Paraíso Central.
7 Odores.
Notas iniciais
Seríssimo.
Agradeço à Moon e Nariko, sempre me apoiando. Vamos lá!
"Podemos deixá-la perdida. A outra opção é encontrá-la, mas o Senhor deve estar ciente de que fragmentos importantes serão perdidos. Talvez ela não volte realmente."
Parecia real. A voz grossa cautelosa e as palavras ditas. Era real. Em algum lugar daquela enorme floresta, as vozes e as pessoas eram reais. Não falavam sua língua, mas ela não podia evitar traduzi-los. Nem sabia que podia. Fez menção de se levantar, mas então, uma sentença a deixou no chão:
- Então vamos comê-la.
Um som de pessoas famintas mastigando algo grudento se iniciou. Seus olhos verdes arregalaram, e Sakura se encolheu ainda mais. Enquanto ficava atenta ao som, já que nada podia ver devido a grama alta, tentava se mexer bem devagar. Não queria fazer nenhum barulho. Concentrada num modo silencioso de fugir para mais longe, quase gritou quando uma mão alcançou seu tornozelo. Quase.
Não acreditou quando viu Sasuke. Sangue tingindo-o da cabeça aos pés num tom vinho desagradável. Olhos escuros quase fechados pelo cansaço, respiração sem ritmo, cabelos bagunçados e sujos e sem a camiseta.
Fez um sinal simplório para ele, como se pedisse por silêncio. Quando virou para tentar olhar acima da grama, um homem não muito alto estava a sua frente. Com um sorriso maligno desenhado na boca.
Não conteve o grito desta vez, alarmando Sasuke que até então só queria deitar em algum lugar. O moreno tentou se colocar de pé imediatamente. Quando deu por si, ele e Sakura corriam desenfreadamente, mesmo que suas coxas batessem uma na outra dolorosamente. Mesmo que suas pernas não aguentassem mais o sustento do corpo. Mesmo que os pés calejados implorassem por pausa.
De repente, estavam novamente em Centralia, de cara com um portão enorme e dourado. Sakura não conseguiu parar a tempo de não bater o rosto na grade.
Os dois desentendidos olharam-se. Sasuke tinha o peito a subir e descer muito rapidamente, enquanto ela apenas não conseguia segurar o som da respiração. Uma baforada de ar quente subiu pelas pernas dos dois, mas nada foi mais assustador que o rugido insano atrás deles.
A única coisa que veio à cabeça de Sakura foi a pequena chave dourada. Em seguida, uma lembrança de um sonho longínquo.
(...) diretamente das tulipas de Lisse até os monstros e Sasuke da Pensilvânia, encontrou um impedimento. Um portão dourado. Do outro lado, um corpo familiar sendo arrastado pelos pés, e a cabeça torta na direção dela."
- A chave! — Ela gritou para o moreno, que olhava para trás com os olhos arregalados.
Os movimentos dele estavam retardados pela surpresa, mas assim que seus dedos ossudos vaguearam pelo bolso, notou que o mesmo estava rasgado. Olhou para Sakura, não pensando em mais nada. Puxou-a pelos braços.
- Eu a perdi. — Rosnava enquanto corriam para qualquer lado. Antes que Sakura pudesse surtar, e certamente faria isso, Sasuke parou repentinamente, colocando a mão no outro bolso.
De lá retirou a chave brilhante, passando os olhos do objeto para a menina de cabelos rosas. Confundiu a própria respiração com a dela. Não percebeu que quando voltaram a correr de mãos dadas, uma luz branca os contornava, seguindo-os. Como um jogo de vídeo game qualquer. Pretendiam dar a volta pelas árvores e casas de Centralia para conseguir chegar no portão mais uma vez.
- Você ainda está sangrando. — Sakura constatou enquanto procuravam a criatura enorme com os olhos. Estava de costas para eles, parada.
- Estou bem. Você está?
Do outro lado, um corpo familiar sendo arrastado pelos pés, e a cabeça torta na direção dela."
- Não. — A cabeça de Sakura refez a cena um milhão de vezes. Por que sua mente lhe deu um filme sobre o momento em que estariam livres de tudo, mas o filme não estava acontecendo? Eles deveriam estar separados. Ela de um lado, ele do outro.
Começou a fazer sentido quando ele a olhou e a abraçou repentinamente, aproveitando-se de uma árvore que os cobria um pouco.
- Quando chegarmos perto, eu o distraio. Você abre.
Do outro lado, um corpo familiar sendo arrastado pelos pés, e a cabeça torta na direção dela."
Do outro lado... Se ela abrisse e fosse, ele ficaria. Ele seria arrastado pelos pés. Ele a olharia com a cabeça torta. Ele...
- Pegue a chave. Não pense mais que o necessário. Te encontro lá e nós saímos.
- Não quero. — Os olhos verdes já lacrimejavam há tempos. Sasuke a abraçou mais uma vez, com mais cuidado. Circundou fortemente a cintura da menina, que nada mais entendia. Acarinhou algum ponto nas costas dela, direto na pele, enquanto sentia o quão bom era tê-la nas mãos. Encostá-la.
Se fosse para alguém sair, esse alguém teria de ser ela. Nunca se perdoaria por deixá-la no Inferno.
- Nunca me perdoaria se perdesse você de vista aqui. Faça o que eu peço.
Largou-a ali, sem esperar por uma simples fungada ou uma negação. Chamou a atenção da criatura quando longe da menina que ele desenvolveu um inimaginável apreço, correndo em seguida para qualquer lugar que Sakura não viu.
Não viu nada desde o começo. Não viu nenhum animal enorme ou ameaça contra eles. Via o mundo embaçado, em segundo plano. Andou. Devagar, desatenta. Apenas via com clareza o enorme portão.
- O senhor tem certeza que quer trazê-la de volta? Ela não conseguirá ser como foi antes. Se esperarmos a volta voluntária...
- Não posso mais esperar.
- Então pela manhã. Amanhã.
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