Parallels

1 Destrua Este Diário


O LIVRO OFICIAL SOBRE VIAGEM ENTRE MUNDOS PARALELOS:

"Regra nº1. A única forma de um humano comum se mover entre os mundos é morrendo."

O sol estava brilhando no céu. Foi provavelmente o dia mais ensolarado que eu já tinha visto desde que chegara a Londres, há seis semanas. Eu andava ao lado da grama verde do campus, aproveitando a sensação que logo passaria. Estava indo em direção aos dormitórios, após longas horas numa aula sobre Marxismo.

Estava usando os óculos escuros da minha mãe, porque eles me faziam parecer legal, além de me lembrarem dela, e porque eu poderia olhar para as pessoas sem que elas soubessem que eu estava olhando para elas. Eu sempre tive a mania de observar. Talvez meu maior sonho quando criança tenha sido ser espiã.

Infelizmente, eu não era invisível como gostaria de ser.

Minha longa caminhada para os quartos foi interrompido antes que eu pudesse me deitar no chão e fingir que tinha desmaiado.

"Eleanor!" uma menina gritou, e me levou dois segundos para lembrar o nome dela, mas não era importante.

Ela veio, com uma camiseta cor de rosa e tênis da Converse, falando o meu nome como se fosse uma canção pop. "Eu preciso falar com você imediatamente sobre o nosso projeto para aula de sociologia."

"Claro. Achei que já tínhamos combinado tudo." Estava tudo combinado do jeito que eu queria: ela faria a capa e eu, o conteúdo. Não fui eu quem escolheu o par para o trabalho e a julgar pelo olhar e o sorriso que o professor me dera ao anunciar que faríamos o trabalho juntas, suspeitava que o verdadeiro projeto fosse ela, e não o trabalho sobre a qualidade de vida de faxineiros da Universidade.

Não que eu fosse a garota mais nerd. Só que a partir do momento em que me viram pela primeira vez, o grupinho das it-girls da Universidade decidiu que por eu ser bolsista e vir de relativamente longe, não gostavam de mim. Era algum papo furado elitista que tinha sido incutido em suas cabeças pelos pais, somado à pressão da mídia, era o que eu deduzira. Não era necessariamente culpa delas.

"Eu queria ir no seu dormitório para a gente discutir, se você não se importa" Ela piscou para mim, e eu achei tudo tão estranho que parecia estar em um sonho.

Lucy. Esse era o nome.

"Ok... Acho que não posso te impedir, não é mesmo?" Eu ri, e ela riu de volta, e me deu um tapinha no ombro. Eu engoli em seco e continuei andando.

Nós caminhamos até as grandes escadas direto para o meu quarto, que eu compartilhava com uma guria irlandesa chamada Melissa. Ela era uma verdadeira geek, e também uma das minhas melhores amigas.

Quando Lucy e eu chegamos lá,

Uma outra menina também estava lá, com um olhar aterrorizado. Os gritos pararam.

"Essa garota... ela veio para te pegar." Melissa estava sentada em sua mesa, um pouco de medo da menina, que usava saia e uma maquiagem leve que parecia fazer parte de seu rosto. "Não foi possível mantê-la fora."

"Ok."

Lucy rapidamente foi para o lado da garota que estava lá, e passou a me encarar séria.

Eu entendi tudo. Elas vieram me pegar. Iam me dar uma surra? Sério? A situação era tão cômica que eu queria rir.

Eu esperei até que a menina começou a falar, mas elas estavam olhando uma para a outra, competindo em quem tinha a melhor atitude.

"Eleanor, é verdade que você anda conversando com o namorado da Alicia?" A menina, cujo nome começava com um B, disse.

"Não", eu respondi.

A outra garota parecia indignada.

"Ele está mentindo. Ele me mandou uma mensagem dizendo isso. Ele também disse-"

Ah não. A brincadeira. Agora eu sabia o que estava acontecendo.

"Não fui eu, meninas. Desculpe." Eu ri. "Quem tem conversado esse tempo todo no meu celular com Jack é o meu irmão, Harry. Eu pensei que ele soubesse."

As garotas pareceram assutadas do nada, como se eu tivesse acabado de dizer uma heresia tão grande ou feito algo tão estranho que elas não sabiam o que responder.

Ou como se...

"E onde está esse seu irmão?" Lucy perguntou se aproximando de mim. Olhei para Melissa e ela estava com o celular em mãos. Diretoria, ela falou sem som.

"Bem..." Eu comecei, sem saber o que dizer. A coisa toda tinha sido uma grande mentira. Meu irmão não estava em Londres, mas eu também não estava conversando com Jack Nichols pelo celular. Uma ou duas mensagens, no máximo. Não se classificaria como conversa.

Ele tinha me chamado pra sair na primeira semana, mas eu declinei o convite porque vi ele tratando mal um garoto gay e eu tinha ficado com nojo dele desde então. Ele tentou se desculpar por mensagens, dizendo que era um idiota, mas uma semana depois começou a namorar Alicia.

As meninas deixaram Melissa e eu sozinhas no quarto.

"Não precisa mais falar nada." A outra garota cortou. "Estamos indo. O que Jack ia querer com você de qualquer forma?"

E então elas saíram desajeitadas, quase cambaleando, com aqueles tamancos enormes.

Olhei para Melissa tirando o fone do ouvido. Fiquei olhando para seus olhos sem expressão por alguns segundos. Quando tudo que havia acontecido finalmente nos atingiu, rimos histericamente por um minuto inteiro.

"Preciso fazer o dever de casa." Falei depois que minha barriga parou de doer.

"Eu estou até o pescoço com dever."

"Quem manda ficar indo nessas festas geek?" Eu disse, ainda com o humor em alta.

"Você gostou quando eu te levei" ela comentou, sublinhando algo no livro.

Enquanto conversávamos, eu andei até a minha mesa e fui me preparar para o dever. Mais tarde ainda iria para uma lanchonete em que eu trabalhava à noite às quintas e sextas.

Eu olhei para a minha mesa, ela é cheio de papéis, meus desenhos e poesia, notas sobre piadas que eu acordei no meio da noite para escrever. Eu pensei que provavelmente deveria limpar algum espaço para as coisas sérias.

"Deixe-me limpar isso", eu disse, estendendo a mão para a mesa, enquanto Melissa estava trabalhando focada em seu espaço altamente organizado. Eu nunca pensei em mim mesma como uma pessoa confusa, então esta situação era um pouco embaraçosa.

"Quer ajuda aí?" Melissa riu. Ela prestava atenção em várias coisas ao mesmo tempo. Conseguia saber quando o que eu estava fazendo só de ouvir. Isso me assustava às vezes.

"Oh, não. Não. Não." Eu disse, preocupada que ela iria ver as coisas estúpidas que eu faço com meu tempo livre.

Eu puxei todo o papel juntos, mas um ataque de pânico começou a crescer na minha mente e eu não percebi por que imediatamente. Alguma coisa estava faltando. Algo muito importante. Algo crucial.

Meu caderno. Meu caderninho marrom.

"Melissa" Eu odiava como mórbida minha voz soa quando estou nervosa. Eu queria poder soar desesperada, porque é isso que eu estava no momento.

"Onde ... está ... meu caderno?"

"O que? Aí" Ele apontou para o meu caderno verde, o que eu usei para tomar notas nas aulas.

"Não" Fechei os olhos em pânico. "Meu diário", eu disse, entre dentes.

"Bem, se ele não está lá..."

"...as garotas!" Eu gritei, enquanto corria pela porta.

Eu olhei para a direita e esquerda, sem saber para onde ir.

A mulher que fazia a limpeza estava em pé no final do corredor, e eu fiz uma oração que ela saberia onde essas meninas loucas estavam.

"Olá! Você pode me ajudar, Maria?"

"É claro, El", disse ela, agarrando o meu rosto. Eu sorri como se não fosse grande coisa que meu diário tivesse sido roubado.

"OH- Você viu duas meninas saindo do meu quarto? Para onde eles foram?" Eu perguntei, minha voz tremendo um pouco.

"Aquelas magrelas que não sentem frio?" Ela perguntou, levantando uma sobrancelha.

"Exatamente!"

"Bem, um deles foi para a esquerda e a outra desceu as escadas pra Deus-sabe-onde"

"Ok", eu sussurrei. Respirei fundo. "O que eu estou realmente querendo é o meu cader... Uma delas estava com o meu caderno?"

"Caderno? Não, eu acho que não, Eleanor." Um deles estava carregando algo menor, marrom, velho "Ela me provocou.

Oh. Ok. Todo mundo queria que eu admitisse que eu tinha um diário.

Esse não era o problema agora.

"Ok, Maria. Uma delas estava com o meu diário?"

"Sim! Ela desceu as escadas, se você corre, você pode pegar ela."

"Muito obrigado Maria! Te amo" Eu beijei seu rosto com paixão e, em seguida, eu corri.

O dia ensolarado foi ainda mais brilhante do que antes, e eu estava quase a transpiração. Eu parei na entrada do prédio e olhei tudo em volta Sob as árvores — onde estava a garota? — Atrás dos arbustos — onde ela estava? — Os caminhos concretos para a piscina — onde? onde?

Então eu vi ela, e meus piores medos se tornou realidade.

Alicia McDonell estava lendo meu caderninho marrom, em que eu escrevi meus pensamentos mais profundos e os segredos da minha alma, ela estava lendo. E o pior: ela estava lendo em voz alta para seus amigos diabólicos. Fui até eles.

Eles estavam sentados na grama, no lado esquerdo do campo. Ela estava rindo e não me viu chegando.

"Toc, toc. Quem está aí?" Ela começou a ler a quinta linha na terceira página.

"Isso não é engraçado, Alicia." Eu disse.

"Oh." Ela abriu a boca e me olhou surpresa.

"Você pode me dar meu diário, por favor?"

"Pra você escrever suas piadas e poemas de coração partido sobre macieiras?"

Ela estava esperando todo mundo rir com ela, mas alguns permaneceram sérios, um pouco envergonhados.

"Sim por favor."

"Bem, você vai ter que trabalhar por ele em primeiro lugar"

"O Quê?" Revirei os olhos, tentando não enlouquecer.

"Sim, por que você não nos conta tudo sobre seu verdadeiro amor?"

Eu não fazia ideia do que ela estava falando.

"Me dá o meu diário."

Ela começou a rir.

"Então você admite que tem um diário." Ela gritou e os outros riram um pouco. Pessoas loucas. "Querido diário, hoje olhei para Jack Nichols na aula. Sei que ele nunca vai me amar de verdade, mas tudo que queria era que ele me amasse."

Ok, eu não tinha escrito isso.

Nossa, Alicia, estamos na faculdade ou no jardim de infância? Por que você é tão louca? Aliás, por que as pessoas estão rindo como se isso fosse normal? Acho que a verdade é que nunca crescemos de verdade.

Eu, por exemplo, com todos esses milhares de pensamentos, e com os olhares de pena que recebi instantaneamente, não pude me conter e tive a reação mais infantil e impulsiva: Dei um tapa na cara dela.

Ela rapidamente colocou a mão na frente do rosto, mas eu já a havia atingido. Peguei meu diário enquanto sua pulseira arranhava minha mão. Virei-me e comecei a correr para chegar ao meu quarto o mais rápido possível.

Eu tentei não pensar nos meus problemas futuros que eu acabara de causar.

309. Esse era o número na porta de madeira escura, meu dormitório. Quando abri a porta, tudo que esperava ver era Melissa e ouvir suas palavras encorajadoras, dizendo que não era tão ruim assim.

Mas o que eu encontrei foi algo completamente diferente.