Paradise of Light and Shadows
1 Chapter One — Uma Visita Inesperada
Notas iniciais
— Janeiro de 2014, Itália
Eram aproximadamente seis horas da tarde, e Alice se encontrava próxima à janela do quarto, admirando a bela dália amarela em um vaso de cristal sobre o parapeito. Não se lembrava exatamente como a flor tinha chegado até ela, só que sempre a teve. Era tão bonita e reluzente que fazia a pequena garota lembrar-se do sol. O adorado sol que tanto amava, pelo qual vivia. O sol que Alice podia ver, se olhasse ao longo da janela como fez... então o viu se pondo. Não deixava de ser bonito... ou se tornava ainda mais. Recolhia seu brilho grandioso com esplendor sobre as montanhas, enquanto o céu se tornava alaranjado ao seu redor.
Alice suspirou pesadamente deixando-se debruçar ao parapeito. "Ele já devia ter voltado." murmurara,pensando consigo mesma.
A garota já começava a pensar que talvez devesse deixar para lá e tentar tomar um banho sozinha, mesmo que nunca tivesse feito isso antes, quando ouviu o barulho da porta se abrir. Estava tão distraída que sequer havia sentido a presença dele se aproximar. "Ele chegou!" Comemorava em pensamento, enquanto corria abrindo a porta do quarto e passando pela mesma, indo de encontro ao mais velho.
— Nii-chan! Nii-chan!— Alice descia as escadas apressada, sobre a ponta dos pés descalços, e ao se aproximar do citado, deu um salto sobre ele o abraçando enquanto o homem a envolvia em seus braços.
— Cheguei em casa.— brincou o homem de cabelos negros sorrindo e abraçando docemente a garota em seu colo, em seguida a segurando apenas pelos antebraços enquanto as finas e pálidas pernas da garota se balançavam dando leves chutes no ar.
— Por que demorou tanto?— a pequena Alice fechava a expressão fazendo um bico e cruzando os braços, enquanto ainda era segurada pelo "nii-chan".
O homem não respondeu nada, apenas indicou algumas sacolas no chão com a cabeça, sem desfazer o sorriso que havia se emoldurado sobre os lábios finos. Sacolas estas que haviam sido derrubadas com o salto da pequena garota de cabelos negros e compridos.
Depositou um breve beijo sobre a testa da garota antes de colocá-la pé sobre o chão, indo juntar as sacolas jogadas. Continham compras para o jantar dos irmãos— ou da garota, já que o mais velho sempre inventava uma desculpa para não comer. Alice sabia que ele não comia.
A garota se abaixou e começou a ajudá-lo a juntar as sacolas e alguns itens que haviam caído de dentro delas, sendo recompensada com um sorriso de agradecimento do maior. Ao terminar ambos se levantaram.
— Vou levar isso até a cozinha. Aguarde-me no quarto, por favor.— pediu o maior, sendo respondido apenas com um leve aceno de cabeça da mais nova que subiu novamente as escadas correndo na ponta dos pés. O homem riu baixo. Achava bonitinho o jeito que ela subia escadas, com toda a pressa e delicadeza do mundo ao mesmo tempo. Paciência não era uma das virtudes de Alice.
A garota voltava ao quarto se sentando sobre imensa e macia cama de lençóis brancos no centro do quarto. Inclinava o pescoço pra direita e em seguida para a esquerda, ouvindo pequenos estalos e sentindo um certo alívio. Vira o maior fazer isso algumas vezes, e após imitá-lo pela primeira vez há alguns dias, aquilo já havia se tornado hábito. Olhara em direção à janela, vendo novamente a dália em frente ao cenário de um céu agora já escurecido, que mergulhava lentamente em um azul profundo com algumas poucas estrelas que até poderiam ser contadas nos dedos. Pelo menos as que eram possíveis enxergar pela janela.
Alice começava a imaginar quantas outras estrelas que ela não podia ver haviam se formado no céu visto a olho nu, quando o homem entrou no quarto, a despertando de seus devaneios.
— Irei preparar seu banho.— disse a voz doce do mais velho. Muito doce. A menina começava a pensar que sabor teria a voz dele. Seja qual fosse, algo tão doce assim... deveria ser deliciosa. Alice assentiu permanecendo sentada enquanto o dono da doce voz, ia até o banheiro para preparar a banheira.
"Se vozes fossem de comer, que doce a dele seria? Talvez uma torta de pêssego... sorvete de baunilha..." começou a pensar. Passou a língua sobre os lábios automaticamente pensando nos doces incrivelmente deliciosos que ele fazia, começando a compará-los com sua voz. "Talvez torta de floresta negra com cereja... acho que combina com ele... mas também daria certo se fosse um parfait ou um macaron de chocolate..." balançou a cabeça negativamente a fim de abandonar os "doces pensamentos". "Tenho que parar com isso. Estou ficando com fome... mas se bem que um tiramisù também combinaria muito bem... principalmente quando ele usa palavras como "ciao" ou "buongiorno" nas frases. Acho que esse seria o gosto dessas palavras..."
— Alice?— Novamente estava tão envolta em seus pensamentos que acabou por nem perceber a presença do mais velho que agora estava parado em sua frente a observando. Provavelmente imaginando em que tipo de pensamentos a garota se encontrava imersa no momento. Alice era uma criança cheia de pensamentos doidos como ela própria os descrevia. O mais velho, porém, preferia defini-los como "criativos".
— Eh? Ah, sim... o banho.— a garota voltava a si, ao ser despertada pela voz dele. Se levantava da cama, sentindo o frio assoalho de madeira tocar-lhe os pés e ia na direção do maior, pegando uma de suas mãos que eram enormes em comparação as dela. Ambos foram até o banheiro. O maior, que já havia retirado as luvas e dobrado as mangas da camisa até os cotovelos, ia até a porta a fechando, enquanto Alice retirava o delicado vestido branco, deixando à mostra seu pequeno, frágil e puro corpo pálido, retirando em seguida as roupas íntimas que lhe cobriam o corpo.
Já completamente desguarnecida de suas roupas, olhava para o mais velho inclinando o pescoço para o lado com inocência e doçura dignas de uma criança de três anos de idade, mesmo que a garota tivesse quatorze. O homem nunca tinha visto ninguém tão puro anteriormente.Ele já sabia o que ela aguardava. Era sempre a mesma coisa. Ela nunca trocaria o carinho do mais velho por nada. Mesmo que fossem apenas breves segundos. E assim o fez, a pegando em seus braços delicadamente e a colocando lentamente dentro da banheira.
Alice soltou um suspiro breve, relaxando na água e fechando os olhos para aproveitá-la ao máximo. Estava quente, do jeito que gostava. A menina adorava coisas quentes, principalmente sobre a superfície de sua pele. A fazia lembrar o sol que ela tanto amava. Abriu os olhos ao sentir as mãos do mais velho que lhe massageavam os cabelos fazendo espumas com o xampu que havia aplicado enquanto ela devaneava, espalhando-as por toda a extensão dos imensos cabelos negros de Alice, em seguida fazia forma de concha com a mão juntando água e despejando sobre os cabelos dela para enxaguá-los. Após, aplicava um delicado sabonete líquido sobre uma esponja macia e a passava com cuidado sobre o corpo da pequena, esfregando um pouco.A menina apenas observava enquanto ele a banhava, cuidando dela como se ela fosse uma pequena boneca de porcelana e pudesse quebrar a qualquer contato mais brusco.
~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~ // ~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~
Eram vinte e uma horas. A garota se encontrava à mesa, deliciando-se com a comida com muito gosto, enquanto era observada pelo irmão que sorria e se deleitava com a visão da pequena garota apreciando sua comida. Não que cozinhar fosse algum tipo de novidade para ele. Na verdade era o contrário. Se não estava cuidando da irmã ou da casa, estava cozinhando. Quase sempre. Era raro que tirasse um tempo livre para si. Talvez fosse costume. Claro que Alice não se sentia muito útil e nem muito bem enquanto o irmão agia como um criado, limpando tudo, cozinhando e a banhando, mas decidira pensar que ele podia gostar de fazer isso. Se ele gostava estava feliz. Se ele estava feliz, nada mais importava.
O jantar tinha a entrada de Salada Caprese, que era tipicamente italiana. Filet mignon ao vinho tinto havia sido preparado como prato principal, e para a sobremesa, o mais velho havia preparado Panna cotta. A única coisa que tirava desse jantar o ar de comida digna de um nobre, era a bebida de acompanhamento, que ao envés de um vinho sofisticado, era um copo de suco de frutas vermelhas.
Após terminar o jantar, com modos muito refinados— estes que lhe eram exigidos pelo irmão—, tinham a intenção de ir até o banheiro acoplado ao quarto, para que o mais velho escovasse os dentes da irmã e esta pudesse finalmente repousar, abraçada a ele como sempre. Porém foram interrompidos pela campainha quando já se encontravam na escadaria. Antes que o mais velho pudesse fazer qualquer coisa, Alice já se punha a correr em direção a sala de entrada. O mais velho riu baixo do modo como ela ficava empolgada ao receber visitantes, e foi caminhando normal e até calmamente na mesma direção da garota. Antes que pudesse chegar lá direito, ouviu a voz da garota numa exclamação mista de surpresa e felicidade:
— Cieeeeeel!!! Quanto tempo!!!
O mais velho parou. Ficou paralisado por alguns segundos. Em seguida começou a ir mais rápido em direção a garota e o visitante de última hora. Ao chegar lá, viu as duas "crianças" se abraçarem cumprimentando-se animadamente. O garoto de tapa-olho, ao separar-se do abraço, dirigiu o olhar ao mais velho que ainda o observava com surpresa.
— Quanto tempo, não é Sebastian?— sorria com uma expressão que Alice, com sua inocência não saberia descrever. Não era malícia, era um sorriso sincero. Talvez feliz. Mas misto de outra coisa.
— Bocchan...— balbuciava o homem de cabelos negros, parado agora próximo aos menores.
Fale com o autor