Paradoxo - Entre Mundos
4 Capítulo 3 - Mestiça
Notas iniciais
A vida é uma caixinha de surpresas? Claro, e das bem grandes.
Olhei tão fixamente para Jocelyn que ela teve que desviar o olhar. Por que a moça do sonho estava aqui? As coisas estavam acontecendo mais rápido do que eu podia processar.
— Parece que vocês se conhecem – observou Maryse.
— Na verdade é a primeira vez que a vi na vida, mas parece que ela me conhece – disse Jocelyn, com olhar indagador.
— Sou Amélia, desculpe a falta de educação. Você apenas me pareceu familiar. – respondi e voltei o olhar à janela.
Lá fora estava enevoado, assim como minha mente. Estava tudo tão confuso. E estava tarde também, precisava retornar ao Acampamento antes que Quíron acabasse surtando.
— Se não se importam, eu realmente preciso ir embora – falei enquanto ia em direção à porta. — Se conheço meus irmãos, devem estar me caçando por aí.
— Eu levo você em casa – Raphael pulou da cadeira, puxou meu braço e me tirou da sala tão rapidamente que fiquei sem ação. Não parou até a porta do elevador se fechar.
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— De nada – ele disse, já dentro do carro – o clima estava tão tenso que achei que fosse chover lá dentro. Achei que seus olhos fossem pular da órbita de tão assustada.
— Eu não estava assustada! – exclamei. – É muito pra assimilar de uma vez.
Depois de algum tempo, estranhei o silêncio e olhei para Raphael. O cara era boa pinta, parecia ser bem irritante, mas um cara legal. Ele parecia em paz, apenas dirigindo.
— Vem cá, qual é a sua? – perguntei – Você se faz de irritante ou é de verdade?
— An? – ele acordou do torpor – Eu? Sou do tipo Jano. Te mostro as duas faces e você escolhe uma delas. – deu um sorrisinho – Qual das faces você escolhe?
Sorri. Vou deixar passar, já chega de stress por um dia.
— Siga até Montauk, me deixe em uma das colinas no final de Long Island. De lá você não pode me seguir. — Raphael olhou de esguelha e começou a cantarolar "A Thousand Miles". Irritante e metido.
Ao chegarmos à colina, saí do carro e ele me seguiu – O que eu disse sobre me seguir? Apenas vá.
Ele hesitou. Pareceu querer falar algo, mas desistiu. Sorriu e disse — Tenho a impressão que ainda vamos nos ver. Até a próxima – e se virou.
— Raphael? — ele se virou — Você pode me dar um abraço?
— O que?
— Vamos, eu não mordo. Tive um dia terrível, preciso de um pouco de conforto da pessoa mais exibida que conheci na vida.
— Haha, e o que eu ganho com isso, semideusa?
— Um tour pelo meu mundo é atraente o bastante? — ele fitou meus olhos e vi que os deles mostrando conflito. Será que era atraente o bastante para os meus propósitos?
Ele se aproximou, tirou uma mecha do meu cabelo do rosto e me abraçou. Levemente. Não pude deixar de retribuir. Ele cheirava a uvas. Que golpe baixo.
Enquanto subia a colina, não pude deixar de pensar no dia louco que tive e no quanto eu não queria mais ver aquelas pessoas. Porém, nada era por acaso. O sonho, o bar e todas as estranhas coincidências não eram para serem guardadas.
E não seriam, porque alguém está mexendo no meu mundo e não iria deixar escapar impune.
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Se fiquei de castigo? Claro, porque não? Eu como castigo no Café da manhã.
Fora o fato de ter de limpar o chalé de Ares antes da inspeção (o que, pelos deuses, nunca desejarei nem ao meu pior inimigo), terei que mexer em uma papelada que Quíron estava organizando na Casa. Ele sabe como odeio trabalhar com papéis.
— Não vou perguntar onde você estava, por que nunca diz mesmo. Mas devo alertá-la que algo está muito errado lá fora, só não consigo dizer o que. Então tome cuidado.
Ele sabia. Apenas assenti. Na noite anterior, quase não consegui dormir. E quando consegui, felizmente não sonhei novamente, mas desejei ter visto algo a mais.
De repente ouvimos gritos na colina. Quíron estava na sua forma de centauro e me levou até a colina. E depois da barreira estava o animal mais horrendo que já vi na vida, que parecia não ter dentes, mas havia espinhos venenosos em sua boca. Ele estava encurralando Lisa em uma árvore, que tentava inutilmente matá-lo com sua espada, mas parecia não funcionar. Um demônio.
Demônio.
Ah não.
Enquanto corria até Lisa, tudo aconteceu muito rápido. Um dos espinhos furou Lisa, ela caiu em agonia. Ele se virou e veio em minha direção enquanto puxava algo preso à minha cintura para esta ocasião. Uma arma roubada. De um abraço.
— SANVI!
Cravei bem na cabeça do demônio e ele se desintegrou. Todos me olharam assustados e para a coisa que estava na minha mão. Uma lâmina serafim. No fim das contas, alguns livros da nossa biblioteca eram úteis!
Quíron galopou até mim e disse – Onde você pegou isto, criança?
— Em um lugar em New York. – Por algum motivo a lâmina deixou de brilhar.
Quíron parecia que ia ter um infarto, mas os gritos de Lisa interromperam o interrogatório.
—AMY! – ela gritou em agonia.
Corri até Lisa. O local atingido foi o ombro e algo negro corria dentro dela.
— Aguenta firme, maninha. Sei onde buscar ajuda.
Desci a colina o mais rápido que pude e não olhei pra trás.
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O fato de roubar uma lâmina e em seguida roubar um carro não estava na lista de afazeres da semana, mas era necessário. Se tinha alguém que poderia me ajudar com o tal veneno de demônio, seriam aquelas pessoas.
Assim que cheguei ao local, tomei um susto. Não tinha percebido que a fachada do Instituto era uma igreja, mas parecia que uma névoa encobria o local. Decidi que não seria educada dessa vez. Entraria direto até eles.
Abri as portas da entrada e fui direto ao elevador. Ao chegar ao elevador, os corredores estavam vazios de forma incomum. Por algum motivo todos estavam em reunião na mesma biblioteca. Não seria educada novamente. Entrei sem bater e fui logo falando:
— Por favor, uma das coisas do seu mundo atacou minha família e preciso de...
Todos olharam pra mim como se vissem um fantasma. Jace me olhava com certa satisfação no seu olhar, como se houvesse pressentido algo e estava certo. Simon apenas suspirou e o resto me olhou de forma confusa.
— Como você entrou aqui? – disse Alec, se levantando e aproximando devagar.
— Por onde você acha? Pela janela que não foi! Agora me ajude!
Mas por algum motivo todos estavam paralisados.
— O que você disse que era? Semideusa, filha de Atena? – Disse a tal Maryse, pensativa.
— PELOS DEUSES, vocês são uns inúteis! – virei até a porta quando dei de frente com Raphael.
— Você não sabe né? – disse Raphael com um brilho nos olhos – Só quem é um caçador de sombras consegue abrir aquelas portas.
Ponderei um pouco sobre isso. Do que eles estavam falando?
— Parem de brincar comigo, caramba! Eu preciso de alguém...
— Enquanto você berrava aí, já pedi ajuda e ela já está a caminho... – Raphael me segurou gentilmente, mas eu me soltei facilmente de seu aperto.
— Amélia. — me virei. Clary dirigiu a palavra – Se sua mãe é uma deusa, e se você passou por aquelas portas, você é uma de nós. Você disse que não conhece o pai, certo? Ele deve ter sido um caçador de sombras, como nós.
— NÃO FAÇO PARTE DO SEU MUNDO! – gritei. Ela recuou, magoada. – Levem suas coisas e parem de invadir o meu mundo! — me virei e sai correndo pelo corredor e subi umas escadas em espiral. Raphael vinha correndo atrás de mim, então acelerei.
Não, já chega de surpresa.
De repente lembrei da minha mãe. De como ela me olhava. Me escondia. De como eu era diferentes do meus irmãos. E muitas outras lembranças que reprimi ao longo dos anos.
Sou Amélia Cooper.
Sou semideusa.
E agora, também caçadora de sombras.
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