Paradise Coast
3 A arma surprema
Notas iniciais
P.O.V. Lisa.
Ouvi o que a Bev estava pensando.
—Você está certa. Nunca faria nada para machucar você ou minha mãe. Eu não quero machucar as pessoas, quero ajudá-las.
—Lis...
Podia sentir as lágrimas escorrendo do meu rosto.
—Tudo bem. É bom saber que você tem medo de mim, até eu tenho medo de mim ás vezes. Agradeço a honestidade.
O apartamento estava destruído, capsulas de bala, cartuchos inteiros espalhados pelo chão.
—Eu não quero ser um monstro. Quero ser boa.
Senti quando a Serafim escorregou da minha mão, ouvi o barulho, o tilintar que ela fez quando caiu encima de todas aquelas capsulas de bala.
—Mas, agora eu... eu sou a razão porque vocês estão em perigo.
—Oh, querida. Eu sabia que este dia iria chegar, por isso eu preparei uma surpresa.
Minha mãe afastou a estante e lá atrás havia uma porta, uma porta de aço reforçado com uma tranca eletrônica protegida por uma senha.
Ela digitou o dia do meu aniversário e a porta exigiu um escaneamento de retina e da palma da mão.
—Vai lá. Cadastrei os seus dados ontem de manhã.
E quando abri a porta havia uma espécie de... caverna do batman.
—Uma batcaverna?
—Você sempre disse que queria ser uma super-heroína. Eu e a minha equipe fizemos um traje.
Era como uma armadura, mas haviam pedaços que eram de tecido.
—Do que isso é feito?
—Fibra de carbono e um metal que é dez vezes mais resistente que aço reforçado e cem vezes mais leve. Podemos estilizar, isso é só o esqueleto por assim dizer. Podemos pintar da cor que você quiser.
—E o tecido?
—Tecido de spandex com fibra de carbono.
—Eu quero vermelho.
—Vai querer uma capa?
—Não. É o mesmo metal do qual a Serafim é feito.
—Sim. Nós fizemos para proteger o milagre.
Pintamos a armadura de vermelho, uma cor de vinho.
—Vai precisar de uma marca.
—Eu já sei a marca que vou usar.
Escolhi um triascle. Ele simboliza na cultura celta a deusa tríplice.
—Deusa tríplice. Muito bom.
P.O.V. Jeremy.
Depois de me afastar o suficiente para ela não conseguir captar meus pensamentos, comecei a pensar.
Ela é uma mulher de vinte anos que passou a vida toda carregando o peso do mundo nas costas. Emília tentou protegê-la, a mãe dela morreu quando deu a luz.
E para a arma ofensiva mais poderosa já criada, ela é só uma menina. Uma pessoa que tem sentimentos, que se sente culpada por colocar seus entes queridos em risco. Todo o meu treinamento, treino de afogamento, treino de luta, treino de tortura e nada me preparou para o que eu encontrei.
—Ei, você está bem?
—Estou.
—Não não está.
—Você estava lendo...
—Não. Não! Eu não vou invadir seus pensamentos sem a sua permissão. Após anos e anos de treino, consigo bloquear. Sinto muito se eu te assustei, mas eu tinha que fazer alguma coisa. Qualquer coisa. Essas pessoas, não tem escrúpulos Jeremy. Eles me veem como um meio para um fim, uma ferramenta para obter poder e dominar as outras pessoas. Só Deus sabe o que eles iriam fazer com minha mãe, com a Bev, com você. Eu não pude salvar o Henry, mas posso salvar você.
Se ela soubesse que Henry e eu somos espiões da inteligência britânica que viemos aqui para conseguir a arma. Ou seja, ela.
Então, os olhos dela ficaram perdidos.
—Lisa?
—Mamãe.
Ela correu até a sala de estar e chegamos bem a tempo de ver a mãe de Lisa ser atingida por um tiro na cabeça. Era um franco-atirador.
Lisa abraçou o cadáver da mulher que para todos os efeitos era sua mãe.
E ela gritou:
—Mamãe!
Vi a energia sair como uma rajada, senti o prédio, a cidade inteira chacoalhar. As capsulas de bala no chão começaram a flutuar.
—Lis...
—A minha mãe. Atiraram na minha mãe.
—Lis, quem quer que tenha atirado na tia Em ainda está por ai.
—Está não é?
Ela colocou a armadura que a equipe da mãe projetou, pegou a espada e saiu. Pela janela.
Lisa era capaz de levitar. Ela foi direto até o atirador, ele tentou atirar nela, mas a bala parou. E ela pegou o atirador e o trouxe para dentro da casa.
—Olha! Olha o que você fez! Você assassinou minha mãe!
Lisa fechou a mão e o atirador caiu de joelhos e começou a gritar. Saia sangue do nariz dele.
—Minha mãe! Minha melhor amiga! Uma das únicas pessoas que estavam sempre lá por mim. Quero saber quem te mandou.
—Tenho treinamento menina. Faça o que quiser comigo, não vou falar.
—Você não precisa falar.
A ruiva o sentou numa cadeira, pegou duas adagas e enfiou nas pernas dele. Ele gritou.
Lisa sentou numa outra cadeira de frente para ele.
—O aprendizado é sempre um processo doloroso. Como quando você é um bebê e os seus ossos estão crescendo. Acredita que eu me lembro do som dos meus ossos crescendo? É como um leve ranger debaixo da pele. Para mim, as coisas são diferentes. Os sons são música que eu entendo. Como fluídos, quando eu olho pela janela, posso ver todas as conexões, linhas de telefone, internet, celular. Posso me conectar com qualquer frequência que eu quiser. Por exemplo, esta dor que está sentindo agora... ela é um obstáculo. Ela impede que você compreenda. Eu não tenho isso. Todas as outras pessoas no mundo estão sempre tão preocupadas com quem elas são e quem elas devem ser, quem elas querem ser. Eu não. Como tenho acesso ás partes mais profundas do meu cérebro. Eu sei o que é importante e o que não é. Eu sei quem e o que cada pessoa é. Realmente. Percebo que o que nos torna nós, é primitivo, chega a ser patético. São apenas obstáculos. Como a sua dor, a dor que está sentindo agora. Está te bloqueando. Tudo o que seu cérebro entende neste momento é dor. Então, onde estão os outros? Porque eu tenho certeza que não veio pra cá sozinho. Quem te mandou?
—Lis.
—Certo. Não consegue falar. Tudo bem, não precisa.
Lisa colocou os dedões nas têmporas do soldado.
—Você é russo. Está aqui á mando do seu governo, para me pegar a qualquer custo. Tem soldados lá embaixo, cercando o prédio. Que tática é essa? Me diga.
P.O.V. Lisa.
Fui cada vez mais fundo nas memórias dele. Cada plano, cada tática, cada senha, tudo o que ele sabia. Agora eu sei.
—Obrigado por compartilhar.
Peguei a Serafim.
—Isso é pela minha mãe.
E cortei a cabeça dele fora.
—Ai Meu Deus!
—Agora eu falo russo. Fiquem aqui, eu volto já.
—Não Lisa! Lisa!
Entrei no elevador e infelizmente não pude impedir Jeremy e Bev de entraram comigo.
Pouco antes do elevador parar, eu falei:
—Jeremy abaixe. Agora!
Ele abaixou e a bala não o atingiu.
P.O.V. Jeremy.
Era algo impressionante. Ela sabia cada movimento do adversário antes dele ser realizado. O jeito dela lutar era algo inédito. Krav Maga, Karatê, Judô era uma mistura de tudo isso.
Lisa matou um contingente inteiro de soldados russos, armada apenas com duas adagas e uma Katana. Sendo que os soldados estavam armados com fuzis, metralhadoras. O que indica que ela conhecia a tática deles.
—Como você fez isso?
—É. Como fez isso? Foi uma das suas visões?
—Também. O atirador, invadi as memórias dele, cada plano, cada tática, cada senha. Agora eu sei.
Ela aprendeu a falar russo e todas as senhas ultra-secretas, todos os planos de guerra do governo russo em vinte minutos? Invadiu a mente de um deles e pronto?
O que a Inteligência Americana está tentando fazer a cinquenta anos... ela fez em vinte minutos.
O comunicador de um dos soldados mortos tocou. A voz do outro lado falava russo.
—Vocês tem a arma? Repetindo, vocês tem a arma?
A voz dela mudou. Ela soou exatamente como o atirador.
—Sim. Nós temos a arma. Precisaremos de transporte seguro para a base.
—O transporte estará esperando no ponto de encontro. Esteja lá em uma hora.
—Entendido. Cambio, desligo.
—Bem, vou pegar o comandante do exército russo em uma hora. Me desejem sorte.
—Não. Não pode fazer isso. Não pode ir pra sabe-se lá Deus onde sozinha e desarmada.
—Não vou estar desarmada, Jeremy.
Ela pegou as armas dos soldados mortos. Pistolas, revólveres, munições.
—E desde quando sabe usar uma arma?
Perguntou Beverly. E Lisa respondeu engatilhando o revólver:
—Desde agora.
Os coldres, os comunicadores, ela pegou tudo o que deu. Sua espada que ela chamava de Serafim estava em suas costas dentro da bainha.
—Lis, isso é loucura!
—E o que você sugere que eu faça? Que eu deixe o homem que mandou matar a minha mãe com um tiro na cabeça, se safar? Eu acho que não. Eles mataram a minha família pra chegar em mim. E agora eu vou destruí-los, pedaço por pedaço.

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