Paradoxo Temporal 2: O Projeto K1

33 Operação Sukonbu - Parte III


Resignado, Gintoki pegou sua bokutou e a colocou à cintura, após calçar as botas. Por alguns meses, pensou que teria alguma paz ao voltar para casa depois de ser libertado do controle de Kasler. Tudo o que ele queria era apenas voltar à sua rotina preguiçosa de anos atrás, se adaptar à realidade em que estava e estreitar novamente os laços com um Ginmaru já adulto... E com o bônus de se aventurar em um relacionamento amoroso com Tsukuyo, que também o ajudava a se situar da melhor forma possível em um mundo que não parou nos últimos dez anos.

Mundo esse ao qual estava conseguindo se adaptar até bem, já se conformando um pouco mais com o fato de que não pudera acompanhar o crescimento do filho. Em seu íntimo, se lamentava por não ter conseguido evitar que Ginmaru fosse marcado por guerras, tal como ele mesmo fora desde tenra idade. Mas, por outro lado, tinha orgulho do garoto que crescera e se tornara um homem... Graças àqueles que o acolheram como uma família.

Ginmaru não sofrera na solidão tal como ele sofrera por tanto tempo. E Gintoki era grato a todos do Distrito Kabuki por acolhê-lo e, anos depois, a seu filho. Ele sempre seria grato àquele distrito, pois era o seu lar... E a sua família. Aquele lugar não era o mais perfeito que existia, mas, mesmo com suas inúmeras mazelas, era seu lar. E todo lar deve ser protegido por seus moradores. Kabuki estava em sua alma. E ele sempre estava disposto a proteger sua alma e tudo que nela estivesse.

Abriu a porta principal e, saindo por ela, se juntou a Ginmaru e Sadaharu. Sentia que aquele cachorro gigante seria muito útil, e desde que voltara de sua ida ao passado, o mais jovem, junto com Kagura, dera carinho e encorajamento suficientes para que o animal os seguisse com o guarda-chuva de sua antiga companheira preso às costas. Desceram os degraus e avistaram Shinpachi, que usava suas roupas civis de costume e trazia consigo sua katana... Além, claro, de uma bandana branca à testa, tal como Ginmaru usava.

― Ei, Pattsuan... – Gintoki apontou para o acessório do homem de óculos. – Revivendo seus tempos de otaku?

O ex-comandante do Shinsengumi corou enquanto ajeitava a bandana na qual estava estampado um coração rosa com o nome de Otsuu dentro, uma lembrança de sua adolescência liderando um fã-clube da cantora.

― Era o que eu tinha, tá legal?! E você também não pode falar nada, tá usando uma bandana escrita “Teor de açúcar”!

― Também era o que eu tinha, Quatro-Olhos! – o albino mais velho se justificou com ar de ofendido.

Ginmaru começou a rir, pois de algum modo isso lembrava sua infância. Sempre via seu pai debochando de Shinpachi, que costumava rebater e assim eram iniciadas as discussões mais insólitas pelos motivos mais absurdos. Era uma boa lembrança para quebrar um pouco da tensão que sentia naquele momento.

E como não estaria tenso? A Yorozuya Gin-chan estava prestes a entrar em mais uma batalha decisiva para sobreviver.

E ele sabia que essa certamente seria a maior batalha de sua vida.

A discussão entre os mais velhos cessou assim que ouviram o silvar de apitos espalhados pelos arredores. Por alguns segundos, aguardaram para ouvir novamente aquele som. Era o aviso de que os soldados sob o comando da Junta estavam começando a invasão ao Distrito Kabuki, antes do que havia sido acordado na negociação de mais cedo.

Gintoki sabia que isso iria acontecer, e essa era a intenção desde o início. Enrolar o governo para que o plano fosse executado por trás dos panos e, quando eles perdessem a paciência, tudo já estaria bastante adiantado. O fato de ter agido de forma irritante naquela hora havia sido planejado em parte, a outra parte foi graças à ressaca mesmo, que potencializou o quanto o Yorozuya poderia ser ainda mais ranzinza e chato.

Tudo fora planejado por todos os líderes dos grupos que habitavam o Distrito Kabuki. A ideia era transformar o lugar numa grande arapuca.

Os três homens e o grande cão correram para onde soava o apito mais próximo. Era hora de receber as visitas e mostrar que ninguém brinca com um distrito como o Distrito Kabuki!

*

Com os olhos azuis arregalados, Kagura encarou os olhos igualmente azuis daquela que se identificou como K1. Acabara de sentir a força de seu clone, que a princípio parecia ser a mesma que a sua naquele momento, mas tinha a sensação de que sua cópia poderia ser mais perigosa do que aparentava. Shinpachi e Gintoki nada podiam fazer diante daquela cena em que as duas ruivas travavam os guarda-chuvas um da outra.

― Surpresa, é? – K1 debochou. – Você ainda não viu nada, pirralha!

Kagura, por seu turno, reagiu forçando o guarda-chuva, com o qual tentou bater o guarda-chuva adversário para longe. Mesmo não conseguindo desarmar a adversária, foi o suficiente para que tivesse espaço para dar um salto e desferir um chute contra o queixo dela, fazendo-a decolar. Em seguida, a Yato usou novamente seu fiel guarda-chuva para acertá-la e fazer com que se estatelasse de cara no chão.

― Você é que não viu nada, xerox ambulante! – a garota sorriu, devolvendo o deboche enquanto tirava mais uma catota do nariz e jogava fora.

A faz-tudo não perdeu tempo e disparou uma rajada de tiros contra K1, que se esquivou do ataque sem dificuldade. Enquanto as duas trocavam golpes com os guarda-chuvas roxos, a porta do laboratório foi derrubada por vários soldados alienígenas de farda amarela, que detectaram os invasores. Gintoki e Shinpachi avançaram contra eles, que eram numerosos. O grande número de oponentes não costumava ser problema para o mais velho, mas também não intimidava o garoto de óculos. Munidos com as bokutous, eles se encarregavam de derrubar os amantos e, no processo de fazer o caos, jogavam-nos contra os tanques onde estavam sendo fabricados os Yatos artificiais e contra os computadores responsáveis por tal tarefa. Com toda a confusão, a luta alucinada dos três integrantes da Yorozuya Gin-chan contra dezenas de inimigos passava a ocorrer em meio aos fluidos derramados dos tanques e o curto-circuito de computadores danificados, que causou o apagão daquele ambiente, iluminado apenas pelas luzes de emergência.

Kagura e K1 seguiam na troca de golpes, até a garota ser desarmada e receber um poderoso golpe de guarda-chuva no rosto e, com o impacto, ser arremessada contra uma parede. A passos decididos, o clone caminhou até o buraco feito pela queda da Yato e apontou-lhe o guarda-chuva de forma ameaçadora.

― É impressionante como somos diferentes, mesmo tendo o mesmo DNA. De um lado, uma pirralha ridícula e desbocada... Do outro, a versão melhorada, mais poderosa e sem nenhum defeito! Adeus, pirralha!

Na mesma hora que soou o clique da metralhadora embutida no guarda-chuva, Gintoki e Shinpachi se jogaram contra K1, desviando totalmente a trajetória das balas para os equipamentos do laboratório e os soldados amantos, que foram atingidos. Os dois rolaram no chão com a queda, mas logo se recuperaram e se posicionaram para continuar a luta. Tão logo o clone se levantou, o albino se lançou ao ataque, assumindo a mesma postura de luta que tivera contra Housen em Yoshiwara. Golpeava sem cessar, buscando não deixar que ela revidasse ou contra-atacasse. Enquanto ele dava essa saraivada de golpes e bloqueava o guarda-chuva adversário, o garoto corria para acudir Kagura.

O Shimura estendeu sua mão para a companheira de Yorozuya e, nesse exato instante, os dois ouviram um forte impacto contra outra parede. Era Gintoki, que não conseguira conter um contra-ataque de K1 e fora golpeado na barriga e batera com as costas contra a parede e caíra no chão, encostado a ela.

Era realmente muito forte aquele clone, o Sakata pensou. Mas, mesmo sendo uma cópia, ele não reconhecera como sendo igual a Kagura. Ele já a vira lutar, e até mesmo já apanhara da pirralha, então sabia que os golpes dela nunca seriam para matar. Porém, K1 atacava para realmente matar. Se não fosse por ter uma boa resistência física, ela de fato conseguiria matá-lo.

― É, você parece a Kagura... – ele disse enquanto tentava ignorar a dor por todo o corpo e se levantava apoiado em sua bokutou. – Mas vai ficar só nisso, porque não passa de um artigo pirata! E artigos piratas costumam ser de pior qualidade, sabia?

Um risinho de deboche escapou dos lábios de K1.

― Eu não sou um artigo pirata... SOU UMA KAGURA 2.0!

Quando K1 foi atacar o Yorozuya, o guarda-chuva dela foi prontamente bloqueado pela bokutou de Shinpachi e pelo guarda-chuva de Kagura. A garota sofrera um pequeno corte na cabeça e um filete de sangue escorria por sob a franja ruiva. Ela não se importava com o corte, pois tinha capacidade de se recuperar mais rápido do que os humanos. O que mais importava era não deixar nem Gin-chan e nem Shinpachi sofrerem qualquer tipo de dano sério.

Ela sabia que os dois eram afetados pelo paradoxo temporal. Qualquer dano mais sério poderia afetar o Gin-chan e o Shinpachi do futuro e, se seus companheiros de Yorozuya morressem, eles também morreriam. Diante disso, assumira para si mesma a missão de protegê-los a qualquer custo.

Mesmo ela e Shinpachi se esforçando para manter o bloqueio, o clone conseguiu destravar seu guarda-chuva e surpreendeu com uma rajada de tiros contra o albino, que buscou se desvencilhar, mas recebeu dois tiros de raspão. Gintoki instintivamente pôs a mão no ombro direito, onde sentiu que rasgara a manga curta de sua camisa preta e também sua pele superficialmente, que começava a sangrar.

Kagura avançou novamente contra K1, disparando também uma rajada de tiros da metralhadora embutida de seu guarda-chuva, mas sua cópia abriu o dela para se proteger. Apesar disso, ela insistiu, golpeando o objeto da adversária de forma ininterrupta, mas não adiantou muita coisa. Tão logo o clone fechou o guarda-chuva, provocou uma forte lufada de vento, que obrigou os três a protegerem seus rostos. Com movimentos velozes, K1 usou seu grande guarda-chuva para atingir primeiro Gintoki, com um golpe no lado esquerdo do corpo, na altura das costelas; em seguida, Shinpachi foi atingido na altura da barriga e, na queda, os óculos caíram no chão, trincando levemente uma das lentes.

A Yato ficou paralisada ao ver seus dois amigos caídos no chão, só saindo do momentâneo estado de torpor quando viu seu clone se aproximando rapidamente. Sua reação imediata foi dar-lhe uma forte cabeçada, cujo impacto jogou sua oponente para trás, fazendo-a cair atordoada. K1 se refez rapidamente e se levantou a tempo de bloquear, com os braços cruzados à sua frente, um poderoso chute de Kagura. Mesmo assim, a garota não se deu por vencida e, com seu guarda-chuva, disparou alguns tiros à queima-roupa e saltou para trás, guardando uma distância de poucos passos enquanto, ofegante, buscava recuperar o fôlego.

A fumaça resultante dos tiros disparados por Kagura logo cessou, revelando K1 sorrindo debochada, enquanto segurava duas balas entre os dentes e mais uma em cada mão. E enquanto os outros dois se levantavam com certa dificuldade, a Yato viu que seu clone estava prestes a alvejá-los. Quando os disparos recomeçaram, a garota se lançou na frente da dupla como um escudo, sendo encoberta por uma densa fumaça de poeira misturada a pólvora. E tão logo os tiros cessaram e a fumaça baixou, surgiu uma Kagura que segurava três balas com os dentes, duas em cada mão, por entre os dedos indicador, médio e anelar, e metade do cabelo solto, por ter um dos adereços que usava sendo arrancado por um tiro de raspão. Por uma fração de segundo, contraiu o rosto por conta da dor que sentia por ter sido atingida na coxa esquerda. Mas logo em seguida, abriu um amplo sorriso debochado para se gabar de sua proeza.

― Sou bem melhor do que você, jutsu de clonagem ambulante! – Kagura disse após cuspir as balas que segurava com os dentes.

Após se livrar das balas, Kagura novamente se lançou ao ataque, visando acertar K1 com seu guarda-chuva. Mesmo com o golpe sendo bloqueado, a garota decidiu dar um salto e acertar a barriga de sua cópia com os dois pés, o que fez com que ela se colidisse com o que era o tanque daquele corpo inerte. Corpo esse que, na verdade, era uma versão imperfeita de K1, servindo de fonte da carga genética dos yatos artificiais produzidos até então.

A faz-tudo, acompanhada por Gintoki e Shinpachi, se aproximou do clone para ter certeza de que o havia derrotado. Porém, K1 não demorou a se levantar de supetão e acertar uma poderosa cabeçada em Kagura. O golpe recebido foi tão forte que a fez ir de encontro a um dos grandes computadores e, após isso, ficar caída e atordoada em meio ao metal retorcido e componentes eletrônicos quebrados e em curto-circuito. Entretanto, a Yato artificial não parou por aí. Tão logo nocauteou a garota, usou o guarda-chuva e conseguiu golpear com muita força Gintoki e Shinpachi, que não tiveram qualquer chance de defesa após serem desarmados.

Shinpachi, ainda meio aturdido com o golpe que recebera, arregalou aterrorizado seus olhos ao ver o rosto de K1, que caminhava tropegamente na direção de Gintoki, que continuava zonzo após outro encontrão, desta vez, contra uma pilastra. Naquele momento, sua memória evocou uma cena terrível de tempos atrás...

... Quando Kagura, em Yoshiwara, o viu quase ser morto por Abuto. Não se lembrava tão bem de como ela despertara seu lado mais sanguinário, pois quase desmaiara naquela ocasião. Mas lembrava-se perfeitamente dos olhos esbugalhados e do sorriso tétrico que ela exibia naquela ocasião, enquanto golpeava brutalmente o outro Yato e só não o matou, porque o Shimura conseguira, de algum modo, ajudá-la a recobrar a consciência e o autocontrole.

Aqueles olhos arregalados, quase saltando das órbitas, eram o sangue da tribo Yato clamando por chacina.

― GIN-SAN! – ele gritou. – TOMA CUIDADO!

Não deu tempo para o albino se esquivar do ataque de K1, que lhe deu um poderoso soco na barriga, fazendo-o ficar sem ar. Em seguida, ela pegou-o pelos cabelos prateados e, dando uma risadinha tétrica, o encarou para depois dar-lhe uma cabeçada. Em seguida, agarrou seu pescoço e o bateu com as costas contra a parede, enquanto o sufocava com os dedos parecendo que poderiam perfurá-lo até sua traqueia.

Kagura se levantou cambaleante de onde estava caída e viu toda a cena. Viu Shinpachi indo atacar K1, mas ela revidou com um chute que o atingiu em cheio na altura do estômago e não largava o pescoço de Gintoki, que tentava em vão se livrar daqueles dedos que mais pareciam garras de ferro.

Quando conseguiu, por fim, encontrar sua voz, gritou:

― PARA COM ISSO!!

No mesmo momento, Kagura sentiu seu sangue Yato circular ainda mais furiosamente por todo seu corpo, que pulsava tal como seu coração, no qual voltava a despertar a brutal violência de sua raça.

Estava prestes a ver mais uma vez tudo sair de seu controle.