado. Todos os mortos-vivos lá fora seguem o cheiro. Sedentos por carne humana. Sedentos pela vida que perderam.
Minha visão está ficando embaçada. Nada de notícias, preciso comer. Para sobreviver. Mas de que adianta? Logo a comida vai acabar. E não haverá mais lugar para onde caçar. Só sobraram os supermercados. Lá fora. Fora de questão.
Eu vou morrer. Eu sei que morrerei. Viver nesse mundo não faz diferença. Quem mais está comigo? Ninguém. Ninguém para me acompanhar. Ninguém para se desesperar. Ninguém para ouvir meus gritos. Eles estão todos mortos. Eu os matei. Eu não preciso deles. Eles queriam sair. Sair para morrer, então dá no mesmo. Morrer aqui ou morrer lá. Corpos aqui. Corpos lá. E eu? Eu mereço viver? Já não há esperança? Não, não há esperança. Mas esta faca sangrenta não chega ao meu pescoço. Essa faca com a vida dos meus parentes não me aceita. Quanto mais perto chega, mais medo tenho.
Medo. Essa palavra. Medo. Eles estão chegando. Eles sempre estão chegando. Eles estão perto. Eles estão muito perto. Por trás dessa tábua de madeira aparece meu destino. A morte. A morte sempre chega.
Ela sempre chega.
Ela chega, sempre.
Ela chegou.
E agora posso finalmente dormir
Em paz.
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