Paralelas

20 Capítulo 18 - Que diferença isso faz?


Notas iniciais
Recomendo fazer a leitura desse capítulo acompanhado dessas duas músicas: Then I Met Her - EKKSTACY e I Know It's Over - The Smiths (porque não poderia faltar e é a música que está tocando no quarto da Riley).

Max

O outono era como todos os outros dezesseis que tive até agora. As folhas caiam, os feches do sol em um fim de tarde embargavam meu quarto em um tom amarelado acolhedor, o vento frio entrava pela janela em uma lufada silenciosa e os pássaros paravam de cantar mais cedo.

Tudo era terrivelmente igual.

Bati as pontas dos dedos na mesa, o olhar fixo na janela e na cadeia de colinas que se erguia ao fundo das arvores da casa amarela que ocupava a maior parte da vista.

Dei uma curta tragada no meu baseado recém bolado e mordisquei a ponta de papel da piteira, reduzindo o espaço livre para que pedaços da erva entrassem na minha garganta.

Minha rotina era terrivelmente igual o outono e todas as outras estações que via passar de dentro desse quarto.

Tinha momentos bons, momentos ruins e momentos de limbo, que preenchiam a maior parte do tempo. Mas a quem eu iria culpar? A cidade pequena e sem graça que meus pais escolheram para fundar o negócio deles ou minha idade, que me impedia de entrar nos poucos lugares decentes daqui?

Assim que Peter voltou para o quarto, ele gritou em resposta a notificação de uma skin nova que ele ganhou em nosso jogo favorito. Isso me custou três dias de erva e alguns lanches a menos no refeitório? Sim, mas ver Peter feliz era recompensador.

Não podia identificar se a minha tontura era derivada das longas horas seguidas que estava na frente da televisão nos últimos dias ou se era do tanto que estava fumando. Um pouco dos dois, talvez.

Mas era isso ou focar no quão frustrada eu estava com Riley.

Riley deveria imaginar que eu estava puta com ela e que era por isso que não consegui trocar uma palavra sequer com ela nos últimos dias, quando eu estava brava comigo.

Criei tanta expectativa ao redor disso e só me dei conta quando ela não escolheu nenhum lado. Mas o que eu esperava? Que aquela cena toda desencadeasse na escolha da vida dela? Que ela abriria mão de seu melhor amigo de longa data por uma completa estranha, desconhecida e principal suspeita de um assassinato em massa? Claro.

Apesar de todos os meus esforços para me manter ocupada, as brechas de tempo que existiam entre uma troca de partida e outra ou o silêncio repentino na chamada eram o suficiente para que a imagem de Riley Stevenson acertando Cory em cheio arrancasse um sorriso tímido de mim.

Ou suas maçãs do rosto corado em raiva e timidez quando nossas mãos se tocaram naquele beco. Ou quando ela resolveu ir parar na detenção comigo por um motivo super idiota.

Os sinais da Riley eram tão confusos...

Talvez nem fossem sinais, talvez isso não passasse do seu jeito de ser e eu insistia em agir como se cada vez que nossos olhares se cruzavam e ela corava significasse algo do que apenas uma vergonha qualquer.

Eu estava enlouquecendo a ponto de ver coisas que não existiam e cogitar a possibilidade de ela poder viajar no tempo.

Trinquei o maxilar, contendo uma risada alta que precisaria ser explicada para Peter.

Primeiro, Riley partiu meu coração. Depois arrancou um pedaço de mim que eu nem sabia existir. Mas bastou uma palavra para ela desfazer cada uma das minhas certezas e me fisgar em seu mar rubro.

E agora, no quarto, eu estava sonhando acordada com ela de novo. Sonhando com o dia que Stevenson me enxergaria mais do que só como uma colega de turma — e a assassina de Crystal Falls, caso ela ainda acreditasse nisso.

Acendi mais um baseado e o queimei antes que o despertador, que havia programado para as seis horas, tocasse.

Organizei tudo em uma caixa e soquei na última gaveta da escrivaninha, no fundo de toda a bagunça de cadernos e anotações escolares que fiz nos últimos meses.

Joguei o resto das cinzas descarga abaixo e espirrei o meu perfume mais forte e de fundo amadeirado pelo quarto. O ventilador estava ligado, direcionado para a janela, expulsando todo o resquício de erva do ambiente.

Tinha pouco mais de uma hora até que meus pais chegassem, o bastante para fingir que nada disso aconteceu.

Contava até com a sorte dos meus olhos nunca ficarem avermelhados, nem mesmo com conjuntivite.

— Você deveria se ouvir. — Peter comentou assim que colocou o fone de ouvido. — É isso o que eu acho. — Respondeu, retomando o assunto.

— Eu não quero me decepcionar.

Gata, desde quando você começou a preservar o seu emocional por conta de uma garota? — Indagou com um deboche descarado na voz. — Mas falando sério, para de desperdiça esse tempo criando teorias. Você é a porra da Max Dubois, a pessoa mais incrível que eu conheço! — Elevou a voz em duas oitavas no término da frase. — Se ela não gostar de você, é porque ela não te merece.

A frase ecoou. Se distorceu sobre as ondas do mar de letras piscantes que vinha da televisão, como se uma luz se acendesse dentro de mim. O coração pulsando na mesma velocidade, o trincar do maxilar e respiração ofegantes entregavam todas as respostas.

Tempo era só uma definição vazia e irreal, assim como minha raiva era insignificante dentro da linha temporal que teríamos.

Logo nos formaríamos, Riley viveria seu próprio mundo e eu fugiria para o meu, pra longe de Crystal Falls e longe dos fantasmas que me assombram.

Levantei da cama em um sobressalto e joguei o fone de ouvido na mesa, junto do controle.

Puxei meu casaco de uma cadeira no caminho, desci os degraus de dois em dois até chegar no andar debaixo e correr para minha bicicleta, encostada no beiral da escada, próximo a porta de entrada.

Isso não era um filme, mas serviria bem como um clipe musical. Daqueles em que a música vai tocando em uma sequência de quadros no mesmo plano e mostra a história de amor de uma garota chapada que se dá conta do quanto é apaixonada por alguém e decide ir atrás dessa pessoa no meio da noite.

Mas, se fosse um filme, o ápice da trama de hoje seria encontrar Riley abraçada com Nick, observando a relação iminente dos dois crescerem, dentro de um quarto à meia luz e uma tensão embriagante no ar?

Rangi os dentes, lágrimas ardentes e secas se formam no canto dos olhos.

Nick poderia ter Riley pelo tempo que fosse da vida. Mas enquanto eu estivesse aqui, partilhando o mesmo espaço que ela, me recusaria perder qualquer instante que fosse de vê-la sorrir.

A magia de ser adolescente logo acabaria, as responsabilidades nos seriam atribuídas como fardos pesados demais para serem carregados. Nossa liberdade, comprada pelo dinheiro, a chama do amor se esvaindo aos quatro ares e nosso tempo de viver substituído pela contagem regressiva da morte que ansiávamos precocemente.

Riley queria minha ajuda para compreendê-la e eu a queria por perto. Era uma troca justa.

Não demorou mais do que dez minutos e um surto interno, criando um milhão de desfechos para cada um desses universos à parte, para chegar em sua casa.

Deitei a bicicleta atrás de um arbusto, cuidando para que Nicholas não percebesse que eu estava aqui — especialmente julgando o quão controlador ele consegue ser — e contornei a casa, a procura de um sinal que indicasse que ela estava lá.

De todas as teorias que fui capaz de inventar, encontrar uma garota de cabelos de fogo e uma touca azulada, xingando um telescópio que despontava da janela entreaberta, era a última delas.

— O que você está fazendo aqui? — Perguntou em um misto de surpresa e susto quando acertei um pedregulho no batente de sua janela.

— Queria falar com você.

— Existe celular, sabia? — Riu do parapeito da janela, projetando o seu corpo mais para fora. — Quer subir? Posso descer e... — Riley parou de falar quando percebeu que eu estava escalando pela grade de folhas secas que existia entre a portas do fundo e a parede de sua janela.

Ela afastou o telescópio e abriu o resto da janela, permitindo que eu entrasse por ali sem muita dificuldade. Sim, poderia ter escolhido o caminho mais fácil e ter evitado isso, mas não são pelas portas que fazemos história.

O quarto era iluminado por uma meia luz aconchegante, tão acolhedor quanto a temperatura amena de um anoitecer de outono.

— The Smiths? — Franzi o cenho, surpresa com a música que preenchia o silêncio da casa com o som baixo de um violão.

— Não me julga, beleza? — Riley levantou os braços na defensiva. — The Smiths é mais do que o Morrissey.

— É o que eu vivo falando pra Sadie. — Ri, tão surpresa com sua resposta que senti minhas bochechas corarem no que eu diria ser um gay panic repentino.

— Ele é bonito. — Apontei para o telescópio e agachei para olhar através de seu prisma, tentando esconder meu rosto vermelho.

— Boa sorte tentando ver alguma coisa com essa merda. — Resmungou. Provavelmente era isso que ela estava tentando fazer quando cheguei.

— Você só precisa regular. — Ajustei a parte ocular do prisma e o buscador na direção da lua cheia que despontava no céu estrelado, visualizando com perfeição a lua. — Por que você não tenta?

Riley murmurou algo para si e se reclinou em direção ao telescópio, apoiando a cabeça gentilmente no feixe para observar o céu.

— A vastidão do universo é linda, não é? — Murmurei, depois de passarmos um tempo observando as estrelas iluminando ainda mais o céu conforme a noite avançava.

— Sim. — Afastou-se do telescópio e voltou a atenção para mim, os olhos curiosos me fitando de volta. — Mas, você não veio aqui para arrumar o telescópio. O que você está fazendo aqui?

Sendo específica, faltava pouco tempo até a festa do Oliver e, se eu quisesse aproveitar o pouco de tempo que restava com Riley, precisava lidar com meu orgulho e a situação catastrófica que habitava dentro de mim

Já que era para sofrer de amores por ela, que eu fizesse cada segundo valer a pena.

Mas, a única coisa que fui capaz de responder foi:

— Acho que devemos fazer algo novo para tentar entender o que está acontecendo com você. — Ela me encarou, o cenho franzido em dúvida.

— Agora você decidiu falar comigo? — Indagou, endurecendo a postura.

— Você pediu minha ajuda, não foi? — Repliquei, a sobrancelha arqueada da mesma forma que a dela. — É pegar ou largar.

Não existia um plano ou tutorial do que fazer para repetir o que aconteceu em Seattle. Na real, eu nem sabia o que estava fazendo e como poderia ajudá-la, mas se inventar alguma coisa significava que teríamos mais tempo juntas, então eu precisava inventar algo rápido.

— E o que seria esse “algo novo” que você falou? — Uma faísca de esperança surgiu no olhar de Riley e substituiu o misto de surpresa e desconfiança que ela manteve desde que cheguei.

— Eu tenho uma ideia.

Notas finais
Escrever este capítulo foi interessante, primeiro porque me peguei em dúvida se deveria transformar esses acontecimentos em realidade, ou se eles se passariam apenas como um devaneio de Max; e segundo, porque criei um universo completamente à parte para outra história que está nos processos iniciais de seu desenvolvimento. Espero que você tenha desfrutado da atemporalidade e desse jeitinho inconsequente que a Max tem. Nos vemos em breve.