Paralelas

23 Capitulo 21 - Admirável mundo novo


Notas iniciais
Crave - Paramore

Max

O cheiro da tinta fresca na parede tornava o ambiente quase sufocante e era o último lugar que alguém deveria estar, mas eu até que gostava.

Ironicamente, me lembrava de um tempo em que era fácil acreditar em contos de fadas e naquelas histórias que ouvíamos antes de dormir. Como se qualquer um pudesse viver o sonho que Zakk Wylde viveu e tudo o que você precisasse fazer era só acreditar.

O que era preciso para cair nas graças de Morfeu e transformar nossos pesadelos em sonhos míticos?

Nunca soube quem foi Morfeu até então, apesar de conhecer a maioria dos contos gregos. Talvez, quando você é criança, não faz sentido gostar de um deus que transforma sonhos em realidade, uma vez que a sua realidade já é um sonho.

Mas, existe algum momento em que você aprende quem é ele. E então, tudo que estava no seu subconsciente muda e o arco-íris se torna um mar monocromático de dúvidas.

Como saber se estamos buscando por uma redenção no final de um arco caótico ou recusando o chamado do herói? Predestinada a algo ou não, não me restava nada além disso.

— Eu me odeio! — Sadie reclama, a tinta spray escorrendo pela ponta dos dedos — Cada parte de mim, tudo. — Ela mexe as mãos rapidamente pela parede, preenchendo o círculo azul com a mesma raiva com a qual fala.

— Você é incrível, Sadie. —Tento animá-la, mas o que vem a seguir é ainda mais ácido e ríspido.

— Se eu fosse tudo o que você diz, ela estaria comigo, não acha? — Inquiri, socando a parte seca da parede.

— Talvez ela não seja a pessoa certa. — Não era para soar exatamente como um clichê, mas não deixava de ser verdade.

— Na verdade, eu não sou a pessoa certa. — Solta uma risada sádica. — Porque ela se interessa por todo mundo, menos por mim. — Maneia a cabeça de um lado para o outro em sinal de negação. — Parece que eu nem existo pra ela.

— Como você espera que alguém te ame de verdade, quando você romantiza o pior em todo mundo? — Inclino o corpo em sua direção, trocando o apoio de pé. — Você mal consegue enxergar quem é de verdade. — Sadie sempre teve uma distorção enorme de imagem e nem mesmo a terapia estava dando conta de ajudá-la a superar essa dificuldade.

— Cala a boca. — Pede. Diferente de todas as vezes em que ela diz em tom de brincadeira, dessa vez existe uma raiva profunda em sua voz.

— Pensei que você precisasse da minha ajuda. — Pego uma das latas de tinta na caixa de tranqueiras e a jogo de um lado para o outro.

— É só você ver onde está faltando tinta e pintar. Não tem segredo. — Responde ainda mais áspera.

— Ei, pega leve comigo. — Ergo as mãos na defensiva. Sabia que ela estava frustrada com os acontecimentos recentes, mas não era justo descontar em mim. — Só quero te ajudar. — Encaro as formas abstratas no mural que ela estava fazendo em seu quarto e encontro um triângulo vermelho esperando para ser preenchido.

— É o que você sempre diz. — Resmunga, quase inaudível.

Finjo que não escuto e me concentro na forma geométrica à minha frente. O cheiro de solvente da tinta se aloja no fundo das minhas narinas e sinto uma leve pressão nas têmporas.

Isso nem parecia o que eu e Riley fizemos na detenção nos últimos dias.

Riley.

Uma onda de choque percorre o meu corpo e sinto uma ansiedade instantânea ao me lembrar que tínhamos marcado de nos encontrar mais tarde.

Estava tão animada pra integrá-la aos meus amigos e mostrar um pouco mais do meu mundinho que as ameaças que Nicholas fez e suas caretas pelos corredores não significavam nada.

— Já pensou em alguma fantasia? — Pergunto, esperando que isso bastasse para lembrar Sadie que tínhamos que sair em poucas horas. O quanto antes, de preferência.

Ela permanece em silêncio, extremamente focada na enorme bola azul diante de seus olhos.

— Sadie? — Não queria soar indelicada, mas não seria legal desmarcar com Riley tão em cima da hora. Sei que ela entenderia se eu explicasse o que aconteceu, mas...

— Na verdade, eu sei bem. — Diz, algum tempo depois, com um sorrisinho travesso. Seus olhos finalmente desviam da parede e encontram os meus pela primeira vez no dia.

— Posso saber o que?

— Hmm... — Sadie ergue uma sobrancelha e mantém o olhar enigmático. — Não. — Ela joga o spray vazio na lata de lixo e procura o paninho com solvente para limpar o excesso de tinta das mãos.

— Ah, qual é?! — Protesto. — Desde quando guardamos segredos? — Reviro os olhos e ela apenas dá de ombros.

— Você merece. — Faz um biquinho. — Parece que se esqueceu que nós existimos. — Existe certa amargura em seu tom de voz.

Era fato que estava relativamente distante desde a detenção, mas não pensei que isso a afetasse de alguma forma.

— Desculpa. — Digo, honestamente.

Esse era mais um bom motivo para justificar trazer Riley um pouquinho mais para o nosso lado do refeitório. Não que eu precisasse justificar, mas seria um porre ter que lidar com os comentários impróprios de Noah e Violet quando nos visse juntas.

— Vou pensar.

— Eu sei que você vai me desculpar. — Afirmo, lançando meu típico olhar de súplica com um fundinho arteiro que sempre usava para persuadir Sadie.

— Você não vai me ganhar assim. — Ela ri.

Finalmente estava conseguindo quebrar o gelo.

— Eu sei que você me ama. — Brinco.

Arremesso a lata vazia no lixo e procuro um paninho para limpar o excesso de tinta na ponta dos meus dedos antes de partir para a outra parte da parede.

— Esse é o problema. — Sadie percebe o que estou procurando e arremessa um pano umedecido em minha direção. — Você é insuportável, Max. — Seus olhos me encaram com certo rancor ou mágoa, não consegui distinguir ao certo.

Você não é a única que pensa assim. Guardei o comentário pra mim, lembrando da primeira vez que Riley disse isso pra mim. Alguns poderiam encarar isso de maneira negativa, mas eu até que gostava.

Soava como um elogio.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.