Parceira De Crime
13 Genética.
Notas iniciais
- Te espero no carro. — Helena disse quando chegamos a frente da casa de Alice.
Respirando fundo pra tomar coragem saí de seu carro.
E uma série de acontecimentos totalmente imprevistos começaram a partir de duas notas.
Ding-Dong.
- O que você está fazendo aqui? — Alice me perguntou rude assim que abriu a porta. Havia algo, muito errado nela. Muito errado mesmo. Seu rosto estava marcado por um hematoma arroxeado em seu olho esquerdo, observando-a mais, pude ver seu corpo, sua pele clara com fortes hematomas em tom de vermelho, ela estava machucada. Aquilo me arremessou em um mar de preocupação.
- Meu Deus, o que houve com você? — Perguntei tocando seu rosto com delicadeza, ela não se afastou.
- Isso não é nada. — Ela respondeu, tirando minha mão de seu rosto. Talvez o namorado novo dela gostasse de bater. Endireitei minha postura, tentando esconder a preocupação que sentia por ela.
- Vim para me desculpar. — Disse séria. Ela sorriu, não um sorriso amistoso, ou meigo, foi puro sarcasmo. Era a primeira vez que via isso nela e não gostei nem um pouco.
- Pelo que?
- Pelo que aconteceu na classe aquele dia. — Alice deu de ombros, olhando preocupadamente para dentro.
- Eu já devia esperar algo assim. — Respondeu virando-se novamente pra mim. — Você não pode ficar aqui.
Aquelas palavras entraram com flechas em meu peito e foi o suficiente para eu ver vermelho.
- Devia esperar? Quem foi que disse que era minha e no dia seguinte foi pra cama com sei lá quem? — Elevei minha voz, estava com tanta raiva.
- Quem foi que mentiu e enganou? Quem foi que passou dois dias em minha casa e agora está me expulsando da sua? Quem foi que brincou com os meus sentimentos? Não fui eu Alice!
Meus olhos já estavam embaçados a essa altura, eu só queria gritar com ela. Alice me deixava tão furiosa.
- Você não entende nada, cala essa boca. — Alice elevou a voz também, sem chegar a gritar. E aquilo me deixou ainda mais irritada.
- Eu não entendo? Eu não entendo! — Não abaixei minha voz, só queria gritar mais.
- Não me diga que eu não entendo! Eu tenho o QI de 210, sou a melhor aluna de Leeds, já tenho bolsas em faculdades! Não fale comigo como se eu fosse burra, só porque eu não consegui decifrar o seu comportamento instável, errático e francamente, cruel! — Lágrimas caiam involuntáriamente agora e quando pude ver Alice, sua cabeça estava baixa.
- Algo errado? — Um homem surgiu atrás de Alice, cabelos negros e ondulados, aparentava quarenta e tantos anos bem vividos, para idade tinha até um belo físico. Era esse o padrasto de Alice? Ou talvez o namorado. Ele tocou o ombro de Alice e sua postura mudou, ela ficou rígida e pude ver seus olhos se encherem de água.
Eu não respondi, Alice enviou um olhar ao homem, um olhar de puro terror. Nunca tinha visto esse olhar nela.
Entendimento bateu, junto com uma forte vertigem e ansia de vômito.
- Está tudo bem, ela já está de saída. — Alice respondeu, a voz um fino sussurro. Isso fez o homem me dar um sorriso charmoso que me deu nojo e entrar em seguida.
- Meu Deus Alice! — Eu estava tão enjoada que achava que ía desmaiar a qualquer momento.
- Não seja esperta agora Águi.
- Eu acho que eu não sou, porque não o denunciou? — Alice se aproximou de mim, tocando meu rosto com suas mãos.
- Ei, ei, esqueça.
- Não! — Gritei tirando suas mãos de mim. Eu não podia esquecer ou ignorar algo assim.
Alice ficou em silêncio e eu também, novamente aquela onda de vontade de protege-la me atingiu, eu não podia deixar ela sofrer algo assim. Como ela podia ser tão sem voz? Ela era minha e eu iria protege-la.
- Quantas vezes Alice?
- Toda noite, desde meus treze anos. — Sua cabeça estava baixa e senti a enorme necessidade de abraça-la, parecia tão frágil, como se ela fosse se partir diante de mim.
- Deus, eu vou ligar pra polícia. — Disse, dando as costas a ela, dirigindo-me ao carro de Helena.
Ela me segurou pelo pulso e puxou para mais perto de si.
- Não pode fazer isso, tem que manter segredo. — Implorou, secando as lágrimas de seu rosto.
- Não! Eu tenho que fazer isso.
Respirei bem fundo antes de dizer minhas próximas palavras.
- Eu te amo.
Os olhos de Alice brilharam, como se ela fosse chorar novamente.
- Então prove, guarde esse segredo.
- Isso não é amor Alice!
- É sim. — Disse ela aproximando-se mais de mim. Tocou novamente meu rosto com as mãos e apoiou sua testa na minha.
- Se ele for preso, eu não sei o que acontece a Adrian, não posso perde-lo. Ágata, por favor. Ele só tem a mim. Eu só preciso aguentar mais um pouco.
Então era isso, Alice era abusada dia após dias, por preocupação ao irmão. Se o padrasto dela fosse preso, os dois iriam para lares de menores. Deus, ódio começou a se apossar de mim. Como ela podia se preocupar tanto com o irmão e tão pouco com si própria. Eu acho que tinha esquecido como se respirava.
- Meu Deus, Alice, não! Não.
- Ágata, minha mãe aguentou, ela...
- Ela está morta Alice! — Foi um golpe duro e Alice resetou. Ficou em silêncio.
- Não pode seguir os mesmos passos que ela. — Sussurrei e ela fechou os olhos.
- Eu sou forte. Só preciso de mais um aniversário. Tem que me prometer que não vai contar a ninguém. Por favor.
- Tudo bem. — Nem eu mesma acreditei nas palavras que sairam de minha boca e antes que eu pudesse retira-las, Alice me apertou com força em seus braços.
- Eu tenho que entrar, se ele ficar irritado vai bater em nós. — Meu enjoo ainda aumentou, só de saber que o pequeno Adrian também sofria com as agressões de alguém que devia protege-lo. Era tão jovem e agora sim fazia sentido o porque de ele ser tão maduro pra idade. Pelo que passava em casa, devia ficar a maior parte do tempo com Alice. Era por isso que entendia.
Alice entrou e eu me sentia fria e vazia.
- Então? — Helena me perguntou quando entrei em seu carro.
- Eu acho que vou vomitar. — Disse abaixando minha cabeça.
- Quer que eu te leve para o hospital? — Helena perguntou tocando meus cabelos.
- Não, só me leva pra casa.
Quando cheguei em casa aquela tarde eu senti a estranha necessidade de abraçar os meus pais. E foi o que eu fiz, mesmo que o clima com minha mãe não estivesse bom, ficou. Porque eu nunca tinha notado o quão ótimo meus pais eram. E Alice, meu Deus Alice. Alice sofria, dia após dia. Era tão terrivel. Eu só queria abraça-la e protege-la para que ninguém jamais a pudesse tocar novamente. Ela precisava de mim e eu dela. Eu precisava salva-la e novamente eu era inutil. Sem poder sequer ajudar quem eu amava.
Passei o resto daquele infeliz dia em minha cama. Eu me sentia tão triste, tão vazia. Isso não era provar meu amor por Alice. Isso era ser inutil. O que Alice fazia, isso sim era prova de amor. Mas o que eu fazia era patético. E como eu odiava a mim mesma por ter pensado errado dela. Eu tinha sido tão idiota. Tão burra.
Alice não apareceu no dia seguinte. Eu sentia minha vida ficar ainda pior. Sem ela era tudo tão cru e sem vida. Tão vazio.
Nossa última aula foi com a Srta. Sophia. Ela dispensou todo mundo vinte minutos mais cedo.
- Todo mundo menos.. — A turma inteira parou de arrumar as coisas e pararam em seus lugares.
- Ágata. — Suspirei, eu sabia o que estava por vir. Eu sabia.
- Srta. Sophia eu..
- Você sabia, — Começou ela me interrompendo, estava lendo ou talvez corrigindo uns papéis.
- Que alguns estudiosos, acham que a sexualidade é definida pela genética? — Disse ela me deixando confusa.
— Sente-se. — A professora me apontou uma cadeira a frente dela. Me sentei, ainda sem entender o que ela estava dizendo.
- Professora, eu não en..
- Quantos anos eu dei aula a você? — Ela me perguntou, interrompendo-me novamente.
- Bom, desde meus quinze anos, há dois anos. — Respondi, eu não sabia onde ela queria chegar.
- Não. Não perguntei desde quando dou aula a você e sim há quantos anos.
- Dois.
- Não. — Suspirou ela, olhando-me atravez de seus óculos.
- Eu dou aulas a vocês desde que tinha cinco anos. — Ela me deixava cada vez mais confusa. E também ela disse "vocês".
- Não. — Suspirou ela, olhando-me atravez de seus óculos.
- Eu dou aulas a vocês desde que tinha cinco anos. — Ela me deixava cada vez mais confusa. E também ela disse "vocês".
- Eu não me lembro. — Não sabia o que ela queria que eu disesse.
- Conheci seus pais e também os Lightwood. — Comentou ela procurando por algo na gaveta de sua mesa. — Aqui. — Disse, entregando-me uma foto.
Era antiga, reconheci meus pais, eles não tinham mudado muita coisa, estavam comigo no colo, eu devia ter pouco mais que dois anos. E tinha um casal ao lado. O homem sorria com um topete da moda e costeletas, e a mulher que era tão igual a Alice. Algumas semelhanças a diferenciaram. Os olhos de Alice, eram do pai. A moça estava sorrindo também com um bebê que achei ser Alice no colo. E a srta. Sophia também estava lá.
Virei o verso e vi escrito a mão com caneta esferográfica preta.
"Um presente ao que vai ser a melhor professora da Inglaterra.
- Jensen e Lightwood "
- Nessa época, você e Alice nunca se desgrudavam. Assim como as mães de vocês. — Senti um aperto no peito. Nós éramos amigas.
- O que aconteceu? — Perguntei devolvendo-lhe a foto. Ela recusou.
- Quero que entregue a Alice. — Disse ela e guardei a foto comigo. Eu entregaria.
- Eu comecei dando aula a vocês duas, só depois dei aula aos mais velhos, e sabe, era incrivel vê-las, eram apenas crianças, mas se alguém te incomodava, Alice brigava, se ela se machucasse, você chorava. Eram tão ligadas.
Me senti tonta com aquilo, embora tudo fizesse muito mais sentido agora, era meio que difícil de assimilar. Mas agora eu entendia, agora eu entendia. Era por isso que eu sentia que já sabia quem ela era.
"Parece que te conheço há anos."
Me lembrei do que Alice tinha me dito e me perguntei se ela já sabia dessa história ou se sentia como eu.
- Então o Ethan, o pai de Alice, morreu um dia depois dessa foto e Frankie, a mãe, ficou muito abalada. Sua mãe e ela ficaram muito próximas. — Minha mãe e a mãe de Alice eram amigas. Eu não conseguia entender o porque de minha mãe agir daquela forma.
- E quando Frankie se casou o Reid, suas mães nunca mais se falaram. Sua mãe te tirou de perto de Alice e é por isso que não se lembra. — Deus, como aquilo podia ser possivel? Minha mãe era amiga da mãe de Alice e elas brigaram, aí eu e Alice nos separamos.
- O que está dizendo Srta. Sophia? — Ela se levantou, aproximando-se de mim. Respirou fundo.
- Estou dizendo algo que nem você e nem ela saberiam se eu não contasse. — Suspirei, isso era verdade, mas ainda sim, eu não entendia.
- Vocês duas. É assim, simples, como deve ser.
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