Paralelo
1 Prólogo
Notas iniciais
Mas perae, o que era mesmo que eu tava falando?
As palavras acabaram se enrolando.
Acho que eu tava te deixando.
O seu beijo sempre acaba complicando.
Vou ficar mais um pouquinho por enquanto.
(Jorge e Mateus)
O namoro de João e Bianca está indo muito bem. Já se passou quase um par de mês desde que Bianca propôs namoro a João, e muita coisa aconteceu desde então: a turbulenta final do Warions, a volta de Karina pra casa, a fuga de Cobra e Jade, descobrir que Ricardo Cobreloa também é um Duarte, a prisão de Heideger e o sumiço de Lobão.
Nos momentos de ansiedade, angústia, medo, tristeza ou alegria João sempre esteve junto da amada. E por falar em alegria, praticamente em quase todos os momentos ele era a razão do sorriso e conforto de Bianca, inclusive no incentivo a voltar a sonhar com a carreira de atriz.
Era o namorado que apoiava e ajudava para que retornasse aos palcos. Se o sonho em ser Julieta, como sua mãe, não aconteceu como sempre imaginou, muitos outros personagens ainda esperavam para materializar-se no corpo da atriz tanto no palco como na televisão e no cinema. João sabia disso e convenceu seu diretor disso também, colocando-a para atuar ao seu lado no seriado que havia começado a gravar junto de René Spinelli, seu pai. Se João estava se destacando, ele queria Bianca ao seu lado, não só como namorada, mas como a atriz talentosa que ela era.
Após uma aula sobre José Wilker na Ribalta e com a sugestão do professor Edgard, o casal resolveu matar a curiosidade ao assistir um dos filmes de destaque da carreira do ator no cinema: a obra de Jorge Amado, Dona Flor e seus dois maridos na qual o ator interpretou o personagem Vadinho.
Apesar da empolgação do namorado com o filme, o cansaço de Bianca foi maior e a fez cair no sono antes do final da história. Influenciada pelo o que assistiu, Bianca sonhou que estava casada com João e com Duca, e acabou balbuciando o nome de Duca enquanto dormia no sofá abraçada a João que, com toda a insegurança e ciúme que tinha do ex da namorada, não reagiu bem.
Bianca nunca tinha visto o namorado tão atormentado. Com cuidado, conseguiu terminar a discursão sem maiores problemas, e pediu que não se importasse com um simples sonho. Sem revelar maiores detalhes, disse que foi um sonho confuso e que João também estava presente nele, porém não sabia o porque de ter falado o nome de Duca. O tormento de João não amenizou, mas por não querer ficar mal com a namorada assentiu.
No dia seguinte, mais tormento à insegurança de João. Quase chegando no prédio da Ribalta, viu Bianca saindo da casa de Duca na companhia do mesmo, o incômodo era visível em seus olhos. Não era mais uma implicância ou um ciúme do ex, mas o incômodo de pensar na existência de um sentimento que poderia nunca ser seu. Sabia que Bianca se sentia segura ao seu lado, que gostava dele e de tudo que envolvia a presença dele em sua vida, mas teria paixão ou amor?
Sempre foi duro pra João ver como todos consideravam o esse Carlos Eduardo lutador, como davam força, o apoiavam, se importavam. E as vezes era tão complicado conversar direito e conseguir bons conselhos do louco do seu melhor amigo cabeludo. Não que João quisesse ser tratado igualmente como tratavam Duca, mas queria mais atenção, que viessem aconselhá-lo sem precisar pedir, que o escutassem... Assim, resolve ir pra casa mais cedo e se aprofundar em seus pensamentos.
Algum tempo depois, Bianca chega da Ribalta e vê João jogado no sofá com olhar perdido.
– Ahh, então você ta aqui. Te procurei por toda Ribalta. Senti sua falta, minha dupla favorita.
Bianca se encontra sentada no colo do namorado dando beijinhos em todo seu rosto e lábios. Não entende sua postura cabisbaixa e tristonha.
– Que foi João?
João remove a namorada de seu colo e se levanta, ainda não estava preparado para conversar, queria mais tempo sozinho pensando. Que fim essa conversa pode levar?
– Eu te vi saindo lá da casa do lutador.
– João, o Duca é meu amigo. Estava lá como amiga.
– Você fala o nome dele dormindo, depois vai na casa dele, o que quer que eu pense?
– Não viaja João. Tenho certeza que nem sabe o por quê da minha ida lá, ou sabe?
– Não sei se quero saber.
Coçando a cabeça João não tira a expressão de tormento do rosto e apesar de uma certa tensão no clima Bianca acha o jeito dele fofo.
– Então, depois dessa história do Cobra, o Duca resolveu ir na prisão conversar com o Heideger. Foi tentar descobrir o paradeiro da Nati, mas pela conversa ao que tudo indica, o Lobão deu um sumiço nela e provavelmente ela não está viva, e ele ta bem triste com essa notícia. Fui lá na casa dele dar uma força como amiga, e fazer ele se convencer de que ficar em casa sofrendo não era a melhor opção.
– Mas tinha que ser logo você?
– Deixa de ser bobo, to aqui não to?
– Ta aqui agora... Mas até quando?
Bianca consegue enxergar toda a insegurança de João em seus olhos, com uma mistura de medo e curiosidade, mas também muita profundidade. Sem parar de encará-lo, levanta e chega bem perto do namorado, pega seus braços o fazendo abraçá-la na cintura e se põe na ponta dos pés, enlaça uma das mãos em seus cabelos e com a outra segura seu rosto. Os olhos fixos na imensidão verde, cheia de verdade e incrivelmente atrativa.
– Se eu não quisesse estar aqui, você pode ter certeza que eu não estaria. Agora deixa de ser bobo e me beija.
João beija, e não é qualquer beijo. Os beijos do casal sempre foram bons, Bianca reconhece o tanto que o namorado beija bem e o quanto a cada beijo só melhora. Mas a intensidade desse é maior e muito mais envolvente, tem mais calor. João não se aguenta e arrisca um toque um pouco mais ousado na namorada que pra sua surpresa não o repreende. Se arrisca mais, uma das mãos inquietas sobe a altura pulmonar, hesita, mas a toca suavemente. É surpreendido por uma forte apalpada em seu bumbum que o paralisa. Bianca para o beijo, mas não se solta do namorado.
– Hei, ta abusado hoje hein...
– Não vejo protestos.
Há malícia em suas vozes. Os dois voltam a se beijar calorosamente, o controle se esvai aos poucos. Amassos e apertões mais presentes. Desajeitados e sem se desgrudarem caminham para o sofá. Caem deitados. Bianca sente o peso do corpo do namorado sobre o seu, sente o volume de sua excitação. Esta excitada também, com o momento, com o namorado, com o risco. O risco? A realidade cai de paraquedas.
– Melhor a gente parar por aqui João.
– Parar por que Bianquinha? Ta tão bom!
– Eu sei que ta gostoso, mas estamos no meio da sala do mestre Gael que pode chegar a qualquer momento e ver a gente junto aqui nessa situação... Não quero nem imaginar.
Ao falar consegue fazer o namorado, mesmo hesitante, se levantar e se sentar ao seu lado. João nem sabe se fora a possível chegada do sogro, há alguém em casa que também pode aparecer e flagrá-los.
– É Steve, não vai ser desta vez.
Bianca ri da divertida lamentação do namorado. Pensa como é bom ter João ao seu lado! Como é divertido, como é agradável, como é fofo, como é leve, como ele é lindo! Encantada em seus pensamentos, retorna ao colo do namorado e gruda seus lábios novamente aos dele o fazendo recostar no sofá. Como é forte a vontade que sente de grudar nele e não largar mais.
Acompanhado de Karina, a chegada de Gael na sala não é percebida, o envolvimento do casal é grande e o susto mais ainda. Tudo petrifica.
– SOLTA A MINHA FILHA...
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