Para nós, todo o amor do mundo...
22 A Mulher Misteriosa
Notas iniciais
Gustavo chegou ao escritório sério e foi direto para sua sala, sem dar sorrisos e o costumeiro "bom dia" aos seus funcionários. Cristovão que entregava alguns papéis à Silvana e Verônica, estranhou a atitude do presidente.
— Xiii...aconteceu alguma coisa? — perguntou Silvana ao advogado.
— Não que eu saiba...- respondeu Cristovão.
— Acho melhor eu ir até lá ver se ele precisa de alguma coisa...- disse Verônica, solicita.
— Hum...não é uma boa idéia, quando o Gustavo está com cara de poucos amigos não é a melhor companhia...Eu converso com ele, não se preocupem...- disse o rapaz — Com licença...
Ao entrar no escritório, Cristovão viu o amigo parado em frente à janela, com as mãos no bolso, observando o movimento da cidade lá embaixo. Precisava que o amigo assinasse alguns papéis e entendesse os últimos os trâmites jurídicos de uma empresa que estavam adquirindo, pois o empresário viajaria na semana seguinte para Colômbia, finalizar todo processo.
— Gustavo, eu trouxe os documentos que me pediu, já estão em espanhol para que você apresente ao conselho...- explicou o advogado.
— Pode deixar ai na minha mesa, por favor...- pediu o rei do café.
— Está tudo bem? — arriscou — A Dulce está bem?
— A Dulce está bem sim...Cristovão...posso te fazer uma pergunta?
— Claro!
— Você acha que se tivesse insistido um pouco mais, minha prima teria se envolvido contigo?
— Bem...- começou o advogado, estranhando a pergunta do amigo — Talvez...Você sabe que eu gostei da Estefânia desde sempre...Hoje acho sim, que se eu tivesse mais iniciativa, talvez estivéssemos juntos e ela nem teria se envolvido com o Vitor...mas perdi minha chance, paciência, só quero que ela seja feliz...
— Entendi...bom...que bom! — concluiu Gustavo, sem dar explicações, retornando para sua mesa e pegando os papéis.
— Por que a pergunta? Tem a ver com sua cara fechada?
— Não quero falar sobre isso, não agora...
— Tudo bem...avise-me se precisar de mim, estarei em minha sala...- avisou Cristovão, retirando-se.
Assim que o advogado saiu, Gustavo largou os documentos e encostou-se na cadeira, fechando os olhos.
...
Fátima acabava de tomar o café da manhã, observando a irmã mais nova, que brincava com a colher dentro de uma tigela de cereais. Apesar dos anos que viveram distantes, sempre confidenciavam tudo uma a outra. Como a mais velha tinha uma vida mais agitada, era sempre quem desabafava quando tinham a oportunidade de conversar. Cecilia era a pacificadora, a que tentava lhe acalmar com palavras doces ou de paz. Não naquela ocasião...
— Desembucha...- pediu Fátima — Que bicho te mordeu essa manhã que você nem me deu bom dia? Nem adianta dizer que não é nada, porque eu te conheço...
— O Gustavo me convidou para jantar...- despejou, de uma vez.
— O que?! É sério isso?! — perguntou a cozinheira — E por que você está com essa cara de quem comeu pão estragado?
— Eu não aceitei...
— Não?! Mas eu pensei que...que você estava apaixonada por ele! Minha irmã! Como foi perder uma oportunidade dessas?! — indignou-se a mais velha.
— Fátima...ele queria jantar comigo hoje e eu já tinha combinado com o doutor André que sairia com ele...- explicou a ex-noviça.
— Olha só essa minha maninha! Mal começou a viver a vida e já está cheia de galãs no radar...- brincou.
— Não é nada disso, o André é um amigo...e o Gustavo só me chamou para comemorar a nota que a Dulce tirou numa prova...Não quero alimentar sonhos bobos sem motivo...
— Ok...e o que pensa em fazer?
— Achei que a voz da experiência teria um conselho para me dar...- brincou Cecilia.
— Meu conselho de mulher experiente é...siga seu coração...só isso...
— Nossa, super conselho...- ironizou.
— É verdade maninha...eu poderia te falar um monte de coisas, mas eu sei o que você quer de verdade, então não há muito o que dizer...
— Acha que o doutor André ficaria magoado se eu desmarcasse com ele?
— Se ficar fazer o que? Liga, pede desculpas, diz que podem combinar outro dia...ah lembre-se de não fixar uma data especifica, porque depois se quiser dar um perdido é mais fácil...ele é médico, sabe melhor do que ninguém que imprevistos acontecem!
— Mas isso não é maldade?
— Não...maldade é você perder a oportunidade de sair com o papai galã...Aliás, ligue para ele e diga que mudou de idéia! — concluiu Fátima — Agora eu tenho que ir senão chego atrasada, boa sorte maninha...depois quero saber dos detalhes!- disse, beijando o rosto de Cecilia e saindo.
...
Gustavo passara a manhã mergulhado no trabalho. Era melhor não ter tempo para reflexões. A Rey Café estava em ótimo momento, estavam estudando planos de expansão através de aquisições de outras empresas e fazendas, além do desenvolvimento de uma nova malha logística para atender outras regiões. Participara de duas reuniões importantes com clientes e fornecedores e saia para almoçar, mesmo sem fome, quando seu telefone tocou...
— Alo? Cecilia? Oi...Posso falar sim...Não, não estou chateado...- mentiu — Entendi...Desmarcou? Tem certeza? Pensei que quisesse sair com o doutor André...- sabendo onde aquela conversa os levaria, Gustavo pensou em ser cruel e dizer que agora tinha outro compromisso. Mas, não conseguiu ir contra aquela voz suave do outro lado da linha — Claro, claro...Ótimo então...- tentou parecer indiferente, mas sorriu sozinho, ao ouvir o que a jovem dizia, toda ansiosa.- Eu te pego as oito na casa da sua irmã...combinado...Até mais tarde...
O empresário guardou o celular no bolso, pensando na resposta que daria a Gabriel por dizer mais cedo que tinha tomado o primeiro fora de sua vida. Na verdade não poderia retrucar o irmão e nem dizer a ninguém que sairia com Cecilia. Se Dulce ficasse sabendo, poderia alimentar expectativas infundadas à respeito de sua relação com a ex-noviça. Preferiu manter para si os seus planos.
Seu apetite acabava de voltar, parecia que seu dia começara a ficar melhor e ele não conseguia admitir para si mesmo o porquê.
...
Quando Gustavo chegou em casa mais tarde, teve uma surpresa que não esperava. Sua filha estava em casa. A pequena correu para o seus braços, alegre, quando o viu, quase o derrubando com tanta euforia. Estefânia aproximou-se sorrindo
— Adivinha quem ganhou permissão da Madre para passar essa noite aqui? — Disse a estilista.
— Euzinha papi! — informou Dulce, toda sorridente.
— A Madre resolveu dar um prêmio para as melhores notas da classe...Então eu trouxe essa sapequinha para ficar a noite inteirinha conosco!
— É papi! Não é legal?! — perguntou a menina.
— É Dulce, é sim...poxa que surpresa...- disse o empresário, não muito animado, colocando a filha no chão.
— Não ficou feliz primo? — a estilista captara o semblante de Gustavo.
— Fiquei..fiquei sim, mas é que hoje eu não posso...eu combinei de jantar com uma pessoa...- contou o empresário, vendo o sorriso da filha se apagar.
— Essa mulher feminina também quer te roubar de mim?! — reclamou Dulce, chorosa — Não quero que você vá papai! Não quero! — exclamou, correndo escada acima para seu quarto, magoada.
— Filha...- chamou Gustavo.
— Poxa primo...sua filha vai super bem na prova, ganha a oportunidade de passar um tempinho contigo e você quer sair para jantar com uma mulher?! Não estou acreditando...
— Estefânia, não é muito comum a Dulce vir para casa durante a semana...você sabe que todo o meu fim de semana é dedicado exclusivamente a ela, mas durante a semana eu preciso ter meus compromissos...
— Olha o absurdo que você está me dizendo...eu sei que tem o direito de se divertir, mas justo hoje?
— Além disso eu não posso desmarcar...a pessoa com quem eu vou jantar desmarcou um compromisso para ir comigo, seria muito indelicado da minha parte ligar e dizer que não vou mais...- explicou o rei do café.
— Vai jantar com a Veronica? — interrogou a estilista.
— Não...nem com a Nicole! — completou ao ver a prima abrir a boca.
— Então já é outra mulher?! Você não tem juízo mesmo...
— Ah Estefânia, me deixa...eu converso com a Dulce Maria...agora tenho que tomar banho e me trocar...- saiu, deixando tia Perucas falando sozinha.
...
Após se arrumar, Gustavo caminhou até o quarto da filha. As luzes estavam apagadas e Dulce Maria brincava com uma boneca na beirada da cama. Quando viu o pai entrar, correu para cabeceira e se escondeu debaixo da coberta.
— Dulce...filha...precisamos conversar...- disse o empresário, aproximando-se e descobrindo a garotinha.
— Não pororom...- relutou a menina.
— Você precisa entender o papai...Quando assumimos um compromisso, não podemos desmarcar assim em cima da hora...- explicou.
— Mas você vai jantar com uma mulher feminina e eu não quero que você vá...Não quero que ninguém roube você de mim...
— Ninguém vai me roubar de você, filha...
— Eu não deixo você sair papi! Eu tenho ciúme dessas mulheres femininas todas! Você é só meu! — continuou Dulce, revoltada.
— Dulce Maria...você terá que aprender a aceitar as coisas...- falou Gustavo, severo.
— Se a mamãe estivesse aqui, você sairia com outras mulheres? — perguntou Dulce, chorando.
— Claro que não...sua mãe era a única mulher da minha vida...- respondeu o empresário, nostálgico.
— Você disse que eu sempre ocuparia o lugar da mamãe e o meu no seu coração...então eu também sou estuida...
— Exclusiva...- corrigiu — Sim você é, mas ainda sim eu sairei hoje Dulce, sinto muito...
— Por favor papi...não vai não...- implorou Dulce, agarrando-se a perna do pai, impedindo-o de sair do quarto.
— Dulce, pare já com isso! — repreendeu. Não queria ver a menina sofrer, mas se contasse com quem sairia, Dulce poderia sofrer mais no futuro.
Estefânia apareceu no quarto da sobrinha toda sorridente, observando a cena.
— Minha bonequinha, deixe seu papi ir! — pediu, alegre.
— Não!
— E se eu te disser que a mulher com quem seu papi sairá hoje é a Cecilia? — informou a estilista, fazendo Gustavo arregalar os olhos.
— Papi você vai sair com a Ceci?! — perguntou Dulce, empolgada.
— Como soube disso Estefânia?
— Recebemos uma ligação muito oportuna ainda pouco...- respondeu tia Perucas.
— É verdade papai?! — insistiu a menina.
— É filha...eu e a Cecilia vamos sair para comemorarmos sua nota na escola...é uma maneira de agradecer a ela pela ajuda...- declarou Gustavo.
— Iuuuuuupi! O papi vai sair com a Ceci! — comemorou Dulce Maria — Com a Ceci você pode ir papi!
— Mesmo? Mas você queria que eu ficasse...
— Mas eu não tenho ciúme da Ceci...ela não é metidona igual essas mulheres femininas que você conhece...eu deixo você sair com ela! Ela é a única que eu deixo! A única! — afirmou, abraçando o pai, feliz.
Gustavo e Estefânia riram, divertidos.
— Vai logo papi! Não deixa a Ceci esperando, vai logo! — continuou a garotinha empurrando o pai.
— Estou indo Dulce...estou indo...- sorriu Gustavo, dando um beijo de despedida na filha e saindo.
Quando o pai fechou a porta, a pequena fez um sinal positivo com a tia, que devolveu igualmente, com cumplicidade.
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