Paraíso Proibido
17 Capítulo 17. Litoral - I: Pé na Estrada
Notas iniciais
Claire PDV {Claire: Ponto de Vista}
Eu estava bem empolgada para aquela semana no litoral. Realmente eu era um gênio! Claro que tive que fazer uma manha com meus pais para eles me liberarem as chaves da casa, mas quando disse que iríamos apenas nós, as meninas, eles deixaram de pensar demais e cederam. Liguei para Fernanda, e para Alisson e Amanda também, na sexta-feira e avisei que iríamos naquele domingo para aproveitar melhor os dias lá — até porque não podíamos aproveitar assim que chegássemos, tínhamos que descarregar os carros, ajeitar as coisas e tudo o mais, abastecer os armários e geladeira, íamos perder o dia todo nessa correria, tinha certeza. Mas eu não ia reclamar, no final seríamos recompensadas com a semana inteira para curtir! Estava até vendo que aquele sábado ia se arrastar, só para me deixar ainda mais ansiosa.
E foi exatamente o que aconteceu. Realmente ainda não sei dizer como minhas unhas sobreviveram àquele sábado de pura ansiedade. Liguei para Alisson para ver se ela não queria sair comigo, fazer alguma coisa, dar uma volta no shopping, qualquer coisa para que eu saísse daquele confinamento, mas ela disse que tinha marcado algo com Amanda. Na moral, povo, tinha algum caroço por baixo desse angu, me ouçam! Alisson e Amanda tão próximas assim, de repente? Não, não, algo estava me cheirando esquisito. Até porque, se fosse um simples passeio, ela poderia ter me incluído, não é? Claro, nós fazíamos isso o tempo todo. Mas ela pelo jeito nem cogitou me chamar para ir junto. A pulga atrás da minha orelha já estava dançando ragatanga de tanta curiosidade! Eu odiava ficar curiosa, de verdade. Por que elas faziam isso comigo? Tsc.
Em resumo, aquele sábado foi cheio de nada. Fiquei o dia todo estirada no sofá, alugando filmes de todos os gêneros, comendo muita besteira para evitar roer todas as minhas unhas. Na hora de dormir, eu caí na cama depois de um banho e fiquei encarando o teto do quarto. Sono? O que era isso? Bufei contrariada porque eu sabia que a ansiedade não me deixaria dormir direito naquela noite, e eu provavelmente acordaria bem mal humorada e despreparada para o começo da melhor semana daquele segundo semestre do ano. Tentei ouvir música clássica, que me deixava com sono, mas nem assim consegui dormir. Tirei os fones do ouvido, reclamando, me remexendo na cama. Pensei em ligar para Fernanda, mas o relógio marcava três e meia da manhã, ela provavelmente estava dormindo e ia querer me matar — isso se ela e a Izie não estivessem no meio de alguma coisa que eu realmente não queria interromper. Ew. Enfim.
Ligar para Alisson ou Amanda, estava fora de questão, eu não ia me aguentar de curiosidade e ia começar a questionar, e acordar alguém as três da manhã para perguntar aquelas coisas realmente não era algo muito legal de se fazer. Eu podia ser inconveniente as vezes, simplesmente porque era legal — e daí? -, mas não às três e meia da manhã né. Estava fuçando minha agenda de contatos, vendo quem seria minha vítima daquela madrugada insone. Vi o nome do Dan, um amigo nosso que havia se formado ano passado e eu já não falava com ele havia um tempo — nós havíamos ficado uma época, mas sabe Deus o que ele estava fazendo da vida atualmente. Provavelmente agora também estaria dormindo e ia me odiar se eu ligasse para ele. Vi outros nomes que eu poderia vitimar, mas eu não queria falar com nenhuma dessas pessoas, que droga.
Então, parei subitamente quando cheguei na letra R da agenda. O primeiro nome da letra: Rafaela. Meus pensamentos se voltaram para aqueles olhos azuis intensos me encarando profundamente, o sorriso de covinhas, seus cabelos negros... De verdade, eu não sabia como aquela garota podia mexer tanto comigo! Isso não era nem um pouco normal. Eu nunca me senti atraída por garotas, por mais que eu sempre fosse de admirá-las, mas nunca porque eu me interessava nelas — na maioria das vezes eu estava falando sobre a roupa ou os sapatos, sobre o cabelo, fosse feio ou bonito; ou até mesmo secando o namorado delas. Eu sempre gostei de garotos, e a chegada daquela ucraniana tinha me bagunçado todos os pensamentos. O que será que ela estava fazendo comigo, meu Deus?
Sem pensar demais, cliquei em seu contato e disquei seu número. Respirei fundo no primeiro toque. Não sabia se devia fazer isso, nem saberia o que dizer para ela se ela atendesse! Tocou uma, duas, três vezes... Era óbvio que ela estava dormindo. Estalei a língua, aborrecida. Não devia ter feito aquilo! Quando ia desligar a ligação, escutei sua voz do outro lado:
– Claire?
Me xinguei de todos os palavrões existentes. Saco!
– O-oi — gaguejei, palmas.
– O que... Está tudo bem? Sabe que horas são?– ela não perguntou na grosseria, parecia preocupada. Sua voz ligeiramente rouca de sono deixava ela uma graça. — Aconteceu alguma coisa?
– N-não, não aconteceu nada, eu... Desculpa, eu não deveria ter te ligado, está tarde mesmo, desculpa... — apertei os lábios, me xingando mais um pouco.
– Relaxa, não tem problema, eu já estava dormindo há bastante tempo. Se você está bem, então isso é o que importa. Mas... Por que exatamente me ligou?
– Er, eu... Eu não consigo dormir, acho que estou meio ansiosa para amanhã. Ah, eu não consegui te avisar, mas nós vamos viajar amanhã de manhã, quer dizer... Daqui a pouco– disse me sentindo culpada. — Tudo bem pra você?
– Claro, sem problemas, Claire. Amanhã, quer dizer, daqui a pouco - ela deu uma risada de leve — está perfeito.
– Tudo bem, ótimo — dei um sorriso. — Er, então... Desculpa ter te acordado, eu... Eu vou desligar pra você poder descansar, ta bem?
– Mas e você? Vai conseguir dormir?
– Não prometo nada, estou sem um pingo de sono — confessei. — Insônia, sabe como é. Mas não precisa se preocupar, eu me viro aqui, logo logo eu apago... eu acho.
Pude perceber que ela sorriu.
– Sei como é. Já sofri de insônia um tempo atrás, é ruim mesmo. Mas eu posso ficar falando com você até te dar sono, se quiser– ela disse de um jeitinho fofo.
Por um momento achei aquilo uma ótima ideia. Mas não, não era justo com ela.
– Não, Rafa, está tudo bem. Não é justo, eu te acordei, você pode voltar a descansar — falei convicta.
– Tem certeza?
Quase mudei de ideia. Quase.
– Sim, tenho. Tranquilo.
– Você... Você não quer vir aqui no meu apartamento? - ela perguntou devagar.
Por um momento eu fiquei em silêncio, processando aquelas palavras. Ela perguntou o que?
– Er... Ir n-no seu apartamento? — balancei a cabeça. Será que eu tinha entendido errado?
– Sim. Quer dizer, sei lá, se você achar que não vai conseguir dormir e quiser companhia...
– Ahn... E-eu não sei, Rafa, eu.... Eu nem sei onde você mora. — Usei isso como desculpa. Era verdade, mas afinal, o que eu iria fazer no apartamento dela no meio da madrugada?!
Ela riu de leve.
– Eu vou te passar as coordenadas, está bem? Preste atenção: você sai do seu apartamento e segue em direção do elevador. Quando estiver lá dentro, você aperta o número doze. Meu apartamento é o 210 - ela disse com um sorriso.
Hã?
– Como ass... — Minha ficha caiu, então. — Espera... Está me dizendo que mora no mesmo prédio que eu, no décimo segundo andar? — me alarmei. What?!
– Isso mesmo. Você não sabia, não é?
– Eu... Eu não fazia a menor ideia! Quer dizer, como nunca nos encontramos, se você mora no mesmo condomínio e no mesmo prédio que eu? Isso é loucura — disse meio desacreditada, o que arrancou outra leve risada dela.
– É, eu sei. Bem, como você sabe, me mudei para cá faz pouco tempo, eu te disse que estava arrumando as coisas ainda e tal. Talvez tenham sido desencontros de horário, por isso nunca nos encontramos no condomínio. Mas eu já te vi uma vez, saindo do prédio, quando estava entrando em meu carro. Eu também fiquei bem surpresa, acredite.
Funguei um sorriso.
– Caramba, por essa eu não esperava, sério. Mas... É até legal, não é? Quer dizer, minhas amigas moram há alguns quarteirões daqui e, bem... Não que eu reclame, é só que... É bom ter alguém mais perto. — Sei lá o que eu estava falando, cara! Só sei que fiquei realmente feliz por saber que ela morava no mesmo condomínio e prédio que eu. Que ironia do destino, fala sério, hein?
– Claro, é legal sim. Mas, bem, eu só dei a ideia de você vir aqui e se não quiser tudo bem, não tem problema– ela se apressou em dizer.
E eu, estupidamente, me apressei ainda mais:
– Não, tudo bem. Eu vou, se não for te incomodar — respondi. Que se lasque, eu ia! — Mas eu vou de pijama! São quase quatro horas da manhã e estou com muita preguiça de me arrumar.
Ela fungou um sorriso.
– Sem problemas, Claire. Já sabe o andar e qual é o apartamento. Eu vou levantar e colocar uma roupa. Até daqui a pouco.
– A-até... — desligamos a ligação.
Ok, ela ia colocar uma roupa. E ok, ela dormia sem roupa. Mas isso era normal, não é? Ela morava sozinha... Já comecei a imaginar um monte de besteira e fiquei até assustada por estar pensando naquelas coisas. Caramba! Sacudi a cabeça e levantei da cama, jogando o edredom para o lado. A única coisa que fiz foi ajeitar meu cabelo castanho claro, com corte na altura do ombro, que estava um fuá gigantesco, então bebi uma água e segui para a porta. Ainda hesitei um pouco, sabia que estava fazendo uma grande loucura — afinal, quem vai no apartamento de uma amiga barra colega barra conhecida, que fosse, em plena madrugada e sem um motivo aparente? Eu só podia estar louca mesmo! Me xingando ainda mais, peguei minhas chaves, apaguei a luz e saí.
Dentro do elevador, respirando fundo e soltando o ar com força, apertei o número doze. Quando o elevador parou e eu saí, me senti mais louca ainda. Trincando os dentes, segui até o apartamento com o número que ela havia me dito — duzentos e dez. Estendi a mão para a campainha, mas recuei, apertando os lábios. Eu não deveria, eu não deveria! Ai, que droga. Passei a mão no rosto e bufei. Dane-se. Toquei a campainha.
Demorou apenas alguns segundos para que eu escutasse o barulho de chaves do outro lado, e então a porta finalmente se abriu. Como tinha acontecido da primeira vez, eu fiquei parada com aquela cara de otária, encarando seus olhos azuis, sem reação. Na boa, isso acontecer toda vez que eu olhasse para ela? Ela abriu aquele sorriso, o sorriso que revelava suas covinhas.
– Entra — ela fez um gesto, me dando passagem. Sorri de volta e pedi licença. — Fica à vontade. Só não repara muito na bagunça, ainda não terminei de colocar tudo em seu devido lugar.
Como que eu ia reparar na bagunça quando ela estava usando uma roupa tão curta como aquela, me diz?! Ela usava um shortinho preto curto, de pijama mesmo, e uma blusinha branca. Não pude evitar notar que ela tinha um corpo realmente lindo, as curvas eram proporcionais e sem exageros, as pernas à mostra eram definidas, mas não musculosas exatamente, só... firmes, como se ela fizesse bastante caminhada. Sua pele branquinha, com um leve bronzeado natural, me parecia bem macia ao olhar, devia ser ainda mais macia ao toque... E esse era o tipo pensamento que me assustava.
– Relaxa, sem problemas — falei depois desse lapso mental. Ela já tinha fechado a porta e virado para mim. — Desculpa, de novo, por ter te acordado essa hora, sério.
Eu juro que tentei prestar atenção no apartamento, mas não conseguia. Tudo o que ficou gravado na minha mente foi que as paredes eram de um verde bem clarinho e branco, sempre em tons claros, e as decorações em preto e amadeirado. Não me pergunte mais nada, porque aquele mini shorts dela estava me tirando toda a concentração. Mas que diabos! Pare de olhar, Claire, pare de olhar... Meus olhos eram bem teimosos, acreditem. E os pensamentos então, um tanto descontrolados.
– Imagina, Claire, não cisma. Estou passando um cappuccino. Você quer? — ela perguntou com um sorriso.
– Ahn, eu... Eu aceito — respondi, sorrindo de volta.
– Então vem — ela fez um aceno e me guiou até a cozinha.
A cozinha eu já saberia descrever um pouco melhor. Era toda em preto e branco, com um balcão no centro, no melhor e mais modesto estilo americano. A geladeira era de aço inox escuro, e pia era de mármore branco, a torneira daqueles modelos com chuveirinho, o que era bem útil — eu precisava investir nisso, odiava lavar louça. Ou melhor, eu investiria em uma máquina de lavar louças, é, muito mais genial e prático. Cortei esses pensamentos, sacudindo disfarçadamente a cabeça.
Ela disse que eu podia me sentar em um dos bancos altos ao redor do balcão, e eu assim o fiz — até porque dali, com ela de costas, eu podia olhá-la sem medo de que ela fosse me pegar no flagra. Àquela altura do campeonato eu já tinha desistido de tentar controlar meus olhos e pensamentos. Algumas vezes ela desviava o olhar na minha direção, mas eu dava uma disfarçada, e mesmo assim eu podia perceber que ela me media de cima à baixo — acho que meu shorts não ficava muito atrás do dela, na verdade, então era de se entender, eu me familiarizava com essa sensação: de querer ficar olhando até os olhos caírem e fim.
Claro que isso não me deixou menos desconcertada com os olhos dela sobre mim, mas enfim. Quando a máquina de cappuccino terminou seu serviço, ela pegou um pote redondinho onde tinha umas bolachas salgadas e, na geladeira, pegou pasta de amendoim. Ai, senhor, pasta de amendoim! Me segurem.
– Você deve ser algum tipo de vidente, não é possível — falei com os olhos estreitos, e alternei o olhar entre ela e a embalagem da pasta.
– Você também gosta de pasta de amendoim? — ela perguntou com um sorriso largo.
– Ta brincando? É a melhor coisa que existe na face da Terra! — exclamei. Mas logo me acalmei. — Ok, acho que exagerei, mas sim, eu gosto. Muito. Só que nunca lembro de comprar quando a minha acaba, o que é triste, eu realmente sou bem avoada dentro de um supermercado — apertei os lábios.
Ela riu.
– Bem, então eu me lembro de trazer uma pra você sempre que eu fizer compras — ela piscou para mim. Senti meu rosto queimar um pouco. Ótimo, agora eu ia corar com as reações dela. Perfeito, era só o que faltava mesmo.
– Vou agradecer — disse num tom de voz divertido.
Depois disso, nós tomamos o cappuccino e eu me contive para não acabar com a pasta de amendoim dela — foi realmente um teste de resistência. Nós ficamos por ali, conversando sobre tanta coisa que eu simplesmente não saberia listar todas. Falamos sobre filmes, músicas e até livros; descobri que ela adorava ler, coisa que eu também gostava, tinha uma prateleira cheia deles. Descobri também que tínhamos quase o mesmo gosto para música: ela gostava de música clássica (violino, piano, harpa, flauta, orquestras e afins), indie, pop rock, pop, eletrônica, r&b, e até folk. Escutava de tudo um pouco.
Filmes ela gostava de romance, comédia romântica e, "dependendo de seu humor" como ela havia dito, até um suspense ou terror ela assistia, mas não sozinha, pois ela era bem medrosa e achei isso fofo. Eu gostava de todos esses, incluindo policial e investigação, achava bem interessante. Ela concordou que era interessante, só não era o gênero que ela procurava para assistir, mas assistia tranquilamente se alguém colocasse. De livros, ela gostava de romance, drama e ficção cientifica. Lia alguns de fantasia também, mas não eram todos que lhe chamavam a atenção.
Bem, resumindo, nós tínhamos gostos bem parecidos e chegava a me assustar como ela falava coisas com as quais eu me identificava e pensava da mesma forma. Hey JC, amigão, você ta brincadeira comigo, não é? Só pode ser! Enfim. Quando nos demos conta, já estava amanhecendo o dia — e eu estava completamente desperta, nem vestígios de sono. Isso era péssimo, porque aí nós chegaríamos lá no litoral e eu estaria completamente morta, com sono, mal humorada e só ia pensar em dormir o resto do dia. Perfeito. Muito obrigada, ansiedade.
As seis da manhã, eu resolvi voltar para o meu apartamento para poder deixá-la mais a vontade para arrumar suas coisas e eu também precisava arrumar as minhas — coisa que eu devia ter feito no meu sábado cheio de nada, mas quem disse que lembrei disso, ou que tive coragem? Pois é.
– Bem, eu vou indo nessa, Rafa — falei, descendo do banco. — Eu combinei com as meninas às nove, vou dizer para elas nos encontrarem aqui na entrada do condomínio mesmo e daqui seguimos direto. Então enquanto você arruma suas coisas, eu vou arrumar as minhas, tudo bem?
Ela assentiu.
– Tudo bem, Claire, tranquilo. Eu te dou um toque quando estiver pronta — respondeu.
– Perfeito — dei um sorriso, enquanto seguíamos para a porta. — Você me avisa e eu te ajudo a descer as malas. E vamos com o meu carro, que é um pouco maior pras malas e tal, tudo bem? Porque a garagem da casa lá só comporta três carros e eu não quero que nenhum fique na rua — expliquei.
– Ótimo — ela retribuiu o sorriso. — Meu carro não tem um porta-malas muito espaçoso mesmo, então não tem problema algum.
Então, me dei conta de que aquela casa tinha sido feita praticamente toda no ímpar. A garagem só comportava três carros, havia três cômodos grandes (sala de jantar, sala de estar e cozinha), um banheiro no andar inferior e três quartos com suíte. Me deu um clique. Três quartos — nós iríamos em seis pessoas; três quartos = um quarto para duas de nós. Fernanda e Ísis, Alisson e Amanda provavelmente ficariam no mesmo quarto, e... Eu e Rafaela no último. Puta merda! Eu estava com a cabeça no mundo da lua quando convidei ela, deve ser!
– Claire? Que foi? — Rafaela perguntou, me tirando daquele transe momentâneo. Eu estava bem ferrada MESMO. Eu devia estar fazendo uma cara bem estranha pra ela ter perguntado.
– Hum? — foi o som que eu consegui emitir.
Ela uniu as sobrancelhas.
– Você está bem? Ficou quieta, avoada... Ouviu o que eu disse?
– Ahn... — abri a boca duas vezes antes de consegui me pronunciar direito. — Você falou sobre o seu carro, não foi? — perguntei meio incerta.
Ela riu de leve.
– É, foi — assentiu com um sorriso. Ela já havia aberto a porta e eu nem tinha me dado conta.
– Ok, então... Eu vou indo lá — dei um sorrisinho sem graça. — Não deixa de me avisar quando estiver pronta, pra eu te ajudar a levar as coisas até o carro.
– Eu aviso sim. Até daqui a pouco, Claire. — Ela se inclinou para dar um beijo em meu rosto, mas eu não esperava aquilo e me virei por mero reflexo, o que fez seus lábios encostarem de leve nos meus.
Ela se afastou um pouco, meio desconcertada — imagine eu como estava?! — e me olhou, apertando os lábios. Eu devia estar branca feito um papel e com a cara perfeita de quem acabou de ver um fantasma. Mas que diabos tinha acontecido?! Meu Deus, meu Deus, meu Deus...
– Er, e-eu... — balbuciei feito uma idiota.
– Desculpa, foi sem querer... — ela tinha uma carinha de culpa.
– Não, a... a c-culpa foi minha, eu não esperava, eu... E-eu vou indo — apontei para a porta, dando um sorrisinho totalmente sem jeito. Meu rosto queimava, meus lábios onde eu havia sentido seu toque queimava ainda mais. Ela assentiu e deu um sorriso meio tímido.
Eu me controlei para não sair correndo feito uma louca pelas escadas. Apertei o botão do elevador calmamente e, antes de entrar, pude ver que ela ainda estava na porta, esperando eu sair. Dei um aceno tímido, que ela devolveu, e então entrei no elevador e desci para o meu andar novamente — três abaixo; nono andar. Tentei ao máximo me concentrar em fazer minhas malas e deixar meu apartamento todo arrumado, já que ficaríamos uma semana longe dali. Eu não conseguia tirar Rafaela da cabeça e isso estava me matando. Era oficial: eu estava doida. Mais que isso ainda! Agora, depois desse "meio-beijo acidental", meus pensamentos estavam piores. Muito piores. Agora estava começando a achar que aquela semana no litoral ia ser um belo martírio. Ela estaria lá, e estaria de biquíni... De repente uma cena toda se formou em minha mente: ela, toda linda, sentada em uma cadeira de praia, os cabelos balançando levemente com o vento marítimo, passando protetor em seu corpo... Puta merda outra vez!
Peguei todos esses pensamentos, enfiei no fundo de uma gaveta e tranquei, fim! Não ia mais ficar pensando nisso e me martirizando, era ridículo. Na verdade, chegava mesmo a ser ridículo o modo como ela me afetava, eu estava me sentindo muito estúpida. Respirei fundo, tomei uma água e terminei de fazer minhas malas. Ajeitei o que tinha que ser ajeitado, deixei as malas na sala e fui para o banheiro tomar banho. Já tinha separado minha roupa, e não usaria nada pesado porque o sol estava bem quente — essas mudanças climáticas me matavam, sério.
Mas não importava, afinal, quanto mais sol melhor para quando estivéssemos na praia, não é? Sim! Escolhi um look bem simples e casual: um shorts jeans preto, uma regata cinza e nos pés um Vans marrom claro (n/: look Claire– imaginem o cabelo da Claire como o da menina da foto, que é quase como eu imagino ao escrever :). No pulso coloquei uma pulseirinha de prata e um relógio Marc marrom. Estava ótimo para o calor que fazia lá fora. Antes que eu começasse a fazer minhas ligações, já desci e guardei minhas malas no porta-malas da minha Sportage preta.
Olhei no relógio e era quase oito e meia. Como Rafaela ainda não havia me ligado, o que só poderia significar que ela ainda estava se arrumando e ajeitando suas coisas, resolvi pegar o celular e ligar para as meninas e saber se já estavam prontas. Falei com Fernanda e ela disse que em dez minutos estava saindo de seu apartamento e em cinco estava aqui. Mas eu tive que morder infinitamente a língua quando liguei no celular de Alisson e Amanda quem atendeu. Olha o caroço no angu, minha gente! Me controlei e não falei nada além do necessário, e Amanda me respondeu que logo estariam aqui na frente do condomínio. Perfeito. Cinco minutos depois que desliguei a última ligação, a ucraniana me ligou avisando que já estava pronta e ia descer. Eu pedi que ela esperasse que estava subindo para ajudá-la. E foi o que eu fiz. Quando abri a porta do elevador, ela estava de costas trancando a porta de seu apartamento, e tinha uma mala grande preta de viagem parada ao seu lado.
Quando ela se virou, novamente aquele choque azul me assaltou. Mas eu sacudi a cabeça decidida a não deixar aquele olhar dela me abalar o tempo todo. Ela sorriu e eu retribuí o sorriso. Não pude deixar de notar o quanto ela estava bonita, mesmo usando um look simples e casual como o meu — um shorts jeans preto desfiado, uma regata branca, um correntinha no pescoço e um relógio dourado no pulso esquerdo; nos pés usava um Vans decorado (n/a: look Rafa). Os cabelos dela estavam lindos, como sempre, meio jogados, o que realçava o corte em V desfiado em camadas. Ela era linda, e eu não me cansava de falar isso, obrigada. De qualquer forma, me obriguei a não secá-la demais.
A ajudei a levar as malas e, quando estava tudo devidamente arrumado no porta-malas do meu carro, nós saímos do condomínio e estacionei do lado de fora, logo atrás do carro de Alisson que já havia chegado. Ela e Amanda estavam do lado de fora, encostadas no carro, e eu e Rafaela descemos para cumprimentá-las. Fernanda chegou com Ísis logo em seguida. Todas as meninas usavam roupas leves por causa do calor, investindo no shorts jeans e camiseta regata (n/a: look Fernanda ; look Ísis ; look Alisson ; look Amanda – Obs.: as fotos das modelos é para imaginar apenas o cabelo :). Como apenas eu sabia o caminho, eu dirigiria na frente para guiá-las. Depois de trocarmos algumas palavras sobre a viagem, fomos cada uma para seus respectivos carros.
Para onde iríamos, ficava mais ou menos umas duas horas e meia à três horas de viagem dali da capital, com um trânsito bom. O que não era fato naquele dia. Logo que entramos na estrada, o congestionamento começou a se formar. Já respirei fundo, começando a me aborrecer, eu odiava dirigir com trânsito, deixava meus músculos doloridos de tensão e me desgastava mentalmente. Em resumo, era horrível. A viagem que faríamos em três horas, demorou quase cinco horas e meia. Chegou em um trecho da rodovia que estava completamente parado, cheguei até a desligar o motor do carro e, por ficar parada ali sem fazer nada, com o som tocando baixinho, o sono estava começando a me tomar de um modo terrível — perfeito! Meus olhos ardiam, e nem depois de eu ter colocado meu wayfarer achando que poderia ser por conta da claridade, não adiantou.
Chegou um momento, quando a faixa em que eu estava começou finalmente a andar, que eu pisquei tão demoradamente que pareceu que eu tinha dormido por um segundo e acabei perdendo noção do volante, o que fez o carro jogar um pouco para a esquerda.
– Claire?! — Rafaela tocou meu braço, preocupada, e seu toque me fez voltar à realidade.
– Eu preciso encostar o carro urgente, Rafa, é sério. — Falei e dei a seta para a direita, já jogando o carro para a outra faixa para pode chegar ao acostamento. Mas que droga!
Quando consegui chegar ao acostamento, parei o carro e puxei o freio de mão e desliguei o motor, encostando a cabeça em meu braço apoiado no volante.
– Ei, o que foi?! O que está acontecendo? O que você está sentindo? — Rafaela estava preocupada, sua mão estava em meu cabelo, fazendo uma leve carícia.
Eu me endireitei e tirou o óculos, olhando para ela. Minha cara devia estar horrível, pois sua expressão ficou ainda mais alarmada.
– Eu estou morrendo de sono! Não dá mais pra eu dirigir, eu não to aguentando — recostei a cabeça no banco, meus olhos se fecharam sozinhos.
– Ai, caramba — ela murmurou. — Quer que eu dirija, Claire?
– Não dá, Rafa, você não sabe onde fica e as meninas também não. Não vai dar certo.
Ela ficou pensativa por um instante.
– Espere aqui. As meninas pararam atrás, eu vou descer.
Apenas assenti e escutei ela soltar a trava do cinto e abrir a porta, fechando-a em seguida. Ela deu a volta no carro, porque logo em seguida tocou meu ombro através da janela do motorista.
– O que houve, Rafa? — escutei a voz de Fernanda.
– A Claire não está muito bem.
– Claire? — Fê me chamou e eu olhei para ela, quase nem conseguia abrir os olhos. — Minha nossa, garota, de que tumba você saiu?! Que cara de múmia é essa?
– Ela não conseguiu dormir a noite e está acordada até agora...
– Não dormiu nadinha? Caramba...
– E o que nós vamos fazer agora?
– Pega o volante então, Rafa — Fernanda disse, como se fosse a última opção nossa.
– Fê, não tem como — eu me pronunciei, esfregando o rosto com as mãos. — Ela não sabe o caminho, só eu sei!
– Ué, minha filha, estamos em plano século vinte e um e você ainda não sabe pra que serve um GPS? — ela respondeu com ironia. Eu tentei rir, mas estava com muita preguiça.
– Claro, o GPS. Eu posso usar o do meu celular, nós não devemos estar muito longe agora — Rafaela disse pensativa. — As vezes os GPS podem falhar, mas qualquer coisa a gente se informa.
– Está feito então. Ô múmia, pula pro banco do passageiro, vai — Fernanda deu um empurrãozinho em meu ombro e eu rolei os olhos. Soltei o cinto e fiz o que ela disse, logo me ajeitando por ali.
Depois que Rafa já estava ao volante e as meninas tinham voltado para seus carros, passei o endereço para ela, que logo escreveu no GPS de seu celular. Tudo pronto, ela saiu do acostamento e voltou para a estrada. Pude ver que o trânsito já estava fluindo um pouco melhor, mas não vi muita coisa depois disso, o sono estava me matando...
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