Notas iniciais
Espero que goste ♥ Obrigada por estar lendo

Dia 27 de agosto. Finalmente.

Afastei as cobertas, me colocando de pé logo em seguida. Eu não tinha conseguido dormir a noite inteira, ocupando minha mente com fantasias sobre o que aconteceria mais tarde, então não estava tendo que enfrentar toda aquela moleza natural das manhãs.

Abri as cortinas, permitindo que a leve luz da aurora inundasse o meu quarto. O céu estava rosa, pincelado por delicadas nuvens com as bordas alaranjadas, e sem sinal algum de chuva. Dei um pulinho de animação, rezando para que o tempo não mudasse.

Meu quarto ainda estava um caos de roupas jogadas por todos os lados, mas eu não tinha espaço no meu cérebro para me preocupar com isso, ou com o que Mia, minha colega de quarto, faria comigo caso ela visse toda aquela bagunça. Eu só conseguia pensar que era dia 27. E que, em menos de 24 horas, eu estaria assistindo enquanto um dos meus cantores favoritos tocava ao vivo.

Saí do quarto, fazendo o meu melhor para não saltitar de empolgação enquanto ia até o banheiro, mas alguém bloqueou o caminho.

Um homem alto estava parado na frente do espelho da pia, alheio à minha presença. Seus olhos castanhos estavam inchados e o cabelo preto apontava para todas as direções. Ele estava sem camisa, exibindo um corpo musculoso e com algumas tatuagens. Mia sabia escolher bem.

—Noite boa? -Arrisquei, sorrindo. Eu tinha ouvido quando minha colega de quarto voltou para o apartamento de madrugada, conversando com uma voz masculina, então já sabia pelo que esperar.

Ele levou um susto, dando um passo para trás e apertando o tubo da pasta de dente que segurava. Era engraçado ver um cara daquele tamanho ficar tão nervoso.

Esperei uma resposta, mas ele se limitou a me encarar em completo silêncio. Aguentei mais alguns segundos daquela situação tensa, mas meu espírito extrovertido me obrigou a dizer alguma coisa.

—Está planejando sair de fininho? -Eu me estiquei pra apanhar uma escova de dentes na pia.

Ele ergueu as sobrancelhas e ficou em silêncio por mais algum tempo. Eu o analisei, me divertindo.

—Espera... eu dormi com você? -Sua voz ainda estava grogue de sono.

O encarei, atônita. Nunca tinha precisado fazer tanto esforço para segurar uma risada na minha vida.

Respirando fundo, eu tentei formar minha melhor expressão séria e de repulsa. Afinal, eu estava fazendo curso de teatro! Não podia perder aquela oportunidade.

—Você não lembra? -Ergui uma sobrancelha enquanto estendia a mão para ele, gesticulando para que me entregasse o tubo de pasta.

Ele obedeceu, vacilante. Comecei a escovar os dentes, tentando ignorar enquanto ele me olhava através do espelho na nossa frente. Aquele cara devia estar tão chapado...

Quando terminei, ele ainda estava atrás de mim. Seu olhar estava perdido na sala do meu apartamento e ele parecia estar fazendo um esforço enorme para entender tudo ao seu redor. Me virei, apontando a escova de dentes para ele acusatoriamente.

—Eu não acredito que você se esqueceu de tudo. -Ele voltou a me encarar e seu semblante estava tão melancólico que quase me deu pena. Quase.- Bem, eu tenho certeza de que os meus vizinhos não vão esquecer tão rápido. Eles vieram reclamar do barulho umas três vezes ontem e...

Fui interrompida por uma risada alta e familiar.

—Já deu com a tortura, Nicolle.

Minha colega de quarto apareceu ao meu lado, enrolada em lençóis brancos. Eu não precisava olhar mais uma vez para saber que ela não usava nada por baixo. O homem desconhecido a encarou, ainda mais confuso do que antes. Depois voltou a me olhar, um sorriso maroto brincando com os seus lábios.

—Nós três...?

O encarei por um segundo, sem entender. Mia foi mais rápida, desatando em gargalhadas altas e escandalosas.

—O quê? -Me virei para ela.

—Ele está perguntando se fizemos um menáge, bobinha. -Ela bateu no meu ombro de leve.

Senti meu rosto esquentar. Eu devia parecer tão ingênua agora. Tentei segurar um sorriso zombeteiro no rosto enquanto revirava os olhos:

—Ah, isso. Bom, você deve ser muito convencido se acha que conseguiria nos levar pra cama na mesma noite. -Fiz uma pausa, sorrindo. -Mas, caso você queira marcar horários em dias separados... -Brinquei, dando uma piscadinha.

Mia riu, se esticando para pegar sua própria escova de dentes. O desconhecido só me encarou, aparentemente sem saber o que falar. Revirei os olhos de novo, começando a andar até o banheiro.

—Eu tô brincando. Céus, Mia, arranje alguém com senso de humor da próxima vez.

—Nem todo mundo consegue te acompanhar, Nic. Além disso, ele tem outros atributos. -Ela riu, maliciosa.

Fechei a porta do banheiro atrás de mim, cansada demais para continuar aquela conversa. Estranhamente, todas as gavetas do nosso armário de produtos estavam abertas. Comecei a fechá-las, me perguntando o que Mia tinha procurado ali ontem...

Foi quando encontrei uma caixa de camisinhas revirada. Ah, isso. Dei de ombros enquanto começava a tirar o meu pijama, o ar frio fazendo com que meus músculos se contraissem.

Ouvi uma conversa empolgada de Mia e seu acompanhante do lado de fora. Será que eles iriam para um segundo round? Cogitei colocar a caixa de camisinhas em cima da pia, caso eles precisassem de novo.

Ninguém podia falar que eu não era uma boa colega de quarto. Segurei a caixa, mas pensei melhor e a recoloquei no armário, ligando o chuveiro em seguida. Eu não queria correr o risco de que o desconhecido me encontrasse de toalha no meio do corredor com uma caixa de camisinhas.

Comecei a lavar o cabelo, voltando a pensar sobre o que aconteceria naquela noite: Harry Styles, em seu primeiro show da carreira solo no Brasil. Ainda não estava acreditando no quão sortuda eu era por ter conseguido aqueles ingressos na área premium.

Ok, não tinha sido exatamente um questão de sorte. Eu tinha passado a noite toda atualizando o site de vendas para comprar os ingressos no momento em que a oferta estivesse disponível, então não era como se eu os tivesse encontrado no meio da rua.

É, eu sei que devo parecer uma daquelas groupies loucas que não passam mais de dois segundos sem procurar novas notícias dos seus ídolos. Mas, por incrível que possa parecer, eu nunca tinha sido uma fã lunática de One Direction, ou de Harry Styles em especial. Só o último álbum solo do cantor havia me conquistado.

Eu amava a profundidade das letras, a emoção na voz do Harry e a pegada retrô das batidas. Certo, eu sou obrigada a admitir que tinha desenvolvido uma quedinha pelo cantor depois de assistir algumas perfomances, mas a música ainda era o que realmente me interessava. Mais do que o achava gostoso, eu sentia que Harry seria um dos maiores símbolos musicais da nossa geração. Só o pensamento de ouvir sua voz rouca ao vivo me causava calafrios.

Terminei o banho e me vesti com um suéter branco e um jeans bem surrado. Eu tinha uma aula na faculdade em trinta minutos, então devia me apressar para conseguir vencer o trânsito caótico de São Paulo se não quisesse ouvir uma alfinetada da Prof.ª Sofia.

Saí do banheiro, trazendo uma nuvem de vapor quente comigo. No sofá da sala, Mia e o desconhecido estavam conversando enquanto assistiam TV, rindo o tempo todo.

Aquilo era estranho. O protocolo dos casos de uma noite era bem específico quanto à despedida vergonhosa logo de manhã, depois da qual os dois nunca mais se encontrariam. Afinal, ninguém ficava com um desconhecido e depois resolvia assistir Netflix com ele, como se fosse a coisa mais natural do mundo. Especialmente Mia, que costumava sair do próprio apartamento quando era quem acordava primeiro, me deixando sozinha para dispensar seus parceiros casuais.

—Ei, Nic! -Mia percebeu minha presença, sorrindo largamente. Seus cabelos dourados estavam presos em um rabo-de-cavalo e ela vestia uma camisa larga e cinza que provavelmente era do homem ao seu lado.

—Oi. -Eu estreitei os olhos, sem entender o que o cara ainda estava fazendo ali. -Estou indo para a faculdade. Encontro você às quatro pra gente se arrumar?

—Sim, sim. Ah, o Rafael aqui estava esperando que você desse uma carona pra ele. -Ele ergueu uma sobrancelha e ela sorriu, sem-graça. -Na verdade, eu meio que ofereci por você. Ele também estuda na faculdade e ia sair andando, mas já que você está indo pra lá e tem um carro... -Ela inclinou o rosto, pidona.

Ah, então eles só estavam me esperando. Não pude deixar de sorrir, feliz porque Mia continuava a mesma garota desapegada de sempre. Eu não saberia muito bem o que fazer se ela começasse a ficar emocional e grudasse em um cara qualquer do dia pro outro.

—Eu dou a carona. Mas vamos rápido, eu tô atrasada.

Mia tirou a camisa com naturalidade e a devolveu para Rafael, ficando só com suas roupas de baixo. Enquanto o homem se levantava, eu não pude deixar de fazer uma rápida vistoria no seu abdome e nas pequenas tatuagens que salpicavam sua pele antes que ele colocasse a camisa.

Certo, seria até compreensível se Mia resolvesse mantê-lo ali por mais algum tempo. Rafael era bem bonito, principalmente agora que ele não tinha mais aquele ar de ressaca. Seus olhos castanho-escuros eram intensos e grandes, adornados por espessas sobrancelhas escuras, e os cabelos negros pareciam macios, bangunçados de um jeito charmoso e natural.

Eu devia estar encarando descaradamente, porque ele começou a coçar a nuca, sem-graça. Desviei os olhos no mesmo instante, me apressando até a porta.

—Tchau, Mia. Se cuida. -Eu mandei um beijo para ela, me virando em seguida para o corredor do nosso andar. Rafael me seguiu, fechando a porta atrás de si.

Apertei o botão do elevador e esperei, olhando para os meus próprios sapatos. Eu não queria correr o risco de acabar encarando Rafael de novo e me colocar numa situação ainda mais constrangedora. No entanto, o meu impulso para começar uma conversa atacou novamente:

—Desculpa por ter brincado com a sua cara de manhã. Eu não consegui resistir. -Ergui os olhos, inclinando a cabeça. Ele já estava me encarando e abriu um sorriso leve em resposta, apoiando o ombro na parede.

—Tá tudo bem. Eu provavelmente mereci aquilo. -Rafael expandiu o sorriso.

Eu ri, lembrando da expressão confusa que ele tinha feito mais cedo. Eu nunca tinha visto alguém tão perdido antes.

—É, você nem lembrava com quem passou a noite. -Fingi um olhar crítico.- A Mia deve ter ficado magoada.

—Ah, eu lembrava dela. -Ele franziu o cenho, na defensiva. -Mas não lembrava de você.

—Então tá certo. Porque, pelos barulhos que vocês faziam, ia ser um desperdício se você não lembrasse de ontem. -Eu ergui as sobrancelhas, sorrindo.

Rafael começou a ficar rosa e, sério, essa era uma das coisas mais fofas que eu já tinha visto.

—Ei, relaxa. -Eu queria apertar as bochechas dele, mas me mantive no lugar. -Eu só tô te provocando. É o que eu sempre faço, na verdade.

—Eu tô relaxado. -Ele desviou o olhar, mas seu rosto ficava cada vez mais vermelho.

—Você é tão fofo. -Eu ri e, no mesmo momento, o elevador parou na nossa frente.

Rafael limpou a garganta e entrou no compartimento, olhando para seus sapatos o tempo todo. Eu sorri, divertida com o nervosismo dele, enquanto apertava o botão que iria levar ao estacionamento.

—Você também deixa os seus materiais no almoxarifado, ou temos que passar na sua casa antes? -Mudei de assunto, descontraída.

—Também deixo tudo por lá. -Ele cruzou os braços, olhando fixamente para as portas prateadas do elevador.

Concordei com a cabeça, em silêncio. Eu tinha que aceitar o fato de que algumas pessoas não gostavam de preencher todos os segundos com palavras, mesmo que isso parecesse impossível para mim. Vários assuntos passavam por minha cabeça, mas eu me obrigava a permanecer quieta, encarando o vazio.

O elevador finalmente parou, abrindo suas portas e duplas e permitindo que o ar gelado do estacionamento nos envolvesse.

Encolhi os braços e pude ver quando Rafael fez o mesmo, afinal, ele só estava usando uma camisa leve de algodão. Me apressei até o meu fusca branco, estacionado próximo à saída. No começo, eu sentia uma certa vergonha por usá-lo para ir pra faculdade, mas era tudo o que eu conseguia bancar com as peças independentes que tinha feito. Se Rafael tinha achado o carro engraçado, ele conseguiu esconder muito bem com uma expressão neutra enquanto me seguia.

Entramos no veículo e eu comecei a fazer todo o ritual necessário para que o motor pegasse. Após umas duas vezes tentando girar a chave, o fusca continuava desligado e eu tive de me virar para Rafael com uma expressão constrangida:

—Desculpa. Isso sempre acontece.

Ele deu um sorriso sincero e eu não sabia se ele estava apenas sendo amigável ou rindo da minha situação.

—Tudo bem.

Na terceira vez em que girei a chave, o motor roncou. Era um som normalmente desagradável, mas, naquele momento, nada me faria mais feliz do que aquele ruído. Deixei um sorriso tomar conta das minhas feições enquanto deslizávamos pelo estacionamento.

Me inclinei para ligar o som do carro, escolhendo as músicas com cuidado.

—Se importa? -Perguntei para Rafael, sem desviar os olhos da pista.

—De jeito nenhum. -Ele parecia grato por uma oportunidade de não aturar aquele silêncio incômodo.

Apertei o play e, no mesmo instante, a voz de Harry encheu o carro com a música Kiwi. Inconscientemente, eu fui mexendo a cabeça e o tronco no ritmo da música, cantando baixinho. Quando o refrão chegou, eu já havia me empolgado o suficiente para esquecer a presença de Rafael, cantando muito alto. Só de imaginar que, naquela mesma noite, eu estaria na primeira fileira quando essa música fosse tocada ao vivo...

Meus pensamentos foram interrompidos pela risada de Rafael. Olhei para ele com o canto dos olhos, sem virar o rosto.

—O quê é tão engraçado? -Sorri. -Não é a minha bela voz, eu imagino.

Ele riu mais alto e eu tentei fazer uma expressão ofendida.

—Estava pensando que, se suas perfomances improvisadas já são desse nível, você deve ser ótima no Teatro. -Era a primeira vez que ele falava uma frase longa para mim. Não era muito, mas já era um avanço.

—Eu realmente sou. -Ergui uma sobrancelha, convencida. -Espera, como você sabe que eu faço Teatro?

Ele ficou em silêncio por algum tempo e eu tive de me segurar para manter os olhos na estrada ao invés de analisar sua reação.

—Eu já tinha te visto na faculdade. E em algumas peças. -Rafael parecia analisar cada palavra antes de pronunciá-las.

Eu sorri enquanto fazia uma curva para o estacionamento do campus.

—Você é um fã? Por que não disse antes? Eu tenho algumas fotos no porta-luvas, caso você queira que eu assine alguma coisa. -Eu brinquei, o encarando em seguida.

Ele não respondeu nada, mas sorriu. Talvez estivesse se acostumando com o meu senso de humor, pelo menos um pouquinho.

Eu desliguei o carro e comecei a abrir a porta. Rafael me agradeceu pela carona antes de sair do fusca, indo na direção oposta à que eu deveria tomar.

Eu não tive tempo de responder nada, porque em alguns segundos ele já estava no meio do caminho até o prédio de Ciências Exatas.

Dei de ombros e tranquei o carro, andando em direção ao almoxarifado para pegar meus cadernos e me preparando para passar o dia distraída, pensando no que aconteceria de noite.

Mas, no meio do caminho, mudei de ideia e virei para a direção contrária. Eu precisava de uma boa xícara de café para aturar a próxima aula da Profª. Sofia se não queria correr o risco de dormir e fazer com que ela me odiasse mais ainda.

Uma lanchonete grande havia aberto uma franquia de frente para a faculdade, e com isso eu quero dizer que era literalmente do outro lado da rua. Entrei no estabelecimento, sentindo o familiar e maravilhoso cheiro das diferentes bebidas e aperitivos. Uma longa fila já estava na frente do balcão, o que me fez soltar um suspiro enquanto me arrastava até lá.

Deviam ter umas sete pessoas na minha frente. Analisei o relógio no meu pulso e me amaldiçoei mentalmente por ser tão irresponsável: eu já estava atrasada uns cinco minutos.

Quando finalmente consegui um café e um pão-de-queijo, já haviam se passado uns dez minutos. Além disso, todas as mesas estavam ocupadas ao redor.

Suspirei e fui andando até a mesa mais próxima, onde apenas uma pessoa estava comendo. Era um cara com cabelos meio compridos e castanhos, parcialmente escondidos por um chapéu muito grande. Ele usava óculos de sol e um cachecol vermelho, o que era uma combinação no mínimo estranha. O conjunto como um todo era tão sem sentido que eu tive de pensar duas vezes antes de chegar perto dele. Respirando fundo, eu me aproximei da cadeira vaga de frente para o homem.

—Posso me sentar aqui? -Dei o meu melhor sorriso educado.

Ele ergueu o olhar para mim. Seu rosto estava tão coberto pelos óculos e pelo cachecol que eu não consegui identificar qualquer expressão, o que me frustou. Após alguns segundos em silêncio, ele finalmente inclinou a cabeça, falando:

—I'm so sorry, but I don't understand. -O que seria algo como "Eu sinto muito, mas não estou entendendo" em português. Sua voz era tão incrivelmente rouca e familiar que aquilo, somado ao estilo misterioso dele, me deixou com um certo desconforto.

A presença de gringos em SP era uma das coisas mais banais do dia-a-dia na metrópole, mas eu sempre ficava nervosa quando encontrava algum. Meu inglês nunca tinha me parecido bom o bastante, mas eu me obriguei a responder na língua dele, insegura:

—Ah, certo. Eu estava perguntando se posso sentar aqui. -Indiquei a cadeira. (Nota da autora: A partir de agora, vou automaticamente traduzir as partes dos diálogos em inglês)

Ele soltou uma risadinha baixa, balançando a cabeça positivamente.

—Fique à vontade. -Deu de ombros.

Sempre que ele falava, eu tinha a sensação incômoda de que o conhecia. Não era possível que a voz de um estranho soasse tão familiar assim...

Agradeci enquanto puxava uma cadeira, começando a comer logo em seguida. O desconhecido bebia um corpo enorme de refrigerante enquanto mexia no celular distraidamente. Como de costume, eu senti a urgência de acabar com o silêncio enquanto bebericava minha xícara de capuccino. Além do mais, eu precisava descobrir de onde o conhecia.

—Então, está curtindo São Paulo? -Dei um sorriso amigável, tentando soar casual.

Ele pareceu ser pego de surpresa, erguendo o rosto na minha direção. Abaixou um pouo o cachecol e eu agradeci mentalmente por aquilo: não estava suportando aquele mistério todo. O desconhecido sorria, exibindo covinhas profundas enquanto segurava sua bebida à meio caminho dos lábios.

—É bem legal. Na verdade, eu me mudaria pra cá na primeira chance que aparecesse. -Ele inclinou a cabeça, apoiando o rosto na sua mão aberta.

Franzi o cenho, sem deixar de sorrir.

—Sério? Por que você gosta tanto daqui? -Perguntei, voltando a beber meu capuccino em seguida.

—Por causa das pessoas. -Ergui uma sobrancelha no mesmo instante e ele riu em resposta. Sua risada era profunda e rouca, como a voz, e aquilo me dava calafrios por alguma razão. -Acabei de perceber o quanto isso soou como uma cantada. O que eu quis dizer é que eu amo o jeito brasileiro, em geral. -Ele começou a tamborilar os dedos na mesa, pensando um pouco antes de explicar:- As pessoas são tão calorosas. Os ingleses não são assim. -Ele deu de ombros. -Por exemplo, ninguém jamais me perguntaria se eu estou "curtindo" algum lugar na Inglaterra. -Ele expandiu o sorriso, marcando mais ainda as covinhas.

Eu o acompanhei, rindo enquanto terminava de tomar a minha bebida.

—Bom, a nossa política e economia estão falidas. Temos que compensar de alguma forma. -Dei de ombros.

—Vocês fazem isso muito bem. -Ele deu um sorriso insinuante.

O encarei por um segundo, avaliando-o rapidamente. A parte inferior do seu rosto já estava descoberta, o que era um alívio, mas o chapéu e os óculos escuros ainda me incomodavam. Eu tinha que descobrir o que o fazia tão familiar.

—Isso pareceu uma cantada de novo. -Brinquei.

—É porque foi.

Notas finais
Obrigada por ter lido até aqui ♥ Espero que tenha gostado! Nos vemos logo, se tudo der certo
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.