Paradoxo de Noel

1 Capítulo Único – Papai Noel


Notas iniciais
Yoo, terráqueos! Cá estou, relativamente atrasada (desculpa gente!) com essa one, postando à base de 3G roteado! Caso você não saiba (bem provável), "Paradoxo de Noel" foi quase toda escrita pelo iPad em um lugar sem Wi-Fi e com sinal instável, por isso deve estar meio desformatada em algumas partes :P Enfim, acho que não tenho mais o que falar. Só... aproveitem a leitura!

Diversas teorias sobre a origem do Papai Noel rondam o mundo, dia após dia, enchendo as ruas com murmurinhos de especulação. Alguns dizem que ele é uma entidade superior, que presenteia boas crianças para incentivá-las a permanecer no caminho do bem. Outros juram que o bom velhinho é um fantasma bondoso que protege as crianças. Poucas pessoas, como Haru de “Tonari no Kaibutsu-kun”, possuem certeza absoluta de que ele é uma fada. Ainda existem aqueles, no entanto, que acreditam piamente que o Papai Noel não passa de uma lenda, um mito, criado pelos adultos para que seus filhos se comportassem bem. Todos podem ter a crença que querem, pouco me importa. A verdade que contarei aqui hoje, é para os incrédulos e para que não se importam em ter suas imaginações coloridas e puras sobre a identidade do Papai Noel destruídas. Se você ainda quer acreditar que ele possui uma alma bondosa e iluminada, sugiro que pare por aqui. Nesse ponto, as coisas começam a ficar mais interessantes

***

New Orleans, 25 de dezembro de 1930.

Alisando o topete negro com a mão direita, Noel Lambert retornava para casa após um encontro com Krysta Collins, sua namorada. Assobiava uma música qualquer que havia escutado no rádio do carro de sua mãe,, praticamente dançando com a melodia enquanto andava. A rua estava deserta, não havia uma única alma viva que se aventurava a passear pelas ruas naquela hora da noite – era Natal, no fim das contas. Sua respiração condensava no ar, as luzes dos postes pelos quais passava piscavam vez ou outra, e Noel tinha que tomar cuidado para não escorregar nos montes de neve que assolavam a calçada de concreto.

Ao virar na esquina de um prédio baixo de tijolos, passou por uma criança maltrapilha encolhida no chão. Era uma garotinha loira, de cabelos sujos e emaranhados, com grandes olhos castanhos e amedrontados, que se ergueram para o jovem quando o mesmo despontou na rua. O corpo esquálido se encolhia, trêmulo, dentro de um sobretudo masculino marrom, obviamente grande demais para a pequena figura. Entrabriu os lábios arroxeados, revelando a falta de um dos dentes da frente, tentando balbuciar algo. Noel sorriu docemente e se agachou na frente da menina miserável.

—Você quer dinheiro? Talvez comida, ou roupas? Um colchão?

Incapaz de falar, a criança assentiu com a cabeça, esperançosa de finalmente conseguir o calor e conforto que tanto almejava. O sorriso do Lambert mudou de gentil para maquiavélico enquanto ele se levantava, olhando para a menina com desprezo e sarcasmo.

—Então ache algum idiota que seja burro o suficiente para lhe dar isso. Inútil, não consegue nem mesmo arrumar alimento para si mesma. Apodreça.

Satisfeito com a expressão desolada da pequena mendiga, Noel prosseguiu com seu caminho. Mal havia dado dois passos quando ouviu murmúrios atrás de si, provenientes da loirinha que há pouco humilhara. Virou a cabeça para trás, arregalando os olhos azuis em terror ao encontrar a figura magricela com os cabelos voando em torno de si, os dentes que ainda tinha eram pontudos e afiados. Os orbes marrons agora encontravam-se completamente pretos, e Noel nem teve tempo de gritar em socorro antes que sua visão escurecesse e seu corpo desmoronasse, flácido, no chão congelante.


New Orleans, 25 de dezembro de 1931.

“...Noel Lambert permanece desaparecido. Um ano após seu sumiço súbito, o jovem de dezessete anos retornava do restaurante onde havia encontrado com sua namorada quando desapareceu. Ele nunca chegou novamente em casa, o único indício deixado pelo sequestrador foi o cachecol que ele usava na noite. Algumas manchas de sangue foram encontradas no local, mas todas elas se provaram como sendo de Noel. Três meses após o desaparecimento do jovem, Krysta Collins, também de 17 anos e namorada de Noel, também desapareceu enquanto voltava da padaria. O paradeiro de ambos continua desconhecido, mas acredita-se que o casal foi sequestrado pela mesma pessoa. Agora fique com nossa patrocinadora Coca-Cola e seu mais novo rosto, o bondoso Papai Noel!”


Polo Norte, 24 de dezembro de 2009.

—Senhor Noel, o que é um ‘iPhone’?

Rolando os olhos cristalinos, Noel acenou para que o duende aproximasse. Fazia 86 anos que seu inferno particular havia começado: em um momento estava retornando para casa na noite de Natal, em outro, se encontrava no interior de uma residência no Polo Norte, cercado de pequenos humanos de orelhas pontudas, olhos miúdos e narizes anormalmente grandes, que lhe encaravam curiosamente. Seu cabelo tão cuidadosamente arrumado para trás estava mais curto do que o habitual, em uma cor tão alva quanto a da neve que despencava do lado de fora e se acumulava nos parapeitos das janelas. O rosto de bebê que tanto prezava estava coberto por uma longa barba branca que ele não conseguia aparar e adornado de rugas. A visão perfeita encontrava-se borrada e necessitando de óculos; sua barriga magra que causava suspiros de todas as garotas do colégio estava protuberante e inchada.

“Onde estou? O que aconteceu comigo?” indagou desesperadamente na época. Os duendes se entreolharam, intrigados, depois começaram a fazer diversas perguntas em um dialeto bizarro e complicado, que Noel desistiu de tentar entender depois de algumas falhas tentativas.

Os primeiros meses passaram como andar no melaço: arrastados e lentos, cada dia parecia grudar nele com força, se recusando a largar. No seu quarto daquela casa misteriosa, cataratas surgiam de tempos em tempos, lhe dando instruções do que fazer: confeccionar presentes na grande fábrica localizada dentro do imóvel, entregando para as crianças boas tudo o que elas desejavam. Toda vez que passava em frente a um dos espelhos espalhados pela casa, o coração de Noel pesava de amargura – seria esse seu castigo por tratar a pequena mendiga de modo tão horrível? Ficar preso naquele paradoxo tortuoso, onde cada dia se resumia a fabricar coisa atrás de coisa, embalando todos?

Não é como se Noel não tivesse tentado fugir, mas todas as vezes em que colocava os pés para fora da casa, retornava misteriosamente para o interior da mesma, e parecia estar ainda mais idoso do que quando saíra. Não teria como saber o que fazer, se não fossem as cartas que chegavam em sua casa, com pedidos escritos em letras tortas e grandes de crianças. Quase sempre era a mesma coisa: bonecas para as meninas, carrinhos para os meninos. Ele estava se entediando com aquela rotina repetitiva, quando sua namorada chegou. Krysta, assim como ele, tinha os fios acobreados transformados em brancos, o corpo jovial e esbelto, velho e rechonchudo.

A moça surtou: quem ela era sem sua aparência, afinal? Aparentemente, nada. Rancorosa e amargurada, colocou a culpa de suas ações terríveis para com uma moradora de rua loira em Noel. A relação de ambos aos poucos foi ruindo, a medida em que eles percebiam que nada tinham em comum além das aparências, e então eles não passavam de completos estranhos.

Noel mergulhou de cabeça no trabalho que lhe era dado, após perder tudo o que tinha. Ensinou inglês aos duendes, para que pudessem se comunicar com eficácia, e dê início os pedidos eram simples, mas o passar do tempo foi complicando. Assim como o duende, ele ainda não sabia direito o que era um ‘iPhone’, mas ele tentava.

Porque se no seu único dia de folga, a noite eterna que apenas acabava quando todas as crianças boas recebessem os presentes, ele entregasse algo diferente do que era requisitado, era mais um ano de sina para si.

—Chegue mais perto, Hancock. Não consigo ver daqui.

A pequena criatura se aproximou do trono dourado e vermelho do Papai Noel, segurando a carta rabiscada por alguma criança. O velho estava esperançoso de que algum desenho acompanhasse a escrita, mas não parecia ser o caso.

—Faça um daqueles celulares super-modernos que vimos nas casas de algumas pessoas ano passado, quando saímos para o Natal.

Sugeriu. Hancock afirmou veemente com a cabeça correndo de volta à sua mesa de trabalho. Ele era o chefe de sua estação, a responsável por todos os eletrônicos. Felicia era a duende responsável pela divisão de roupas, enquanto Maggie e Vince cuidavam da mesa dos brinquedos felinos e masculinos, respectivamente. Quaisquer dúvidas que os trabalhadores dessas seções tivessem eram tiradas com Noel por um dos duendes-chefes. Era mais prático e simples daquela maneira.

Um pigarro foi ouvido na porta da fábrica, e o ‘bom-velhinho’ virou-se, encontrando sua ex-namorada parada no batente. Mesmo após tanto tempo, ele e Krysta ainda não haviam conseguido retomar o romance, nem ao menos uma amizade havia crescido entre ambos, porém o clima entre o casal havia se suavizado com o passar dos anos, criando um ar de quase-cumplicidade. As costas recobertas pelo casaco vermelho estalaram quando Noel levantou-se e andou até a moça, que aguardava batendo o pé do chão, de braços cruzados – paciência nunca fora o forte de Krysta, disso ele sabia.

—Não erre um presente dessa vez. Eu não aguento mais esse lugar, essa vida trancada dentro dessa casa! Eu quero meus cabelos ruivos de volta, meu corpo de volta. A única razão pela qual eu ainda estou presa nesse lugar infernal é a sua estupidez.

Ele suspirou, cansado de ouvir o mesmo discurso todos os anos.

—A culpa não é minha se eu não sei o que essas crianças pedem!

—Você é burro? Não sabe ler?

—Claro que sei ler! Só não sei o que significam. Você por acaso sabe o que diabos é um ‘iPhone’?

O silêncio de Krysta foi autoexplicativo. Ela bufou, revirando os olhos, e então ergueu um dedo, apontando-o diretamente para Noel.

—Não importa o quão difícil seja. Só me tire dessa maldita casa.

E saiu, pisando duro. O Lambert suspirou, se recostando no batente e fechando os olhos. Toda véspera de Natal aquele processo se repetia, e talvez aquela fosse a parte mais exaustiva de todo aquele paradoxo maluco em que ele estava preso. Alguém puxou suas vestes rubras, chamando a atenção do homem, que abriu os olhos e olhou para baixo, onde Hancock segurava um aparelho negro e retangular.

—Era isto o que o senhor imaginava, senhor Noel?

Ele sorriu, observando as pequenas teclas de números – definitivamente, o celular mais tecnológico que ele poderia imaginar. A tela ocupava a maior parte do objeto, deixando espaço apenas para os números de discagem. Noel ergueu um polegar, aprovando.

—Exatamente, Hancock. Agora volte ao trabalho.

O elfo abriu um sorriso de ponta a ponta, radiante, e retornou ao seu posto saltitando. Era véspera de Natal, o que significava que faltavam apenas algumas horas para a Noite Eterna. Noel Lambert tinha uma lista de crianças boas para ganharem presentes, e não pretendia desapontar nenhuma dessa vez.


Polo Norte, 25 de dezembro de 2009.


—E aí? Como foi?

Os olhos de Krysta brilhavam em expectativa quando Noel retornou. Se fosse qualquer outro dia, já teria amanhecido há tempos, mas essa era a mágica da Noite Eterna: apenas acabava quando todas as crianças da lista tinham recebido um presente. O homem deu de ombros, desinteressado, mas por dentro estava tão ansioso quanto a mulher. Tinha pena dela por não poder sair da casa nem mesmo naquele dia, mas não sabia se era melhor ou pior daquele jeito. Porque seu único destino sempre era trenó – casa de crianças, e se ele tentasse ir para qualquer outro lugar, reaparecia no trenó vermelho mais uma vez.

Ele via seu rosto estampando outdoors e vitrines de lojas, parecia tão estranha a ideia de que ele era mundialmente famoso. Visitava países que nunca sonhara em ver, enxergava todas as paisagens de cima, e era deveras complicado achar os endereços corretos quando se estava no céu. Noel fazia aquilo tudo com um único propósito: acabar com o paradoxo, retomar sua vida após 86 anos de castigo. Será que não havia sofrido o suficiente? Talvez não. Porque, talvez, ele ainda estivesse pensando mais em si mesmo do que nas crianças, quando lhes entregava um presente que elas não haviam pedido. Mas o Lambert continuava tentando, porque não tinha mais nada que ele pudesse fazer.

Pela primeira vez no ano de 2009, o telefone vermelho que se localizava na sala da casa tocou para dar o diagnóstico da Mamãe e do Papai Noel. Os elfos se reuniram em volta, ansiosos para saber o que ocorreria com seu mestre. Não passava pela cabeça de Hancock, Felicia, Maggie e Vince, ou de seus discípulos, que ele os abandonaria sem pensar duas vezes quando estivesse livre de sua sina, porque eles o amavam e acreditavam que o sentimento era recíproco. Com as gorduchas mãos trêmulas, Noel pegou o aparelho e levou ao ouvido, o rosto franzido de tensão.

—Alô?

Falou, com a voz rouca falhando. Uma risada feminina melodiosa foi ouvida no outro lado da linha, o misterioso responsável por aquele pesadelo novamente se divertindo com o nervosismo de suas vítimas.

—Não foi hoje, Noel. Algumas crianças ficaram muito tristes porque não conseguiram os iPhones que queriam, sabia?

Gargalhou novamente, enquanto o idoso soltava um suspiro lamurioso.

—Mais um ano. Quem sabe em 2010?

E desligou. Noel colocou o telefone vermelho de volta no gancho e se virou para onde os elfos o encaravam de olhos esbugalhados e Krysta tinha as mãos unidas em esperança. Negou com a cabeça, desapontado.

—Não.

Apenas aquela palavra bastou para que o brilho nos olhos da mulher sumisse e ela desse as costas, indo em direção ao quarto. Felicia fez muxoxo e abraçou Maggie, que acariciou os ralos cabelos loiros da moça, confortando-a. Vince olhou para as próprias mãos, como que as perguntando o que fizera de errado, enquanto Hancock desabou no chão, exausto. Os outros abaixaram os rostos e retiraram os gorros pontudos que usavam, segurando-os contra os peitos, dando meia volta em direção aos dormitórios, até que apenas os quatro mestres e o Papai Noel restassem na sala.

—Começamos de novo amanhã. Descansem.

Ralhou, seco, enquanto se retirava para seu próprio quarto, abandonando as lamúrias de Felicia e os resmungos irritados de Vince para trás.

Noel não tinha tempo para gastar. Enquanto estivesse preso naquele paradoxo, continuaria seguindo em frente. Até que, um dia, o almejado fim finalmente chegaria.

***

Esta é a verdadeira origem do Papai Noel. Muitos dirão que é mentira, apontarão o dedo em minha direção e dirão que estou errada e que a única coisa que fiz foi inventar uma história mais obscura para atormentar suas consciências. Como disse anteriormente, não me importo com isso. Quero apenas deixar claro o porquê de ele fazer o que faz, e esse era meu único objetivo quando resolvi colocar tudo em palavras. Geralmente tenho coisas mais importantes para fazer, e ele é a última das minhas preocupações, mas o rosto falsamente sorridente de Noel, principalmente quando está junto à Krysta, que vejo espalhado pelas cidades nessa época do ano me deixam com vontade de rir. Quem sou eu, vocês devem estar se perguntando, e como sei de tudo isso. Sou popularmente conhecida como Lilith, a mãe dos demônios, mas também atendo por outros nomes, muitos para serem listados aqui. Noel Lambert já me encontrou duas vezes, em duas ocasiões diferentes: na primeira, ele me chamou de inútil após me oferecer comida. Na segunda, me nomeou chefe do departamento de brinquedos femininos, no qual atendo pelo nome de Maggie. Surpresos? Talvez sim, talvez não. Não realmente me interessa. Agora, se me dão licença, preciso encontrar uma nova Fada do Dente. Gwendolyn Peters escapou de seu paradoxo mais cedo do que eu gostaria, e dentes não vão se recolher sozinhos.

Notas finais
The end! O que acharam? Realmente espero que não tenha ficado muito confuso em algumas partes. Espero que tenham entendido a mensagem que eu quis passar, é que não fiquem com pena do Noel ou da Krysta, porque eles eram humanos desprezíveis. Tipo, muito desprezíveis. Falando a verdade, eu adoro a Lilith dessa fanfic huahauhauha Oh well, acho que fico por aqui mesmo. Espero que tenham gostado, e um ótimo 2017 para vocês!
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!