Paraiso Imperfeito
14 Inalcançavel
Notas iniciais
\"Se tens um coração de ferro, bom proveito.
O meu fizeram-no de carne e sangra todo o dia.\"
(Saramago)
Quando Shikamaru acordou naquela manhã, ainda ficou alguns minutos imóvel fitando o espaço vazio ao seu lado na cama. Os lençóis desarrumados e o travesseiro fora do lugar evidenciavam que alguém estivera por ali, mas o Nara sabia que tal pessoa não estava mais lá.
Mesmo que ainda restasse mais dois cômodos naquele enorme quarto de hotel, ele sabia que a procura seria em vão, já que provavelmente a dona do quarto já deveria estar a kilometros dali. Ele sabia, era sempre assim, o fato de ter durado um pouco mais que as outras vezes não significava que terminaria diferente.
No fim, sempre terminava.
A porta do quarto foi batida algumas vezes o obrigando a se levantar, e por mais que sua vontade fosse continuar ali aproveitando o solitário, mas quentinho e confortável colchão, ele sabia que logo teria de deixar o local, afinal, agora que a dona já se fora, ele não passava de um intruso. Coberto apenas por um roupão que ele achou jogado pela cadeira, abriu a porta já pronto para justificar sua presença ali, mas deteve-se ao ver uma servente lhe empurrar um carrinho lotado de coisas gostosas.
Shikamaru: Deve ter errado de quarto.
- Iie! A dona do quarto, deu ordens expressas para que o tratemos como um hospede especial.
Shikamaru: ela ainda está aqui? — suas palavras rápidas denunciaram seu nervosismo que foi imediatamente notado pela atendente que hesitou um segundo, antes de voltar a sorrir, do jeito educado que foi treinada.
- Iie, senhor. Ela apenas pagou algumas horas extras quando fechou a conta do hotel esta manhã. — ela explicou, levemente confusa com o olhar atônito do rapaz. De repente arregalou os olhos castanhos, em um misto de assombro e surpresa – oh! Ela até deixou um recado para o senhor. — ela disse, apalpando os bolsos de sua roupa, até encontrar um pedaço de pergaminho cuidadosamente dobrado, e entregou a Shikamaru – faça bom proveito de sua estadia aqui, senhor. — ela sorriu, fez uma reverencia e finalmente saiu, voltando a deixar o nara sozinho no luxuoso quarto.
Com um cuidado quase debil, o moreno desdobrou o pergaminho a procura do recado deixado pela kunoichi da areia, que pela primeira vez parecia ter tido a decência de se despedir, mesmo sendo daquela maneira impessoal.
Foi impossível não se se assustar, quando ao contrário de uma caligrafia firme e aristocrática, tudo o que viu foi um grande borrão vermelho que formava exatamente o desenho de uma boca com lábios cheios e firmes. Nenhuma outra palavra, nem rabisco, apenas o beijo desenhado no pergaminho frio.
No fundo, shikamaru teve de controlar seus ímpetos de beijar o desenho e ao perceber a situação ridícula, não pode controlar a repentina irritação que pareceu explodir em seu peito. Ouviu um barulho estridente de algo se espatifando e incrédulo, percebeu que havia quebrado um vaso que servia de decoração no quarto.
Ridiculo!
A calma e total controle da situação, que eram suas marcas registradas e motivos de fama entre os ninjas, haviam se esmigalhados em apenas um segundo. E tudo por causa daquela mulher que sempre conseguia fugir dele.
Inalcançável
Automaticamente, achou um maço de cigarro que estava guardado em sua roupa fazia algum tempo já que ela detestava o cheiro da nicotina.
Por ela, havia parado de fumar. E por ela, agora voltava ao vicio.
Ridiculo!
Sua vingancinha infantil de confrontar a loira era patética. Principalmente por que ela não estava mais lá.
OoOoOoOoOoOoOoOoO
“Aonde ele está?”
Era o que a kunoichi de cabelos róseos se perguntava enquanto procurava pelo amigo, que não via desde que voltaram de missão. Estava de folga aquele dia, diferente de Sasuke que continuaria seu árduo trabalho de recrutamento para a policia ninja, por isso achou um ótimo momento para falar com o amigo cabeça oca que parecia estar querendo se afastar deles.
No centro de treinamento da ANBU, ele parecia não ter nem aparecido, pelo menos fora o que uma tal de Torh havia lhe dito. A kunoichi ruiva pareceu ter ficado preocupada demais com o loiro, para o gosto de Sakura que não havia gostado nada, nada da ninja. No apartamento, Naruto também não estava, e nem na barraca de lamen ele havia aparecido. Havia alguma coisa muito errada.
Mas então, caminhando pensativa pelas ruas da cidade, uma lembrança passou por sua mente como um raio cortante.
“É claro!”, ela soltou um suspiro pesado diante da própria revelação. Sabia muito bem aonde o uzumaki estava e agora mais do que nunca deveria estar precisando de um ombro amigo.
No grande cemitério, na parte aonde apenas os ninjas mais respeitados eram enterrados, uma única alma viva era vista cercada por todos aqueles ninjas respeitados, mas já mortos.
Sakura: Naruto. — murmurou pesarosa, se postando em pé ao lado do loiro, que estava sentado em frente a um dos túmulos.
Naruto: Faz cinco anos que ele morreu. — ele disse em resposta sem nem olhar para a rosada. Estava lá, a várias horas, mas não se importava. Saber que seu sensei, o cara que havia se tornado quase como um pai para ele, estava ali, enterrado, morto, o deprimia incontrolavelmente. Tinha a impressão de que não importava quanto tempo passasse, ainda sim, a dor não diminuiria. — ero-sennin...
Sakura: Eu tenho certeza que, de onde quer que ele esteja, está orgulhoso pelo que você se tornou. — ela exclamou, animada, tentando a todo custo animar o amigo, mas seu próprio sorriso murchou ao ouvir a risada sarcástica dele. Uma risada que não pertencia ao naruto que ela conhecia.
Naruto: Ah é, então me fala Sakura-chan, no que eu me tornei? — ele perguntou, com uma risada seca e sem humor, dessa vez encarando a kunoichi médica que também não deixou-se intimidar.
Sakura: Você se tornou o herói da cidade – ela disse com um sorriso espontâneo. Estava sendo sincera, mas diferente do que pensava, Naruto não pareceu muito animado com a classificação. Pelo contrário, nem mesmo seu sorriso debochado continuou, se fechando em uma carranca fria e distante.
Naruto: Não se engane, Sakura. Eu sei que muitos ainda me veem como o monstro que eu sou.
Sakura: Você não é um monstro!
Naruto: Kyuube. — apenas a menção do demônio fez a moça estremecer. Ele parecia sentir o medo que aquele nome atraia – é nela que todos pensam ao me ver. — ao vê-la abrir a boca, rapidamente a cortou – não tente mentir para si mesma.
O silêncio da kunoichi, deu a ele a falsa ideia de que estava certo. Sakura olhou para aquele ninja por alguns instantes. Quem era ele? E por que estava ali? O que ele havia feito com seu amigo, o ninja baka e impulsivo que ela tanto sentia falta? Aquele loiro não mais parecia o Naruto que ela conhecia. O que havia acontecido? Era o que ela queria saber. Queria seu amigo de volta.
Sakura: Por que, Naruto? — sua pergunta foi séria, diante da expressão vazia do ninja – por que você se tornou tão amargurado?
Apesar da expressão neutra do shinobi, ele surpreendeu-se com a pergunta. Viu nos grandes olhos verdes a decepção e a busca frustrada por uma pessoa que não existia mais. Sakura finalmente o vira como ele era, como ele havia se tornado, dessa vez ele não conseguiu mais esconder-se por trás dos sorrisos apaixonados que guardava especialmente para sua kunoichi.
Sua demora para responder pareceu incomodar a rosada.
Sakura: Eu sou sua amiga. — e pronto. Mais uma vez, suas palavras despertavam o lado mais negro que existia naquele novo Naruto.
“Amigo”.
Um sorriso sarcástico mais uma vez se formou nos lábios do loiro, junto com um olhar feroz e cheio de malicia.
Naruto: Amiga? Eu não quero sua amizade. — suas palavras diretas surpreenderam a kunoichi a deixando sem reação – mas você sabe disso. — acusou-a.
Sakura demorou alguns segundos para recompor-se, e ainda tentou rebater as acusações do uzumaki, mas não teve chances.
Naruto: Se não se importa, eu queria ficar sozinho. — dessa vez, seu tom foi calmo e controlado. Como se nada tivesse acontecido, e a conversa de segundos atrás não houvesse acontecido, o que deixou Sakura bastante confusa.
Ela abriu a boca diversas vezes para falar algo, rebater a acusação ou até mesmo xingá-lo por ser tão estupido, mas não conseguiu formular qualquer frase. Suspirou derrotada e virou-se para ir embora, mas antes deu um último olhar para aquele rapaz tão parecido com seu amigo de infância.
Sakura: Não deixe as mágoas e frustrações te tornarem uma pessoa fria e sem sentimentos, Naruto-kun.
Naruto: Eu acho que é tarde demais, Sakura.
As últimas palavras abateram a Haruno da forma mais dolorosa que ela podia imaginar. Ver Naruto daquele jeito, a deprimia profundamente. Sempre pensou que o amigo nunca deixaria se subjugar às adversidades da vida, mas naquele momento percebera que ele já não era mais o mesmo.
Com o olhar fixo no tumulo a sua frente, ele fechou os olhos e os punhos pensando em tudo o que o homem que jazia ali havia lhe ensinado.
Naruto: Eu ainda continuo o mesmo nada de sempre, sensei. — disse entre os dentes, sentindo o peso daquelas palavras em seu coração. Seus olhos se fecharam com mais força assim como os punhos e quando voltou a fitar o tumulo, os olhos azuis estavam nublados e ferozes – mas eu prometo que isso vai mudar. Eu vou ficar mais forte, vou virar Hokage e você vai ter orgulho de mim. Não vou mais me distrair com futilidades e vou treinar duro – ele sorriu, mas de forma sarcástica e maliciosa -Não vou mais ligar para essas bakisses de amor. O senhor é que estava certo todo esse tempo. Tudo o que não for parte do meu sonho, vai ser apenas diversão e amor definitivamente não tem nada haver com ele. Eu vou conseguir, Jiraya-sensei. Eu prometo.
OoOoOoOoOo
Tenten bufou irritada ao sentir as primeiras gotas de chuva caírem insistentemente e molharem seu rosto. Havia acabado de dar uma aula incrivelmente cansativa para pirralhos ainda mais cansativos, e no fim ainda chegaria em casa encharcada por que esqueceu o guarda-chuva...de novo.
Sua distração sempre a fazia pagar caro e parecia que naquele dia não seria diferente. Obviamente sempre há a possibilidade de correr, ou parar em algum lugar coberto, mas a Mitarashi não estava muito motivada a fugir da chuva naquele momento, pelo contrário, talvez um banho de chuva até não lhe fizesse mal. Poderia lavar sua alma e seus pensamentos que ficavam a cada dia mais impuros a respeito de um certo melhor amigo.
Já convencida das vantagens de pegar a chuva que desabaria em poucos minutos, soltou uma exclamação assustada quando percebeu uma sombra lhe cobrir e um guarda-chuva ser estendido sobre sua cabeça. Suas bochechas coraram de imediato, sentindo o calor do corpo de quem quer que estivesse lá, mas o cheiro da colonia masculina não a enganava.
O constrangimento apenas aumentava.
Ela, justamente querendo se livrar de pensamentos libidinosos a respeito do Hyuuga e ele lhe aparece ali, bem perto e com aquele cheiro embriagador que ele sabia que ela gostava.
Tenten: Neji... — murmura constrangida demais para expressar todo o seu entusiasmo, mas respira fundo tentando controlar os próprios impulsos e batidas frenéticas do coração – N-não precisava...
Neji: Você sempre esquece o guarda-chuva. — ele disse simplesmente, entregando o objeto a ela, e em seguida afastando-se.
Tenten pensou um pouco. Sim, ela sempre esquecera, e ele sempre, por mais bizarro e incomum que pudesse parecer, estava lá, ao seu lado, com um guarda-chuva que ela provavelmente nunca mais devolveria. Quando olhou-o, o moreno andava na chuva um pouco afastado, mas sem tirar sua pose fria e sua carranca séria. Era como se nem mesmo a chuva conseguisse atingi-lo.
Inalcançável.
Ela bufou. Não estava mais aguentando continuar com aquela palhaçada. Nunca fora de desistir de uma luta e não seria agora que perderia a amizade de Neji apenas por pura vergonha.
Tenten: Neji! — kami-sama sabe como foi difícil para ela sorrir e fazer a mesma cara travessa de sempre – Baka! Por que está na chuva? Depois não quero o clã inteiro atrás de mim, me acusando de ter feito o maioral dos hyuugas de cama por causa de um resfriadinho bobo de nada. — ela tagarelou, tentando esconder todo o seu nervosismo e correu alguns passos para conseguir acompanhá-lo e colocar o guarda-chuva também na cabeça dele.
O gesto resultou imediatamente no constrangimento de ambos e de um silencio sepulcral que se instalou entre eles, mas que não durou muito, graças a Neji.
Neji: Pensei que seu namorado viesse lhe buscar...
Tenten: Nani? — visivelmente confusa, a professora juntou as sobrancelhas e olhou para o Hyuuga que não a encarava diretamente.
Neji: O tal que você foi encontrar naquele dia. — esclareceu friamente — Pensei que ele viesse aqui lhe buscar. — a olhou de esguelha.
Surpresa e completamente sem ação, a kunoichi sentia seu rosto esquentar cada vez mais, e ao perceber estar sendo alvo dos olhos albinos, fechou a cara em uma expressão de irritação.
Tenten: Isso não é da sua conta, senhor Hyuuga! — ela cruzou os braços em uma expressão infantil de birra, mas percebeu que o rapaz também não pareceu muito satisfeito e surpreendeu-se ao ouvir um suspiro frustrado vindo de Neji. Este ainda mantinha o olhar fixo no caminho a sua frente, como se tentasse resolver algumas questão séria, mas seu cenho estava franzido e seus olhos visivelmente nublados de irritação. – O-o que você tem? — ela perguntou sem se conter. Eram muitas emoções expostas em um ser tão frio e inexpressivo como Neji
Neji: Isso... — ele começou pausadamente voltando-se para olhá-la. Por alguns segundos, Tenten viu um brilho nunca antes notado naqueles olhos — ...não é da sua conta!
Tenten: NAAAAANIIIII??? — chocada, ela viu o Hyuuga voltar a andar sem olhá-la. Quem agora estava agindo como uma criança birrenta? Indignada com o rumo sem sentido daquela conversa, ela voltou a cruzar os braços em silêncio. Pensava como era frustrante nunca conseguir arrancar nada daquele ser.
Inalcançável.
E assim, em silêncio, os dois permaneceram, andando juntinhos embaixo de um guarda-chuva.
Isso até a sensei da escola ninja, de tão distraída com seus próprios devaneios e frustrações, acabar tropeçando em um pedra inconveniente no seu caminho. Tal tropeço lhe renderia uma bela queda de cara no chão, se um par de braços alvos e fortes não a segurassem imediatamente, mantendo-a levemente inclinada para frente, encarando bem próximo o rosto de linhas fortes e aristocráticas.
Quando se viu literalmente cara a cara com aquele Hyuuga, Tenten estremeceu. Podia sentir a ponta de seus narizes se tocando e os dois braços fortes ainda a seguravam com firmeza.
O guarda-chuva havia sido esquecido e fora arrastado pelo vento por poucos metros. Sem proteção, a chuva coincidentemente começava a engrossar e agora os pingos constantes não apenas molhavam seus rostos, mas começavam a empapar suas vestes.
Mas naquele momento, talvez eles não ligassem pois continuaram se encarando sem se afastar enquanto a moça era posta segura no chão. Os olhos chocolates estavam levemente arregalados, assustados e receosos, por serem fitados tão fixamente por aqueles orbes de perola tão frios e diretos.
Tenten ainda sentia a mão de Neji em sua cintura, e seu coração batendo tão freneticamente que ela tinha medo que ele pudesse ouvi-la. Constrangida, desviou o olhar, mas logo arrependeu-se pois acabou fitando diretamente os lábios finos e incrivelmente atrativos. Queria beijá-lo, mas o medo a paralisava, a idéia parecia tão absurda. Beijar Neji Hyuuga? Mas como? Ele sempre foi tão...
“Inalcançável”, a palavra foi ouvida apenas no seu pensamento, pois nesse momento sua boca foi possuída pelos lábios do Hyuuga que a beijou inesperadamente.
Primeiro, apenas um toque de lábios e os olhos chocolates se arregalaram ainda mais.
Entretanto, ao ficar consciente dos lábios quentes e possessivos sobre os seus, foi inevitável se entregar aquela doce caricia que nem ela mesmo tinha idéia do quanto era esperada.
Neji Hyuuga pareceu apenas se dar conta do que tinha feito, quando sentiu a moça aprofundar aquele singelo toque de lábios para um beijo cheio de luxuria e desejo. Inconsciente dos próprios receios, ele não hesitou.
Desejava aquele toque a tanto tempo que nem mesmo teve a vontade – ou a decência – de se controlar. Enlaçou o corpo firme daquela mulher e juntou ao seu, matando sua vontade de senti-la tão próxima quanto conseguisse.
O gosto do beijo se misturava ao da chuva que agora já os encharcava da cabeça aos pés. Os coques foram desfeitos, os cabelos lisos agora se pregavam no rosto pálido, mas no meio daquela chuva torrencial, em uma das várias ruelas da vila da folha, o casal se beijava com o fervor e a ansiedade que a muito ambos tinha guardado dentro de si.
OoOoOoOoOoOo
Apesar da chuva torrencial que assolava toda a vila da folha, fora dos limites da cidade, uma figura loira e alta podia ser vista se esgueirando entre as árvores da floresta densa.
Naruto parecia não se importar com suas roupas encharcadas, ou com os cabelos molhados que caíam sobre seus olhos. Corria livremente pela área florestada sem saber exatamente aonde ia chegar. Seus pensamentos polvilhavam dentro de sua cabeça, os músculos tensos pediam por um pouco de relaxamento, mas ele só não esperava que não fosse o único que parecia estar atrás de um pouco de relaxamento.
Quando por fim parou, se deu conta que estava novamente no lago de águas cristalinas e em uma especie de deja vú reencontrou mais uma vez a pessoa que estava lá da última vez em que visitou o local.
Hinata.
Mas diferente daquele dia, em que transaram enlouquecidamente, a moça não estava nadando nua pelas águas. Pelo contrário. Sentada em uma das pedras, como ele sentara naquele dia, ela segurava as próprias pernas olhando fixamente para o riacho a sua frente, parecendo tão concentrada que nem se importava de estar encharcada devido a chuva forte.
Ele também não ligava, e curioso continuou a fitá-la por alguns instantes. Apenas a observando, sem segundas intenções, sem pensamentos puritanos ou promíscuos, na verdade sem qualquer interesse. Ele realmente não sabia se via Hinata ali, ou a figura de uma pessoa tão solitária quanto a dele. As vezes, os conceitos pareciam se distorcer ou se misturar em sua cabeça.
Mas de repente, foi ela quem ficou consciente de sua presença, e um pouco mais assustada do que ele, recolheu-se hesitante diante da figura do loiro.
Hinata: n-naruto-kun? — ela sabia que era ele, mas o fato de estar naquele exato momento pensando nele, e de repente o mesmo se materializar em sua frente, a causava arrepios tanto de medo quanto de ansiedade.
Fora até ali para pensar em seus problemas, e o rapaz em sua frente tinha uma grande presença naqueles pensamentos, sentiu seu coração pulsar a mil diante da sensação incomoda de que aquelas miseras horas poderiam mudar completamente a sua vida.
Naruto: Não se preocupe, eu não vou agarrá-la. — disse friamente, deixando de encará-la, para fitar o rio que agora se agitava devido a chuva.
Hinata logo percebeu que seu estado de espirito não estava dos melhores, e parecia distante e irritado.
Hinata: O que houve? — ela tentou ser controlada, mas começou a ficar impaciente quando ele demorou um pouco para responder. — Naruto...
Naruto: Não é nada. — sua resposta veio irritada. Precisava relaxar e não de mais um interrogatório. Deu meia volta querendo ir embora, ao mesmo tempo que percebia a Hyuuga levantar-se do lugar aonde estava.
Hinata: É mentira. — Sem medir as palavras, ela fitou fixamente o corpo ainda de costas do uzumaki. Tinha algo de errado com ele, e não conseguia controlar o impulso de saber o que era. Passou a mão pela franja a fim de tirá-la de seus olhos e franziu o cenho ao ouvir a risada sarcástica dele.
Quando o Uzumaki se virou para encará-la, teve certeza de que realmente havia algo muito errado acontecendo. Naruto a olhava ferozmente, com um sorriso debochado, mas não do jeito sensual que sempre a fazia se derreter e sim de um jeito perigoso e maniaco que era uma tentativa desesperada de esconder os próprios sentimentos. Infelizmente para ele, a Hyuuga o conhecia muito bem, muito mais do que ele podia saber, admitir ou querer.
Naruto: Ah claro!!! E você sabe disso por que me conhece muito bem, hm?! Por que esses seus MALDITOS olhos podem perceber qualquer coisa!!! — seu deboche era ferino, suas palavras cuspidas ao vento, na tentativa de magoá-la, de fazê-la recuar. Deu mais uma gargalhada esganiçada – Me poupe Hinata! Não pense que me conhece por que você não me conhece!!!! — acusou irritado, a olhando com raiva.
Hinata desviou o olhar por alguns instantes antes de encará-lo novamente, triste por vê-lo daquele jeito. Ela não precisava do byakugan para ver Uzumaki Naruto, ela não precisava de qualquer kekei genkai para decifrá-lo. O conhecia muito bem. E naquele momento, a vontade dele de magoá-la era apenas para esconder a própria mágoa que deveria ser grande e dolorida.
Mas ele sempre tentaria mascará-la, ele nunca deixaria que ela se aproximasse.
Inalcançável.
Hinata: Hai, Você tem razão – ela começou baixinho – Eu não conheço essa pessoa fria e egoísta que você se tornou. Não sei quem é essa pessoa tão cheia de raiva e amargura.
Naruto: Todos temos lados surpreendentes não é mesmo, Hinatinha. — seu sorriso se tornou malicioso e agora era ele quem se aproximava dela, como um carnívoro em busca de sua presa. Ela não recuou e o deixou chegar tão perto que seus corpos puderam se tocar e sentiu a mão dele em seu rosto delineando os contornos de suas expressões. — Afinal, eu também não conhecia esse seu lado pervertido, que gosta de ser a amante de um jinchuriki nojento que todos do seu clã odeiam. — ele riu da cara dela quando a mesma abriu os olhos levemente horrorizada com suas palavras – é incrível deitar com você e pensar na cara de todos daquele clã se soubessem que eu transava a hora que eu quisesse com a meiga e pura herdeira do clã. Como é ser uma traídora, Hinatinha?
Sua próxima gargalhada foi calada pelo baque surdo de um tapa em seu rosto, marcando seu lado direito, como em resposta a sua provocação. Ao olhar para o rosto daquela moça novamente, o viu ainda mais pálido do que o normal e as gotas que manchavam sua pele não era apenas da chuva, mas também de dolorosas lágrimas que se formavam em seus grandes e expressivos olhos.
Sua Hinatinha ofegava tão violentamente que mantinha seus lábios abertos e seu corpo estava tão tremulo que chegavam a parecer espasmos contidos. Os olhos de lua cheia estavam sem brilho, apenas levemente cerrados pela raiva que parecia exalar de cada poro daquele pequeno corpo prestes a explodir.
Hinata: BAKA! É você quem não me conhece! — suas palavras saíram entrecortadas pelo choro – Será que não entende? — ela o olhou nos olhos, tentava achar algum resquício do antigo Naruto naqueles olhos azuis, entretanto tudo o que achou foi frieza e impaciência.
Naruto balançou a cabeça negativamente.
Naruto: Iie, é você quem não entende. Não precisamos nos entender, ou até mesmo nos conhecer. Nossa relação é apenas de prazer e diversão para nós dois. Sem compromissos. Sem culpa.
Naquele momento a Hyuuga teve vontade de lhe acertar mais um tapa, mas se conteve. O choro agora saía sem que ela pudesse se controlar. Na garganta, palavras entaladas que pareciam lhe sufocar, e no coração um sentimento apertado que era reprimido e fazia seu peito doer.
Nunca imaginou que as coisas chegariam a esse ponto. Ela nunca imaginaria que tudo o que ela esperou mais de anos para falar, sairiam em segundos, carregados de raiva e outros sentimentos ruins tão divergente do sentimento que carregou dentro do coração.
Hinata: Baka...baka...baka...eu amo você, será que não vê? — ela murmurou fracamente, fazendo o uzumaki franzir o cenho confuso para logo depois encarar as duas orbes peroladas fixadas em sua direção – Por que acha que eu fiz tudo isso? BAKA!! EU AMO VOCÊ! AMO! COMO NÃO PERCEBE?
Ele se calou e desesperada, Hinata o vê se afastando. Tentou chamá-lo, mas tudo não passou de um sussurro, aparentemente fraco demais para atingi-lo.
Inalcançável.
Sentindo seus joelhos bambos, ela se perguntava se tudo iria acabar daquele jeito. Um vazio sem resposta. E assustada demais com essa possibilidade, ela consegue agarrar a ponta da camisa encharcada fazendo-o imediatamente parar de costas para ela.
Apenas a centímetros de distancia, mas pra Hinata era como um abismo. Seu amado não a olhava, nem lhe dirigia a palavra, apenas lhe dava o seu silencio, e assim o seu desprezo.
Hinata: N-naruto-kun... — ela se humilharia? Imploraria pelo amor do loiro? Nem ela mesma tinha certeza do que faria a seguir, mas queria que ele ficasse ali, com ela. Sem palavras, eles caíram em um silêncio, aonde tudo o que se podia ouvir era o barulho da chuva e dos trovões que cortavam o céu enegrecido. Ela ainda segurava a barra da camisa, de cabeça baixa chorando, e ele sem olhá-la.
Mas antes que a Hyuuga pudesse formular qualquer palavra, qualquer pedido, a voz do loiro se fez presente naquele cenário cruel e trágico.
Naruto: Você não me ama... — foi o que ele disse com convicção, a fazendo olhá-lo novamente incrédula, e antes que ela retrucasse, ele continuou — Está confundido desejo com amor. — novamente, tentou andar, mas ainda sentia as mãos dela em sua camisa, dessa vez ambas o segurando com firmeza.
Hinata: Iie Naruto-kun... — agora sua voz saiu tão doce e controlada que até mesmo ela se surpreendeu, assim como o Uzumaki – é você quem não sabe o que é amar.
Naruto riu debochado e baixou a cabeça.
Naruto: Você pode estar certa. Mas se eu não sei agora, tão pouco quero saber depois. — ele sentiu as mãos dela se apertarem em sua camisa e fazendo uma grande força para não encará-la, ele afastou-se dela bruscamente a fazendo soltá-lo – E se quer continuar acreditando nisso, o melhor que devemos fazer é nunca mais nos vermos.
Imediatamente, Hinata o olhou com os olhos arregalados. O choque das palavras dele estampado no rosto desesperado dela. O silêncio de ambos foi doloroso, mas dessa vez uma decisão foi tomada e as lágrimas deixaram de cair.
Hinata: Talvez você esteja certo.
A voz firme da Hyuuga, o fez ter vontade de olhá-la, mas se conteve.
Hinata: É melhor que isso acabe aqui.
A chuva se intensificou ao mesmo tempo que um trovão cortou o céu clareando todo o local. Os olhos de Naruto e Hinata se cruzaram por alguns segundos, antes de se desviarem novamente para rumos diferentes.
Não houve mais qualquer palavra.
Apenas o ponto final.
E enquanto via o uzumaki se afastar, Hinata sentia o próprio coração ser esmagado.
Naruto estivera disposto a magoá-la e conseguiu, só que mais do que isso, ele destruiu o seu coração.
“Ele nunca foi meu”, ela pensava desolada cada vez mais sozinha, enquanto Naruto se tornava apenas um borrão no meio da floresta.
Inalcançável.
OoOoOoO
O beijo intenso e quase fogoso não foi interrompido nem mesmo pela forte chuva que caía sobre a cidade. Neji e Tenten pareciam esperar por isso a muito tempo, e quando o ar lhes faltava, seus lábios apenas se tocavam, os olhos ainda fechados para novamente começarem o ritual saboroso e devorador.
Infelizmente, ainda sim a separação era inevitável e quando ela aconteceu, ambos personagens ficaram tão constrangidos que coraram violentamente e mal sabiam o que fazer ou pra onde olhar.
Ensopados, agora nem se davam o trabalho de se proteger, o guarda-chuva já estava longe, mas o constrangimento era evidente e confuso.
Tenten: e-eu.... — ela tentava falar, mas ao abrir a boca nenhuma palavra saia. Constrangida, não conseguia encarar o Hyuuga e em um momento de puro desespero, ela apenas se foi.
Neji: Tenten... — ele conseguiu murmurar depois de ver a kunoichi já longe.
O que diabos tinha acontecido? Ele havia enlouquecido por acaso?
OoOoOoOo
Cansada, a floricultura dos yamanaka fecharia mais cedo aquele dia devido a forte chuva.
Ino estressava-se com os portões e cadeados quando uma figura do outro lado da rua chamou sua atenção.
Shikamaru andava com uma capa de chuva, mas ainda sim ela poderia reconhecê-lo, e surpreendeu-se pois para sua felicidade, ele estava sozinho.
Ainda pensava nas palavras de Sakura e tentou se controlar, mas não conseguiu. Era incontrolável.
Ino: Shikamaaaaruuuuuu!!
O nara olhou para o lado atordoado com o grito e com um suspiro foi até a floricultura aonde encontrou a loira sorridente.
Ino: Me ajuda a fechar a floricultura, to tendo o maior trabalhão aqui.
Shikamaru: Hai, hai, problemática.
A loira torceu o nariz vendo pela primeira vez o cigarro já na metade nas mãos do rapaz.
Ino: Engraçado, quando a princesa tá por perto, eu não te vejo fumando.
Shikamaru deu os ombros.
Shikamaru: É por que ela está por perto. Mas agora ela não esta mais.
Ino contou até cem para não pular de felicidade e demonstrar toda a sua euforia.
Ino: Oh, ela já foi...Hm...Shika-kun, tá chovendo muito. Vamos fechar tudo e ir lá pra casa. Não vou deixar você andando por aí na chuva sem necessidade.
Shikamaru sorriu, conhecia muito bem aquela preocupação da yamanaka e aquela vozinha manhosa que ela sempre fazia.
Shikamaru: Seus pais estão ai?
Ino sorriu dengosa.
Ino: Iie.
Shikamaru suspirou e jogou o fim do cigarro fora. Temari havia ido embora, como sempre.
Inalcançável.
Mas Ino ainda estava ali.
OoOoOoOoOoOoOoOoO
Tenten mal conseguia conter a própria respiração. Desde que chegara, apenas deitou-se em sua cama ainda molhada e ficou olhando para o teto e pensando nos minutos mais maravilhosos de toda a sua existência.
Havia brigado, discutido e beijado com direito a chuva e trovões, o frio e inalcançável Hyuuga Neji.
Estava feliz. Estava viva. Estava estonteante. Estava...perdida! E agora como iria encará-lo?
Bom, não importava. Pelo menos não agora, tudo o que queria era relembrar aqueles momentos tão perfeitos com o seu homem tão imperfeito.
OoOoOoOoOoOoOoOoOo
Hanabi sabia que tinha algo errado.
Cada fibra do seu ser gritava internamente de que algo muito sério havia acontecido ao gênio do clã.
Neji chegou aéreo, com o olhar perdido, todo molhado e os cabelos desgrenhados. O choque foi coletivo, o Hyuuga era conhecido por sempre estar impecável. Alguns disseram que a chuva o pegara de surpresa, mas ela sabia a verdade.
Alguma coisa fora do comum havia acontecido. E algo dentro dela, a fazia ter quase certeza de que não iria gostar de saber o que era.
De repente, a atenção toda do clã foi novamente chamada com a chegada, dessa vez, da herdeira do clã, e esta nas mesmas condições do primo, só que no seu caso, estava esbaforida, com o rosto vermelho e os olhos inchados.
Hanabi cogitou a ideia de todos estarem loucos, enquanto via a irmã correr desesperadamente em direção ao escritório do pai.
Antes de chegar as enormes portas de madeira, Hinata foi parada por uma gentil hyuuga, um pouco mais nova que ela, mas com o olhar alegre, bem diferente dos já costumeiros olhos frios do clã.
Hinata: Hana... — ela murmurou de cabeça baixa, não queria que a moçinha visse seu real estado, mas esta parecia estar eufórica demais para perceber tal coisa.
Hana: Hinata-san, eu consegui. Onegai, leia! Eu consegui o que me pediu – disse, toda feliz e orgulhosa de si mesma.
Hinata tentou forçar o próprio sorriso apenas para não magoar a moça, mas nem se deu o trabalho de ler. Apenas pegou os papeis, agradeceu e entrou no enorme compartimento aonde seu pai já a esperava.
Hiashi: Então Hinata, decidiu? — apesar do tom de pouco caso dele, seus olhos a fuzilavam e Hinata apertou mais os papeis em suas mãos, antes de se encher de coragem e dar seguimento ao que tinha decidido.
Hinata: Hai. Eu aceito casar com outro, que não seja o Neji-nee-san, e assumir o clã como manda a tradição.
Hiashi quase sorriu satisfeito.
Quase.
OoOoOoOoOoO
Depois de alguns minutos de conversa, Hinata finalmente conseguiu ir para o seu quarto descansar.
Ao fechar as portas, toda a sua pose altiva se desfez, e enquanto caminhava em direção a sua cama, ia tirando suas peças de roupas até ficar nua. Ao se jogar no colchão macio e quente, percebeu que ainda mantinha os papeis que Hana havia lhe dado.
Com um suspiro desolado, ela esticou as mãos e os guardou em sua gaveta com tranca, em seguida escondendo a chave no fundo de sua caixinha de joias. Não precisaria mais daquilo mesmo.
Com sua decisão, aquilo não tinha mais importância. Nada mais tinha, apenas uma coisa.
Hinata: O clã. Tudo o que interessa é o clã.
Notas finais
A parte da Ino, ficou meio tosca eu sei...ela pareceu meio atirada né, mas era só mesmo pra mostrar que agora que a temari já foi, ela e o shika...enfim xD Maaaas a alegria da loirinha vai durar pouco xD Então pra quem torce queo shika fique com a tema, não se desespere.
SakuSasu não apareceram pq ¬¬ eles estão bem...por enquanto.
E agora o que será que vai acontecer?
Tenten e Neji finalmente pareceram se acertar, mas essa historia está longe de um fim. Hanabi não vai desistir tão fácil!
E a hinatinha aceitou as condições do clã, mas será mesmo que ela vai levar essa historia até o fim? E o que será que tinha nos papeis que a Hana deu pra ela?
E o nosso amado e odiado Uzumaki? Na tentativa de cumprir sua recente promessa ao seu falecido sannin, o loirinho vai tentar se focar apenas em treino e diversão, mas pode descobrir que não é tão fácil assim trocar uma doce e sensual Hyuuga, e que talvez tudo não fosse assim só diversão como ele imagina.
Aos que estavam ansiosos pela virada de Hinata, sintam-se felizes! A hyuuga finalmente vai virar o jogo. Mas será que o amor vai vencer o orgulho?
Pra desvendarem esses e os outros misterios dessa fic louca e confusa, só mesmo esperando pelos próximos capitulos, aqui no mesmo bat-canal do NYAH! xD
Beijinhus =*
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