Para sempre Mitsuki
3 A grande surpresa.
Notas iniciais
Acordei cinco horas da manhã. O sol ainda não tinha aparecido completamente e a brisa fresca da madrugada ainda entrava pelas frestas da janela. Hoje eu tinha que terminar de arrumar tudo o quanto antes, pois meus pais me ajudariam com a mudança logo depois do almoço.
Sentei na cama e olhei para o celular.
“Quer saber? Hoje vou desligá-lo.”
Me senti animada quando lembrei do apartamento novo, levantei, troquei de roupa e fui até o banheiro para lavar o rosto.
“Pronto! Vamos começar!”
O tempo passou muito rápido. Os livros estavam embalados, minha roupa já estava na mala e só faltavam alguns objetos que eu achava necessário. Enfeites, perfume, minha pequena caixa de brincos e um pequeno despertador de mesa.
Três batidas na porta do quarto me tiraram daquele momento de distração.
–Rina-chan, o café está pronto.
–Pode entrar mãe!
A porta se abriu e uma senhora de cabelos alaranjados e de vestido florido entrou sorrindo para mim.
–Bom dia filha. Vejo que acordou mais cedo hoje.
–Sim. Eu precisava arrumar tudo para não atrasar a viagem.
Kirara entrou correndo no quarto fazendo festa para mim.
–O café já está pronto e o seu pai já está levantando. Vamos lá?
–Vamos sim, mãe.
Peguei Kirara no colo e descemos as escadas. Meu pai já estava sentado com o jornal aberto na sua frente, como de costume.
–Bom dia, pai!
–Bom dia Rina. Preparada para a mudança?
–Com certeza!
Aquele café da manhã foi particularmente o melhor de todos. Talvez porque fosse demorar a tomar café novamente com meus pais ou talvez pelo fato da minha mãe ter preparado tudo o que eu mais gostava. É, a saudade já estava dando as caras.
Ficamos pelo menos uma hora sentados, aproveitando aquele momento familiar. Kirara dormia nos meus pés enquanto conversávamos sobre minha vida universitária. Minha mãe não via a hora de ajudar na decoração e meu pai de fazer os possíveis reparos ou furos nas paredes. Na minha opinião, eu tinha a melhor família do mundo. Como pude ser capaz de ficar o dia inteiro atrás de alguém que não me queria e deixar minha família de lado? Se um dia Mitsuki quiser ficar comigo, ela teria que correr atrás, pois a partir de hoje, eu seria uma pessoa diferente.
–Bom, vou subir e terminar de arrumar tudo.
–Tudo bem minha filha.
Não demorei muito para ajeitar tudo dentro das caixas, lacra-las e escrever o nome em cada uma.
Olhei por toda a extensão do meu quarto procurando algo que pudesse ter esquecido. Estranhei o tamanho do espaço que ficou com as poucas coisas que restaram.
“Bom, acho que é isso então.”
Já estava bem perto do meio dia quando entrei no banho. Não demorei muito e logo estava com uma roupa limpa e cabelos escovados.
“Agora estou pronta!”
Sai do quarto e rapidamente olhei para a cabeceira da cama. Meu celular ainda estava ali desligado e deste jeito ele iria permanecer até pelo menos o fim dessa tarde.
Desci correndo as escadas e o cheiro maravilhoso de comida vinha da cozinha. Minha mãe pegava a toalha para arrumar a mesa.
–Mãe! Deixa que eu coloco.
–Ah! Muito obrigada Rina-chan. O que aconteceu? Você está diferente.
–Também não sei mãe. Acordei me sentindo muito bem hoje.
–Que bom, filha. Ultimamente você andava muito deprimida. Seu pai e eu estávamos preocupados.
–Eu estou muito melhor! Não precisam se preocupar.
Eu sorria para ela e ela sorria para mim.
–Depois que você terminar de arrumar a mesa você pode fazer o favor de chamar o seu pai? Ele está na garagem arrumando a maleta de ferramentas que ele acha que seriam úteis.
–Pode deixar comigo.
Coloquei todas as coisas na mesa e fui chamar meu pai. Kirara me acompanhava.
–Pai, o almoço está pronto.
–Obrigado filha, já estou indo.
Sentamos os três em volta da mesa e apreciamos aquele almoço fantástico que minha mãe tinha feito com tanto carinho. Ela não tinha feito nada de diferente, nem mudado o tempero. Eu é que estava com tempo para apreciar essas coisas agora. Essas pequeninas coisas que eu não dava importância, mas que faziam uma enorme diferença. Pena que percebi isso somente agora.
O almoço passou rápido e logo já colocávamos todas as coisas no carro.
–Pegou tudo filha? Não se esqueceu de nada?
–Não mãe. Conferi mais de uma vez e está tudo certo.
–Então podemos ir.
Antes de entrar no carro, abracei Kirara o máximo que pude.
–Se comporte garota.
Ela olhava para mim e abanava o rabinho.
–Vou sentir saudades de você.
Dei um beijo no topo da sua cabeça e coloquei-a no chão, fechando a porta em seguida.
–Até logo Kirara!
Ela latia para mim e pulava na janela.
–Não se preocupe filha, você voltará para casa nos finais de semana não é?
Minha mãe caminhava ao meu lado com a mão no meu ombro.
–Eu sei, mas mesmo assim vou morrer de saudades.
Minha mãe sorria para mim e meu pai já estava no banco do motorista.
–Prontas?
–Prontas!
Então vamos!
Demoramos cerca de uma hora e meia para chegar em Tokyo.
A cidade era completamente diferente da que eu vivi todos esses anos. Cheia de prédios, lojas, carros e pessoas, muitas pessoas.
Se não fosse pelo GPS do meu pai, acho que nunca teríamos chegado ao meu novo apartamento.
Rodamos pela cidade uns vinte minutos até finalmente parar próximo a uma praça, em frente a um predio largo de dois andares com portas de madeira enfileiradas. Em cada porta, tinha um número e uma pequena abertura com os dizeres ‘correio’.
–Eu já amei!!!!
–Mas você ainda nem entrou Rina-chan.
–Eu sei, mas já adorei esse lugar mãe!
–Vamos entrar para ver como é o interior, depois iremos descer e pegar as coisas.
–Tudo bem, pai!
Subimos as escadas e passamos pelas três primeiras portas. Meu pai parou na frente da última.
–Seu apartamento é esse aqui, filha.
Meu pai destrancou e girou a maçaneta da porta, abrindo-a.
Era simplesmente lindo. Tudo estava mobiliado. Mesa, cadeiras, fogão, geladeira, microondas, sofá, televisão, tudo novinho.
–Nossa! Mas já está tudo mobiliado!
–Esse é um presente meu e da sua mãe por você ter se esforçado para passar na faculdade e por ser essa filha tão maravilhosa que você é.
Eles estavam parados na porta sorrindo para mim.
Não pude me conter. Comecei a chorar de alegria e abracei os dois o mais forte que pude.
Muito obrigada pai! Muito obrigada mãe!
–Magina filha, você merece.
–Bom, vamos organizar o que falta então?
–Vamos!
Fomos até o carro e pegamos as caixas e a minha mala. Com calma, organizamos tudo em seu devido lugar. Primeiramente arrumamos a cozinha, a sala e finalmente meu quarto, onde tive uma segunda surpresa.
Era um quarto grande para uma pessoa só e estranhamente havia duas camas.
–Duas camas?
–Sim filha! Essa é nossa segunda surpresa!
Em cima de uma das cama, tinha um bilhete.
Peguei-o na mão e definitivamente congelei por dentro.
“Oi Rina-chan.
Espero que você tenha gostado da surpresa!!
Seus pais me convidaram para morar com você e fiquei muito feliz, aceitando na hora. Tenho certeza que serão anos muito divertidos!
Ass: Sonoda Mitsuki.”
Por pouco, não cai ali mesmo.
–E então filha, gostou?
Meus pais estavam parados na porta do quarto e eu não sabia o que pensar muito menos o que falar.
–S-sim! Gostei sim! É bom ter uma amiga para dividir apartamento.
–Pensamos a mesma coisa e já que você duas irão estudar na mesma faculdade e são tão boas amigas, achamos que seria uma boa ideia.
–Claro! Muito obrigada! Eu adorei!
Eu tentava disfarçar de todas as maneiras e por sorte ninguém percebeu que eu estava quase surtando. Pelo visto, meu plano de deixar meus sentimentos adormecerem, estava sendo arruinado.
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