Paranoia
1 Paranoia
Não ter dinheiro é um problema que aflige qualquer pessoa em qualquer época da história. Estou há seis meses desempregado e não tenho família para contar. Meu antigo trabalho era de busca e investigação de empresas fraudulentas, especificamente aquelas envolvidas no tráfico de materiais nanoeletrônicos. Por azar, acabei descobrindo um esquema gigantesco que envolvia a maior empresa do meu planeta, a HumaNano, que fabrica chips, placas e outros eletrônicos de tamanhos quase invisíveis. Infelizmente para mim, descobri que eles usavam uma gosma extraída de uma raça de outro planeta — que não vem ao caso comentar —, sendo que essa gosma só pode ser obtida na menoridade dos seres dessa raça. No momento, não pensei duas vezes em denunciá-los. Erro meu, querer fazer o bem. Fui demitido duas horas depois de fazer a denúncia. Contudo, estar desempregado não é o meu maior problema. Desde o dia em que fui demitido, parece que estou sendo constantemente observado. Graças às facilidades do mundo moderno, não precisei sair de casa desde então, mas inúmeras coisas estranhas começaram a acontecer.
Pessoas param na frente da porta do meu apartamento aleatoriamente. Grandes correspondências em nome de outras pessoas são entregues para mim. Mesmo no sétimo andar, e em uma área onde o transporte aéreo é proibido, parece que sempre alguém está me observando pelas janelas. Recentemente, meus dois antigos vizinhos de corredor se mudaram de forma abrupta, sendo substituídos por pessoas que não conheço. Passo os dias trancado no meu quarto, no escuro, comendo só quando minha barriga doi e dormindo apenas quando não consigo mais ficar em pé, sempre esperando o pior.
O silêncio do meu apartamento é mais alto do que qualquer barulho externo. Assim, qualquer som é facilmente percebido. Foi então que percebi que alguém entrou na minha casa. Minha porta da frente pode ser aberta pelo chip mestre do proprietário, então coloquei outro chip de tranca na porta do meu quarto. Mesmo assim, ouço duas batidas na porta. Paro, imóvel, fixando o olhar na porta. As batidas se repetem. Caminho lentamente até a janela, procurando qualquer meio de fuga. A tranca apita, anunciando a abertura da porta. Ela se abre bem devagar. Coloco o pulso, com o chip, na direção da tranca da janela, pronto para fugir a qualquer custo. E então a porta se abre, junto com a janela.
Meus olhos não conseguem acreditar no que estão vendo. Um vasto e límpido campo de grama verde e céu azul sem nuvens se revela através da porta. A brisa refrescante invade meu quarto, me convidando a me aproximar. Não conheço nenhuma tecnologia que consiga emular tão bem um espaço como esse. As tecnologias de deslocamento de massa estão longe de serem uma realidade. Meu coração desacelera um pouco da tensão de ser perseguido, e caminho em direção à porta do quarto. Ando olhando para os lados, para trás, tentando ver se algo pode surgir de algum lugar. Não deixei de cogitar a possibilidade de ser um ataque da HumaNano, mas por que não me sequestrar ou matar de uma vez? Por que esse campo aberto?
Paro em frente à porta, consumido pela ansiedade, mas também pela curiosidade. Estendo minha mão em direção à porta. Minha mão, tremendo, confirma que aquele lugar está ali. Então algo ou alguém, que não consigo ver, me empurra para o campo. Ouço o barulho da porta se fechando enquanto caio. Quando me viro, a porta não está mais lá. Nesse momento, já começo a cogitar o óbvio: isso tudo é um sonho. Não há nada a temer, logo sairei daqui. Respiro fundo, fecho os olhos e a brisa fresca me atinge suavemente. Um passo de cada vez, decido então caminhar por esse vasto campo aberto.
O silêncio toma conta da minha mente. O clima é agradável. O sol massageia minha pele como uma mãe que segura seu filho recém-nascido. A brisa vai e volta, sempre da mesma direção, como se fosse programada por um Deus preguiçoso. Entretanto, não importa o quanto eu ande, ou para onde eu olhe, parece que não há fim nesse lugar. A sensação é estranha, como se algo, a qualquer momento, fosse surgir de algum canto, no exato momento em que eu não estivesse olhando. Aproveito a caminhada para reparar o que tenho comigo nesse lugar. Para minha infelicidade, não estou com nada. Meu chip de pulso desapareceu. Meus bolsos estão vazios. No entanto, não há nada de anormal no meu corpo.
Depois de um longo período caminhando, essa sensação começa a me perturbar cada vez mais. Alguém vai aparecer, em algum lugar. Ou pior, algo vai aparecer. Talvez eu esteja sendo observado por alguém em algum canto. Essa incômoda sensação de estranheza me leva a correr sem rumo. Não sou o tipo atlético e rapidamente me canso da corrida, acabando por me sentar na grama fina e ligeiramente úmida. Não sei se é por causa da corrida, ou se é apenas o medo e a ansiedade se manifestando, mas fico ofegante. Minha respiração aos poucos começa a retornar ao normal. Decido me levantar novamente. Não posso ficar sentado esperando.
Ao me levantar, lentamente, algo perturbador acontece diante dos meus olhos. O relevo plano, à medida que me levanto, começa a subir lentamente, formando um pequeno morro. Sem nenhum som, nenhum mísero barulho sequer, um morro surge à minha frente. Olho ao redor, transtornado, em busca de alguma explicação lógica, mas, exceto pelo morro, nada ao meu redor mudou. Instigado pela curiosidade, subo o morro. No topo, uma breve sensação de alívio me toma. Era uma porta. Logo abaixo do morro, uma porta parada no meio do nada.
Não me questionei o porquê de ela estar ali, nem mesmo pensei muito sobre o estranho surgimento do morro que acabara de formar-se. Corri em direção à porta, cravando todas as minhas esperanças nela. Ao vê-la mais de perto, posso notar que é uma porta de madeira comum, como se fosse de outro planeta, mas com muitos anos de uso. Olho ao redor dela, tentando entender como e, principalmente, por que ela está ali, no meio do nada. Depois de examinar e perceber que não há explicação lógica para nada disso, decido tentar abrir a porta. A ansiedade toma conta de mim novamente, enquanto minha mão vai em direção à maçaneta. Abro a porta devagar e uma brisa quente me convida a olhar o que está do outro lado. Uma grande praça, totalmente iluminada, se revela atrás da porta, no meio do nada. Então, um pensamento simples me invade: Como? Decido olhar atrás da porta novamente, mas desta vez com ela aberta. Contudo, alguém me empurra com força para dentro da porta. Sou jogado para dentro. Viro-me para trás para ver quem ou o que havia me empurrado, mas não há mais nada atrás de mim. Nem porta, muito menos pessoa ou coisa.
Olhando ao meu redor com calma, consigo perceber facilmente onde estou: um grande shopping. A praça está completamente vazia. Há um chafariz sem água bem no centro e, nas extremidades, longos corredores bem iluminados e escadas que levam ao segundo andar. Aproximo-me do chafariz e, ao olhar para cima, percebo que o shopping parece ter três andares. E, através de um ornamento transparente, consigo ver que, de alguma forma, aqui e agora é noite. Não há som algum, nem de pessoas, nem de nada. Apenas meus passos, minha respiração e meus batimentos podem ser ouvidos em todo lugar. Tentando não ser dominado pelo desespero de possivelmente estar preso em alguma espécie de pesadelo bizarro, tento explorar o lugar.
Caminho pelos corredores vazios do primeiro andar. Esse espaço, que deveria estar sempre movimentado e vivo, agora está completamente vazio e morto. As lojas estão desertas. Decido me aventurar em uma delas, mas não encontro nada. Prateleiras, apoios, ganchos — tudo vazio. O que um dia poderia ter sido uma loja de roupas agora não tem uma única peça. Os manequins imóveis parecem aguardar o momento oportuno para se virar em minha direção. Como não encontro nada de interessante, continuo explorando o restante do primeiro andar. Depois de um longo período de caminhada e observação, me deparo com o portão principal de entrada do shopping. Ele está completamente bloqueado por algo que parece ser uma parede sólida. Aproximo-me devagar, e a porta automática se move, mas a estranha parede de concreto maciço me impede de sequer vislumbrar o lado de fora. Então, uma ideia me surge à mente. Agora com o mapa do shopping na cabeça, corro para o terceiro andar.
O shopping tem uma estrutura circular ao redor da praça principal, onde está o chafariz. Todos os corredores se conectam à borda externa da circunferência. Minha ideia é que essa parede não se estenda até o terceiro andar, já que o vidro do teto não parece coberto por nada. Chego à praça e subo as escadas rapidamente, animado com a possibilidade de sair daqui. Entro no primeiro corredor que vejo e olho para todos os lados em busca de uma janela. Ao virar um pouco no caminho circular, vejo ao longe o brilho das estrelas numa grande janela. Corro em sua direção, já pensando em como irei quebrá-la. Pela velocidade, minhas mãos batem no vidro, e meus olhos se lançam para baixo. Um mar negro cheio de estrelas se estende por toda a região abaixo do shopping. Como se o shopping e aquela parede estivessem flutuando no meio do espaço.
Vou ao chão, ajoelhado, transtornado por todas as minhas esperanças se desfazerem. Não faço ideia de como sairei desse shopping. Então, no meio do caos mental, uma súbita brisa encosta em meus ombros, como se me avisasse do óbvio, do único caminho possível. Bem no canto direito, ao extremo dessa grande janela de vidro transparente, há uma brecha. Um dos vidros está totalmente aberto. Levanto-me lentamente e caminho em direção à abertura. Como se estivesse em transe, sigo em sua direção. Eu sabia o que fazer. Coloco minhas duas mãos firmemente nos extremos da janela e dou mais uma boa olhada lá para baixo. Noto que não há concreto na entrada. Ela está como se o portão tivesse sido aberto. Penso que, se eu descer correndo agora, como uma piada de mau gosto, aquele muro de concreto maciço estará lá novamente. Respiro fundo e penso mais uma vez na opção mais óbvia.
No entanto, sinto algo me observando no corredor. Afasto meu corpo da janela e viro-me bruscamente em direção ao corredor. Minha respiração aumenta muito. Não, ela não aumentou — ela já estava elevada há algum tempo, eu apenas não havia percebido. Pensando um pouco melhor, percebo o quanto essa ideia parece ignorante. Pular no vazio não é a única saída. Além disso, algo estava estranho.
Respiro fundo e dou uma última olhada naquela abertura, começando a explorar lentamente o terceiro andar. Entro de loja em loja, viro os corredores com calma, observando cada detalhe em busca de uma resposta. E nada. Não encontro nem mesmo uma diferença. Até as lojas e as posições dos manequins estão iguais às do primeiro andar. Desanimado, volto para a praça no centro do shopping e lembro de não ter explorado o segundo andar. Sem esperança, adentro o corredor ao lado da escada. No entanto, dessa vez logo avisto uma inconsistência: uma longa porta dupla que eu não tinha visto em nenhum outro lugar do shopping. Corro em sua direção, colocando as duas mãos na grande maçaneta, e penso por um segundo: algo vai me empurrar para dentro novamente. Tem algo, ou alguém, me observando, só esperando que eu abra essa porta. Decido, então, virar a maçaneta de costas, olhando para trás, e aguardando o que quer que seja venha me empurrar para dentro.
Começo a abrir a porta lentamente, mas com bastante esforço. Centímetro por centímetro, nada muda. Até que as luzes da praça central se apagam completamente. Tento olhar, sem soltar a maçaneta ou deixar de verificar o outro extremo do corredor. Uma água vinda da porta começa a molhar meus pés. Minha curiosidade em saber o que me empurrou para trás nas últimas duas vezes me mantém imóvel, olhando para frente. Duas mãos seguram meu pulso, o braço que ainda segura a maçaneta. No momento em que me viro para olhar dentro da porta, todas as luzes do shopping se apagam e sou puxado para dentro. Antes que tivesse tempo de pensar, uma grande quantidade de água me engole. Sou arremessado rumo ao desconhecido. Contudo, bato contra uma espécie de grade de metal no chão, caindo de cima para baixo sobre ela. A quantidade massiva de água que caía sobre mim se desfaz, escorrendo lentamente entre a grade.
Tento retomar meu fôlego depois de ser subitamente afogado. Olho ao meu redor e percebo que não estou mais no shopping. Um longo corredor todo coberto com piso branco se estende à minha frente. O som estridente das gotas caindo e a infinidade desse corredor me assolam, me lembrando que estou preso nesse pesadelo terrível. Há um estranho buraco no teto, muito provavelmente de onde eu vim. Atrás de mim, não há nada. Uma parede se estende, me indicando que só posso seguir em frente. Levanto-me com dificuldades e caminho pelo longo corredor rumo ao desconhecido. Imediatamente após começar a caminhar, o som das gotas caindo cessa e sou novamente assombrado pelo silêncio dos meus passos. Olho para trás constantemente, acreditando que algo pode surgir de lá. Começo a pensar se existe alguma forma de sair deste pesadelo terrível. Enquanto caminho, começo a me beliscar com força, mas não adianta. Fecho os olhos com força e me imagino acordando, mas não adianta. Grito até ficar rouco, mas não adianta. Nada adianta. Então finalmente perco todas as esperanças de sair daqui. E, em um impulso, bato minha cabeça na parede. Perdido em meus pensamentos, e sem me focar na ilusão infinitamente branca à minha frente, acabo chegando a uma curva. Ao lado, um novo caminho se abre, e um barulho ensurdecedor de água me surpreende. Como não notei esse barulho antes? Ignoro esse questionamento por um instante ao ver o motivo do som: uma piscina gigante se abre à minha frente. Essa saída onde estou deve ter cerca de 2 metros de altura, mas ela é apenas um único quadrado dentro de um cubo com pelo menos 20 metros de altura.
Encontro-me diante de uma parede, um pequeno azulejo de uma grande caixa branca perfeitamente quadrada. Há outros espaços abertos por toda a área da piscina, e de lá sai uma grande quantidade de água. Toda a água se agrupa no fundo da caixa, formando uma gigantesca piscina. A água é completamente transparente, e mesmo daqui de cima, consigo ver o fundo. Mesmo com a grande quantidade de água caindo, não parece que o lugar vá encher completamente. Olhando com mais calma, noto que todos os buracos têm algum tipo de traçado preto embaixo. Deitando-me na borda e olhando para baixo, percebo uma escada que, infinitamente, se estende em direção ao límpido branco do fundo. Não havendo mais opções de para onde continuar, decido me aventurar a descer essas escadas. Um pé de cada vez, colocando muita força nos braços, consigo começar a descer.
Agora, nessa posição completamente vulnerável, percebo o quão danoso seria uma queda de onde estou. Olho para cima, pensando em retornar a uma posição segura, mas as águas que caíam brutalmente cessaram. Volto a ser assombrado pelos sons dos meus batimentos, da minha respiração e dos meus membros se apoiando em cada barra, lentamente, enquanto continuo a descer a escada. Depois de um longo período de descida, noto, sobre meus pés, um pouco mais à direita, outro buraco. Acelero minha descida e fico ao lado do buraco. Com um pouco de esforço, salto para dentro dele. Caio sobre o chão molhado e rapidamente me levanto. À minha frente, uma escada aparece. Seguindo o ornamento branco de todo lugar, a escada segue para baixo, em direção a um novo desconhecido. Caminho lentamente, mas logo vejo ela: outra porta. Dessa vez, no final da escada, há uma outra porta de madeira.
Levo minha mão até a maçaneta. Respiro fundo, mas desta vez, sem nem mesmo duvidar, me adentro de uma vez pela porta. Dou dois passos para dentro e olho para trás. Nada! Apenas a escada branca. Curioso, volto para a outra área. Olho ao redor. Apenas esperando. E novamente, nada. Fico incrédulo por não ter acontecido de novo e volto para dentro daquela porta.
Uma sala de estar. Uma estante vazia. Um sofá de couro marrom. Um tapete cinza. E as paredes amarelo claro. Era apenas uma casa comum vazia. Sigo andando em direção ao corredor e vejo um quarto. Dentro, me deparo com uma cama grande de solteiro e um armário vazio. Volto para o corredor e sigo pela outra direção. Um pequeno cômodo vazio estava ao meu lado. Possivelmente o banheiro, por conta dos buracos no chão onde seriam o sanitário e o ralo do chuveiro. Seguindo para o fim do corredor, uma cozinha. Contudo, nela havia algo.
Era uma cozinha comum. Pia, fogão, geladeira, dispensas nas paredes e, no centro, uma mesa de jantar. Deitada sobre a mesa, estava uma moça de longos cabelos loiros, um corpo magro, vestindo um longo vestido branco. Eu encosto em seu ombro, balançando-a devagar. Ela se vira rapidamente, me olhando assustada. Se joga no chão, no susto, tentando entender a situação.
— Desculpa… — Minha voz falha. Dou uma leve tossida e volto a falar. — Desculpa, eu não sei como cheguei aqui e…
— Você me assustou! — Ela olha ao redor, respirando rapidamente por conta do susto. — Me ajuda aqui… — Ela estende a mão.
Puxo-a em minha direção e a ajudo a levantar. Mesmo desconfiado pela falta de preocupação dela com a aparição de um estranho nesse lugar tão estranho quanto.
— Pela sua cara de assustado, você também não sabe o que está acontecendo, né!? — Balancei minha cabeça em negação. — Bem, não crie esperanças então. Estou no mesmo barco! — Ela estende a mão novamente, mas dessa vez para me cumprimentar. — Desculpa, eu não me apresentei, meu nome é… Pera, meu nome… Qual é o meu nome?
Essa pergunta invadiu minha mente como uma chuva numa tarde de verão acertando o varal com roupas. Exatamente, qual é o meu nome?
— Eu também não lembro o meu nome… E você se lembra? — Pergunto para ela, em total espanto.
— Agora que você falou… — Ela leva a mão à cabeça. — Não muito. Eu lembro de alguns amigos, família, mas não sei os nomes. Não lembro os lugares onde estive. Não lembro nem onde morava.
Ela leva a outra mão à cabeça, completamente transtornada. Eu compreendo o transtorno dela. Assim como para ela, minhas memórias se tornaram longos borrões brancos e pretos em minha mente. Lembro-me bem do dia da demissão e dos meses trancados no meu quarto, mas as coisas antes disso estão turvas ou sumiram. Então, um lapso corre pela minha mente. Corro na direção da sala de estar. Agarro a maçaneta da porta com as duas mãos e a abro. Lentamente, olho para fora, buscando aquela escada branca, e um vazio negro me devora. Nada, não havia nada do outro lado da porta.
— Tem uma outra porta, que dá em outro lugar… — Ela aparece atrás de mim, me revelando essa informação. — Mas não há motivo para você se arriscar indo para outro lugar…
— O que você quer dizer com isso? — Digo, andando pela casa, buscando por essa tal outra porta.
— Esse lugar é literalmente uma casa. Apesar de alguns cômodos estarem vazios, a cozinha se restabelece toda vez que durmo.
Viro meu rosto para ela, completamente espantado. Acelero meus passos para a cozinha e olho dentro dos armários.
Uma grande quantidade de comida aparece diante de mim. Sacos e mais sacos de grãos como arroz e feijão. Enlatados de todas as cores e tamanhos, com uma variedade inimaginável de comidas. De frutas a biscoitos, há de tudo dentro do armário.
— Mas por que?
Ela dá de ombros. Obviamente, não tinha como saber. Nada nesse lugar parece seguir um sentido lógico. Por um segundo, acabo relaxando e caio no chão.
— Você está bem? — Ela me puxa pelos ombros e me ajuda a sentar na cadeira.
— Eu só percebi agora que estava com fome…
— Tudo bem, vou preparar algo para você. — Ela diz, deixando escapar um leve sorriso.
…
Passam-se dias, ou talvez horas, quiçá até poucos minutos. Não há como saber. Apesar do tempo que passei nesta casa, nada parece certo. Ela parece ter ficado por bastante tempo aqui e se acostumado com tudo, mas para mim, é estranho. Se eu olhar para as janelas, verei uma infinita escuridão. Na sala, no quarto e no banheiro, contudo, na cozinha, a janela mostra um vasto campo verde com um céu sem nuvens, como o lugar que vi primeiro ao chegar aqui.
Quando nós dois dormimos ao mesmo tempo, a comida é estocada novamente nos armários. Apesar disso, precisamos lavar toda a louça que utilizamos. De alguma forma, nenhum de nós viu necessidade de usar o banheiro.
Um dia, eu até tentei me lavar usando a água da pia. E, após ser pego por ela fazendo isso, nós rimos e acabei deixando a ideia de lado. Falando dela, nós não conversamos muito. A maioria do tempo estamos comendo ou dormindo neste lugar, afinal, não há mais nada o que fazer. Contudo, se fosse para relatar algo, uma vez eu estava sentado na porta da sala de estar, observando o vazio infinito, enquanto ela dormia. No momento que ela acordou, correu em minha direção como se eu fosse pular e gritou comigo, dizendo que eu não deveria fazer mais aquilo. Definitivamente foi um momento estranho, mas ela se recompôs rapidamente depois disso e não tocamos mais nesse assunto.
Além disso, numa das “noites” aqui, descobri que a porta que ela estava comentando, que leva para outro lugar, era a da cozinha. Ela dá para um longo corredor que parece de um prédio antigo. O chão é todo de carpete azul escuro, as paredes são amarelas, indo para o laranja, e há várias lâmpadas retas iluminando todo o lugar. Apesar da enorme curiosidade, acabei não atravessando para o outro lado. O pensamento de ficar aqui e não me aventurar mais em outros lugares estranhos foi se tornando uma realidade aos poucos.
…
No meio da noite, ouço um barulho ensurdecedor de sirene. Não consigo ver ela no quarto e sigo em direção à cozinha. Atravessando o corredor, indo do quarto para a cozinha, vejo a porta aberta. Em vez do longo corredor de tom amarelado, agora a porta me mostra a continuação da janela. Assim como em meu quarto, um vasto campo verde sem nuvens no céu está através da porta. Fico estático, pensando no que fazer, até que percebo alguém me observando pela janela. A pessoa corre assim que me nota. E eu hesito por um momento. Contudo, ao ver a pessoa passando da janela para a frente da porta, decido correr atrás dela. A sirene ensurdecedora continua a tocar, mas ainda assim não deixo de correr. A pessoa está usando uma roupa toda preta, e eu não consigo ver quem é, ou de que raça, planeta, ou até que idade tem. Entretanto, mesmo não sendo bom em corridas, consigo alcançá-la. Jogo-me sobre suas costas, derrubando-a e virando-a para mim. Apenas por um segundo eu vi… uma pessoa sem rosto, apenas com os olhos.
Minha cabeça bate forte contra algo sólido à minha frente. Uma luz branca e intensa se infiltra nos meus olhos, cegando-me momentaneamente. Me sinto imóvel, o corpo pesado como se estivesse preso a algo. Quando consigo forçar meus músculos a se moverem, minha visão começa a clarear, revelando um espaço que me é familiar, mas ao mesmo tempo alienígena. Estou deitado em uma cápsula, com uma cama metálica e um vidro transparente que me separa da realidade. Um longo fio está conectado ao meu pulso. Levo minha mão livre até ele, com a intenção de retirar, mas antes que eu possa agir, a porta se abre.
— Eu não faria isso se fosse você…
Aquela mulher, que estava na casa, agora está em minha frente. Ao lado dela, um robô humanoide de serviço segura uma arma. Mas agora, ao invés de um vestido, ela usa calça, bota e uma jaqueta branca. Na frente da jaqueta, há um crachá. Diferente da casa, seu cabelo está preso.
— Você… Então tudo isso foi feito pela HumaNano? Todo esse pesadelo maluco foi culpa de vocês? Por eu ter desmantelado aquele esquema terrível?
Minha raiva cresce, misturada com a ansiedade. Se eles realmente queriam me matar, por que me mantiveram aqui, me fazendo viver esse pesadelo? A dúvida se mistura com a raiva, mas logo perco forças e me ajoelho no chão.
— Desliguem as sirenes de emergência, já estamos aqui — Eu nem havia notado, mas o som estridente que me acompanhava desde a casa finalmente parou.
— Human o quê? — Ela pergunta, como se não soubesse.
— HumaNano é uma empresa de tecnologia que monopolizou toda a indústria da galáxia de onde ele veio. Nós não temos nenhuma ligação direta com eles. — O robô humanoide responde, apontando a arma em minha direção.
Agora, todo o meu chão desaba. Se eles não são da HumaNano, então quem são eles?
— Então o chip que estava no seu pulso foi feito por eles... Interessante. — Ela mexe as mãos no ar, utilizando o que parece ser um celular, que parece ter um link visual direto. — Como eu ia dizendo... Nós retiramos o seu chip. Se você tirar esse cabo, você morre. A tecnologia deles é incrível, e sem aquilo, nunca conseguiríamos trazê-lo aqui. Ele armazenava 100% das informações possíveis de qualquer usuário. E levar você de uma galáxia a outra seria impossível.
— Senhora! — O robô humanoide interrompe, de maneira brusca.
— Outra... galáxia...
— Doutora, você não deveria dizer tanto para os experimentos... Ainda mais para um como ele.
Ela me lança um olhar furioso, e o robô se retira da sala.
— Infelizmente, meu experimento não deu certo. Seria... um bom... como os terráqueos diziam, dois coelhos com um tiro só.
Olho para o lado, onde ela parece olhar fixamente, e percebo outra cápsula. Atrás do vidro transparente, deitada de olhos fechados, vejo uma mulher idêntica a ela, a moça da casa.
— Se ela não tivesse morrido, as sirenes não teriam tocado e você não teria acordado...
Minha mente fica em branco. Nada do que está acontecendo faz sentido. Eu perdi meu emprego, fui perseguido, jogado em um pesadelo, e agora estou preso nesse laboratório, sendo observado por uma mulher que tem um clone, irmã gêmea ou sei lá. O que eu posso fazer? Lágrimas enchem meus olhos.
Ela coloca a mão sobre minha cabeça.
— Volte para a cama... Se você voltar, tudo voltará ao normal. Vamos terminar os experimentos e te deixaremos em casa. Tudo bem?! — Ela se ajoelha e abaixa a cabeça para tentar me olhar nos olhos.
— Tá bem...
Ela me ajuda a me levantar. Subitamente, sinto forças voltando ao meu corpo, e não penso duas vezes: empurro-a para o lado e corro em direção à porta aberta. O cabo conectado ao meu pulso se rompe, mas nada acontece. Corro pelo corredor e viro à direita, seguindo na direção oposta a que o robô foi. No final do corredor, uma porta se abre automaticamente. Entro em um corredor curto, e acabo em um grande refeitório, com várias pessoas de diferentes espécies, todas usando a mesma roupa branca da mulher. Corro na direção oposta, buscando escapar antes que me vejam. Passo por outro longo corredor e encontro uma grande porta dupla. Empurro-a desesperado e me deparo com um centro de pouso e decolagem, com naves de carga e pequenos transportadores de gravidade zero. Olho ao redor e vejo apenas robôs distantes. Corro em direção a um dos pequenos transportes, entro pela saída principal e verifico se está vazio. Felizmente, está. Sento na cadeira do piloto, que automaticamente liga.
— U, traço, oito, cinco, zero, nove, um, sete — digo o código da minha galáxia, e do meu planeta.
— Iniciando piloto automático, trancando curso para U, traço, oito, cinco, zero, nove, um, sete — diz a nave se preparando para o voo.
Uma escotilha se abre embaixo da nave e um apoio me leva para uma pequena sala.
— Ligando núcleo de gravidade zero. Submergindo nave para processo de resfriamento.
A sala se enche de água. A nave faz um grande barulho enquanto o núcleo é ativado.
— Preparando para o lançamento em três, dois, um...
Uma grande porta se abre, seguida de várias outras sendo removidas. A nave sai em alta velocidade, deslizando sob a água até alcançar os céus. A pressão e a velocidade me comprimem contra a cadeira, e em poucos minutos estou fora do planeta.
— Iniciando processo de propulsão intergaláctica. Tempo estimado da viagem, duas horas.
A propulsão me atinge com tal força que desmaio.
…
Após longos dias, volto para minha antiga rotina. A volta para casa foi difícil. Explicar tudo o que aconteceu para a equipe de segurança do planeta e, consequentemente, para a HumaNano, foi extremamente complicado. No entanto, eu tinha uma prova incontestável do ocorrido: a nave de gravidade zero. Ela tinha o mapa de onde eu estava, e lá deveria ser um planeta submerso inabitado. A equipe de segurança não quis mais me envolver no caso, mudou meu nome, e todas as minhas informações. Recebi um chip novo, um apartamento novo, e, por ironia do destino, um trabalho na HumaNano como analista de desvio de conduta interno.
Todo aquele ocorrido me levou diretamente para a empresa que eu mais temia. Aqui dentro, no entanto, percebo que não há mais nada a temer. Um dos meus superiores me informou que o caso que denunciei se referia a um segmento da HumaNano que foi desfeito. Nenhum dos membros daquela equipe tinha ligação com os líderes, então não havia mais risco. Agora, posso voltar para casa, comer tranquilamente, deitar e dormir em minha cama sem mais problemas.
Até que ouço alguém bater na porta do meu quarto antes de dormir. Eu já sabia quem era, o que queria e como tudo se desenrolará a partir daí. Levantei-me, com meu novo chip, abri minha janela e voltei a ouvir alguém batendo na porta do meu quarto.
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