Paraíso Proibido
7 Capítulo 7. Desconfianças e Descobertas
Notas iniciais
Ísis PDV {Ísis: Ponto de Vista}
O "jantar" foi realmente além do que eu imaginava. Depois de finalmente conseguir colocar uma roupa no corpo de Fernanda – porque, sinceramente, eu já estava enlouquecendo de vê-la daquele jeito na minha frente –, nós ficamos um pouco na sala, mas eu já estava começando a ficar sonolenta, faltava pouco para meia noite, e não demorou muito para que Fernanda me pedisse para levá-la. Ela também estava bem cansada, os olhinhos pequenos de sono.
Nós nos despedimos de meus pais e de Rodrigo, que já estava quase apagado no sofá.
– Fernanda, querida, obrigada por ter vindo – minha mãe disse ao abraçá-la. – E volte mais vezes! Nós adoramos você. A Is não poderia ter escolhido pessoa melhor, saiba que estou torcendo muito pelo namoro de vocês, eu e o Ale estamos — dizia emocionada. Meu coração se apertou ligeiramente ao lembrar da verdade por trás daquele "namoro". O que eu faria agora? – Novamente, me desculpe pelas bobeiras do meu filho, ele é assim mesmo, não ligue, por favor.
Fernanda sorriu lindamente. Tinha... emoção em seus olhos, emoção verdadeira. Aquilo me intrigou.
– Eu que agradeço por tudo, dona Alice. O jantar estava ótimo, assim como a conversa e, claro, a companhia. Também adorei vocês, pode ter certeza que voltarei mais vezes sim. Obrigada por tudo, e desculpa qualquer coisa. Quanto ao Rodrigo, sem problemas, eu o adorei também, pelo jeito não ele não tem tempo ruim, não é? Gosto disso, gostei do carisma dele – ela falava, mas o modo como pronunciava cada palavra era tão verdadeiro que ninguém jamais desconfiaria. Será que ela dizia mesmo a verdade?
Quando finalmente saímos, meu carro já estava diante das escadas. Fernanda passou o braço esquerdo no meu para descer a escadaria, pois estava descalça, sua ankle boot era de veludo e estava encharcada e ela carregava o par na outra mão, juntamente com uma sacola de papel onde eu havia colocado suas roupas, mais a jaqueta que ela havia trazido. Eu a ajudei a entrar no carro e depois me acomodei no banco do motorista. Colocamos suas coisas no banco traseiro.
– Então você vai voltar mais vezes, é? – não resisti em perguntar, com uma pontada de diversão e descrença.
– Ah, Izie, o que queria que eu dissesse? Eu adorei conhecer seus pais, é uma pena que tudo isso seja só uma farsa – falou aborrecida.
– Uma pena? Isso quer dizer... Quer dizer que você queria que fosse verdade, então? Tipo, tudo isso, nós? – arrisquei perguntar para ver qual seria a resposta dela. Não podia negar que de repente fiquei ansiosa por uma afirmação. Eu já não sabia mais evitar qualquer tipo de pensamento que pudesse me ligar à ela daquela forma que eu tanto temia.
Fernanda pareceu ficar sem reação, me olhou ligeiramente e depois encarou as mãos. Eu observava atentamente cada movimento dela.
– Bem, n-não foi isso exatamente que eu disse – ela respondeu meio baixo. – Quer dizer... Ah, Izie! Não me faça esse tipo de pergunta, está bem? Apenas não faça.
– Mas é só responder sim ou não, Fê – insisti. Eu queria muito ouvir aquela resposta, mesmo sabendo que poderia me decepcionar ouvindo-a negar tudo.
Ela estalou a língua, emburrada.
– Não, Ísis. A resposta é não. Eu não queria isso. E fim! – cruzou os braços.
Aquela resposta teria me deixado abalada, confesso. Se ela não tivesse mordido o lábio e olhado para baixo. Não consegui conter o sorriso que rompeu para fora de mim, meu coração batia feliz. Ela estava mentindo! Nunca uma mentira me deixara tão feliz.
– Por que esse sorriso na cara hein? – perguntou incomodada.
Não conseguia deixar de sorrir, a felicidade estava grudada na minha cara, pra sempre.
– Nada, Fêzinha. Vamos embora, sim? Já colocou o cinto?
Ela me encarava desconfiada.
– Hã – resmungou, colocando o cinto de segurança.
Pisquei para ela e liguei o motor do carro. Logo, contornamos o chafariz e então saímos. Eu liguei o som baixinho enquanto dirigia pela ruas adormecidas da cidade. Não podia negar que estava adorando tudo aquilo. Descobrir que Fernanda queria que tudo aquilo tivesse sido real, fora realmente uma grande surpresa para mim. Eu estava bem feliz, era uma felicidade que eu não podia explicar, era uma ansiedade que me agitava por dentro, um sentimento parecido com esperança, expectativa. Era um turbilhão de sensações mescladas dentro de mim. Era bom, mas tinha seu lado ruim — eu podia estar criando toda aquela coisa em minha mente. Mas não! Ela disse, ela mordeu os lábios exatamente como faz quando mente, ela estava mentindo quando negou, eu sabia que sim, tinha essa certeza comigo.
Mas havia um problema, sim, que só depois eu pesei e muitas desconfianças então surgiram: seria mesmo possível aquilo, que ela quisesse, que ela estivesse sentindo as mesmas coisas que eu? Eu a observava de canto de olho, tentando pegar qualquer coisa que fosse no ar, alguma reação dela, mas Fernanda permanecia quieta, sonolenta enquanto encarava a cidade pelo vidro do carro... E, naquele momento, eu soube que seria capaz de pagar todo o dinheiro do mundo por seus pensamentos, só para saber o que estava acontecendo em sua mente, onde estariam seus pensamentos, em que mundo ela estaria agora. A simples ideia de que ela correspondia ao que eu sentia, já me fazia soltar rojões por dentro.
Mas, afinal, o que eu sentia? Essa era a pergunta que eu devia ter feito desde o começo. O que eu sentia por aquela garota? Seria algum tipo de atração física apenas, por Fernanda ser linda, por ela estar sempre tão próxima? Seria talvez aquele amor de amiga, de irmã, de confidente, aquela coisa de proteção e apenas isso? Eram hipóteses que eu não podia deixar de considerar, até porque eu mesma não sabia qual era a verdadeira. Mas algo bem no fundo do meu coração, aquele algo que nós nunca paramos para sentir, aquela intuição, isso me dizia que nenhuma dessas hipóteses eram as corretas. O que eu sentia por Fernanda Nogueira não era só uma atração física e jamais seria um amor de irmã. O que eu sentia por ela era mais forte, era uma necessidade, uma vontade de tê-la sempre por perto e só para mim, de pegar e cuidar, nunca mais deixá-la ir. E diante da descoberta de que eu poderia estar me apaixonando pela minha melhor amiga, meu corpo inteiro se retesou. Era uma loucura, e seria a maior burrada que eu poderia fazer, nutrindo algo desse gênero por ela! Não seria?
Minha tênue e confusa linha de raciocínio se rompeu quando parei diante do prédio onde Fernanda morava. Ela havia passado por um sono leve e eu nem havia notado, de tão absorta que estava em meus pensamentos. Eu a chamei delicadamente, e ela despertou rápido.
– Chegamos, Fê – avisei em voz baixa.
– Acho que eu dormi – ela disse meio confusa, esfregando os olhos. Era uma cena que eu não me cansaria de ver jamais.
– Passou por um cochilo rápido, mas não tem problema. Espere, eu te ajudo a sair – destravei meu cinto e desci, indo até a porta dela. Abri e ofereci a mão. — Vem.
Ela se apoiou em minha mão e desceu do carro com a sacola com as suas roupas e a ankle boot na mão, meio cambaleante. Eu passei meu braço em volta de sua cintura, pegando com minha mão livre as coisas que ela carregava. Fechei a porta do carro com o pé e a acompanhei até o toldo da entrada do prédio.
– Vai ficar bem, não vai? – perguntei. Meu braço ainda estava em sua cintura e ela não fizera nenhum movimento para se livrar, suas mãos estavam apoiadas em meus ombros. Eu não reclamei, nunquinha que reclamaria.
Ela piscou demoradamente, então forçou os olhos a se abrirem e deu um sorriso fraquinho.
– Vou sim, Is. Só estou com muuuito sono, muito mesmo, nossa – ela esfregou o rosto com as mãos, como se aquilo fosse espantar seu sono.
– Então vai descansar, vai pequena.
Ela colocou as mãos em meu rosto, e eu fechei os olhos – suas mãos estavam tão quentinhas, seu toque era tão gostoso. Abri os olhos devagar, sentindo o cansaço pesar também sobre meu corpo.
– Você também está morrendo de sono, não é? – fez bico.
– É, eu estou também – admiti. – Mas logo chego em casa e descanso, não se preocupe com isso.
– Quer dormir aqui comigo hoje? – ela perguntou de repente, em voz baixa.
Uni as sobrancelhas. O que ela disse?
– Dormir aqui, Fê? Com você?
– Sim, Izie. Aqui, comigo. Você está com os olhos desse tamanhozinho assim ó – ela fez o gesto com os dedos, mostrando entre seu indicador e polegar um espaço bem pequeno. – E ainda tem que dirigir, de novo. Eu vou ficar preocupada.
Foi inevitável não sorrir, um sorriso cansado, com a carinha que ela fazia.
– Amorzinho, você está com tanto sono que quando capotar na cama, não vai nem lembrar mais seu próprio nome, menos ainda de se preocupar comigo. Eu vou ficar bem, prometo, ta bom?
– Mas, mas... Você não quer ficar aqui comigo, é isso? – Se ela continuasse fazendo aquele bico eu não ia resistir.
– Não é isso não, pequena. Eu só... Eu não quero invadir seu espaço, entenda. E você precisa descansar, tipo, agora mesmo, sua zumbi – respondi dando um beliscão fraquinho em seu queixo.
– Não, não entendo essa desculpa esfarrapada. Eu queria que você ficasse – fez uma carinha cansada de aborrecimento.
Ok, aquilo era novo. Ela queria que eu ficasse com ela?
– Você quer que eu fique? – perguntei incerta.
– Eu quero.
– Mas por que?
– Porque... Porque eu quero Is, porque eu quero. Ai, quanta pergunta! Não estou raciocinando direito nesse momento, poxa vida. Eu só não quero que vá embora...
Por fora eu tinha as sobrancelhas unidas, em dúvida. Mas por dentro, eu sorria largamente ao ouvi-la dizendo que não queria que eu fosse embora. E eu estava realmente muito sonolenta para dirigir outra vez. Talvez eu pudesse ficar, não? Que problema teria? Eu estava bem cansada mesmo, era só unir o útil ao agradável e tudo ficaria bem. Esse era meu coração falando, coração esse que estava amolecido naquele instante. Mas, antes que meu cérebro ranzinza interferisse e acabasse com toda a magia do momento, eu respondi:
– Está bem. Eu fico, Fê. Se você quer mesmo.
– Fica mesmo?! – ela estava animada, mesmo parecendo tão cansada. Eu assenti positivamente e ela enlaçou os braços em meu pescoço num abraço. – Eba. Então, vem, vamos
– Calma pequena, deixa só eu estacionar meu carro ali atrás, ta bom? Porque aqui está bem na frente dos portões do
– Está bem, eu espero – ela assentiu.
Tirei meu carro de frente do prédio e consegui uma vaga alguns carros para trás, de frente para uma padaria. Me certifiquei de que tinha tirado todos os meus pertences – carteira, celular, documentos e chaves – de dentro do veículo, então dei o alarme e fui novamente ao encontro de Fernanda, que já logo ficou radiante ao me ver voltando. Realmente estava sendo uma surpresa pra mim presenciar aquele lado dela, onde queria que eu ficasse com ela e não fosse embora naquela noite. Confesso que eu jamais teria sugerido aquilo, pois teria medo de que ela fosse pensar alguma coisa errada sobre minhas verdadeiras intenções por trás disso – e eu, ao contrário dela, nunca pensaria tal coisa, pois sabia que não havia nenhuma intenção distorcida por trás de seu pedido. Talvez ela só quisesse companhia, a minha companhia, pois não queria ficar sozinha. Qual era o problema nisso? Eu não via nenhum, então, como também estava me sentindo exausta para dirigir até meu apartamento, não hesitei mais em aceitar. Se ponderasse demais, encontraria mil e um motivos para ir embora, e eu não queria deixá-la.
Eu não queria deixá-la. Pensar assim só me deixou mais apreensiva com meus sentimentos. Eu não sabia como era possível que depois de todos esses anos ao lado Fernanda eu pudesse estar me apaixonando por ela. Sabia que era uma grande enrascada, ela nunca sentiria o mesmo que eu, ou pelo menos era a afirmação mais lógica e que fazia mais sentido para mim, afinal, até onde todas nós sabíamos, Fernanda não era gay. Se bem que eu nunca a havia visto com nenhum garoto, a não ser na oitava série, quando eu e as meninas armamos para ela ficar com Hugo, um menininho lá que gostava dela. Foi a única vez, e ela só ficou com ele no dia, depois fugiu do coitado como o diabo foge da cruz. Nós tivemos momentos bem engraçados no Hermano Ferreira de Assunção, tinha que admitir, sentia falta. Eu pensava em todas essas coisas enquanto estávamos no elevador do prédio, e fazia carinho no cabelo de Fernanda que havia deitado a cabeça em meu ombro.
Mas, voltando ao real assunto do momento... Ao todo, Hugo fora o único garoto com o qual eu a havia visto ficar. Mas também nunca a havia visto com nenhuma garota, então isso poderia não significar nada, certo? Talvez ela só fosse discreta, e de repente me senti muito grata por isso, pois só de imaginar qualquer outra pessoa ali em meu lugar, abraçando-a, fazendo carinho em seu cabelo, cuidando dela, isso me enraivecia por dentro. Por hora, ignorei aquilo, mas era algo que realmente me deixava curiosa — qual era o verdadeiro motivo de eu nunca tê-la visto com alguém? Nós então chegamos ao sétimo andar e saímos do elevador. Seu apartamento era o número sessenta e quatro. Ela pegou as chaves que estavam dentro da sacola que eu havia colocado suas roupas, abriu a porta e entrou primeiro, parando logo ao lado, fazendo um gesto para que eu passasse. Pedi licença e entrei.
O apartamento dela era muito bonito e bem decorado — não esperava menos, já que a paixão dela era decoração de interiores. A pintura era sempre clara, o que dava um ar leve e agradável à sala com móveis brancos e escuros, em mogno. O sofá era de couro preto, havia uma mesinha redonda de centro sobre um tapete bege felpudo, e na parede um painel de madeira imbuia (n/a: foto exemplo) envernizada, com uma TV grande de LED embutida. Embaixo, um home-theater em branco e preto, com o aparelho de sinal à cabo e alguns quadros e vasos decorativos. Era a primeira vez que eu entrava em seu espaço, mas sentia como se já tivesse estado ali antes, aquela famosa sensação de deja vu. Fernanda deixou as coisas sobre o sofá.
– Pode ficar à vontade hein, Izie, nada de frescuras. Não me obrigue a te bater, estou muito cansada pra isso – ela anunciou.
Sacudi a cabeça, dando um sorriso.
– Sim, senhora. Então, onde fica o banheiro? Antes que eu durma em pé aqui mesmo – murmurei piscando os olhos com força. O sono estava demais.
– Pode usar o meu, aqui, vem comigo – ela me chamou e eu a segui.
Nós entramos em seu quarto e eu não pude deixar de ficar surpresa, era muito bonito, também em tons claros. A cama era larga, de casal, coberta com um edredom vermelho e lençóis e fronhas brancas, e a parede atrás fora pintada com grafiato, num verde bem clarinho. Havia uma pequena mesinha de cabeceira branca ao lado direito (olhando de frente), onde tinha um abajur do modelo Cúpula, preto, e um livro ao lado. O guarda-roupa cobria a parede esquerda, era branco com detalhes escuros e amadeirados. Na parede direita, havia uma mesa de mogno com alguns quadros de fotografias, seu notebook em cima, um par de caixinhas de som e uma cadeira giratória. Ainda, de frente para a cama, havia outro painel, diferente do da sala este era mais claro, nas cores doral e preto, com outra televisão LED embutida, e o aparelho de sinal à cabo ficava logo abaixo em uma prateleira embutida no próprio painel. Todos os detalhes eram muito bonitos, mas o que eu mais havia gostado era o perfume que estava no ar – era o cheiro dela, aquele cheiro que eu tanto gostava. A porta do banheiro ficava logo ao lado de onde terminava o guarda-roupa.
– Pode ir, Izie. Eu vou ver uma roupa mais confortável pra você poder dormir – ela disse indo para o guarda-roupa e eu apenas assenti. Com o sono que estava, dormiria de qualquer jeito, francamente, então nem impliquei.
Fui para o banheiro, que, claro, era bonito como o resto da casa — box de vidro, pia de mármore claro com um grande espelho logo acima. Usei o banheiro, lavei meu rosto que estava marcado pelo cansaço e então saí, encontrando Fernanda já em sua roupa de dormir que era muito pequena para a minha sanidade, principalmente aquele shorts! Ela estava sentada na cama, e apontou para o conjuntinho de dormir que havia colocado ao seu lado.
– Peguei esse pra você, se não tiver problema — falou. Era um conjunto quase igual ao que ela usava, só mudava a cor.
– Está ótimo, Fê. Obrigada — agradeci. Tirei meu scarpin e ela disse que eu podia deixá-lo perto da mesa, e foi o que eu fiz.
Eu já começava a desabotoar minha calça quando escutei ela dizer:
– Aí você pode tirar a roupa lá no banheiro e... — eu me virei para ela ao mesmo tempo em que ela olhava para mim, eu já estava com a peça de roupa na mão. Ela abriu a boca para dizer alguma coisa, mas não emitiu som algum. Notei seu olhar em meu corpo, e estreitei os olhos, segurando um sorriso. Ela sacudiu a cabeça e desviou o olhar. Murmurou: — Deixa quieto. De qualquer forma, pode deixar suas roupas aí em cima da cadeira mesmo, não tem problema — falava e gesticulava sem me olhar.
Me permiti um sorrisinho discreto.
– Claro, tudo bem — respondi normalmente, fingindo que não tinha me atentado àquele detalhe. Depois que eu estava devidamente vestida, voltei a me pronunciar: — Olha, Fê, eu aceito um travesseiro e um lençol para eu poder ir lá para a sala, já está ótimo.
– Claro, aí quem sabe eu não pego um colchonete e jogo lá no chão pra você dormir, não é mesmo? — ela falou, mas eu estava tão cansada que nem notei o sarcasmo em sua voz, e logo concordei porque me pareceu uma ótima ideia, até dormir no chão me parecia ótimo naquele momento. — Mas é claro que não, né Izie! Quem falou que você vai dormir na sala? Faça-me o favor. Eu durmo lá, você fica com a cama. Fim de papo.
– Nem pensar! Eu sou a visita, nunquinha que ia deixar você dormir no sofá para eu poder dormir na sua cama. Muito engraçadinha mesmo, só pode estar de piada.
– É isso ou nada feito — cruzou os braços, ficando de pé.
– Fernanda, não vamos discutir isso, ok? Você dorme na sua cama, eu fico na sala. Me dê o travesseiro e o lençol de uma vez — resmunguei.
– A cama é grande — ela rebateu. Estreitou os olhos. — Dormiremos juntas! Está feito.
– Ótimo — concordei. Mas logo minha ficha caiu e eu abri bem os olhos. — Espera, o que?!
– É isso que ouviu. Você dorme comigo, nós duas dormimos na cama, e todo mundo dorme feliz. Sem reclamações.
– Mas, Fernanda...
– Eu disse: sem reclamações! — apontou para mim e eu me calei. — Assim está melhor.
– Não acho que seja uma boa ideia — murmurei emburrada. Dormir na mesma cama que ela?! Eu definitivamente não tinha planejado aquilo.
– Oras, e por que? Tem espaço de sobra aqui, Izie. Largue de frescura e vem deitar — ela já puxava a coberta, sentando na cama novamente.
Ela estava decidida – assim como o meu "destino" para aquela noite. Não sei que ideia maluca era aquela agora. De qualquer forma, não podia negar que a cama estava muito convidativa, meu corpo cansado gritava por aquele colchão e aquele travesseiro que me pareciam muito, muito confortáveis mesmo. Suspirei derrotada. Com o sono que eu estava e muita fé, eu dormiria super rápido e nem daria tempo de me dar conta que Fernanda estava deitada bem ao meu lado naquele shorts minúsculo que deveria ser proibido para ela. Arrastando os pés, fui para o lado esquerdo da cama e me ajeitei, mesmo ainda um pouco contrariada. Fernanda levantou e acendeu o abajur para poder enxergar o caminho de volta para a cama depois que apagou a luz do quarto. Ela se ajeitou na cama.
– Boa noite, Izie. E se eu acordar no meio da madrugada e te encontrar na sala, vou te bater, já estou avisando desde agora – alertou.
Suspirei.
– Eu não vou pra sala, coisa chata – estalei a língua. – Boa noite, Fê. Dorme bem.
– Dorme bem também, coisa implicante – ela devolveu o "elogio", apagando o abajur. Funguei um sorriso. – Espero que não se importe, e obrigada. – Quando eu ia perguntar ao que ela se referia, não precisei...
No momento seguinte ela estava se ajeitando perto de mim, a cabeça em meu ombro, o cheiro gostoso de seu cabelo me invadindo por completa. Meu corpo ficou tenso ao sentir seu braço sobre minha barriga, sua perna encostada na minha, o calor de seu corpo incendiando o meu debaixo do edredom. Engoli em seco, controlando meus hormônios à flor da pele. Aquela proximidade me afetava demais, mas eu não poderia afastá-la porque teria que exteriorizar tudo isso, então tentei relaxar.
– Ah, claro. Não me importo. Fique à vontade. Está bem confortável aí, madame? – falei num tom de brincadeira.
– Muito confortável mesmo, já que perguntou – respondeu com um sorriso na voz.
– Isso é o que importa, então – respondi, dando um sorriso de derrota. Aceitei que seria daquele jeito, seria minha noite de martírio.
Apesar do sono que me consumia, eu ainda estava com os olhos abertos alguns minutos depois, associando aquelas últimas horas com Fernanda – que, naquele momento, já devia estar dormindo, pois estava quietinha em meus braços. Tudo tinha sido muito confuso em minha cabeça. Aquele quase beijo no jardim, quando me abraçou por trás lá no quarto, ela dizendo que queria que fosse de verdade nosso namoro, me pedindo para ficar com ela naquela noite e então me chamando para dormir em sua cama e deitando perto de mim. Era tanta coisa, tantos detalhes, tantos significados... Meus pensamentos foram interrompidos quando Fernanda se mexeu e levantou o rosto para mim – ela ainda estava acordada? Com a pouca iluminação que vinha da rua refletida através janela acima de nós coberta por uma fina cortina, eu podia ver de leve o contorno de seu rosto no escuro. Seus olhos estavam quase fechados, pesados. Olhei para ela, esperando que ela fosse dizer alguma coisa, mas ela fez algo que eu jamais esperaria, talvez nem em meus sonhos aquilo acontecesse! Ela se aproximou e seus lábios tocaram os meus de uma forma sutil, suave, e eu não consegui me mexer, apenas me permiti sentir o calor e a textura. Não durou muito, logo ela se afastou.
– Obrigada pela noite inesquecível, Izie – ela sussurrou.
Meu coração batia forte; com certeza ela poderia ouvir, mas eu não conseguia acalmá-lo.
– Como eu prometi, não é? – respondi na mesma altura de voz, dando um sorriso suave.
Ela assentiu positivamente, sorrindo. E com aquele sorriso nos lábios, ela adormeceu.
Mas o que tinha acabado de acontecer ali?
Naquele momento, minha mente confusa e sonolenta conseguiu ligar fatos que eu mesma não tinha ligado quando estava em plena consciência. Os olhares que Fernanda me lançava alguns anos atrás / o modo ela havia me olhada agora a pouco enquanto eu me vestia. Quando ela disse que todos os momentos ao meu lado eram inesquecíveis. A voz de Claire em minha cabeça dizendo: "Se você fosse um pouco mais atenta, notaria". O jeito como ela se aninhara perto de mim para dormir, o beijo que me deu, as palavras que dissera... Meu Deus! Será que era possível o que eu estava pensando: será que Fernanda sentia algo por mim?
Eu adormeci pensando nisso, mortificada com aquela possibilidade. Não poderia ser real... Ou poderia?
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