Paraíso Central.
1 Tulipas negras.
Notas iniciais
Um som melodioso acalmava seu coração pesado. Um violino traçava o caminho de seus pés cansados. O cheiro de liberdade mantinha seu interior mais puro, menos crítico. O céu estava acima e abaixo de seu pequeno corpo. Estava no paraíso.
Mesmo depois de tantas voltas, tantos amores e fascínios pela decoração fiel à de Lisse¹, no sul da Holanda, tantas tulipas coloridas roubadas para seu próprio agrado... O coração pesava. Clamava por outro coração para compartilhar tantas maravilhas juntas, tanta paz que o mundo sempre mereceu.
Pôs-se a correr no centro do universo, depois correu ao redor do nada. O paraíso estava só.
Pensou que no céu tudo a guiaria. Os anjos sorridentes, o branco maravilhoso, as pessoas de espírito bom...
Buscou por muito tempo por outros sons, por outro chão, por outro paraíso. Por alguém. Correu novamente. Em algum momento, chorou. Pouco tempo, já que aquele mar de maravilha não permitia que se sentisse triste. Não com tanta clareza. Voltava então ao vazio. Sabia que estava triste, mas a tristeza ficava em segundo plano.
Sakura no país das maravilhas bailava por entre as tulipas. Jogava pétalas para cima. Brincava de ser deusa. Brincava sozinha. Sem noite, sem horas, desejou abandonar um pouco da paz e encontrar alguém que a fizesse esquecer o quão pleno o paraíso era. E esse desejo se realizou instantes que não soube definir depois. Talvez anos, horas...
"Welcome to Centr lia." — Foi o que viu. Faltava uma letra na placa torta e enferrujada, mas ela sabia bem onde es... Centralia? Pensilvânia?² Quando colocou o primeiro pé no asfalto de Centralia e olhou para trás, não existiam mais tulipas, e muito menos som. O silêncio era seu novo amigo.
Uma fumaça densa começou a sair de rachaduras térreas. Subiram em seu rosto impiedosamente, queimando sua pele macia e bonita. Um pequeno vermelho instalou-se ali, ardido como fogo. Tentou voltar, mas só havia estrada. Choramingou, abraçando o próprio corpo.
Sakura ficou por muito tempo parada e longe das rachaduras, mas deu-se conta de que ali havia noite. Havia breu, o tempo parecia existir e se esgotar, e o pior de tudo, ainda havia solidão. Tristeza e medo em primeiro plano, desta vez.
Andou. Por vezes pulou pequenos vãos no chão, e em muitos momentos foi surpreendida por fumaças quentes que adentravam os buracos de suas calças sem dó. Quando se viu na grama, sentia que os tornozelos se partiriam do resto de seu corpo. Estavam com pequenas bolhas. Alisou aquele pequeno pedaço de pele, assustando-se em seguida por notar que não existia lua. A luz foi se apagando.
Queria tanto voltar... Vez ou outra batia as mãos pelos braços nus. Bichinhos. O choro que a assaltou não morria, mas era baixo e discreto. Encostou-se num tronco enquanto engatinhava pelo chão, esperando a noite cair de verdade e não restar nenhuma luz. Não demorou. Encolheu as pernas e começou a murmurar palavras de consolo para si, mas no meio do sussurro por piedade, algo se confundiu com sua voz. Um som. Abriu os olhos, mas não viu nada. Como poderia? Estava escuro. Ficou quieta e alarmada, esperando por nenhum som, mas sim pela confusão mental que estava fazendo. Ia dizer que era apenas um lamento de seu espírito, ia de verdade! Mas não deu tempo. Mais uma vez o som, que não foi proferido por seus lábios vermelhos e duros de queimado e nem gritado por sua mente perdida, arrepiou cada pelo loiro de sua coxa. Assombrou cada palavra que tinha na cabeça para se consolar, tanto é que elas fugiram no mesmo momento. Deixaram Sakura e a coisa. Juntas. Deixou Sakura sozinha.
Se não falhava nas contas, era a terceira vez que ouvia aquele som.
Por todos os anjos do céu! Por que sua cabeça estava dublando aquele barulho com direito a cena em HD? Quarta e última vez, o som já não estava mais em sua frente, mas sim atrás. O som desafinado de uma língua fervorosa, comendo algo gosmento e inapropriado para engolir sem mastigar.
Quando pensou em levantar apoiando as mãos na árvore, o que quer que fosse e que tinha mãos meladas a empurrou para o chão. Fumaças que nunca estiveram ali antes passaram a lhe queimar o rosto, corroer seus cabelos e invalidar seus olhos. Foi deixada ali, ao choro de dor, sem conseguir descolar as mãos da rachadura enorme que se abriu perto de seu peito.
Antes que fosse engolida, alguém começou a puxar seus pés e arrastar para algum lugar que se antes não enxergava, agora, com as vistas esfumaçadas, não veria nem com luz artificial.
- Vi que você estava com medo. Ouvi seu choro. Se você chorou, é porque é alguém como eu.
Não percebeu que a menina Haruno bateu a cabeça nas escadas quando a puxou para dentro de sua casa pelos pés, e não repararia mesmo se estivesse vendo. Já não sabia mais o que era sentir dor.
- Meu nome é Sasuke. Está me ouvindo? — Perguntou, jogando-a longe da lareira, porém num raio de distância que os iluminasse. — Se estiver morta, te jogo pela janela e te deixo de comida. Me responda.
- Meu nome... — Falou com a voz falha e diferente. Seus lábios não queriam se encostar, tamanha dor que imprimia neles o mero movimento. — Sakura.
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¹ — Lisse e suas tulipas maravilhososas. Um verdadeiro paraíso. http://1.bp.blogspot.com/-DZoCFIOgDlk/Tx2SsHHsUjI/AAAAAAAAACA/wJ0BzFiannA/s1600/Ed+Oudenaarden+colorful-dutch-bulbs.jpg
² — Centralia, a inspiração pro palco de Silent Hill, na Pensilvânia:
http://sometimesinteresting.files.wordpress.com/2011/07/centralia-16.jpg
Notas finais
Um beijão!
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