Paredes Finas

14 De Schumann a Beethoven [Roderich]


Notas iniciais
:)

— De jeito nenhum, Gilbert! O sofá não vem!

— Mas jovem mestre!

— Dê um jeito nisso aí. – eu fiz um sinal com as mãos para espantá-lo – Pode conseguir um bom dinheiro vendendo-o, mas no meu apartamento essa coisa vermelha não entra.

— No nosso apartamento.

— Sim. – uma veia saltou em minha testa em sinal de irritação – Mas ele não vem.

Gilbert bufou em insatisfação, fazia dias que ele estava tentando me convencer a trocar a minha mobília por aquela coisa horrorosa que não combinaria em nada com o meu – nosso­— apartamento.

Pois é, pode parecer uma decisão idiota e precipitada, mas eu acabei concordando com aquela ideia esdruxula.

Por um lado até que fazia bastante sentido ter um companheiro de quarto para dividir as compras, contas e afazeres, até porque essas coisas eu já dividia com Gilbert. Ele era meu vizinho, mas muitas vezes parecia que era o meu próprio colega de quarto. Apesar de eu gostar do meu espaço, cada vez que eu pensava mais sobre o assunto, mais coerente se tornava a ideia de passar a morar com ele. E sim, eu sei o quanto eu sou mão de vaca e não conseguia deixar de me sentir aliviado com o dinheiro que eu iria economizar com as contas da casa: aluguel, gás, luz, internet etc.

Mas por outro lado... se pensarmos no tipo de relação que nós tínhamos, era realmente muito precipitado. Eu e Gilbert começamos aquele relacionamento muito recentemente, e eu ainda não tinha coragem de nomeá-lo verbalmente. Ainda éramos amigos? Namorados? Ou outra coisa menos do que isso? Afinal, o nosso relacionamento ainda não havia atingido a última base. Não por falta de interesse de Gilbert, aliás, nem por falta de interesse meu... Era só que... eu ainda estava um pouco nervoso com relação a isso, e inseguro. Gilbert era tão experiente, e quanto à mim não podia dizer o mesmo. A verdade que eu estava guardando no fundo da minha alma era que eu tinha medo de decepcioná-lo, o que podia leva-lo a decisão de voltar para trás com o nosso relacionamento e isso era algo que eu já não podia suportar.

O meu corpo e mente já sabia que eu estava gostando dele, muito mais do que eu pensei que fosse possível sentir por alguém. Por mais que eu soubesse que sempre fui um romântico, apaixonado pelos romances mais melosos em filmes, peças, livros e músicas, eu não pensei que eu pudesse um dia sentir algo tão forte, porém tão confortável e genuíno. Eu me sentia simplesmente bem em ouvir a sua risada escandalosa, os seu sorriso branco, as piadas sem graças e o toque quente contra a minha pele. Era como se eu finalmente conseguisse entender a música dos compositores que eu tanto amava, como se agora tudo tivesse forma e fizesse sentido.

Por isso, sim eu reconhecia que aquele passo era arriscado, mas era um risco que eu estava disposto a correr. E ao mesmo tempo o meu coração palpitava e minhas mãos suavam em ansiedade em pensar na nova vida que dividíramos juntos.

— Jovem mestre, você realmente não vai me ajudar a carregar as coisas? – o albino gritou do corredor, o que me despertou dos meus pensamentos. Nem percebia que eu sorria como um tolo.

— É claro que não, Gilbert! Estou ocupadíssimo fazendo o almoço, mova as suas coisas sozinho! – respondi com tom de rispidez, mesmo que eu estivesse sorrindo com bom humor.

— Você é muito cruel comigo, jovem mestre! – ouvi a sua voz choramingar novamente do corredor.

— Pare de reclamar que logo Antonio estará aí!

— Arg!

Fechamos um acordo com a locadora do apartamento, Gilbert poderia sair antes do fim do contrato pois eles já tinham alguém para ficar com o lugar. No caso este era o melhor amigo de Gilbert, Antonio, que queria se mudar com o seu namorado que estava entrando agora na universidade. Era um pouco perturbador, na minha cabeça, precisar agora conviver como vizinhos com um ex e seu atual namorado, mas com Gilbert do meu lado eu poderia facilmente deixar este desconforto de lado. Eles estavam para chegar com a mudança hoje de tarde, e não fosse Gilbert enrolando o dia inteiro na sexta ele já teria terminado de mudar as coisas, mas não! Ele me distraiu com um pouco de vinho branco e carteado, logo estava tarde demais para mover as coisas pelo corredor, então ele acabou adormecendo no meu apartamento e agora estava se apressando para terminar tudo antes de Antonio e seu namorado chegarem, enquanto eu preparava um almoço para nós e nossos novos vizinhos.

Uma hora depois Antonio chegou, Gilbert mal havia acabado de mover as suas coisas. Eu ainda estava na cozinha preparando uma sobremesa quando eles adentraram no apartamento para me cumprimentar. Eu dei um sorriso simpático para o espanhol, cumprimentando-o educadamente, mas tive uma surpresa ao me deparar com o companheiro dele. Era um rapazinho de cabelos castanhos avermelhados, olhos do mesmo tom castanho esverdeado e pele de oliva, além de uma conhecida expressão emburrada.

Cugino!

Romano!

Gilbert, que havia acabado de passar pela porta, nos olhava com curiosidade, sem entender absolutamente o que se passava.

— Ah não! – ele disse em tom surpreso – De novo isso, jovem mestre?

— Faz anos que nós não nos vemos e quando eu o vejo você está namorando este cazzo, cugino? Hahahah, e eu pensei que não tinha como ficar pior que eu! – o menor alfinetou com uma risada maldosa mas eu não me importei. Romano sempre tivera esse jeito mais bruto, mas de alguma forma parecia adorável nele. O italiano me puxou para um abraço e eu correspondi timidamente. Mesmo que ele não fosse tão amoroso quanto o seu irmão, Romano ainda era um italiano expansivo.

— Faz mesmo anos, não é mesmo, Lovino? Como está o seu nonno?

Va bene. Mais insuportável que nunca, eu tenho que te falar! – ele resmungou, foi a forma de eu entender que ele estava bem. – Espero que esteja fazendo pasta, não suporto mais empanadas!

— Ei!

Nós nos viramos para Antonio e Gilbert que nos olhavam com o total ar de incompreensão. Não pude deixar de rir, sentindo um deja vu com a cena que havia se acontecido na semana passada quando Feliciano chegara no apartamento de Gilbert. Segurei uma gargalhada querendo crescer em mim e revirei os olhos, me preparando para apresentar de novo.

— Se você ainda não percebeu, Gilbert, Lovino é irmão de Feliciano.

A sensação de confusão pareceu diminuir no rosto do alemão mas Antonio ainda parecia tão confuso quanto antes. Romano revirou os olhos, a sua paciência era bem limitada.

— Roderich é meu primo, seu imbecil. Ele costumava a passar as férias conosco na Itália quando era mais novo e cuidava de mim e do Feliciano.

— Ah. – Antonio respondeu, ainda com o ar meio bobo. Ele me encarou por algum tempo, que ainda sorria com a coincidência, e por um breve segundo a sua pele bronzeada tomou um rubor atípico. – Ah, desculpe por isso. Eu não sabia.

Eu não sabia se ainda entendido do que ele de fato estava falando, mas mesmo assim assenti, deixando por terminar o assunto ali de uma vez.

— Vamos ajudar a mover as suas coisas e depois almoçar, sim?

Concordamos – mas não sem um resmungar de Gilbert que já estava esgotado de carregar as coisas de ultima hora mas mesmo assim ajudou os novos vizinhos com as coisas. Acabou por ser resolvido que o sofá vermelho de Gilbert ficaria com os novos vizinhos, que ainda não tinham a mobília completa, e por coincidência do destino aconteceu que Romano e Antonio também adoravam vermelho. Eu nunca ia entender isso.

Tivemos um almoço barulhento porém agradável, considerando que o outro casal não era dos mais discretos e calmos, mas de alguma forma a energia de Romano e Antonio me confortavam. O italiano vivia reclamando alto e gritando com o namorado, mas era impossível não ver a afeição entre eles. Acabei ficando ainda mais relaxado quanto aos fatos que aconteceram no passado, sabendo que agora estávamos todos bem.

— Você conseguiu ingressar no Conservatório, Lovino? – perguntei enquanto servia a sobremesa, que hoje era o meu favorito e o de Gilbert, a torta de floresta negra.

— Sim, decidi seguir com o Celo.

— Podemos ensaiar um dueto outra hora, eu com o piano e você com o celo. – eu sugeri.

— Seria ótimo! – o italiano respondeu animado.

— Eu acho que nunca vou ter paz nessa vida... – Gilbert resmungou com a boca cheia de torta.

— Não fale de boca cheia. – eu o repreendi, o que resultou num outro resmungo e uma risada de Antonio.

.x.

No fim do dia eu estava tranquilamente praticando Schumann no piano para a próxima lição. O meu orientador estava bastante satisfeito com os meus avanços e havia me informado que estava pensando em me inscrever num concurso desta temporada. Se eu não me engano, o concurso seria as composições de Rachmanioff e eu não podia deixar de estar mais ansioso, era um compositor que eu gostava muito e eu ainda não havia participado de um concurso desde que começara a estudar no Conservatório. Eu não podia deixar de estar mais orgulhoso com o meu trabalho.

Mas é claro que o meu belo Schumann tinha que ser interrompido por braços fortes em volta do meu ombro, impedindo que meus braços se movimentassem livremente sob o piano. Bufei, bastante impaciente com a interrupção. Mas Gilbert não parecia se importar por eu ter me irritado.

— Gilbert, eu estou praticando, me dê licença, sim? – eu pedi educadamente.

— Nãoooo, jovem mestre! Já está muito tarde! – ele resmungou, afundando o nariz em meu pescoço. Eu revirei os olhos.

— Não seja ridículo, Gilbert, nem é... – eu dirigi os meus olhos para o relógio de parede que Vash me presenteou, sinalizando que já havia passado das onze da noite. Fiquei surpreso, com aquele dia eu não percebi a hora passar. – Presumo que sim, já está tarde.

— Eu estou tãaaaao cansado! – disse novamente contra a pele do meu pescoço, o que dessa vez me despertou um arrepio. – Vamos logo para a cama...

— Gilbert. – de repente o meu coração se acelerou, e eu pude sentir a temperatura do meu rosto e orelhas aumentarem com os pensamentos que começaram a invadir a minha mente com a sua sugestão – Você tem uma cama para você.

Não era um assunto que havíamos discutido ainda, se a nossa vivência naquela casa seria como de colegas de quarto ou como um casal. A cama era um assunto que eu tentei evitar até o último segundo. Eu ainda não sabia como dar esse passo, eu ainda estava em pânico demais tentando pensar no tipo de relacionamento que tínhamos e como faríamos isso funcionar – porque afinal eu queria isso com ele, queria viver como casal, dividir a cama e trocar beijos de manhã, mas eu ainda estava tão inseguro que só conseguia me defender e adiar as coisas.

— A minha intenção era fazer isso desde o começo e você não vai me impedir. – ele sussurrou, e logo em seguida eu podia sentir os braços fortes de Gilbert passar por debaixo das minhas pernas e me levantar do banco do piano. Eu engasguei de susto com o movimento repentino, não entendendo qual era sua intenção.

— O que você está fazendo?! – perguntei, agitando as minhas pernas, mas não fazendo muito esforço de sair dali realmente, os braços de Gilbert eram fortes e muito confortável.

— Te levando para a cama no estilo princesa, como o aristocrata que você é! Kesesese! – ele riu e eu corei. – Então fique quietinho aí, se não você vai cair!

— Mas... – eu sussurrei – eu não sou uma noiva...

Mesmo dizendo isso, eu passei o meu braço envolta do seu pescoço para tornar o aperto mais firme e não cair. Ele soltou uma pequena risada e me ajeitou em seus braços, me apertando com mais segurança. Meu rosto estava inteiramente vermelho, mas lá dentro eu sentia uma sensação de euforia e plena satisfação, e eu não conseguia me enganar que eu não estava adorando ser carregado daquela forma, mesmo surpreso que Gilbert fosse forte o suficiente para conseguir me aguentar em seus braços daquela forma. Talvez eu fosse mesmo um aristocrata mimado, mas eu não me importava, desde que fosse Gilbert a me mimar daquela forma.

Eu o ajudei a abrir a porta do quarto, visto que as suas mãos estavam ocupadas me segurando. Ele entrou, e parecia não estar fazendo muito esforço para me carregar, já que ele parou no meio do caminho para a cama ao invés de me jogar lá o mais depressa possível.

— Eis o seu quarto, princesa! – ele brincou – Peço a sua permissão para adentrá-lo!

Eu corei ainda mais com o seu role play de príncipe encantado que ele certamente não era. E talvez eu nem queria que ele fosse...

Mas talvez um role play de bad boy eu fosse gostar.

— Você é bem-vindo, Gilbert. – eu disse timidamente sem olhar para o seu rosto. Ele não respondeu, ao invés disso ele seguiu para a minha cama.

Não foi com tanta delicadeza que ele me deixou sobre o colchão, mas eu não me incomodei com este fato pois logo ele estava em cima de mim, os seus lábios logo procurando os meus com voracidade. Eu não me importei com mais nada então, agarrei os fios platinados da sua nuca e deixei que a minha língua tocasse na dele, numa dança incessante de quem conseguia tocar mais o outro.

As mãos de Gilbert começaram a explorar o meu corpo e as minhas não demoraram para começar a fazer o mesmo. Mesmo com a insegurança eu não conseguia deixar de querer senti-lo com as minhas digitais, de apalpar os seus músculos bem desenvolvidos e ouvi-lo gemer baixo quando eu alcançava alguma parte da pele mais sensível. Eu me atrevi a mergulhar as minhas mãos por debaixo de sua camisa, assim como as deles, que acariciavam a minha cintura ternamente. O beijo foi ficando mais lento, menos necessitado e mais confortável, eu não reclamei e segui o seu ritmo.

Eu estava ficando excitado, mas não pude deixar de perceber o ritmo cada vez mais preguiçoso, menos urgente, talvez até um pouco mais romântico. Gilbert parou de beijar a minha boca e se desviou para o meu pescoço, onde ele começou a deixar um trilha de beijos lentos. Senti um arrepio por ter aquela área sensível estimulada. Enquanto isso as suas mãos encostavam na pele do meu abdômen e ora ousavam subir para o meu peito, e ora descer para a parte do meu corpo que estava despertando.

Mas então... as caricias pararam de maneira súbita e eu senti o corpo dele afundar sobre mim e o colchão. No começo eu não entendi e esperei o que Gilbert estava planejando. Mas após vários segundos de sentir o corpo inerte dele contra o meu, finalmente me afastei um pouco para questionar o que estava se passando e...

Gilbert dormia, ressonando tranquilamente sem seu sono. Em qualquer outra situação eu talvez ficasse furioso por ele ter parado logo ali mas... O rosto dele estava tão em paz, e eu me lembrei do tanto que ele havia trabalhado hoje e estava cansado... Eu acabei suspirando, mesmo um pouco frustrado, mas entendendo o seu estado. Nós teríamos que inaugurar aquilo depois.

Puxei um lençol e forrei sobre ele. Não era como eu estava imaginando que aquela noite terminaria mas eu já não me importava. Me ajeitei com ele debaixo do lençol, apoiando a minha cabeça em seu ombro. Ele estava quentinho e seus corpo era incrivelmente confortável contra o meu. Retirei os meus óculos e antes de dormir, me aproximei de seu rosto deixando um singelo beijo na sua bochecha.

— Boa noite, Gilbert.

Dizendo isso, me juntei a ele no suave alívio do sono.

.x.

Acabamos por conseguir conviver dividindo o apartamento. Gilbert havia conseguido o emprego de meio período na loja de mecânica e estava animado adquirindo experiência sobre mexer em carros e essas outras coisas de mecânica que eu não entendia. Os nossos horários continuavam a mesma coisa, apesar de ter sido bastante difícil conciliar os horários dos meus treinos do piano. Gilbert ainda não gostava da música e continuava a preferir o seu heavy metal, mas aceitava que agora ele estava junto com um pianista e este seria o seu fardo: ouvir música clássica até não aguentar mais. Eu achava engraçado, apesar de sentir pena as vezes, mas ele parecia estar cada dia mais se acostumando melhor. Teve um dos dias que ele até aceitou assistir ao filme “Amadeus” quando eu estudava uma peça de Mozart.

Mas ainda havia um pequeno e loiro problema. Não, não era Lily. Eu continuava a dar aulas para a garotinha e Gilbert se acostumou com a ideia. Na verdade eu até me surpreendi ao descobrir que ele adorava crianças e que se deu super bem com a menina. Eu mal conseguia dar as minhas aulas de forma decente pois Gilbert ficava distraindo a garota com suas histórias engraçadas e seu pássaro – Gilbird, que agora morava conosco – Lily adorava Gilbird.

O problema era Vash.

Foi um pouco penoso contar para o meu amigo que estávamos... digamos... juntos. O suíço não gostou da ideia, na verdade, ele não gostou nada da ideia. Bem, eu sabia que seria difícil para o meu amigo aceitar já que ele tinha interesse em mim (mesmo que eu nunca tenha correspondido tal interesse). Mas Gilbert não ajudava nada sendo teimoso e ciumento. Então, certo dia Vash viera buscar Lily das suas aulas e eles acabaram... digamos... se estranhando. O que me deixou possesso, obviamente, já que ele estava sendo um completo idiota com o meu amigo.

Por isso assim que Vash fechou a porta atrás de si, eu explodi com Gilbert.

— Você! Gilbert! Seu idiota, o que você pensa que está fazendo?

— Nada, ué. – ele deu de ombros – Ele que não aguenta aceitar que perdeu para a concorrência.

— Perder para a concorrência, Gilbert? O que eu sou, uma coisa agora? – eu esbravejei – Não diga nada, você sabe que está errado.

— Jovem mestre, você não vê que ele está fazendo isso como uma forma de tirá-lo de mim? – ele disse birrento e eu fiquei ainda mais ofendido.

— Agora vai dizer que não tem confiança em mim? – cruzei meus braços.

— Não! É que... urg... Você é um aristrocrata certinho que adora um luxo! Eu bem consigo visualizar você correndo atrás dele por ser um ricaço com uma BMW mais do que maneira com uma irmãzinha mais nova adorável. E o cara ainda manja de música clássica!

Minha impaciência atingiu o seu ponto final. Eu me aproximei dele, batendo em seu tronco e ombros com tapas e com a mão fechada, completamente ensandecido pela quantidade absurda de asneira que ele havia soltado em poucas frases. Eu deixa-lo porque Vash era rico e sabia sobre música clássica? Isso era o cúmulo do absurdo! Eu jamais faria isso, porque de alguma forma que eu jamais iria entender o meu coração havia escolhido o idiota que estava na minha frente no momento.

— E você é um grosseiro, Gilbert! Seu idiota! – ele tentava conter os meus tapas segurando os meus pulsos. – Você acha mesmo que eu vou te trocar por ele, seu idiota? Eu sou mesmo muito burro por ter me apaixonado logo por você! Sinceramente, não sei o que eu vi em você.

Eu deveria ter dito aquilo para machucá-lo, mesmo que não fosse a minha real intenção, afinal eu estava junto com Gilbert por algum motivo, não era? Eu estava me arrependendo das minhas palavras duras, quase me desculpando, quando a tensão se explodiu e ao invés de Gilbert me xingar de volta ou simplesmente ir embora emburrado, ele me beijou.

E não foi mais um dos beijos comuns, este beijo começou intenso demais para qualquer um dos beijos que já tivéssemos trocado antes, nossos dentes quase batendo um no outro com a ferocidade e a força com que nossos rostos se esmagavam um contra o outro. Sem nem questionar eu o puxei pelos cabelos da nuca, prendendo-o ainda mais contra mim enquanto arranhava os seus ombros enormes cobertos somente por uma fina camiseta vermelha. Ele pareceu estremecer em satisfação com os arranhões e sorriu contra os meus lábios.

Não percebi quando estava sendo empurrado em direção ao meu piano, por isso tomei um susto quando ouvi as teclas sendo esmagadas pela minha bunda e desfiz o beijo, tomando um tempo para respirar e também para questionar a Gilbert o que afinal estava acontecendo ali.

— Gilbert... – eu arfei.

— Você quer mesmo saber o que viu em mim? – ele perguntou contra os meus lábios, quase me beijando novamente e eu tive que me controlar para eu mesmo não fazê-lo.

— O meu piano... – eu respondi, ainda preocupado com a posição que estávamos.

Ele ignorou a minha preocupação e contrário do que eu pensei que ele fosse fazer, que seria me puxar para um lugar mais confortável para que pudéssemos terminar o que começamos, ele me levantou pela cintura, me deixando deitado em cima do meu piano de cauda. Eu arfei alto desta vez, sentindo uma pontada poderosa entre as pernas.

— Gilbert... eu... acho que aqui não é o lugar certo para...

Ele me silenciou com um beijo rápido que funcionou para me deixar atordoado por breves segundos.

— Eu sempre quis saber como seria ter você em cima desse piano. – ele sussurrou em meu ouvido, o que me fez novamente me sentir malditamente excitado.

— Mas n-não podemos fazer isso, aqui não... ah! – ele segurou em meu comprimento sob a calça, sorrindo.

— Mas você parece estar gostando... – abriu o sorriso mais malicioso que tinha enquanto acariciava a minha calça e naquele momento eu amaldiçoei até a sua última geração por isso, porque ele sabia que estava certo.

Respondi voltando a beijá-lo, e sem paciência acabei tirando a sua camisa vermelha cuja qual não tinha mais nenhuma necessidade de tê-la em si e ele sorriu satisfeito com a minha pressa. A tensão sexual entre nós dois explodia desde o primeiro dia que nos vemos naquele apartamento e nem eu nem ele tínhamos paciência mais para esperar o momento certo. Estávamos no limite e aquele era o momento e a hora certa, eu nem ao menos me importava que estávamos fazendo aquilo em cima do meu piano, o que deveria ser preocupante.

Beijos nada sutis foram deixados em meu pescoço, que delirava com as marcas que eu sabia que ele estava fazendo e demorariam bastante para sumir. Mas no momento eu não me importei, amava o fato de estar sendo marcado por Gilbert. Ele se pôs a abrir a minha camiseta social botão por botão e fez uma careta ao ver que eu usava uma camisa por baixo da camisa social branca.

— Para que tanta roupa, jovem mestre?

Mordi o lábio inferior, eu também queria provoca-lo. Por isso puxei do fundo da minha alma o tom mais sedutor que eu tinha e respondi:

— Para você tirar.

Ele literalmente grunhiu quando voltou a me atacar e tirando o resto da minha camisa e calça sem perdão, mordiscou os mamilos me fazendo gemer um pouco mais alto enquanto passava a língua naquela área sensível. Céus! Eu estava perdido quando percebi que a boca dele descia cada vez mais e mais me deixando ansioso. Fazia muito tempo que eu não fazia algo assim com alguém, por isso fiquei temeroso quando ele puxou o resto da roupa me deixando totalmente à sua mercê.

— Gilbert... – olhei para baixo vendo o seu rosto malicioso olhando para o meu pedaço de pele. Eu estava vermelho e com muita vergonha, mas ele começou com caricias suaves dizendo palavras baixinhas para que eu me acalmasse e relaxasse. Eu não fiquei totalmente relaxado mas não importava mais quando eu estava na boca de Gilbert, gemendo e choramingando o seu novo.

Ele bombeava com a cabeça e com a língua e eu inconscientemente agarrei nos seus cabelos totalmente devastado com o prazer. A cada centímetro que Gilbert me colocava mais para dentro da sua garganta mais eu delirava, e não ajudava nada quando ele gemia e fazendo vibrar tudo em volta.

Mas não demorou muito pois logo Gilbert me soltou com um ultimo chupão indecente. Eu fiquei frustrado por não chegar ao ápice mas ele pareceu achar graça. Eu fiz um bico de reclamação e ele quase riu.

— Gostou? – eu soltei um resmungo – Ei, não fique chateado! Você não queria que a diversão acabasse agora, não é?

Eu concordei com outro resmungo. Gilbert subiu e me deu outro selinho antes de dizer um “já volto” e sair de cima do piano, sumindo no corredor para os quartos. Eu grunhi. Ele não podia me deixar daquela maneira! Impaciente comecei a me masturbar, pensando na língua do albino que estava em mim a apenas alguns minutos atrás. Ugh, Gilbert idiota. Como ele ousa a me deixar assi-

— Ei, quem disse que você podia continuar sem mim, jovem mestre? – me levantei levemente para ver que ele trazia em sua mão um pote de lubrificante e um preservativo. Corei até o meu ultimo fio de cabelo, eu não sabia que ele tinha esse tipo de coisa em casa!

Mas decidi que questionar algo naquele momento só iria cortar o clima pois ele provavelmente iria rir de mim. Por isso voltei a me deitar e continuei a me masturbar só para provoca-lo ainda mais.

— Você está demorando muito. – respondi baixo com o melhor tom provocador que tinha.

Bem, nem eu sabia que eu – de fato – podia usar aquele tom mas de alguma forma havia funcionado pois Gilbert havia segurado o meu pulso com força para que eu me soltasse. A sua boca agora beijava toda a extensão das coxas, deixando marcas e me deixando cada vez mais ansioso. Os seus dedos em algum momento começaram a rodear a minha entrada, pressionando o gel desconfortável para dentro de mim. Fazia muito tempo que eu não fazia algo assim então senti um leve incomodo, mas seus dedos eram tão habilidosos que em pouco tempo eu estava aquilo crescer em mim e gostar cada vez mais e mais.

Eu já estava fora de mim quando comecei a agarrar novamente os cabelos de Gilbert e pedir para que ele terminasse logo aquilo e entrasse dentro de mim, pois a minha paciência já havia se esgotado. Felizmente, desta vez Gilbert não iria me fazer enlouquecer de tanta impaciência.

Ele tentou o máximo possível fazer daquilo o menos doloroso possível para mim mas céus parecia que não ia acabar nunca e realmente foi difícil me acostumar com tudo. Doía sim e parecia quase errado, mas o meu corpo aos poucos se acostumava com a ideia e Gilbert murmurava palavras relaxantes em meu ouvido. Aos poucos se criava um movimento, primeiramente profundos e calmos. Era bom, me fazia querer mais mas ao mesmo tempo eu me sentia amado da forma carinhosa com que Gilbert me tratava.

Voltamos a nos beijar de forma intensa, me tornando cada vez mais relaxado e ao mesmo tempo desesperado. Os movimentos calmos tomaram ritmo, e novamente as minhas mãos afundavam nas costas de Gilbert e eu gemia e chamava o seu nome sem nenhum pudor. Eu era o mais completo caos, barulhento, alto, mas ao mesmo tempo certo no mais absoluto torpor, como a nova sinfonia de Beethoven. E tudo isso era Gilbert que provocava, era ele e sempre fora ele que despertava o meu lado mais desconhecido e caótico mas que ao mesmo tempo fazia tão bem ao destruir as minhas regras sob regras e todo muro que eu havia construído ao redor de mim mesmo.

Eu cheguei ao ápice sujando meu abdômen e ao dele, arranhando as costas já magoadas do albino. O mesmo também não demorou, que ao terminar deixou cair sobre mim mas não adormecendo. Gilbert me enchia de pequenos beijos e declarações baixas enquanto as minhas pernas estavam sob o efeito do torpor. Eu abracei os seus ombros enormes deixando escapar a frase possessiva “meu” em seu ouvido, que grunhiu satisfeito em resposta.

Só me dei conta que eu ainda estava suado, sujo e acabado em cima do meu piano quando o meu pé atingiu as teclas fazendo soar um som alto e desafinado. Eu só vi Gilbert mordendo os seus lábios em sinal de culpa. Eu revirei os olhos para ele, sabendo que não tinha forças para discutir com ele no momento.

— Antes que você brigue comigo... Que tal um banho? – ele deu um sorrisinho achando que me conquistava. E conseguiu.

— Está bem... – sorri – Mas eu estou numa situação um pouco acabada aqui.

Ele riu de mim mas acabamos por rir juntos.

.x.

Eu já estava de banho tomado, preparando um chá para me servir antes de dormir. Gilbert estava saindo do banheiro sem a camisa que vestia antes, secando os cabelos brancos com a toalha. Ele parou de frente ao piano e deu o seu típico sorriso malicioso ao se lembrar do que acontecera.

— Eu não acredito que consegui fazer isso em cima do seu piano. – ele disse rodeando a minha cintura e me dando um beijo na bochecha.

— Não vou comentar nada sobre isso, só que não vai se repetir. – revirei os olhos.

Ele me abraçou por trás, distribuindo beijos pelo meu pescoço e maxilar e eu novamente relaxei.

— Mas você gostou.

— Grrr... – rosnei e ele riu, voltando a se ocupar em beijar a pele exposta.

— Você realmente quis dizer aquilo sobre o Vash? Você não me trocaria por ele?

Revirei os olhos, pensando que depois do que havia acontecido ele deixaria o assunto de lado.

— Apesar de ter dito num momento de raiva era tudo verdade. Eu não trocaria você por ele, seu burrinho.

Gilbert afundou novamente o rosto em seu pescoço, suspirando fundo enquanto me abraçava com cada vez mais força. Então ele ainda estava tenso e inseguro com o assunto. Era um pouco fofo até, mas eu esperava que ele não ficasse pensando nisso, afinal era verdade. Ficamos assim por um tempo, eu esperando que ele relaxasse mais, mas impedindo que eu pegasse a minha xícara de chá, quando ele disse:

— Deixa isso aí, vamos sentar no sofá e comer aquele pote de Nutella tamanho máximo que eu comprei no mercado hoje mais cedo e não te avisei.

— Você o que? – traidor! Eu amava Nutella. – Você vai me fazer engordar... – mordi o lábio inferior.

— Nada melhor do que fazer a pessoa que amo engordar. – ele disse me dando mais um beijo no ombro.

Mas desta vez eu me virei, olhando em seus olhos vermelhos e como se um momento de epifania que nem mesmo durante o sexo eu visualizei passasse diante dos meus olhos. Tudo pelo que passamos passou como um filme: das implicância na escola, nos corredores do apartamento, até nos tornarmos colegas, amigos e evoluir para aquele algo mais. Não era nada muito complicado porém não era tão simples, eu nunca teria passado por aquilo se aquele sentimento não existisse dentro de mim, nem que fosse como uma pequena fagulha, que cresceu aos poucos junto com a convivência e respeito mútuo. Alguns dizem que esse sentimento não pode ser construído, mas fora exatamente o que fizemos. Construímos tijolo por tijolo até que tomasse uma bela forma e eu poderia finalmente dar nome àquilo.

Eu o amava.

E abrindo um sorriso e me jogando em seus braços para finalizar um beijo para comemorar aquele sentimento, finalmente tudo pareceu na mais perfeita ordem.

E se não fosse por aquelas Paredes Finas, talvez jamais tivéssemos nos reencontrado.

Notas finais
Eh isto. Acabou c'est finnie. Olha não tenho nenhuma desculpa por ter abandonado essa fic por ANOS, só por eu ter perdido o interesse depois de uma série de coisas que aconteceu na minha vida. Mas eu decidi terminá-la pois estava devendo a algumas pessoas. Espero que tenham gostado de acompanhá-la. Provavelmente foi a pior cena de smut que aconteceu na minha vida mas kkkkkk Obrigado a todos que leram esta fic. Fiquem com um beijo meu no coração ♥
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!