Paradoxo Temporal

5 Amizade é uma dessas coisas...


Notas iniciais
... Que devem continuar com o tempo.

- Edo não poderia estar mais bem protegida... – Ginmaru disse com sarcasmo. – O Comandante é um par de óculos ambulante e o Vice-Comandante é um completo míope!

- Você não acha que tá abusando da sua insolência, não? – Hijikata ajeitou nervosamente os óculos recém-encontrados. – Eu posso te prender por desacato!

- Qualé, você nem conseguiu prender o Zura que tava um palmo adiante do seu nariz!

- Fecha essa matraca! Você é pior que o irritante do seu pai!

- A ideia é essa, o filho superar o pai!

Alheios à discussão entre Ginmaru e Hijikata, Gintoki, Shinpachi e Kagura saíram acompanhando Katsura e Elizabeth para fora do bar.

- Para onde vamos, Zura? – o líder da Yorozuya perguntou.

- Não é Zura, é Katsura. Podemos subir. – apontou para a escada logo á frente.

Os três amigos olharam para cima e reconheceram a “Yorozuya do Gin-chan”. Se a parte de baixo do prédio – o bar – não estava com uma primorosa conservação da fachada, a parte de cima também não era lá essas coisas. Apesar da ação do tempo, o letreiro seguia legível.

O quinteto subiu as escadas e Gintoki tirou do bolso sua chave, por puro hábito, coisa que Shinpachi logo observou:

- Gin-san, e se com todo esse tempo as fechaduras foram trocadas?

- Parece que não. – ele disse ao encaixar a chave na fechadura da porta principal e abri-la. – Pelo jeito, em vinte anos eu não mudei nada.

Todos se adentraram no hall de entrada, onde tiraram os calçados. Kagura acendeu as luzes e ela, assim como seus companheiros de Yorozuya, ficou de boca aberta com o que viu.

A Yorozuya não mudara nada por dentro! Era como se tivessem voltado à linha de tempo à qual pertenciam. Só faltava o Sadaharu. Só faltava...

- Ei, quem apagou a luz?? – Shinpachi perguntou, mas logo sentiu um quente bafo canino em sua cabeça. – Ah, é você, Sadaharu.

... Porque agora não faltava mais nada.

- Sadaharu, eu já disse pra não comer porcarias! – Kagura ordenou.

O grande cachorro a obedeceu, cuspindo a cabeça de Shinpachi toda babada, ao mesmo tempo em que Ginmaru chegava esbaforido e fechava a porta corrediça atrás de si. Encostou-se à porta, respirando aliviado.

- Eu quase virei picadinho...! – disse. – A minha sorte é que aquele Mayora míope deixou os óculos caírem de novo! Até ele pegar os óculos e colocar eu tive tempo pra me safar, e... Ei! Qual é a surpresa?

Ginmaru passou por todos e retirou o par de tênis que calçava; assim que fez isso se adentrou na Yorozuya com ar despreocupado. Dirigiu-se à escrivaninha que ficava no lugar de sempre, e refestelou-se na cadeira giratória, jogando os pés sobre a mesa.

Havia coisas além das aparências que a genética adorava denunciar.

- Acho que vocês se sentem mais à vontade aqui, não é mesmo? – Ginmaru perguntou ao trio.

- Sim, claro! – Shinpachi respondeu.

- Então, o que estão esperando pra entrar?

Todos entraram na sala e Gintoki não fez a menor cerimônia em se jogar em um dos sofás próximos à mesinha de centro.

- Ei, Ginmaru – olhou para o jovem. – Não tem uma edição da Jump aí pra eu ver como ela fica em vinte anos?

- A Jump foi extinta há dezenove anos. – Ginmaru respondeu enquanto arrumava sua cabeleira prateada.

- QUÊ?! NÃO TEM MAIS JUMP??

- Ouvi dizer que houve uma crise que causou o cancelamento definitivo da revista.

O pobre Yorozuya ficou mortalmente pálido após ouvir essa. Como seu alter-ego conseguira sobreviver sem sua sagrada e amada revista Shounen Jump durante quase vinte anos?

- Bom, pelo menos a Otsuu-chan continua na ativa e fazendo sucesso, certo? – Shinpachi perguntou esperançoso.

- Não. – Ginmaru respondeu despreocupado. – Há dez anos ela teve uma rouquidão incurável e se aposentou, levando uma vida completamente reclusa.

O Shimura não acreditava! Sua maior diva não cantava mais? Não era possível! Divas não ficavam roucas! Ele também ficou mortalmente pálido! Como sua contraparte do futuro conseguia viver após isso, ainda mais comandando o Shinsengumi?

- Kagura, não quer perguntar nada? – o albino de bandana inquiriu.

A garota não respondeu nada. Estava sentada em um canto escuro, envolvida por uma aura assustadoramente depressiva.

- O que houve, Líder*? – Katsura perguntou.

- Que diferença faz eu perguntar alguma coisa...? – a garota disse ao mesmo tempo em que abraçava os joelhos. – Eu já estou morta aqui...

- Como é que você descobriu, Kagura? – Gintoki questionou.

- Nós ouvimos tudo enquanto você, o Ginmaru-san e o Hijikata-san conversavam. – Shinpachi replicou.

Os dois olharam para Kagura, que estava tão tristonha, que nem dizia nenhuma bobagem. Eles sabiam que ela não estava bem. Levantaram-se do sofá e se aproximaram dela, que começava a ir às lágrimas e tentava enxugá-las em vão com as mãos.

- Gin-chan, Shinpachi... Eu não quero morrer...! Não quero...!

Não era momento pra bronca, nem para reclamar. Viram que Kagura estava era apavorada e não era para menos. Um olhou para o outro e ambos assentiram. Aproximaram-se da garota e a abraçaram, procurando confortá-la de alguma forma. E ela continuava chorando sem parar, colocando para fora todos os seus medos e temores.

Gintoki dirigiu seu olhar a Shinpachi, que assentiu sem pensar duas vezes. Eles chegaram ainda mais perto dela e a abraçaram mais uma vez, em meio ao espanto de Kagura, que não parava de chorar.

Gintoki sentiu sua camisa ficar molhada pelas lágrimas da garota, que soluçava muito.

- Kagura-chan – Shinpachi disse. – Não precisa ter medo.

- Shinpachi-kun tem razão, Kagura. – Gintoki concordou. – Não precisa ter medo. Nós vamos te proteger com as nossas vidas.

Os olhos azuis da Yato se arregalaram após ouvir isso. Não que não soubesse que seus amigos seriam capazes do que afirmavam ser, mas era a primeira vez que eles diziam isso abertamente.

Agora tinha cada vez mais certeza de que poderia confiar em Gintoki e Shinpachi. O albino se sentiu meio embaraçado ao ver que Kagura continuava abraçada a ele e a Shinpachi. Ela não queria perdê-los de jeito nenhum. Eles eram, para ela, seus irmãos mais velhos.

A Yorozuya era sua família, mais do que sua família biológica. Era sua família de coração.

O abraço triplo se desfez, e Kagura sentiu duas mãos afagando sua cabeça. Tinha orgulho de ser parte da família Yorozuya. Secou as lágrimas e retribuiu o gesto deles com seu mais lindo sorriso, o que fez com que eles também sorrissem de volta.

- Bom, acho que agora podemos saber de você o restante da história, não é, Zura? – Gintoki perguntou enquanto se sentava novamente no sofá, junto com Kagura e Shinpachi.

- Não é Zura, é Katsura.

- Que seja.

- Bem, eu ia contar como foi a Segunda Guerra Amanto, e...

Katsura acabou sendo interrompido por um ronco bem alto de estômago. Ele e os demais presentes na sala dirigiram seus olhares para uma mesma direção de onde saíra esse som. Era Kagura, que parecia um cadáver, ao qual Shinpachi procurava devolver a alma que insistia em sair da garota.

Gintoki, evidentemente, soltou um berro, deu um salto e foi parar no colo de Ginmaru, de tão apavorado ao ver essa cena se desenrolando diante de seus olhos.

- Eu deveria ter me lembrado que a Kagura não comeu nada desde que chegamos...! – disse ao mesmo tempo em que batia os dentes de tanto medo.

Notas finais
* É assim que Katsura costuma chamar Kagura no anime.