Para Um Esquisito (Columbine)
1 Capítulo Único
Esquisito. Um cara esquisito.
Dócil. Quieto. Pacífico.
Um olhar inocente dentro da fantasia de esqueleto em um halloween distante ou esperançoso com o seu boné do time da escola.
Mudanças. Recomeços. Saudades.
Sentiu a dor física e mental do crescimento.
Cheiro de pizza, tabaco, do álcool destilado.
Da responsabilidade de planejar um futuro que nunca chegou, que ele mesmo desligou ou lhe fora desligado?
Esquisito. Um cara esquisito.
Inteligente. Astuto. Engraçado.
Notas altas, surras no vestiário, sorriso bonito, autoestima baixa. Seu ego era continuamente desconstruído pelo desprezo da atenção que ansiava.
Raiva. Tristeza. Impotência.
Detestava seu reflexo. Amava o personagem de si mesmo.
Um peito deformado pela mistura de sentimentos pesados.
Uma boca habilidosa de onde as palavras fluíam com facilidade, persuasivas, explanando das mais coerentes às mais tolas das ideias. Ponderava sobre o que dizia, mas o que de fato importava, nos foi ocultado.
Esquisito. Um cara esquisito.
Procurava emoção? Vingança? Superação?
Seu pensamento girava em alta velocidade enquanto caminhava lentamente pelo quintal de sua casa, cuidando para não atiçar o barulho dos cascalhos por debaixo do coturno, ganhava enfim a madrugada, desfrutando da liberdade que julgava merecer.
Anormal? Obcecado? Perigoso?
Esquisito!
Amava animais. Detestava pessoas. Queria ser amado. Esmerou-se por ser odiado. Queria salvar. Queria aniquilar. Queria ganhar, mas sabia que ia perder.
Humildemente se desculpava numa carta fraterna, conquanto, derramava sua mania de grandeza nos seus escritos secretos.
Contragostos. Contratempos. Contradições.
Esquisito. Um cara esquisito.
O casaco cobria o corpo magro e um pouco desajeitado.
A face branca, o cabelo espetado. Olhos ora intimidadores, ora cabisbaixos.
Supostamente feio ou aceitavelmente palatável?
A companhia perfeita pareceu inalcançável. Tinha Arlene consigo, mas não era a acompanhante apropriada para o baile.
Mentiroso? Ardiloso? Dissimulado?
Perdeu-se na sua inquietude. A densa nuvem de sofrimento impedia-lhe de ver a saída.
Tinha ganas por essa glória infame e equivocada.
Levou adiante o plano e fez disso seu propósito suicida.
Dor. Choro. Soluços.
Esquisito. Um cara esquisito.
Explosivo. Confuso. Encurralado.
Escolheu o caminho e o trilhava, os motivos já não importavam, a prova perdida era uma piada. Sua angústia desacreditada. Adrenalina pulsava. Suas dores ignoradas. Coragem ultrajada. Ponto sem retorno.
Frio? Destemido? Inconsequente?
Plano falhado, nariz quebrado, orgulho estilhaçado tal qual as janelas esverdeadas do prédio machucado.
A ideologia impressa em letras negras na camiseta branca foi manchada de vermelho.
O controle escapou das mãos. O poder era ilusão. O êxtase era dor e medo e o que restou foi seu corpo estendido no chão.
Psicose? Narcisismo? Alienação?
Esquisito. Um cara esquisito.
Monstro. Louco. Psicopata.
Muitas eram as definições de uma mídia desesperada.
Mas quem ousaria tentar entender um ser de alma perturbada? Ou contrariar os conceitos compreensíveis de uma sociedade dilacerada?
Sua cruz foi ao chão para tentar aliviar a dor de quem teve as esperanças destroçadas.
Esquisito!
Levou sonhos, sorrisos e vidas consigo.
Desperta a raiva e a compaixão numa linha tênue na mente de quem se atreve a enxergá-lo para além das meias verdades que deixou.
Não facilitou o caminho para aqueles que inevitavelmente lamentam sua perda.
Está totalmente condenado, porquanto, até mesmo os erros do seu cúmplice lhe foi imputado.
Esquisito. Um cara esquisito.
Doença? Bullying? Descaso?
Sentiu demais para quem se julgava indiferente. Se importou demais e não conseguiu segurar a máscara da frieza por muito tempo mais. Se gabava da sua capacidade de desligar sentimentos. Desligava, mas eles existiam. Existiam e sufocavam seu grito de agonia.
De quem é a culpa afinal?
Das bandas? Dos jogos? Da escola ou dos pais?
Esquisito!
Anos passaram. Os conceitos não mudaram. Abertas as feridas.
Fica o questionamento: que tipo de predador tira a própria vida?
Seus erros o extirpam da sua posição de vítima?
Parece errado, condenável, abominável compadecer-se do esquisito.
Parece insano acreditar que seu futuro poderia ser farto de sucesso, honestidade, verdade, ou qualquer outra coisa boa que seja.
Não, garoto esquisito.
Você não facilitou o caminho para aqueles que inevitavelmente lamentam a sua perda.
—Ludovika-
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