Para Sempre - Sombras do Passado

10 O retorno à casa maldita - Parte 2


Notas iniciais
Boa leitura!!!

O táxi que pegamos nos leva direto para o camping, e não demora mais do que quarenta minutos até estarmos de pé em frente à entrada principal. À essa altura, acho que seria mais fácil convencer Larissa a voltarmos para casa do que conter minha ansiedade. Sinto um calafrio terrível atravessar-me o peito e apertar-me a garganta. O estômago chega a doer. É como se estivesse devorando minhas entranhas. Olho para os meus colegas e percebo que eles também estão nervosos. Ora, como não haveriam de estar? Estamos prestes a embarcar numa verdadeira missão suicida, da qual não temos certeza se sairemos vivos.

O plano de Larissa parece simples: ir até a casa maldita, procurar pistas e depois cair fora. Muito bem! Só há um detalhe que nos preocupa: entrar e sair da casa sem chamar a atenção da coisa que vive lá. Impossível! Não tem a menor chance de sairmos ilesos dessa. No minuto em que entrarmos, ficaremos presos em alguma cilada e aí será nosso fim. Teremos vindo até aqui por nada.

Esperamos o táxi ir embora para enfim nos concentrarmos em nossa “missão impossível”. Ficamos algum tempo parados olhando para a placa suspensa sobre a porteira, na qual um letreiro convidativo escrito em tinta marrom opaca anuncia “Bem-vindos ao Campo dos Sonhos”. Chega a ser engraçado o fato de centenas de milhares de pessoas passarem por este local anualmente sem desconfiarem do segredo terrível e sombrio que se esconde nas profundezas da floresta. Um segredo que provavelmente só nós conhecemos. Um segredo que pode significar a nossa perdição.

— Chegamos – murmura Henrique. Sinto o pavor em sua voz. O mesmo pavor que toma conta de mim e me consome por dentro. – E agora?

— Agora entramos. Não é, meu amor?

Viro-me para Larissa e noto que ela está bastante pálida, com os olhos escancarados, fixos no nada, e os lábios trêmulos, como se estivesse passando mal.

— O que foi, querida? Está tudo bem?

Ela me encara assustada, como se tivesse visto uma assombração. Sua testa está suada, e suas mãos estão tão geladas que ela mal consegue fechá-las. Seguro-as, a fim de aquecê-las. Acaricio seu rosto.

— Me diz o que está havendo.

— Não é nada. Só estou um pouco...

— ... apavorada? – Complementa Miguel. – Nós também estamos, se isso te serve de consolo.

— Podemos voltar se você quiser. Ainda há tempo de reconsiderar. Nós podemos...

— Não! – Ela responde depressa. – Não chegamos tão longe à toa. Quero ir até o fim. Vocês estão comigo, não estão?

Nos entreolhamos, depois assentimos um para o outro.

— É claro que estamos. Amigos são para isso, não?

***

Recentemente o normal e eu nos tornamos completos estranhos. Não consigo me reconhecer neste momento. Me encontro numa condição estranha e delicada: me sinto estranhamente tranquilo, apesar de agora não ter nenhum controle sobre o meu destino e o que acontecerá em seguida.

Olho para Larissa, imaginando o que estará passando pela cabeça dela neste exato momento. Olho, em seguida, para os meus amigos, que também parecem estar tranquilos e seguros de que esta será apenas mais uma de nossas muitas loucuras e que nada de ruim acontecerá conosco. Mas sei que por dentro estão apavorados. Ambos temem por suas vidas. Principalmente Miguel, que não se preocupa em disfarçar seu desespero e não pára de questionar se o que estamos fazendo é realmente necessário.

— Não quero que me interpretem mal, nem que pensem que estou rogando praga, mas... se pararmos para pensar...

— O que eu tinha para pensar, já pensei – responde Larissa, tentando demonstrar firmeza em suas palavras. – A decisão está tomada.

— Mas...

— Não tem mas, Miguel. Acredite que, assim como você, eu também quero que isso termine o mais rápido possível.

Ela pára por um instante para olhar em volta. Bem atrás de nós, há uma trilha longa e extensa, rodeada por árvores de troncos altos e grossos, arbustos frondosos e flores coloridas que brotam da massa verdejante que nos envolve. À nossa frente, uma clareira, com um círculo de céu aberto no alto. Estou prestes a perguntar a Larissa se ela prefere parar para descansar ou continuar andando quando ela leva o dedo indicador aos lábios e pede para que façamos silêncio.

— Conseguem ouvir?

— O que? – Pergunta Miguel.

— Ouçam.

Quando o silêncio enfim toma conta, o ruído de água corrente nos chega aos ouvidos. Alto e claro como se estivesse aos nossos pés.

— O riacho – murmuro.

— Isso. Agora me lembro de ter escutado esse mesmo barulho pouco antes de encontrarmos a lareira. Isso significa...

— ... que estamos perto?

— Eu diria que já chegamos.

Larissa está certa. Estamos exatamente onde queríamos – ou melhor, onde não queríamos – chegar. Logo adiante, avistamos a ladeira que dá acesso ao casarão, e, um pouco mais a frente, avistamos o dito-cujo.

Há algo estranho. Algo que não se encaixa. A casa não está como a deixamos. Metade dela havia sido demolida por aquela árvore. Mas agora ela está inteira outra vez, exatamente igual ao dia em que a encontramos, como se alguém a tivesse reconstruído, pedaço por pedaço, fibra por fibra.

Fecho os olhos e respiro fundo, tentando ignorar a voz em minha mente que me alerta para não continuar com isso.

— Nunca pensei que voltaria a esta casa – começa Henrique. Noto que suas mãos tremem. – Onde jurei por tudo o que é mais sagrado que jamais voltaria.

— A gente nunca sabe o dia de amanhã. O destino é imprevisível.

— Agora você disse tudo.

— E pensar que, há dois anos, não fazíamos ideia de onde estávamos nos metendo. E que quase perdemos nossas vidas, sabe lá Deus por quê.

Enquanto nos aproximamos do casarão, confesso para mim mesmo que o motivo maior para eu ter concordado em vir nesta missão é a curiosidade que venho alimentando há anos em descobrir quem – ou quê – provocou tudo aquilo. Há muitas perguntas sem respostas, e me arrisco a dizer que a mais intrigante de todas é: O que tudo isso tem a ver com os pesadelos de Larissa? Que segredos esconde esta casa? Será que sempre esteve escrito que um dia voltaríamos a este lugar?

— Gostaria de entender uma coisa: por que acha que vamos encontrar as respostas aqui?

— Não sei explicar direito. Sinto que há um elo interligando meus sonhos a este lugar. Algo monstruoso.

— Esse suspense me mata.

Chegamos, afinal. Agora, só nos resta entrar. Como da última vez, vou até a janela para tentar ver através dela, mas está escuro demais para enxergar qualquer coisa.

— A porta está firme – diz Henrique. – Na moral, nunca vi nada parecido com isso.

Miguel e Larissa se aproximam.

— Acha que devemos dar a volta?

— Não, acho melhor tentarmos entrar por aqui mesmo.

— Mas como? Derrubando a porta?

— Ou...

Volto à janela e tento abri-la, mas não consigo.

— Deve estar trancada ou emperrada.

— E agora?

— Não vim até aqui à toa. Vamos entrar de qualquer jeito. – Olho para o chão, procurando algo pesado o bastante para quebrar o vidro. Apanho um tijolo. – Isso deve servir. Para trás!

Arremesso-o com força contra a vidraça, que se estraçalha completamente, não sobrando nenhum caco capaz de se equilibrar na moldura.

— Assim está bem melhor.

Vou na frente. Assim que ponho o primeiro pé na sala de estar, o cheiro insuportável de mofo invade minhas narinas e tapo o nariz imediatamente.

Larissa entra logo em seguida. Está tudo escuro demais. Ligo a lanterna imediatamente e começo a vasculhar o cômodo. Aparentemente, está tudo em ordem. Os móveis se encontram em seus devidos lugares, estranhamente intactos, como se nada lhes houvesse acontecido. Paraliso por alguns segundos, esperando algo acontecer. Mas a calmaria continua. Nada de diferente acontece. Nem parece que estamos no mesmo casarão que, por um triz, não nos exterminou.

Henrique liga sua lanterna e caminha em passos lentos até a pilha de caixas de papelão, esquecida no canto mais sombrio da sala.

— O que estamos procurando exatamente?

— Não sei ao certo – respondo. – Mas, seja o que for, não creio que vamos achar com tanta facilidade.

— Lembram daquele diário? – Pergunta Larissa, tentando abrir a porta de um armário. Como não consegue, começa a forçá-la inutilmente.

— Lembro – responde Miguel, examinando uma carteira velha. – Foi por causa dele que quase passamos desta para melhor. Oh, vejam! Dez centavos!

Sigo examinando cada centímetro quadrado da sala, enquanto Larissa persiste em sua luta para tentar abrir o armário. Paro para observá-la, certo de que ela não vai descansar enquanto não descobrir o que há dentro daquela coisa.

Conheço-a o suficiente para saber que sua paciência não demora mais do que dois minutos para explodir como uma bomba nuclear. Irritada já ao extremo, ela pega a primeira coisa que vê – um pé-de-cabra – e começa a agredir o armário com toda força nela contida.

— Abre, porcaria! Abre! Abre, armário infernal!

Depois de uns cinco ou seis golpes, ela pára, arquejante.

— Querida, quer ajuda? – Pergunto.

— Não, amor. Obrigada.

Arremessa o pé-de-cabra na direção da escada, dá um último chute no armário e se afasta.

Aponto a lanterna para Henrique, que parece bastante concentrado, vidrado em alguma coisa. Vou até ele.

— O que tem aí?

Ele não responde. Está tão concentrado que nem sequer me ouviu. Percebo, no mesmo instante, que ele está com um álbum de fotografias nas mãos. Inclino-me para ver melhor. Não consigo reconhecer a pessoa que está na foto, mas seus traços me parecem bastante familiares.

— Minha nossa – Henrique murmura.

Ele vira a página. No verso da folha, vejo a foto de um bebê de seis meses de idade dormindo em um berço. Logo abaixo, está registrada a data em que a foto foi batida: 16/03/ 1996. E, na mesma página, o nome da criança: Larissa Oliveira.

— Larissa? – Pergunto em voz baixa.

— Este é o álbum da família dela – diz Henrique, virando mais uma página.

No verso da página seguinte, vemos a foto de uma garotinha loira com dois anos de idade, risonha no colo da mãe. A mulher da foto é Bárbara, e está segurando Larissa. A data está logo abaixo: 19/11/1997.

— Por que o álbum da família dela está aqui?

— Eu acho...

Ele não conclui a frase. Ignoro-o e concentro-me na próxima foto. Uma moça de cabelos negros e longos de aproximadamente 19 anos sentada no sofá da sala de estar. Seu nome é Estephanie, e, de acordo com a data, a foto foi batida há quase 10 anos. Seus traços são muito semelhantes aos de Larissa, e só o que me ocorre pensar é que se trate de alguma parente distante.

— Caramba – diz Henrique. – Onde foi que eu vi este rosto antes?

— Vejam! – Ouço Miguel gritar.

— O que foi? – Pergunta Larissa.

Miguel se aproxima de nós com um livro velho e grosso nas mãos.

— Eu encontrei! Encontrei o diário!

Larissa o pega com uma pressa assustadora e começa a esfolheá-lo, sem sequer soprar a poeira da capa.

— De nada, viu?

Ela esfolheia o diário depressa até parar numa página onde há um pequeno texto em inglês.

— Em que esse diário vai nos ajudar? Nem sabemos de quem ele é.

— Vocês não sabem, mas eu sei.

— Se você sabe, então diz.

— Antes, dê uma olhada nisto.

Larissa me mostra o diário, e pede para que eu observe o texto com atenção. Em seguida, me mostra a carta que ela recebeu hoje mais cedo.

— As letras. Elas...

— ... são exatamente iguais. Isso quer dizer que a pessoa que me mandou esta carta e a que deixou aquela mensagem no espelho são a mesma.

— Disso já suspeitávamos. Mas como? Como é possível que alguém tenha invadido seu quarto e marcado seu espelho com sangue?

— Eu receio que não tenha sido “alguém”, e sim “algo”.

— Algo? Quer dizer, algum espirito mal?

— Por mais que eu não tenha certeza, essa é a única explicação que eu consigo imaginar.

— De todos os cômodos que já exploramos... – Henrique se aproxima de nós, ainda com o álbum de fotografias em mãos. – ... o único que ainda não vimos foi este.

Antes que eu possa perguntar do que, diabos, ele está falando, ele me mostra uma fotografia. Se trata da mesma moça que vi um minuto atrás, a que se chama Estephanie, só que desta vez três anos mais velha, parada em frente a uma porta. Olho para a foto com atenção. É possível ver, no canto inferior esquerdo da imagem, um pedaço da pilha de caixas de papelão, e, no canto superior direito, uma parte da estante de livros.

— Vê? Esta foto foi tirada aqui mesmo, sete anos atrás. Se prestarem atenção, verão que a estante de livros está alguns metros afastada do lugar onde ela se encontra agora. E se olharem para lá... – Ele aponta para frente, para a estante de livros. – ... verão a porta bem atrás da estante, o que significa que ela foi posta ali de proposito, para que ninguém pudesse passar.

— Mas por qual motivo?

— Isso só Deus sabe.

— Bem que dizem que o proibido é mais atraente – digo, indo em direção à estante.

Viro-me para meus colegas, que continuam parados no mesmo lugar.

— Vamos, o que estão esperando? Ajudem-me a empurrar isto!

Notas finais
Se gostaram, comentem e favoritem! Até lá e obrigado por lerem! Vlw! ♥