Paralelas
5 Capítulo 4 - Fogueira
Notas iniciais
MAX
De frente para uma fogueira quente e aconchegante, observava a interação e a troca de olhares entre alguns dos meus amigos e conhecidos. Todos estavam em um clima divertido e descontraído, bebendo, ouvindo música alta e dançando, exceto por Stella/Sadie que tirara a noite para afogar suas mágoas.
Ela segurava uma fotografia pequena entre os dedos. Seus longos cabelos pendiam na lateral de seu rosto e criavam uma cortina para esconder seus olhos marejados.
— Você pode conversar, se quiser. – Tentei puxar assunto com ela novamente, retomando a conversa que havíamos interrompido mais cedo. – Ou tentar se distrair. – Disse amigavelmente.
— Deveria, não é? – Inspirou uma forte lufada de ar, seus olhos ainda fitando o chão.
— Sim e isso aconteceu tem um bom tempo. – Apontei para a fotografia em sua mão. – Você já deveria ter destruído isso.
— Encontrei por acaso, largado nas minhas coisas, só não esperava que fosse despertar esses sentimentos. – Resmungou, ela dobrava a ponta do papel com seus dedos, amassando de um lado para o outro.
— É por isso que eu não guardo nada.
— Não seria por que você não namora com ninguém? – Me encarou com a sobrancelha arqueada, era um argumento incontestável que tinha nas mãos.
— Dá na mesma. – Dei de ombros.
Esse impasse tinha uma resposta simples; o ensino médio não despertava grandes emoções em mim, especialmente pela futilidade e o vazio existencial da maioria das pessoas, o que me afastava drasticamente da possibilidade de ter qualquer tipo de relacionamento.
Em qualquer lugar que olhasse naquela escola, em qualquer uma das festas que já fui, não via nada além de um bando de pessoas forçando momentos “memoráveis” que serviriam de consolo no futuro, um lampejo de uma vida boa que ficou para trás. É claro, alguns iriam parar nas repúblicas da faculdade e teriam uma dose dobrada dessa encenação toda, mas outros se casariam no primeiro teste positivo de gravidez.
Tedioso.
— Eu deveria ser mais como você. – Sua mão estava mais próxima a fogueira, ela balançava a fotografia próximo ao fogo.
— Sou um ótimo exemplo, não é mesmo? Tenho orgulho disso. – Ri, queria quebrar o clima tenso o mais rápido possível e substituir as lágrimas de tristeza em seus olhos por uma gargalhada sincera.
— Você se acha demais, Max. – Revirou os olhos, mas não conteve um sorriso largo. – Eu odeio a adolescência e essa bomba hormonal de sentimentos com o qual somos obrigados a conviver. – Ela jogou a pequena fotografia na direção do fogo, seus músculos relaxaram e ela exalou uma forte lufada de ar.
— Vai passar, daqui alguns anos. – Cutuquei seu ombro a empurrando para o lado.
— Isso não é muito reconfortante. – Retribuiu o empurrão, com mais força, quase me derrubando do tronco. – Mas obrigada. – Expressou o máximo de gratidão que conseguiu. – Como você está?
— Bem. – Respondi automaticamente, esperando que isso bastasse, mas sabia que sua pergunta tinha um quê a mais. Ela me fitou em silêncio, esperava por uma resposta mais completa e isso não envolvia meu estado de agora. – Poderia estar melhor se metade dessa cidade não quisesse me matar. – Admiti.
— Eles não querem te matar... Esquartejar talvez.
— Isso é bem animador. – Não escondi a melancolia na voz.
Era apenas uma carta, um pedaço de papel estúpido que tinha transformado minha vida em um caos sem precedentes. Se tivesse prestado atenção na aula e feito as anotações, ao invés de escrever um desabafo, isso não teria acontecido.
— Deveria ter ido com você. – Expressou seu arrependimento.
— Não! – Interrompi sua fala com firmeza. Não suportaria vê-la no chão, sangrando até a morte no meio daquela floresta. Era uma ideia incontestável e ela se colocar em perigo para me ajudar era mais absurda ainda. – Você se manteve segura.
Estremecia sempre que as lembranças daquela noite vinham à tona. Os gritos de socorro eram totalmente abafados pela ventania que cortava aquela noite e forçava um ricochetear estrondoso nos galhos e nas folhas das árvores.
Por mais insignificante que aquelas pessoas eram para mim no dia a dia, elas não mereciam o fim que tiveram e seria insustentável lidar com a perda de Sadie se ela tivesse aceitado ir naquele acampamento comigo. Era melhor que as coisas tivessem saído dessa forma, porque eu conseguia lidar com essa situação, mas não saberia lidar com a culpa de ser responsável pela morte dela.
— E agora eles estão em cima de você. — Sadie apontou.
— Ser suspeito não é ser culpado. – Mas isso não evitava o ódio contra mim, ainda mais quando eu era uma das únicas pessoas mais próximas a todos eles e que ainda frequentava a escola. Deveria ter feito igual ao outro garoto, que decidiu manter as aulas em casa, para se manter afastado da polêmica.
Naquele ponto, meses depois sem ter alguém para culpar, qualquer mísera prova era substancial o suficiente para fazerem uma acusação formal e quanto mais reservado fossemos, melhor.
Não acreditava que Kyle seria capaz disso, ele se dava bem com todo mundo e era apaixonado por todas as atividades extracurriculares. Talvez o nosso veterano, que saiu da escola tinha três anos, tivesse algumas pendências a resolver e decidiu usar a noite da campina para isso. Mas, de qualquer forma, nenhum deles tinha escrito um desabafo, que soava mais como uma ameaça de morte, para a maioria dos alunos que foram mortos naquele dia.
Ponto para mim.
Ficar escondida e evitar os olhares não seria favorável para mim, minha ausência serviria de combustível para alimentar os boatos e não demoraria para mais alguma coisa se voltar contra mim. Meu karma não era um dos melhores. Decidi encarar a situação para tentar provar minha inocência, mas a ideia era boa apenas em teoria.
Meus amigos confiavam em mim, o que me dava um total de quatro pessoas que nunca sairiam do meu lado, mas ainda restava 395 contra mim.
— Acho que você deveria aproveitar essa noite direito. – Cortei o assunto e ergui meu copo de bebida para Sadie. – Já estamos no inferno mesmo.
Ela pegou o copo sem hesitar e o levou a boca.
— Você vai ter que fazer um transplante de fígado até a faculdade. – Comentou entre risos e me devolveu a bebida.
— Não exagera! – Revirei os olhos. Vinha na fogueira toda semana, mas, até então, não tinha sido eu quem apagou depois de virar meia garrafa de tequila.
— Você não pode usar essa situação contra mim todas as vezes! – Percebeu pelo meu olhar o que eu mantive em silêncio. – Eu tive meus motivos. – Defendeu-se.
— Eu não disse nada! – Mordi o lábio para conter uma risada.
— Como se eu não soubesse o que você estava pensando. – Suas mãos empurraram para fora do tronco que estava sentada. Senti o impacto das minhas pernas contra o chão e minhas mãos apertarem as folhas secas, a procura de um apoio. – Devidamente em seu lugar. – Pontuou, a sobrancelha arqueada e a face com um olhar desafiador.
— Não sabia que o meu lugar era junto do seu. – Respondi na mesma entonação. Coloquei-me de pé ao seu lado e bati no meu casaco para tirar as folhas que grudaram no tecido de flanela. – A uma ótima noite de quarta-feira? – Peguei uma garrafa de bebida que estava pela metade próximo a fogueira e ergui em um gesto de brindar.
— Eu sempre estou. – Sadie ergueu o copo mais uma vez antes de bebê-lo novamente, dessa vez ingerindo todo o líquido de uma só vez.
Eu a segui com a garrafa, tocando o gargalo gelado com a ponta dos lábios. Sentir o gosto puro da bebida era extremamente desconfortável para mim, mas depois do terceiro gole já não sentia mais nada, ficava totalmente anestesiada.
— Acho que vamos precisar ligar para o Noah.
— Sim, porque eu não tenho a menor intenção de me controlar hoje.
Era difícil alguém acompanhar o meu ritmo sem passar mal ou ficar de ressaca, mas eu tinha um “dom nato” para misturar inúmeras bebidas e sair ilesa algumas horas depois. Sadie encheu seu copo com o que sobrara da garrafa, mas não aguentou. Ela fez uma careta desagradável e seu corpo contraiu em enjoo na última golada.
— Você é impossível. – Ela se colocou de pé ao meu lado e me puxou para a parte mais afastada da fogueira onde algumas pessoas dançavam.
Meu corpo fervilhava com a quantidade de álcool que havia ingerido em pouco tempo e minha visão não demorou para ficar turva. O último resquício de sobriedade se foi quando me rendi à dança e permiti que meu corpo se movimentasse na mesma intensidade da música. Sadie mantinha total controle de seu corpo e executava com perfeição os movimentos decorados.
Estava no fundo de um sedan, recostada em um banco rasgado de cor cinza. O cheiro no interior do carro era de cigarro, maconha e um pouco de whisky – a julgar pelo aroma seco e intenso. Sentia um peso descomunal sob meus ombros me empurrar contra o estofado duro.
Sadie se remexia ao meu lado, no assento do meio, e balançava os braços o máximo que podia no ritmo da música. Ela estava sendo pressionada por mim e por um cara que eu desconhecia do outro lado do carro.
Noah estava sentado no banco do motorista e não conseguia enxergar quem estava no lado do passageiro. Era tão difícil distinguir os sons e as vozes que não conseguia identificar quem era a dona daquele vocal.
— Já estamos chegando em casa. – Sadie tocou meu ombro em um aperto suave. – Você bebeu demais.— Não enxergava nada além de um borrão, exceto pelos míseros momentos em que minha visão focava em alguma coisa além da ponta do meu nariz.
Queria levantar os braços e me ajeitar, mas o máximo de resposta que tinha do meu corpo era um movimento breve e interrompido pela força da gravidade, que tornava a puxar meus braços para os meus joelhos.
Sadie gesticulou alguma coisa para Noah e a garota do banco da frente se esticou para trás, não sei se era para me olhar ou conversar com o cara do nosso lado. A maioria das ações era indistinguível e rápidas demais para acompanhar.
Entre um piscar de olhos e outro, apaguei no carro e acordei apenas quando estava parada na frente de casa, com Sadie chacoalhando meu corpo gentilmente.
— Vou te levar para dentro. – Ela abriu a porta e me deu apoio o suficiente para que eu conseguisse jogar meu corpo para fora do carro.
Cambaleei na calçada alguns passos até me estabilizar, minhas pernas estavam tão dormentes quanto o resto de mim, mas aquele cochilo fora o suficiente para que eu recordasse parte da minha consciência.
— Você está bem? – Sadie me agarrou pela cintura, seu braço firme me impedia de cambalear enquanto caminhava para a porta de entrada.
— Sim... – Murmurei. – O que eu bebi? – Minha situação catastrófica só podia ser resultado de inúmeras bebidas misturadas de uma só vez.
— Coisas que nem eu sabia o nome. – Afirmou minha tese. – Estou surpresa, é a primeira vez que te vejo assim. – Procurou pelas minhas chaves nos bolsos da calça antes de encontrá-las no bolso interno da minha camisa.
— Eu consigo entrar. – Desvencilhei-me de seus braços e marchei para dentro. Demorei alguns segundos para focalizar em seu rosto e perceber seu olhar obstinado me fuzilando.
— Aceitar ajuda não é um sinal de fraqueza, Max.
— Não quero que você perca a carona. – Apontei com a cabeça para o Jeep parado no meio fio. – Está muito tarde para andar sozinha. – Usei o único argumento capaz de convencê-la a confiar em minhas capacidades motoras duvidáveis.
— Só não cai da escada... – Deu-se por vencida e seguiu para o carro.
— Avisa quando chegar. – Sussurrei alto o bastante para que ela me ouvisse, mas baixo o suficiente para que meus pais não acordassem.
Tomei um banho longo e quente antes de seguir para o meu quarto, precisava sumir com o cheiro forte de bebida impregnado na minha pele e relaxar um pouco.
Precisava dormir para recobrar todas as minhas funções por inteiro, no entanto, estava hipnotizada pelas luzes de led do meu computador piscando no canto do quarto. Era uma armadilha ardilosa que me pegaria, se não fosse pelas dores musculares que estava sentindo.
Meu celular vibrou com a notificação de uma mensagem recebida e isso bastou para que eu focalizasse na cama confortável e macia que me esperava.
— É, dessa vez você não vai me convencer do contrário. – Apenas veria a notificação e largaria o celular de lado. Debaixo das cobertas, o sono e o cansaço se apoderaram do meu corpo por completo.
Obrigada por hoje, eu precisava disso.
Sorri com a mensagem de Sadie e uma nova notificação chegou em seguida.
Precisamos conversar sobre aquela viagem depois.
Bloqueei a tela de celular e o coloquei na mesa de cabeceira ao lado da minha cama, feliz por uma noite comum onde eu não fui a principal suspeita de um crime e a pessoa mais odiada de uma cidade inteira.
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