Para Sempre - Sombras do Passado
4 Almoço em família
Notas iniciais
É quase meio-dia quando ouço o som de pneu cantando e de vozes extasiadas anunciando que eles acabaram de chegar. Imediatamente largo o livro que estou lendo e corro para fora, sentindo brotar em mim uma onda de entusiasmo que não sentia há semanas.
Abro a porta a tempo de ver meu avô descer do carro – uma Brasília 74 Azul – e espreguiçar-se.
— Enfim, cá estamos! – diz ele em voz alta, abrindo os braços como se tentasse abraçar o vento. Típico dele.
Abro um sorriso largo e começo a andar em sua direção. Seu nome é Leandro e, embora seu aspecto físico consideravelmente bom não deixe transparecer, tem 63 anos. Está usando uma camisa colorida, bermudas jeans brancas e óculos escuros. Seu cabelo está um pouco bagunçado – o que para ele é bastante comum – e aparenta estar mais grisalho do que sou capaz de lembrar.
Logo depois descem meus pais e minha avó. Pelas suas caras, percebo que estão cansados e desesperadamente famintos.
— Até que enfim. Estou louca para tirar esses sapatos infernais. Essas porcarias estão me apertando.
— O que eu te disse, filhota? – rebate Leandro. – Sua mãe não pára de reclamar desde que saímos.
Eu rio. Seu jeito tranquilo de falar faz com que qualquer situação pareça algo cômico, como se nada no mundo lhe afetasse. De certa maneira, este seu jeito é reconfortante.
— Você, como sempre, se metendo em coisas que não lhe interessam.
— Relaxa, mamãe – diz Bárbara, aparentemente preocupada com a possibilidade de esse reencontro ser um fiasco total. – Papai está só brincando. Não é mesmo, papai?
— Mas é claro que estou brincando. Sua mãe é que não suporta nenhum tipo de brincadeira. Mas já estou acostumado. Se não, não estaríamos prestes a comemorar nossas Bodas de Rubi.
Leandro a envolve com um braço e beija sua testa.
— Vovô! Vovó! – grito, deixando-me levar pelo entusiasmo.
— Minha princesinha! – diz Leandro, abrindo os braços.
Me jogo nos braços dele, lembrando-me da última vez em que o abracei. Para ser sincera, não sei exatamente quando foi a última vez que nos encontramos, nem quanto tempo durou. Só sei que faz bastante tempo, e que, de certa forma, essa espera valeu à pena.
— Minha nossa, como você está diferente. Está mais linda do que nunca.
— Obrigada. O senhor também não mudou nada. Oi, vovó!
— Oi, minha querida! Que saudade eu estava de você! Veja só como cresceu. Seu avô tem razão. Você está maravilhosa.
— Obrigada. A senhora também está linda.
— Ora, é muita gentileza sua. Mas nós duas sabemos que isso não é bem verdade.
— Não diga isso.
Ela dá uma piscadela e sorri. Seu nome é Célia. É 12 anos mais nova que meu avô e, diferente dele, é bastante modesta e um tanto sincera demais. Os dois vivem pegando no pé um do outro e discutem por qualquer motivo. O que me leva a perguntar como duas pessoas tão diferentes podem ter se apaixonado.
— Muito bem. Agora que já nos cumprimentamos, que tal entrarmos para comer? Estou tão faminto que aguento uma travessa inteira de tortas de frutas.
— Pois então não se fala nisso. Entrem e se acomodem. Vou começar a servir o almoço em alguns minutos.
— Esperem!
Olho para o final da rua, lembrando de um detalhe importantíssimo. Adrian ainda não chegou. Faz mais de meia hora que nos falamos e ele já deveria estar aqui.
— Algo errado? – pergunta Célia.
— Não. É que... Está faltando alguém.
— Deixe-me adivinhar... É o seu namorado?
— Isso.
Preocupada, e com uma pontinha de raiva, pego meu celular. Quando estou prestes a ligar, ouço um ruído de buzina ao longe. Meu coração começa a disparar involuntariamente. Olho outra vez para o final da rua e abro um sorriso de orelha a orelha quando vejo a motocicleta vermelha que se aproxima.
É ele.
— Amor, finalmente. Já estava quase ligando para você.
— Desculpe, querida, mas o trânsito hoje está terrível. Espero não ter perdido nada.
— Felizmente não. Eles acabaram de chegar. Você precisa conhecê-los. São pessoas incríveis.
— Claro. Eu vou adorar.
— Então vem. Nós já vamos entrar.
Agarro a mão dele e começo a levá-lo até meus avós, que continuam parados na frente da casa, conversando.
— Onde está o Duda? – pergunta Ângelo.
— Ele ainda está no carro. – diz Leandro, virando a cabeça para a caminhonete.
— E grudado no telefone, para variar.
— Vovô! Vovó! – Me aproximo deles, ainda de mãos dadas com Adrian. – Quero apresentar a vocês o meu namorado. Adrian.
— É um grande prazer conhecê-lo. – Adrian estende a mão, sorrindo timidamente.
— O prazer é todo meu – diz Leandro, com um sorriso escancarado. – Espero que fique para almoçar com a gente.
— Com certeza. De jeito nenhum eu poderia recusar um pedido tão especial.
— Além de bonito e simpático, é bastante educado – comenta Célia.
— Muito obrigado, senhora...
— ... Célia. Me chame só de Célia, por favor. Detesto ser chamada de “senhora”.
— Claro. Perdão.
— Não ligue para ela, rapaz – Leandro dá um tapinha em seu ombro. – Célia é cheia de fricotes. Mas com o tempo você se acostuma.
— Cale-se, Leandro!
— Hoje vocês estão impossíveis – esbraveja Bárbara. – Vamos entrar de uma vez.
— Duda! – grita Célia. – Vamos! Saia desse carro!
Olho para o carro. Há um garoto lá dentro, de camisa roxa, mangas enroladas e fones grandes de ouvido pendurados no pescoço. Seu topete particularmente horroroso e seu rosto oval e parcialmente barbado me permite reconhecê-lo de imediato.
— Esse moleque não desgruda do celular. Anda com essa coisa para cima e para baixo. Francamente, não sei como aguenta.
— Aquele é o Duda?
— Sim. A mãe teve que fazer uma viagem de urgência para Taiwan e não pôde levá-lo junto. Viagens de negócios, sabe? Você conhece a sua irmã. A rotina dela é bastante agitada. Aconteceu um imprevisto e ela pediu para tomarmos conta do Duda até ela voltar. Ele não gosta muito de viajar, e também não suporta ver a mãe indo para lá e para cá, sem tempo para mais nada além de assinar documentos e atender à telefonemas. Ele só topou vir com a gente porque a mãe prometeu que voltaria o mais breve possível e que ligaria para ele assim que chegasse ao aeroporto. Deve ser por isso que ele não desgruda desse negócio.
Duda se aproxima em passos lentos, os olhos ainda vidrados na tela do celular.
— Dá para tirar os olhos desta porcaria por um minuto? Vamos, fale com seus tios. Faz quase dez anos que não os vê.
— Sério que faz tanto tempo assim?
Duda ergue o olhar para Ângelo, que o cumprimenta sorrindo.
— Caramba, Duda. Como você cresceu. Está forte, hein?
— E aí, tio Ângelo? Tudo em cima?
— Tudo.
Ele olha para minha mãe, esboçando um sorriso claramente forçado.
— E a senhora, tia Bárbara? Ainda tricota meias?
— Eduardo, o que foi que eu disse...
— Deixa, mãe. Está tudo bem. Soube que sua mãe viajou para Taiwan. Espero que não seja nada sério.
— Para ser honesto, isso não faz a menor diferença para mim. Mas quem liga para o que eu penso?
Justamente como pensei. Duda não mudou nem um pouco. Continua o mesmo garoto arrogante e mal-educado de sempre. E mesmo sabendo que não o suporto, tento ser gentil e educada com ele sempre que nos vemos. Para minha sorte, isso acontece pouquíssimas vezes.
— Ainda se lembra de mim, primo?
Duda vira o rosto para mim e, para minha surpresa, fica boquiaberto, olhando-me com espanto. Na certa, não imaginava que fosse encontrar uma nova Larissa, totalmente diferente daquela garota magricela, de franjas desgrenhadas e óculos gigantes, de quem vivia tirando sarro.
Ele me olha em silêncio por alguns segundos, me avaliando.
— Caramba. É você mesmo, Larissa?
— Sim.
— Está... incrível.
— Nossa. Isso é sério ou está de sacanagem com a minha cara?
— Não. É sério mesmo. Você está muito bem. Bem até demais. Na última vez que nos vimos, você usava óculos e estava mais magra do que um bambu.
Célia o cutuca com a ponta do sapato.
— O que foi, vó? Eu disse a verdade.
— Isso foi antes – respondo, mantendo o sorriso. – Mas, de qualquer forma, agradeço pelo elogio.
— De nada. – Duda assente para Adrian rapidamente. – Prazer em conhecer.
— Igualmente – responde Adrian, que, ao contrário de mim, demonstra claramente que não gostou nem um pouco do jeito tosco de ser do meu primo.
— Bem, acho que agora podemos entrar de uma vez – diz Leandro, com a mão sobre seu estômago. – Se não, vou pedir para servirem o almoço aqui fora mesmo.
— Não vai ser preciso, seu Leandro – diz Ângelo, pousando a mão em suas costas. – Vamos entrando, por favor. Espero que se sintam à vontade.
— Nem precisa falar.
Todos entram. Célia e Leandro vão na frente, ambos admirando os detalhes do ambiente que na certa era bastante diferente na época em que moravam aqui. Um aroma tentador percorre a casa, e só me dou conta do quão faminta estou quando sinto o cheiro do Nhoque de batata-baroa à bolonhesa invadir minhas narinas.
Em menos de um minuto, estamos todos reunidos em volta da mesa, esperando a hora de começar a comilança. Célia e Leandro ocupam as extremidades. No lado esquerdo estão Bárbara e Leandro. No lado direito, Adrian, Duda e eu.
Logo começamos a comer. Sinto minha boca se encher d’água quando mamãe chega à sala de jantar com o prato do dia: espaguete com molho branco, arroz soltinho com brócolis e bolonhesa de carne de porco com nhoque de batata-baroa. E para completar, suco de tangerina bem geladinho.
— Querida... – diz Leandro, limpando o canto da boca com o guardanapo. – Devo tirar meu chapéu para você. Este almoço está fantástico. Faz muito tempo que não experimento uma comida tão deliciosa. Não é verdade, Célia?
— Claro. Apesar de que isso me deixou um pouquinho ofendida. Mas concordo com você. Está tudo maravilhoso. Melhor impossível.
— Obrigada. Fico muito feliz que estejam gostando.
— Você sempre foi uma cozinheira de mão cheia, querida – diz Ângelo, envolvendo-a em seu abraço.
— Agradeço o elogio, meu bem, mas não pense que por causa disso vai escapar de me ajudar a lavar a louça, ouviu?
— Essa nunca foi a minha intenção. Vou fingir que você nunca disse isso.
— À proposito... – Célia me encara. – Perdoem a minha curiosidade, mas há quanto tempo estão juntos?
— Há quase dois anos. Nosso aniversário é em setembro.
Duda pigarreia alto, para chamar a atenção.
— E como se conheceram? Se é que posso perguntar.
— Bom... – Solto um pigarro. Geralmente não gosto muito de falar sobre como Adrian e eu nos conhecemos. Foram tempos difíceis, especialmente para mim. – Na verdade, essa é uma longa história, e...
— Então nem precisa contar. Odeio histórias longas. São chatas e cansativas.
Fecho o punho com força, resistindo à vontade de meter-lhe um soco bem no meio do nariz.
Volto a me concentrar na conversa, na tentativa de aliviar um pouco a tensão.
— Realmente dois anos é muito tempo – comenta Leandro.
Ponho delicadamente a minha mão sobre a de Adrian, sentindo o doce toque da sua pele. Miro seus olhos e os vejo brilharem como alumínio ao sol.
— Eu acho que quando duas pessoas se amam de verdade, uma vida inteira não é suficiente para desfrutar desse amor.
— Como sempre você tem toda razão, meu bem.
Adrian se inclina na minha direção e me beija com suavidade. Como todas as vezes em que ele me beija, sinto meu coração saltitar, e uma alegria deliciosa explode em meu rosto como fogos de artifício.
— Fico muito feliz por vocês. Minha filha não poderia ter tomado melhor decisão.
— Papai! – repreendo-o. Às vezes, mesmo que não seja intencional, e por mais que eu peça para que não toquem nesse assunto, eles me lembram da estupida decisão que tomei dois anos atrás, da escolha que quase arruinou minha vida. – Já pedi para não falarem disso.
— Tudo bem, meu anjo – diz Adrian, apertando minha mão. – Sabemos que seu pai está certo.
— Eu sei. Mas ainda assim...
— Tudo bem, querida. Desculpe-me. Prometo que nunca mais volto a falar sobre isso.
— Você já havia prometido isso antes – sussurro discretamente.
— Vem cá... – Duda pousa o copo quase vazio na mesa e limpa a boca com as costas da mão. Tenho o ímpeto de levantar-me da mesa e gritar para o mundo todo o quão seus gestos me desagradam. – Vocês, por acaso, estudam naquele internato, o que chamam de Cross... Cross...
— Crossfield? – Adrian conclui a frase. – Sim, é lá que estudamos. Por quê?
— Não sei vocês, mas eu não gosto nem um pouco daquele lugar. Os professores de lá são uns malas e os alunos são insuportáveis. São um bando de exibidos que se acham melhores do que todo mundo. Mas isso não impediu meus “queridos” pais de me matricularem naquela porcaria. Fui obrigado a ir para lá para concluir o secundário.
— Me desculpe, Eduardo, mas não concordo com seu ponto de vista. Confesso que, no começo, eu não gostava da ideia de passar a semana inteira dentro de um colégio, mas isso mudou depois que eu decidi dar uma chance à essa nova realidade, e se quer saber, não me arrependo. Larissa e eu estamos prestes a concluir o Ensino Médio e nos sentimos orgulhosos em dizer que pertencemos àquele lugar.
Duda estreita os olhos para Adrian.
— Adrian, não é?
— É.
— Muito bonitinho o seu discurso, Adrian. Faltou “isso aqui” para me comover. Acho que você é esperto o bastante para saber que nem todo mundo compartilha da mesma opinião. Cada um tem a sua maneira de pensar.
— Claro. Assim como nem todo mundo sabe aproveitar o que há de melhor.
Encaro Duda com toda a raiva contida em mim. Me parece que ele está muito a fim de provocar uma confusão daquelas. E falta só “isso aqui” para eu perder de vez as estribeiras e fazer bem mais do que derramar suco na cabeça dele.
Mas acho que não vai ser preciso. De repente, ele se levanta, pega o prato e sai.
— Se me dão licença, vou para o meu quarto. O almoço estava ótimo, tia Bárbara.
— Obrigada, Duda.
Solto um suspiro quando ele desaparece porta afora. Enfim, um pouquinho de tranquilidade.
— Bem, acho que também vou me retirar – diz Célia. – Você vem comigo, querido?
— Mas e a sobremesa?
— Céus...
— Infelizmente não tive tempo de preparar. Mas sobrou um pouco do pudim de ontem. Se quiser...
— Bem, é melhor do que nada. Obrigado, querida.
— Não tem que agradecer.
Eu estava certa desde o começo. O almoço foi um fiasco, e tudo graças ao meu primo. Me pergunto como será passar uma semana inteira tendo que aturar o mau humor daquela criatura insuportável. Vou precisar de muita, mas muita paciência, ou a coisa realmente vai ficar ruim.
Dou a última garfada e me levanto, forçando um sorriso.
— O almoço estava mesmo uma maravilha, mamãe.
Adrian se levanta em seguida.
— Estava divino, Sra. Oliveira.
— Obrigada, meus queridos. Fico muito agradecida.
Mamãe também sorri, mas no fundo eu sei que ela está se sentindo arrasada, tanto ou mais do que eu. E se há uma coisa que eu não admito é que um safado metido à besta faça alguém da minha família se sentir triste. Qualquer dia desses eu pego aquele garoto medíocre pelo pescoço e o atiro pela janela.
Por enquanto, faço um esforço para me manter calma. Não quero – e nem seria prudente – dar um motivo para Adrian se exaltar. Durante o almoço, percebi que ele estava a um triz de perder a compostura e ceder às provocações do Duda. Na verdade, eu não o culpo. E se ele tivesse se deixado levar, também não faria nada para impedi-lo. Mas é claro que eu não quero que isso aconteça. Minha mãe esperou quase quatro anos para rever os pais. Seria horrível que, num dia tão especial como este, algo viesse a estregar tudo.
— Vamos, Adrian.
— Vamos.
Adrian me acompanha até a cozinha, onde finalmente podemos revelar nossas verdadeiras expressões.
— Larissa, eu juro que nunca conheci alguém tão insuportável.
— Meu amor, me perdoa. – Decido falar antes de começar a chorar. – Se eu soubesse que ele viria, não teria convidado você. Me desculpe.
— Do que você está falando? Eu não perderia um almoço com seus avós por nada no mundo. Apesar do que rolou, eu adorei passar esse momento com você e com eles. Seus avós são pessoas muito especiais. Seu avô, então... Ele é uma figura. Agora eu entendo seu entusiasmo. Queria ter um avô como o seu.
— O que é meu é seu, lembra? Pode chama-lo de vovô, se quiser. Ele não vai se importar. E... muito obrigada. Na verdade, foi por você que eu não quebrei a jarra na cabeça daquele chatão. E, claro, pelos meus pais também. Mamãe passou a manhã toda preparando a comida. Papai acordou cedo – e olha que isso não acontece todo dia – e foi buscá-los no aeroporto, e depois deram uma volta pela cidade. Entende onde eu quero chegar? Era para ser um momento especial. Não era para ter acontecido isso. Aposto que agora eles estão tristes. E, bolas, quem não ficaria?
Baixo a cabeça. Não demora muito para Adrian me envolver em seu abraço quente e afetuoso, e deslizar seus polegares pelo meu rosto, me encarando com aquele olhar que me deixa de pernas bambas.
— Eu imagino o que esteja sentindo. E lamento. Lamento muito. Mas não vamos pensar que foi um fiasco total. Seus avós vieram, não foi? Sua mãe os reviu. Acho que podemos dizer que toda essa espera valeu à pena.
— Tem razão.
— Mas não vamos mais falar disso, ok? Que tal falarmos sobre aquele assunto?
— Que assunto?
— Já se esqueceu? Nós temos um assunto pendente. Aquele “precisamos conversar” que você escreveu no bilhete me deixou um tanto curioso. Confesso que quase não durmo ontem à noite pensando no que você disse. E você prometeu que falaríamos disso depois do almoço.
— Ah, é. Com toda essa tensão, eu acabei esquecendo. Mas...
— Mas o que? Não vai ficar me enrolando, vai?
— Tem certeza de que quer falar disso? Como eu disse, não é nada importante.
— Tudo que se refere à você é importante para mim. Escuta, se for algo sério, eu quero saber. Você sabe que eu te amo e me preocupo com você, mesmo tentando me convencer de que não é nada importante. E eu tenho a impressão de que você não está sendo totalmente sincera comigo. Caso contrário, não teria escrito aquilo no bilhete.
— Está bem. Você está certo. E, desde já, peço desculpas por não ter aberto o jogo antes. Mas é que...
— Mas é que...?
— Eu realmente pensei que não fosse nada sério. Mas isso foi no começo. Depois a coisa foi ficando... como eu posso dizer? Insustentável.
— Você está me deixando cada vez mais ansioso, Larissa. Do que você está falando? O que quer dizer com “insustentável”?
— Calma. Não fica nervoso. Vou te contar tudo.
— Então, me conta. O que está acontecendo?
— Há algumas noites, eu tive um sonho estranho. Bem estranho. Sonhei que estava numa floresta escura, cheia de árvores retorcidas, onde não era possível enxergar um palmo à frente do nariz. Para dizer a verdade, não é a primeira vez que sonho com algo assim. O pior é que já faz uma semana, e toda vez é a mesma coisa. De repente, começo a ouvir vozes. Vejo olhos grandes e brilhantes que surgem da escuridão e me olham como se quisessem me devorar. E então, aparecem sombras por toda parte. Sinto como se estivesse numa caçada. As sombras aparecem e começam a me chamar pelo nome. Eu tento fugir delas, mas não consigo. Elas me perseguem, e não param de falar: “Larissa! Larissa!”. E como se fosse pouco, tem uma voz monstruosa que me segue para todo lugar. Ela fica me provocando, me atormentando, e ainda consigo ouvi-la mesmo depois de ter acordado. Juro que não sei mais o que fazer, Adrian. E o pior: eu não sei o que isso significa.
— Você disse “uma semana”?
— Disse.
— Por que não me contou isso antes?
— Porque eu achei que fossem apenas sonhos. E também não queria te preocupar.
— Eu vou repetir: sou seu namorado. Eu te amo. Tudo que se refere à você, por mais insignificante que pareça, é importante para mim. Você precisa confiar em mim, independente da situação. E numa coisa você errou. Isso é muito sério. Tem alguma coisa estranha acontecendo. Isso não é normal.
— Agora está me assustando.
— Me desculpe. Mas eu não retiro o que disse. Você deve me dar um voto de confiança e falar comigo sempre que estiver passando por uma coisa difícil. Não importa o que seja.
— O que eu faço se isso continuar?
— Primeiro, tente não se preocupar com esses sonhos. Procure ficar calma e, caso eles persistam, você pode falar comigo, ok?
— Ok.
Adrian tem razão. Não posso guardar isso só para mim. Mesmo que me custe entender, não é prudente ficar se preocupando com algo que, talvez – só talvez – não seja tão importante como aparenta ser.
— Obrigada, meu amor. – Deito minha cabeça sobre o peito dele. – Obrigada por se preocupar tanto comigo. É por isso que eu te amo tanto.
— Também te amo. Não se esqueça disso.
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