Para Sempre - Sombras do Passado
14 A traição
Adrian está muito estranho. Faz quase uma semana que não nos falamos. Ele não atende mais as minhas ligações e não responde a nenhuma das minhas mensagens. Na escola, ele mal olha para mim e, sempre que tento conversar com ele, ele simplesmente me ignora e se afasta.
Não consigo entender o que está acontecendo. Não me lembro de ter feito algo que o tenha deixado irritado ou decepcionado. E mesmo que eu tivesse cometido algum erro, ele jamais agiria assim comigo. Ele nunca viraria as costas para mim, não importando o quão magoado ele estivesse. Ele mesmo me jurou isso, no dia do nosso noivado. Prometemos um ao outro que nada no mundo nos separaria; que o imenso amor que sentimos um pelo outro seria o bastante para superar qualquer obstáculo. Mas parece que ele se esqueceu disso. Ou, então...
Não, não quero nem pensar nisso! Adrian não deixou de te amar, sua tonta. Nosso amor é para sempre. Deve ter acontecido alguma coisa grave e ele não tem coragem de me contar. Mas o que pode ser tão sério a ponto de impedi-lo de olhar na minha cara?
Por mais que eu tente parecer otimista, não consigo tirar essa preocupação da cabeça. Me desespero enquanto mil coisas passam pela minha cabeça, fazendo com que eu perca o controle das minhas ações. Me pego chorando sem querer, como se buscasse nas lágrimas a resposta para esse enigma sem explicação.
Eis o pior da história: ficar sem respostas. Ontem pela manhã eu fui à casa de Adrian para lhe exigir explicações, mas não o encontrei. Érica disse que ele havia saído fazia uma hora, mas não dissera onde fora nem a que horas voltaria. Voltei à casa dele à tarde, mas novamente não o encontrei. Pedi a mãe dele para que, quando ele chegasse, ligasse para mim imediatamente, mas ela não o fez. Liguei para lá, mas ninguém me atendeu. Pensei em ir até a casa dele, mas já era tarde e, provavelmente, ele não me receberia.
Tive vontade de bater com a cabeça na parede até desmaiar, mas decidi me conter. Em primeiro lugar, não sou tão louca. E em segundo lugar, preciso estar com a cabeça no lugar, porque não vou desistir tão fácil. Adrian me deve muitas explicações, e está muito enganado se pensa que vou deixar as coisas como estão. Por mais que eu o ame e esteja disposta a perdoá-lo por isso, ele não tem o direito de me desprezar assim. Não outra vez.
Segunda começa amenamente, como os dias anteriores. Acordo com uma preguiça maior que o normal, e faço um esforço sobre-humano para deixar o aconchego quentinho da minha cama e ir para o banheiro fazer minha higiene matinal. Enquanto termino de me arrumar, recebo uma mensagem de Viviane:
Bom dia, amiguxa! Não sei se vc sabe, mas rolou um probleminha com o ônibus escolar e ele não vai rodar por pelo menos dois dias. Mas não se preocupe. Em quinze minutos passarei aí para te pegar. Bianca e Roberta tmb vão com a gente. Elas dormiram na minha casa esse fim de semana. Me espere! Chego já, kkkk!
Ao menos uma coisa boa. Viviane sempre arranja um jeito de me fazer sorrir, mesmo quando ela não tem a intenção. Coloco um sorriso no rosto e desço para o café. Não quero que ela perceba que não estou me sentindo muito bem, embora eu creia que nada do que eu fizer vai servir para enganá-la. Viviane me conhece tanto ou mais do que eu mesma. É como se ela enxergasse através de mim. Nada passa despercebido por ela. Às vezes penso que ela não é deste mundo.
Como prometido, ela chega às seis e quinze para me pegar. Abro um sorriso largo para ela, porém ela me encara com desconfiança, como se suspeitasse que meu sorriso foi forçado. Ignoro isso e entro no carro, desviando meus pensamentos para outros lugares. Hoje estou disposta a falar com Adrian de qualquer jeito. Hoje ele vai ter que me explicar o que está acontecendo, quer queira quer não. Nem que eu tenha que amarrá-lo para isso.
Rapidamente chegamos ao internato. Sinto minha ansiedade triplicar enquanto desço do carro. Viviane está dando risada junto com Bianca. Não faço ideia do que estão rindo, mas estou preocupada demais para me importar com isso agora. Há um emaranhado de veículos entrando e saindo da área, e no meio desse mar de carros procuro o da mãe de Adrian. Mas não o vejo. Nem mesmo o dito-cujo.
Me concentro na conversa das meninas.
— Não sei vocês, mas adorei aquele filme. Aquela cena da explosão no posto de gasolina me deixou arrepiada.
— E a mim também. Mas o que mais me chamou a atenção foi aquele ator gato que salvou a moça daquele assalto. Vocês viram?
— E quem não viu? Foi a cena mais comentada da noite...
Ignoro-as e outra vez me perco em meus devaneios. Tenho a impressão de ter ouvido alguém mencionar meu nome – talvez uma das meninas –, mas é como se a voz estivesse a léguas daqui. Me sinto em transe. Com o canto do olho, vejo um carro esporte preto passar por nós e estacionar logo adiante. Fico um pouco surpresa. O carro é enorme e as janelas são de vidro fumê, de modo que não é possível ver quem está dentro dele. Paro para observar.
— Gente, que carrão – ouço Roberta murmurar. – De quem será?
Segundos depois, a porta da frente se abre e de lá sai um homem alto, calvo, corpulento, usando um belo terno preto e óculos escuros. O homem sai do carro com uma certa dificuldade, devido à sua altura notavelmente exagerada. Em seguida, a porta do carona se abre. Ao mesmo tempo, o homem se encaminha para abrir a porta de trás. Me concentro no garoto que sai lentamente pela porta do carona. Está usando um blazer marrom de couro. Ele fica de costas por alguns instantes, mas logo se vira. No mesmo instante, ele retira os óculos escuros que está usando e anda depressa para o outro lado do carro. Engasgo, sentindo o ar faltar em meus pulmões. É Adrian. Ele olha por alguns segundos na minha direção, depois vira o rosto. Deixo os livros caírem no chão, atordoada demais para entender o que está se passando.
— Aquele é o Adrian? – murmura Bianca.
Arregalo ainda mais os olhos quando vejo uma garota lindamente vestida descer do automóvel. Meu corpo inteiro paralisa. Não consigo crer no que vejo.
— Hannah? – segreda Roberta.
Pisco os olhos repetidas vezes, torcendo para que isso seja um sonho.
Não.
É mesmo Hannah. Está usando um vestido choker e tem os cabelos invejavelmente brilhantes e lisos apanhados em um rabo de cavalo. Enquanto ela desce do carro, Adrian estende a mão para ajudá-la a ficar de pé.
Não estou entendendo nada. Que demônios está havendo aqui? O que Adrian está fazendo com essa...?
Meus pensamentos são interrompidos quando vejo Hannah segurar o braço de Adrian e o puxar para si. As mãos dela começam a envolver a cintura dele, e Adrian faz o mesmo. Os dois se encaram por um longo tempo, até que Hannah lhe diz algo e fisga a boca dele de uma forma ardente e sensual. Minha boca se abre involuntariamente e sinto lágrimas quentes escorrerem pelo meu rosto com força total. Não posso acreditar! Ela o está beijando, e Adrian está permitindo. Ele lhe devolve o beijo devorador e a aperta com força contra ele.
— Isso não pode ser verdade – diz Viviane.
Sinto o sangue borbulhar nas veias e começo a chorar como há muito tempo não fazia. Lágrimas jorram sem controle, queimando minhas bochechas como carvão em brasa e manchando todo o meu rosto. De momento não me ocorre mais nada a não ser correr. Correr para o mais distante daqui.
— Larissa!
— Amiga! Espere!
Cobrindo a boca com a mão para impedir um grito angustiado, corro pelos corredores o mais depressa que posso até chegar ao banheiro feminino. Assim que entro, fecho a porta com força e me jogo ao chão, chorando compulsivamente. Ouço, misturados aos meus soluços, os gritos de Viviane e de Roberta me procurando. Abraço a mim mesma, recostando-me na parede enquanto os pensamentos embrulham meu estômago e as lágrimas rolam sem controle pelo meu rosto. Merda!, xingo mentalmente. Como isso foi acontecer? Como ele pôde me trair dessa maneira? E justo com a Hannah? O que ela fez aqui, afinal?
Ouço passos se aproximando.
— Larissa? – É Viviane. – Larissa, cadê você?
Tento parar de chorar, mas não consigo. A dor que estou sentindo é devastadora, insuportável. Meus soluços entregam minha localização. Logo escuto batidas na porta.
— Larissa! Amiga! Sou eu, Viviane. Fale comigo! Abre a porta!
Tento responder, mas nenhuma palavra sai da minha boca. Xingo outra vez em pensamento, furiosa comigo mesma por não conseguir me conter.
— O que aconteceu? – pergunta Bianca.
— Ela se trancou no banheiro. Não para de chorar.
— Coitada – diz Roberta.
Milagrosamente, consigo conter as lágrimas e respiro fundo. Permaneço sentada, calada, escutando as batidas na porta.
— Larissa, eu sei que está aí. Me escuta. Não posso imaginar o que você está sentindo, mas eu posso te ajudar. Estou aqui. Isto é, estamos todas aqui. Você não precisa enfrentar isso sozinha. Deixe a gente ajudá-la. Larissa...
Segundos intermináveis se passam. A tristeza que me assola é imensurável, mas não posso esquecer que estou rodeada de amigos. Preciso de apoio. Preciso de um abraço. Abro a porta do banheiro e, sem dizer uma única palavra, encaro minhas amigas (que me encaram de volta com uma tristeza indisfarçável) e as abraço, deixando as lágrimas rolarem outra vez, agora com mais intensidade.
A essa altura, somente uma pergunta me vem à cabeça: por quê?
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