Para sempre, Catarina
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Rua das Lamentações, casa Quatro, centro.
O anúncio de emprego da internet indicava aquele local para a entrevista, porém não dizia que era uma mansão, eu deveria ter ido mais arrumada conclui ao adentrar o local e ver outras candidatas vestidas com cardigans, terninhos e blazzers estilosos. Eram muito mais velhas do que eu, provavelmente com mais experiência.
Sentei-me em uma cadeira no corredor, ignorando os olhares hostis que pareciam dizer: “ Volte para a escola, fedelha!” ou “ vista-se melhor!”
Ajustei a saia de meu vestido e chequei se meus cabelos estavam no lugar, o vento frio não colabora nenhum pouco e foi o melhor que pude fazer depois de acordar atrasada, “uma trança deformada”. Com o passar dos minutos as candidatas entravam e saiam e isso só aumentava a minha ansiedade, minha vez chegou trinta e cinco minutos depois e odiei sentir o frio na barriga quando entrei na sala. Haviam dois homens lá dentro, um senhor vestindo um terno e um homem mais jovem lendo um livro.
— Bom dia, senhorita Deluca! — o senhor sisudo disse a encarando por poucos segundos.
— Bom dia. — Disse sorrindo enquanto o homem me indicava em qual cadeira sentar:
— Sou John Abernathy, mordomo da casa do senhor Klein. Vejo que estudou e fez oito meses de estágio na Universidade do Texas M.D centro de câncer e mais um ano de residência na emergência do Johns Hopkins Hospital. Porém não tem nenhum outro trabalho.
— Faz dois anos que terminei a faculdade dediquei todo o meu tempo a ala infantil. Recebi uma proposta para permanecer no Texas M.d porém eu queria trabalhar em outros hospitais.
— Hm… — Ele resmungou enquanto guardava meu currículo. Encarou-me, seus olhos me avaliando da cabeça aos pés, odiava esse tipo de coisa!
— Senhora Deluca… — Ele começou, o interrompi até notar que não deveria ter feito, mas já era tarde demais.
— Só Catarina, senhora me faz parecer uma mulher caquética.
— OK, Catarina o senhor Klein precisa de cuidados durante todo o dia, com comida apropriada todos os dias da semana. Acha que pode lidar com isso? — Mordi o lábio receosa, aquilo era mesmo uma pergunta?
— Bem senhor Abernathy, se posso cuidar de crianças com dores constantes, posso cuidar de um homem, mas com dores todos parecem crianças. — Respondeu com sinceridade, quase se chutando por dentro. Nunca conseguiria aquele emprego, não daquela forma.
— Ligaremos para você, senhorita Deluca assim que tomarmos a decisão. — Ele disse levantando-se e estendendo sua mão para me cumprimentar.
— Claro senhor Abernathy, obrigada pela consideração dos dois. — Houve um mínimo sorriso e então eu fui embora, acho completamente estranho ter mais de uma pessoa na sala e só uma fazer perguntas. Dei de ombros deixando a mansão Klein para trás, coloquei os fones no ouvido na minha playlist preferida, o metrô que peguei até o centro lotado, comi alguns tacos na esquina do apartamento e subi as escadas até o lugar que eu chamava de lar e dividia com minha amiga Christina. Era um apartamento de dois quartos,sala/cozinha e banheiro compartilhado. Chris é negra, olhos castanhos, um metro e noventa e o sonho quase concretizado de ser modelo.
— Boa tarde Cathy, como foi a entrevista? — A morena perguntou empolgada abaixando o volume da tv, joguei-me na poltrona começando a desmanchar a minha trança.
— Foi esquisito, tinha dois caras na sala o mordomo e um outro. O mordomo fazia as perguntas e o outro ficou lendo "Quem é você, Alasca?" e eu fiquei.. ata. — Digo fazendo uma careta. — Quero cafuné, Chris. Ele disse que ia me ligar. Quase contei um spoiler só de raiva!
— Que malvada. Quer biscoito tia? — Christina disse com seu sorriso provocador desviando-se da almofada que joguei nela.
— O negócio é procurar outras vagas porque essa não vai rolar!
— Você é sempre tão pessimista, relaxe coisas boas acontecem com pessoas de bem. — Com ela era sempre assim, Chris tinha uma resposta preparada e perfeita para cada ocasião. Desde que tínhamos doze anos.
— Que Deus te ouça, minhas reservas estão chegando ao fim e não vou te deixar pagando o aluguel sozinha!
— Falando em ficar sozinha e talz, seu namorado ligou umas vinte vezes. Perguntou "Pra que você tem a merda desse celular, se não atende as ligações dele?"
Ela revirou os olhos, enquanto fazia as aspas com as mãos e eu fiz uma careta no automático, fazia três dias que eu estava ignorando as ligações de Gabriel. No começo não era de propósito, mas ele insistia tanto que eu perdi a paciência, conheci Gabriel na faculdade estudamos em salas lado a lado e logo viramos amigos, tínhamos as mesmas ideias, gostávamos quase das mesmas coisas. Ele queria ser neurologista, ver cada complexidade do cérebro e desvendar seus segredos, no passar dos meses o encontrava — ou ele me encontrava — todos os dias na biblioteca. Ele me ajudava nas minhas matérias, já que as dele eram bem mais avançadas e eu o auxiliava nos seus estudos complexos.
Quando começamos a namorar não foi surpresa pra ninguém, porém no passar dos anos nossa relação ficou cada vez mais tensa, ele fez novos círculos de amigos e queria que eu fizesse parte desse ciclo e de seu novo estilo de vida. O que na maioria das vezes tomava muito do meu tempo, eu e Gabe já terminámos e reatamos o noivado várias vezes, o que só desgastou ainda mais nosso relacionamento. Acho que seria melhor para os dois um término definitivo, mas não quero perder o meu amigo.
— Não estou afim de me preocupar com os problemas de Gabe agora, talvez seja melhor que eu termine com ele de uma vez!
— Tem certeza disso?
— Não, eu não tenho, mas chega de pensar nele. Preciso pensar em coisas boas para poder falar com minha mãe e Lily!
— Mande um beijo pra elas! — Concordei e fui para o meu quarto. Chris e eu crescemos juntas numa pequena cidadezinha esquecida por Deus nos cafundós do Brasil. Os Pais de Christina prosperaram na agricultura em porto alegre, mas apesar do dinheiro ainda vivem com humildade. Minha mãe é uma médica aposentada por que desenvolveu síndrome do pânico e Lily minha irmã caçula adora desenhar. Quando fiz dezessete, ganhei uma bolsa de estudos para fazer intercâmbio para os estados unidos e me mudei para estudar na faculdade, Christina veio junto. Cada noite que passei acordada, ela estava acordada também fazendo coisas pra ela e se auto promovendo, estudando na faculdade de belas Artes. Porque além de ser modelo, ela quer saber atuar.
Depois de um banho demorado, o resto da tarde e boa parte da noite foi dedicado á procurar vagas e atualizar o status no facebook e perturbar o povo doido da faculdade. Liguei o Skype e esperei Lily atender a ligação. Os cabelos loiros e os olhos da meu leãozinho apareceram na tela do computador:
¨— Catarinaaaaaaaaaaa! — Ela praticamente gritou, com um sorriso enorme:
— Oi Leãozinho, como você está? E a mamãe? — Lily fez careta e juntou suas sobrancelhas parecendo apreensiva.
— Estamos todos bem, mamãe até saiu pra fazer compras hoje! Catarina, quando vai voltar pra casa mana?
— Vai demorar um pouco, mas se você quiser pode vir me visitar. E ficar uma semana! — Os olhos da minha irmãzinha brilhavam de expectativa, fazia um bom tempo que eu queria trazê-la até os EUA para uma visita rápida, mas nunca conseguia:
— Jura? Vai me buscar mesmo? Que demais!!!! Vou finalmente conhecer Gabe pessoalmente!
— Não se apegue a isso! — Disse fazendo careta similar a dela, o que a fez rir.
— Que foi? Vocês dois brigaram de novo, não é? Bem que a mamãe disse, vocês dois são parecidos demais. Dois cabeças duras!
— Falando nisso, vai chamar a mãe! Tenho que conversar com ela, espertinha!
— Tá bom! — Ela disse bufando e foi inevitável não rir. — Também te amo, Catarina!
Lily mandou um beijo na direção da câmera e saiu correndo. Alguns minutos depois minha mãe apareceu, a Senhora Deluca parecia a versão mais velha de Lily e mais cansada tambem. — Oi mãe, como você está?
— Exausta, mas estou bem e você querida? Parece abatida, anda se alimentando bem? Precisa de dinheiro?
— Não preciso de nada mãe. Só não ando dormindo direito. Guarde seu dinheiro, você já ganha pouco da aposentadoria e não vou deixar que gaste mais comigo. — Mamãe resmungou algo incompreensível e continuamos conversando por alguns minutos, até Chris gritar.
— CATHYYYY!!!!!! Telefone pra você, um tal de Abernathy!
— O que? Mãe depois a gente conversa, beijo e te amo! — Eu quase caí da cadeira ao correr para atender o telefone, a voz do outro lado da linha era monótona e exalava arrogância. — Alô?
— Senhorita Deluca, estamos lhe aguardando amanhã as oito da manhã. Um documento com as regras a seguir foi enviado para sua caixa de e-mail. Leia-o atentamente!
— Como quiser Senhor Abernathy, obrigada pela oportunidade!
— Não me agradeça, até amanhã e tenha uma boa noite.
— Boa noite! — O telefone ficou mudo, Chris e eu ficamos nos encarando e gritando por um tempo completamente empolgadas. Eu consegui o emprego afinal!
— Eu disse que coisas boas acontecem.
— Me lembre de nunca duvidar de você. Vou fazer uma banana split, você quer? — Perguntei indo fazer o dela com cauda extra.
…
Passei o resto da noite estudando o documento que o Sr Abernathy enviou e arrumei as malas. Mal consegui dormir de tanta ansiedade, estava acordada antes das seis.
Coloquei uma calça azul marinho, camisa branca de gola alta, sobretudo e luvas. Tentei arrumar os meus cabelos mas, como perdi a batalha pus a touca, estava realmente frio naquela manhã. Comi cereais suficientes para alimentar um cavalo, deixei um bilhete para Chris na geladeira e sai para pegar o metrô das sete e dez. Chegando na mansão do senhor klein, o mordomo me recebeu e me mostrou meu novo quarto no segundo andar.
— Pode guardar suas coisas, o Sr Klein estará lhe aguardando às nove para acompanhá-lo até o hospital.
— Okay! — Ele se foi, arrumei minhas roupas nas gavetas e tudo mais que eu trouxe de comer, coloquei celular,fones, carteiras e livro numa pequena bolsa.
O quarto tinha uma cama de casal, estante, tv e guarda-roupa. Abri a cortina e sai do quarto, toda aquela casa parecia um breu total. Um civic preto estava parado na frente da casa, Abernathy estava esperando encostado no carro, abriu a porta pra mim e a fechou. Ele estava sentado lá, o cara do dia anterior estava lendo Divergente. Estava usando vários casacos, touca, sua pele pálida e olheiras rodeavam seus olhos azuis.
— Bom dia! — Desejei com um sorriso, ele me encarou e um quase imperceptivel sorriso brotou em seus lábios finos. — Bom dia Catarina!
Ele disse apenas e voltou a ler. Coloquei os fones e liguei na playlist peguei meu livro e quase ri ao escutar ele ofegar. Comecei a ler fingindo não ter prestado atenção na reação dele, quando o carro parou uma hora depois, estávamos na frente do Texas M.D. Anderson, saímos do carro e subimos os degraus em silêncio. — Te vejo em duas horas, Abernathy!
— Sim, Senhor! — Escutei os passos de Abernathy se afastando, o motor do carro ganhando vida e sumindo.
— Ele não vai longe, nunca vai!
— Sinal de que gosta de você! — Respondi, o vendo suspirar alto.
— Ele ganha pra isso! — Ele disse ríspido e eu me mantive em silêncio, Admirando a fachada graciosa e proeminente do hospital que me recebeu de braços abertos quando cheguei aqui. Fazia quase três meses que não andava por esses corredores lisos demais ou ficava descansando entre as janelas de vidro. Não sabia que sentia falta daquele hospital até pisar ali novamente. Espero que o tratamento do senhor Klein seja calmo, porém o M.D Anderson é conhecido pelo tratamento intensivo do câncer, coisas boas não vinham de um tratamento agressivo.
Não que eu tenha visto, até hoje!
Fale com o autor