Parceira De Crime
10 Anti-concepcional
Notas iniciais
- Nossa, esse filme é muito triste. — Alice disse quando os créditos de "Em busca da Terra do Nunca" começaram a subir. — Eu acho que eu morri.
Eu ri, lágrimas escorriam por meu rosto, era meu filme preferido, mas eu sempre chorava no fim.
- Não fica assim, — Disse ela apertando-me em seus braços. — Ela foi pra Terra do Nunca.
Alice beijou o topo de minha cabeça, mandando-me ondas de paz, como ela sempre fazia.
Havíamos passado o dia inteiro juntas. Tinha feito todas as minhas refeições em meu quarto, e isso despertava vários olhares de desgosto de minha mãe. Mas eu não me importava, meu dia estava ótimo.
Estava começando a entardecer e só notei isso quando Alice checou seu relógio com uma ruga formada em sua testa.
- O que foi? — Perguntei, ela sorriu, vestindo sua saia e botas.
- Eu tenho que buscar meu irmão. — Respondeu, enrolando o pescoço com seu cachecol vermelho e vestindo sua jaqueta em seguida.
Suspirei, eu não queria que ela fosse, estava no meu pequeno mundo feliz quando ela estava comigo. Ela voltou a se aproximar de mim, tocando suas mãos em meu rosto.
- Mas, Adrian não está com o pai? — Novamente uma ruga se formou em sua testa.
- Não. — Respondeu apenas, e beijou-me rapidamente. Segurei-a por sua camiseta, queria que ela ficasse, o tempo inteiro.
- Eu tenho que ir. — Disse ela afastando seus lábios dos meus, colocou uma mecha de meu cabelo atrás de minha orelha e beijou minha testa. Era tão.. meigo.
- Tudo bem. — Respondi com meus olhos fechados, me levantei, entrelaçando meus dedos aos dela.
Saímos de meu quarto em silêncio. Eu esperava conseguir sair de casa com Alice sem ninguém notar, caminhamos em silêncio pelo pequeno corredor que nos levava até a porta dos fundos. E, bom, fui surpreendida.
- Ágata. — A voz fria de minha mãe me chamou. Congelei, minha mão segurava a maçaneta da porta. Virei-me lentamente para ela.
- Mãe. — Sussurei, acho que estava com medo. Talvez tenha sido o susto.
- Essa é Alice Lightwood. — Eu apresentei, Alice sorriu e estendeu sua mão a minha mãe.
- É um pra..
- Saia da minha casa. — Minha mãe a interrompeu friamente, o sorriso de Alice se desfez.
- Mãe! — Protestei.
— Tudo bem. — Sussurrou Alice ao meu lado. — A gente se vê, ér, fique de olho no correio.Pensei não ter entendido a última parte, e quando me virei pra perguntar, ela já havia saído. Me deixado sozinha com minha mãe, traidora.
- E o que me faz pensar que não? Quer dizer, se fosse a Helena você não diria nada e ainda ofereceria um chocolate quente a ela, então, porque mãe? Porque eu não posso trazer Alice?
Eu só notei que tinha elevado minha voz quando minha mãe elevou a dela também.
- Porque eu não quero! Eu não quero ela aqui! Essa casa é minha! E fim de conversa! — Gritou minha mãe, aproximando-se ameaçadoramente de mim.
Recuei assustando-me, ela nunca tinha falado comigo daquele jeito.
- Tá. — Respondi apenas, me sentia com tanta raiva. E corri escadas acima, direto pro meu quarto. E me joguei na cama, ainda tinha o cheiro de Alice, e isso fez eu me sentir melhor.
Me mantive no escuro em minha cama, não desci pra jantar, tinha perdido a noção da hora, meu pai bateu na porta para me chamar pra jantar e eu não dei atenção, estava tão brava com a minha mãe. Algum tempo depois ele bateu novamente.
- Gatinha? — Chamou-me ele por trás da madeira.
- O que é? — Perguntei seca, abrindo a porta do meu quarto, eu pensei, que se o respondesse logo ele me deixaria em paz, e afinal, meu pai não tinha culpa de nada.
- Tá de mal comigo? — Perguntou ele com um sorrisinho. Eu não estava muito pra sorrisos.
- Não.
Meu pai suspirou, sabia que eu estava de mal humor e nessas horas eu descontava em todos.
- Bom, chegou isso pra você. — Disse ele entregando-me um pequeno pacote de papel pardo em formato quadrático. Eu peguei e meu pai acenou pra mim e saiu.
Fechei minha porta em seguida, acendi a luz, estudando o pacote, era de Alice.
Me joguei na cama e abri, tinha o formato de uma embalagem de cd, estava embrulhado em papel de presente do McDonald. Eu sorri. Havia um bilhete.
É de minha banda preferida, o cd mais novo deles. Eles são da Finlândia. Nem imagina quantos tive que matar pra conseguir os autográfos. Cuide bem, como o meu coração, eu só tenho esse.
- Alice
Abri-o cuidadosamente, e vi o cd. Eu não conhecia a banda. O cd não parecia ser recem-comprado e estava autografado. Imaginaerum era o nome do cd. Eu realmente não conhecia, nunca tinha ouvido falar e rapidamente o coloquei pra tocar.
Então eu descobri que conhecia aquela primeira música. Era a música que Alice tinha cantado pra mim depois de nosso primeiro beijo. Uma música tão linda, me deu um momento de nostalgia. Eu queria ouvir novamente na voz de Alice, eu só queria poder dormir com ela novamente. Corri para meu nootbook e baixei aquela música. Voltei a me deitar e dormi ao som daquela canção de ninar.
Sonhei com McDonald's, Alice e minha mãe.
Quando acordei havia uma chamada perdida de Alice, eu ía retornar, mas estava cedo demais, ela ainda devia estar dormindo. Me levantei e tomei um banho pra tirar minha preguiça, escovei meus dentes e voltei a me deitar, colocando meu novo cd pra tocar, eu cuidaria daquele cd, da mesma forma como cuidaria de Alice, melhor do que de mim mesma.Fechei meus olhos, ouvindo a música tocar baixinha quase dentro de minha cabeça e toda minha curta vida com Alice me passou pela cabeça.
No final da primeira música, me levantei. Segunda-feira. Sempre odiei segundas, menos é claro quando era feriado, mas estava começando a repensar isso. Eu ficaria o dia inteiro trancada dentro de casa, sem ver Alice. Que droga. Eu até poderia tentar outra fuga, mas não daria certo, não com meu pai de folga também.
Comecei a andar em circulos pelo quarto, outra música começara a tocar, uma bem mais agitada. Guitarra, bateria ao som de vozes altas.I want my tears back!
O celular tocou e eu joguei-me na cama novamente para atende-lo.
- Hey, estava escutando o seu cd e.. — Atendi sem ao menos ver quem tinha ligado.
- Que cd? — Uma voz que não era de Alice perguntou. Helena.
- Nada.. — Suspirei frustrada. — Eu pensei que fosse outra pessoa.
- O que? — Perguntou ela alterando um pouco sua voz, parecia um tanto irritada.
- Achou que fosse a Alice no país das maravilhas? Qual é cara, o que tem entre você e ela? — Agora ela parecia realmente irritada. Fiquei em silêncio, eu não estava com paciencia.
- Quer dizer, desde que começou essa tarefa estúpida, você mal fala comigo.
- Está com ciúmes Helena? — Perguntei querendo rir agora.
- É claro que estou! Que música idiota é essa? Você vem me ignorando desde que virou parceira de equipe da Alice! — Suspirei, pausando minha música, eu tinha me esquecido totalmente de Helena.
- Quer sair? — Perguntei antes que ela recomeçasse suas reclamações. Ouvi ela respirar fundo do outro lado da linha.
- Foi por isso que te liguei, é hoje o aniversário do Tom e ele pediu pra eu te convidar.
A resposta certa é, não. Eu não queria ir ao aniversário do meu ex-namorado. Não agora que eu estava em um novo e secreto relacionamento. Eu havia cortado relações com Tom, ele tinha me traído. Quando terminamos, eu não chorei sequer uma vez, mas mesmo assim, a sensação de ser enganada, é pior do que posso descrever e isso me deixou com medo de relacionamentos, medo que sumiu quando Alice me pediu em namoro.
- Eu não acho uma boa idéia, não sei porque ele fala com você, se eu quisesse ir a essa festa, eu teria respondido ao convite em meu e-mail. — Helena riu do outro lado da linha.
- Ele é um otário, mesmo assim, eu queria ir, Adam vai. — Adam, namorado dela.
- Outro otário. — Eu respondi.
- Pois é, e você sabe como otários se comportam em festas. Pelo o que eu sei, vai ter piscina. — Ok, isso era loucura.
- Piscina? Nesse clima? O que o Tom tem na cabeça? Vai congelar todos os convidados.
- A piscina deve ser aquecida, eu sei lá, o fato é, só uma desculpa pra todas as vadias vestirem biquini. — Disse Helena com a voz cansada.
- Boa sorte pra elas então, quer dizer, ficar de biquini nesse frio? Elas merecem uma medalha.
- Ou um troféu da melhor puta de biquini. — Helena riu e eu fiz o mesmo.
- Eu queria que fosse comigo. — Suspirei, não era com Helena que eu queria passar o meu dia.
- Eu to de castigo. — Ela suspirou.
- Sua mãe não te deixa sair comigo?
- Ela tá uma fera comigo e eu não quero pedir nada pra ela. — Respondi encarando o teto.
- O que você fez? — Perguntou-me ela e no mesmo momento o celular fez um bip, informando que havia uma outra ligação, olhei a tela era Alice.
- An, Helena, tenho que atender outra ligação. — Apenas disse antes de atender Alice e deixar Helena na espera.
- Bom dia. — Cumprimentou ela, sua voz estava baixa e embargada, devia ter acabado de acordar. Ao meio-dia.
- Bom dia. — Cumprimeitei-a de volta. Um sorriso tomando meus lábios.
- Recebeu? — Perguntou ela.
- Sim, e sério não precisava ter dado o cd pra mim.
- Não gostou? — O tom da voz dela mudou, algo como dúvida.
- Eu amei, mas deve ter sido realmente difícil conseguir aqueles autográfos. — Ela riu.
- Sim, foi. Então é seu dever cuidar bem. Sabe, algo importante pra mim, para alguém muito importante. — Disse ela, com o mesmo sorriso na voz.
Eu sempre me sentia totalmente sem ar quando ela me falava coisas assim.
- Obrigada. — Eu apenas respondi, arfando sem querer.
- De nada. — Ela respondeu. — Liguei pra dizer que vou sentir saudades hoje, não vou poder te ver. — Agora eu não tinha chances nenhuma de ter um bom dia. Eu queria perguntar porque, mas não queria invadir o espaço dela nem nada.
- Eu vou sentir sua falta, é. — Respondi, o tom bem mais baixo. Meu humor estava piorando a cada segundo.
- Não fica triste meu amor, mas eu tenho que desligar agora. — Ela disse e simplesmente desligou, eu pensei em ficar irritada com ela, mas só o fato de ela ter me chamado de "meu amor" me deixava nas nuvens.
A ligação voltou imediatamente para Helena, eu até havia me esquecido dela.
- Desculpe. — Eu disse.
- Tudo bem. — Ela disse. Fiquei quieta, eu não queria ter parado de falar com Alice.
- Enfim, será que se eu passar aí, sua mãe não muda de idéia? — Helena me perguntou.
- Eu não teria muita esperança, mas, se quiser tentar. — Sem Alice, meu dia seria um saco, mas eu podia ao menos tentar me divertir.
- Ok, estou indo para aí. — Respondeu ela, desligando o celular em seguida.
Não demorou muito, menos de vinte minutos depois a campainha de minha casa ressoou.
- Ágata! — Meu pai gritou por mim. E saí de meu quarto, descendo até a sala. Helena estava lá, e já estava arrumada.
Minha mãe apareceu na sala em seguida, dando um sorriso satisfeito quando viu Helena e aquilo me deu vontade de bater nela.
- Sra. Jensen, Ágata me disse que está de castigo, mas eu queria saber, se a sra. não poderia abrir uma excessão essa tarde, pra ela me acompanhar em um aniversário. — Helena começou em seu tom amigavel.
- De quem é o aniversário? — Minha mãe parecia pensativa, claro ela não me queria no mesmo lugar que Alice. Ela podia ser uma mãe normal e perguntar se ía ter bebida alcoolica.
- Thomas Garden. — Helena respondeu, mas minha mãe ainda parecia pensativa.
- Ela não vai estar lá, mãe. — Resmunguei em tom baixo, revirando meus olhos.
Minha mãe sorriu, sem olhar pra mim. E assentiu com a cabeça.
Revirei meus olhos novamente e Helena me apressou, subi e me arrumei com rapidez, não estava nem um pouco afim de ir a essa festa, mas ficar em casa seria pior, eu não queria ver Tom e todos que não fossem Alice. Eu queria vê-la. Só isso, mas eu estava sem Alice hoje. Que droga.
Helena estava de carro, e saímos no dela, Helena dirigia cuidadosamente, repousei minha testa no vidro da janela. Paramos em um sinal, por coincidência em frente a Starbucks de Leeds e então, meu coração pulou em meu peito, Alice estava lá. E não estava sozinha. Era o cara da nossa sala, amigo dela. Saí do carro. Sim, eu estava no meio da rua, mas que se dane, atravessei até entrar na cafeteria. Alice pareceu surpresa ao me ver, mas não assustada, sorriu pra mim.
- Pensei que não ía te ver hoje. — Disse ela, mordendo o canto do lábio inferior com um sorriso. Seu amigo também se virou pra mim.
- Ágata esse é o Bernard e Bernard essa é a Ágata. — Alice nos apresentou e olhou em volta. Bernard sorriu e estendeu sua mão pra mim. Eu apertei, mas não sorri. Afinal, o que eles estavam fazendo ali? Não tive tempo de perguntar.
- Eu preciso ir ao banheiro, Águi, quando meu café chegar, tem dinheiro na minha bolsa, paga pra mim ok? — Perguntou ela, já começando a andar. Eu assenti.
- Eu posso pagar pra você. — Bernard se ofereceu. E Alice disse algo que soou como: "Nem pensar."
Eu e Bernard ficamos em um silêncio incômodo. Enquanto esperávamos o café de Alice, que logo chegou. Comecei a buscar pelo dinheiro de Alice em seu bolsa e achei algo que me fez congelar.
Anti-concepcionais.
Metade dos comprimidos haviam sido usados. Meu coração se apertou em meu peito, não, porque Alice iria precisar disso? A menos é claro, que ela não estivesse só comigo. Pensar nisso fazia eu me sentir doente. Soltei o remédio novamente em sua bolsa. Algo assim não podia acontecer.
- Ágata! — Helena me chamou da porta da Starbucks, estava vermelha de irritação, mas eu não me importava com isso. Só me preocupava com o fato de encontrar possiveis provas de que Alice não era apenas minha. De que não era minha.
Respirei fundo, para manter o foco de meus pensamentos. Eu não podia perder o controle, tinha que me manter calma. E naquele momento, respirei fundo novamente e comecei a andar, em direção a Helena e pra fora da cafeteria.
Fale com o autor