Paradoxo - Entre Mundos
2 Capítulo 1 - Dreams
Notas iniciais
Ser normal nunca foi minha meta. Embora eu realmente não seja normal (obrigada, mãe), minha rotina é de uma mortal comum. Estudo, tenho amigos e curto minha juventude na medida do possível. Porém, minha vida é normal até aí. Semideuses são conhecidos por sua bravura e heroísmo, mas a maioria acaba morrendo muito cedo e eu escolhi não seguir por esse caminho. Sou covarde mesmo, com todas as letras.
Para uma filha de Atena, isso é inaceitável. Mas realmente não ligo.
O Acampamento Meio-Sangue é meu lar desde que me entendo por gente, um lugar seguro para semideuses e onde posso viver sem julgamento. Mas até para os padrões semideuses, eu atraía os olhares de acusação pelo meu estilo de vida. Quíron se tornou meu tutor e ele realmente compreende minha aversão à vida de semideus e me deixa bem quieta. Mas me ensina tudo o que pode e eu o admiro muito por isso. Por isso, tenho aptidão para esta vida arriscada.
A história da minha vida é meio engraçada. Minha senhora, mas conhecida como minha mãe, me trouxe direto ao Acampamento desde o meu nascimento. Sobre meu pai? Nenhuma palavra. Ela se mantém resoluta quanto ao isso, mesmo depois de muita insistência. Talvez meu nascimento tenha sido sua maior vergonha, não sei. Das poucas vezes que a vi, ela me olhava como se eu fosse um projeto mal calculado e dispensável. Só a vi 3 vezes na vida e ela fingiu que não me viu. Depois disso, escolhi ignorar e ser o mais normal possível.
O que tenho herdado da minha mãe? Apenas os olhos. Sou completamente diferente dos meus irmãos, o que causa um desconforto nas pessoas.
Fui alvo de inúmeros boatos sobre meu lado divino: sobre eu ser adotada (essa é engraçada por que eu acho que é verdade), sobre eu ser filha de um monstro (tipo o minotauro, nunca saberei), entre outras que já me acostumei. Mas isso mudou quando fui mandada (fui obrigada mesmo) em uma missão e conquistei a confiança do Acampamento. Desde então, aqui tem sido meu lar de verdade.
Depois de um longo tempo escolar, eu realmente estou ansiosa por este verão. Eu ainda não sabia, mas esse verão seria inesquecível.
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Hoje eu estava de bom humor. Não saia do dormitório por meses e ansiava pela adrenalina do Acampamento e passar tempo com Lisa, a caçula do chalé 6.
— Hey, Amy! Bem-vinda de volta! – Clara era a monitora do Chalé.
— Ammmmmmmie! – gritou Lisa, já pulando em cima de mim.
— Ouvi boatos de que você está pregando peças com o chalé de Hermes. É verdade? – disse sorrindo para Lisa.
— Mas é muuuuito legal! Você precisava ver a cara da Sam!
— Você vai ficar de castigo, viu? Pegue sua espada e vamos treinar!
— Eba! — Além de inteligente, ela adora espadas.
Lisa tinha a pureza e paz que eu precisava dentro de mim. Depois do treinamento, fomos ao lago de canoagem, brincar com as náiades. Se tivesse sorte, esse verão seria perfeito.
Mas semideuses não conhecem a sorte.
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Essa noite eu sonhei.
Uma coisa sobre Amélia Cooper: ela nunca sonhou na vida.
É como se minha mente fosse bloqueada para acessos indevidos. Quíron diz que é castigo dos deuses por eu querer ser normal, já que é totalmente comum para semideuses terem visões em sonhos.
Eu estava na beira de lago enorme com a luz refletida em suas águas. Uma mulher de cabelos ruivos segurava fortemente minha mão, como se me consolando.
— A conexão foi quebrada. Amélia, esse é seu futuro. Você nasceu para um grande propósito. Está acontecendo.
Olhei para ela, confusa. Conexão? Futuro? Tentei falar, mas as palavras não saiam.
— Aqui é... — Ela desaparece. Então apareço sozinha nas ruas de New York, em frente a um bar. ONMO. Nome estranho pra um bar. Talvez a dislexia esteja atrapalhando. Será que o nome é Gnomo? Coisa estranha... O outro nome não conseguia decifrar.
De repente o cenário muda novamente. Estou à beira de um precipício. Está tudo muito escuro, e uma voz estrondosa ecoa pelo espaço e diz:
— Venha, Amélia. Esperaremos por você. Morte e agonia a aguardam.
De repente senti algo transpassar meu coração e acordei. Gritando.
— Shh, Shh. Está tudo bem — Lisa passava suas mãozinhas em meu rosto. — Você teve um pesadelo. E você nunca sonha.
— Eu estou bem. - Disse mais para mim mesma.
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Simplesmente não conseguia pensar. Tentei me empenhar no cronograma do Acampamento, mas percebi que estava distante. Acabei acertando algumas flechas no chalé de Ares, o que foi a melhor coisa do dia. No fim das contas, desculpas não foram aceitas: terei de limpar o chalé antes da inspeção.
Entre o intervalo dos programas, vi o van do Acampamento. New York! Minha salvação. Antes que fechassem a porta, escapuli por entre as caixas de morangos. Argos olhou, fingiu que não viu (com tantos olhos não era possível) e me deixou escapar.
Saltei perto do Empire States. O Olimpo. Poderia passar e falar um “E aí, coroa”? pra mamãe, mas acho que deve existir uma lei que proíbe de chamar sua mãe deusa de coroa. Eles são assim, sem graça.
A Lei. Sacudi a cabeça, tentando clarear os pensamentos. A Lei sempre foi uma das minhas obsessões. A Lei mais antiga que rege o Universo. Aquela que só os sábios a dominam. Ouvi o Quíron falando sobre isso em uma reunião, e fiquei de castigo tanto tempo que não consigo me lembrar. Procurei livros, tentei usar minha “sabedoria” herdada para encontrar mais a respeito, mas ela não existe. É quase como uma conspiração. Uma seita. Sabedoria não é o meu forte. Enquanto se procura é um mistério, disse Quíron, mas quando se acha se torna o óbvio.
“Onde estou”, pensei depois de minutos andando. Tenho facilidade de me perder nos meus pensamentos e acabo em lugares que nunca vi na vida. Algo como uma taverna apareceu na minha frente, um lugar chamado Hunter's Moon.
ONMO
MOON.
Maldita dislexia.
O sonho voltou com tanta força, que meus pés entraram no automático. Assim que abri a porta, todos olharam pra mim. “Será que dá pra pararem de olhar?”, pensei. Não tenho idade legal para beber, mas posso tomar uma soda, não?
“Deve ser minha roupa”. Estava com a camisa do Acampamento, meu colar de contas, jeans e botas cano longo. O local emite uma aura diferente. Não é humana, mas não emana perigo. Pelo menos ainda não.
— Ei, morena. Vai querer alguma coisa? Se não vai, pode sair por onde entrou. – disse o cara do balcão.
— Nossa, quanta gentileza! Vai pedir minha identidade? Quer que traga minha mãe? Por que vai ser meio difícil, já que ela é uma deusa.
Ele riu.
— Gostei de você.
— O sentimento não é recíproco.
— Que seja. Me Chame de Pete. Pete Aberração.
— Estou pensando seriamente em por que você tem um nome desses.
— Nem me fale. — Ele pegou um copo de cerveja, levou ao alto e gritou – Um brinde a nossa morena aqui, a moça perdida!
Todos gritaram e brindaram. Ai deuses, acho que parei numa taverna de piratas. Ou num filme do Jack Sparrow. Mas por incrível que pareça, me identifico com delinquentes.
— Como você sabe que estou perdida?
— Ninguém como você entra aqui por querer, docinho. Aliás, mundanos não entram aqui sem querer. O que é você? A não ser que seja um Nephilim.
— Um o que? – franzi a testa.
— Um daqueles.
No canto, estavam cinco pessoas tatuadas. De preto. Olhar arrogante. Da raça que não suporto. Uma ruiva estava abraçada em um rapaz loiro, um olhar familiar. Havia mais três a mesa, todos muito bonitos. Eles me encararam e me senti muito exposta.
Hora de ir embora.
— Quanto é, Pete?
— Para você aparecer, esse é por conta da casa.
Sai rapidamente. O dia tendia a ficar estranho. Dia normal para semideuses. Continuei vagando pelas ruas, pensando naquelas pessoas. Eles tinham olhar familiar, mas não conseguia entender o porquê. Odeio sentir isso.
De repente, ouvi gritos de luta. Eu passando no Central Park. Eu já disse que tenho tendência a me perder em pensamento? Como parei aqui?
— Alec, isso não está funcionando!
— Eu sei, gênio!
Fui em direção ao barulho. Eram aquelas pessoas do bar. Como eles chegaram tão rápido? Eles seguravam lâminas brilhantes na mão. Bronze Celestial?
Uma fúria vinha atrás deles. Fúria. Atacando humanos. Não disse? Está ficando cada vez mais interessante.
— Mundana, saia daí! - Gritou a menina esguia, de saltos altos. Ela me olhou rapidamente e voltou sua atenção ao monstro.
De repente, me enchi de vigor. Uma coisa que não consigo controlar: adrenalina. Adoro lutar (mesmo sendo uma covarde). Se tem uma coisa que sou boa, é no combate (herdei pelo menos isso da mãe).
Puxei meu anel e joguei pra cima. Uma espada de bronze celestial aparece na minha mão. Sim, meu anel é minha arma. Presente de mamãe. Mas também é usada para espantar futuros embustes (obrigada).
A fúria gritou e tentou me acertar. Num reflexo rápido, peguei o arco de menino (porque mortais levam arcos em passeios?) e usei minha espada de flecha. A fúria gritou e explodiu em pó.
Puxa. Fazia tempo desde a última missão. Silêncio. Ops. Esqueci que não estava sozinha. Todos me encaravam perplexos.
— O que as "servas" de Hades fazem aqui em cima? — Pensei em voz alta.
— Hades? Ficou louca? Como uma mundana conseguiu? Por que nossas armas não funcionaram?
— Porque essas coisas só são destruídas com bronze celestial.
— Celestial? Isso é Adamas, garota mundana, isso é celestial. Disse o rapaz de quem eu roubei o arco, apontando para sua lâmina.
— Pare de me chamar assim! Pelos deuses, mortais são irritantes! — Bati o pé e segui andando.
O rapaz loiro observava curioso. Ele olhou para a garota ruiva(óbvio) e ela assentiu.
— Hades, você disse – “Oh, oh. Fui pega”, pensei — Pode nos explicar por que disse isso? — Parei. Ele tinha uma voz suplicante. Angelical, loiro e bonito. Tudo que queria esquecer. Ele parecia tanto...
— Não tenho nada pra vocês! –disse, já me afastando. — Só me deixem em paz.
E me virei para ir embora. Não podemos contar para mortais sobre nosso mundo, mas eles tinham armas. Armas celestiais. Pareciam já ter visto coisas do tipo antes, mas não uma que não dessem conta.
Está acontecendo. — Dizia a voz no meu sonho.
Estas palavras ecoaram tão fundo na minha mente que veio a exaustão. Então o mundo girou e não senti meu corpo desabar.
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Acordei em uma cama bem confortável. Teto alto, cheio de vidraças e adornos de anjos. Parece uma igreja, ou o céu. Pera, semideuses vão pro céu?
— Boa tarde, Bela Adormecida. — disse o anjo.
— An? — Tentei sentar na cama. Não era o anjo.
— Meu nome é Jace — disse o menino loiro. Ele estava sentado, olhando para uma lâmina em suas mãos como se ela fosse mais interessante que minha saúde.
— Amélia. Pode me explicar o que aconteceu e como vim parar aqui?
— Você desmaiou de repente. Não sabemos onde mora, e levar ao hospital estava fora de questão. — Ele olhou meu anel, curioso.
— E onde estou?
— Você está no Instituto.
— Instituto? — Repassei vários nomes de empresas e organizações em minha cabeça. Nenhuma parecia igreja. — Que tipo de instituto? Tipo o Instituto Xavier? (Eu tinha que fazer essa piada)
— Nephilim. Somos Caçadores de Sombras, e temos muito para conversar.
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