Para Sempre - Sombras do Passado
6 A novata
Notas iniciais
“Situações desesperadas pedem medidas desesperadas”. Nunca gostei muito dessa frase. Sempre preferi resolver meus problemas com o máximo de cautela possível, sempre pensando bem em cada detalhe, em cada atitude. E não pretendia mudar de tática agora. Mas, no fim, não tive escolha.
Hoje amanheci péssima. Isso não é mais novidade. Pelo menos não para mim. Não consigo parar de pensar no sonho da noite passada, e na surpresa que tive ao acordar. Por alguns instantes pensei estar tendo alguma espécie de alucinação induzida por uma overdose de Harry Potter, com toques de paranoia, provavelmente de origem esquizofrênica.
Mas não. Não era alucinação. Tudo era muito sólido e concreto. Aquilo tinha, sim, acontecido. As marcas de sangue estavam realmente lá.
Parei de pé em frente ao espelho, e fiquei encarando a vidraça como se admirasse uma obra de arte surrealista. Li e reli a frase umas cinco vezes, sentindo as pernas formigarem, suando fria e empalidecida. Tentei procurar alguma explicação racional para aquelas marcas estranhas estarem no meu espelho, e até cheguei a pensar que aquilo fosse uma pegadinha, mas depois descartei essa ideia. Em primeiro lugar, não há ninguém que eu conheça que seja capaz disso. E em segundo lugar, acho que ninguém seria tão radical.
Eu estava certa. Há algo muito estranho acontecendo. E está ficando cada vez mais sério. Sinto que corro perigo, bem como disse a criatura do meu sonho. Alguém – ou algo – quer me prejudicar. Mas quem, ou o que? E, o mais importante, por que?
Outra vez, me vejo perdida em devaneios, numa caçada incessante por respostas que parecem estar totalmente fora do meu alcance, ou então estão bem debaixo do meu nariz e ainda não me dei conta. De qualquer forma, continuo de mãos atadas, sem opções.
Hoje é segunda-feira, e de acordo com meu relógio de parede, eu já deveria estar pronta e a caminho do internato. Mas estou de cama, com um termômetro debaixo do braço e um saco cheio de gelo na cabeça. Isso pode soar infantil, e até mesmo leviano, mas esta foi a única forma que encontrei de não ir ao colégio. Não estou doente de verdade – não ainda –, mas fiz minha mãe acreditar que eu estava com uma dor de cabeça terrível e, graças às minhas olheiras enormes e minha pele assustadoramente pálida, ela concluiu que eu não estava bem e que deveria ficar em casa.
O que não é de tudo mentira. Mas, mesmo assim, me sinto péssima por ter que me prestar a isso. Odeio mentiras. Não me sinto nem um pouco satisfeita em fazer meus pais de bobos. Como eu disse, gosto de resolver as coisas com sensatez, mas desta vez não tive outra opção.
— Larissa! – Ouço a voz de Adrian do outro lado da porta.
— Adrian?
Mais que depressa, ele se aproxima da cama e me abraça com força. Dá para ver que está preocupado, e isso me faz sentir ainda pior.
— Como você está, minha linda? Quando sua mãe me ligou dizendo que estava mal, eu vim correndo para cá o mais rápido que pude.
Adrian é mesmo um amor de pessoa! Mas não posso enganá-lo assim. Ele precisa saber a verdade.
— Agradeço a preocupação, querido, mas... – engulo em seco, com medo do que ele possa pensar a meu respeito. – Eu não estou doente.
O semblante sereno de Adrian desmorona lentamente e, em seu lugar, surge uma carranca franzida.
Faço um biquinho de choro. Isso sempre funciona quando sinto que a coisa está ficando tensa.
— O que foi que disse?
— Eu menti. Não estou doente. Pelo menos ainda não.
— Espera um pouco. Me explica isso direito. Como assim não está doente?
— Calma, eu posso explicar. Estou fingindo, mas por uma boa causa. Ao menos assim parece. – Fungo. Sinto lágrimas se formarem no canto dos meus olhos. Esfrego-os com raiva. – Hoje acordei muito deprimida. Não queria sair de casa. Olhe para mim e seja sincero, Adrian. Estou péssima, não estou? E não diga que não, porque isso também seria mentira. Estou sem comer direito há quase duas semanas. Me sinto cada dia mais fraca e não tenho ânimo para fazer absolutamente nada. Por isso não quis ir ao colégio hoje. Por isso disse a minha mãe que estava doente. Não quero que as pessoas me vejam assim. Não quero que sintam pena. E estou com uma pontinha de raiva por mamãe ter lhe chamado.
— Mas ela fez muito bem. O que queria? Passar o resto do dia enfurnada neste quarto, sem fazer nada, sem desfrutar da companhia de alguém? No que estava pensando?
— Por favor, Adrian, não faça eu me sentir pior do que já me sinto.
— Me desculpe. Mas é que isso já chegou a um ponto alarmante. Você precisa me contar o que está acontecendo. Só assim vou poder te ajudar.
Fico calada, sem saber por onde começar.
— Vamos, confie em mim. Sou eu. Pode me contar o que quiser. Juro que não vou te criticar.
— Tudo bem. – Encaro-o fixamente e respiro fundo. – Eu tive outro daqueles sonhos.
— Mas isso não pode ser!
— Também não consigo acreditar nisso. Mas é a verdade. Passei outra noite em claro. Não consegui pregar os olhos nem por um minuto. E o pior de tudo é que acho que estou tendo alucinações.
— Alucinações?
— Isso pode ser resultado das noites mal dormidas. Minha cabeça está um caos. Não consigo me concentrar em nada. Penso o tempo todo nesses malditos sonhos e naquela voz...
— Que voz?
— A voz maligna. Consigo escutá-la perfeitamente à noite. E ontem, sonhei outra vez com a floresta e as sombras falantes. Só que desta vez acho que tenho uma pista do que possa estar acontecendo. Uma das criaturas me disse.
— Que criatura? O que ela disse?
— Que alguém quer me fazer mal. Que isso é só o começo de uma grande batalha. E que...
— Espere, espere. Em primeiro lugar, quem você acha que está querendo lhe fazer mal?
— Não sei. Mas, pela primeira vez, isso está fazendo sentido.
— Você acha?
— Claro. Você não?
— Francamente, não. Acho que essas noites em claro estão mexendo com a sua cabeça.
— Você não acredita em mim, não é?
— Não é questão de acreditar ou não. Só acho que você esteja precisando de ajuda psicológica.
Isso é o que eu menos esperava ouvir do meu namorado.
— Ou seja, você acha que estou ficando louca.
— Mas é claro que não. Você mesmo disse que está confusa.
— Sim, estou confusa. Mas sei muito bem sobre o que estou falando. Ok, eu admito que no começo pensei que estivesse enlouquecendo, mas agora isso está fora de cogitação.
Adrian se levanta, enfia a mão no bolso e saca o telefone.
— O que está fazendo?
— Meu amor, escuta. Eu entendo o que você está passando, e sei que está empenhada em achar uma solução para esse problema. Mas numa coisa você tem que concordar: sua vida está fora de equilíbrio. Você precisa de ajuda. Precisa se libertar de tudo isso. E nada melhor que um especialista para ajudá-la a...
— Alto lá! Você não está pensando em...?
— Calma. Não fica nervosa. Eu conheço uma pessoa. Se chama Charles. Ele é um excelente psicólogo. Se quiser, eu marco uma consulta e amanhã mesmo...
Levanto-me tão depressa que quase caio. Tomo o celular da mão dele.
— Não, Adrian! Por favor, eu imploro! Não quero consultar medico nenhum. Prefiro deixar as coisas como estão.
— Tudo bem. Nada de psicólogos, por enquanto. Mas você devia, pelo menos, falar com seus pais.
Volto à cama, cabisbaixa.
— Sei que deveria, mas simplesmente não tenho coragem. Eu os conheço muito bem e sei que, no momento em que eu falar, vão correndo desesperados procurar um psicólogo e eu não gosto nem um pouco disso. Entenda, não é disso que eu preciso. O que eu realmente preciso é que isso acabe de uma vez por todas. Antes que a situação fuja ao meu controle. E isso não está longe de acontecer.
Adrian solta um suspiro longo e, depois, senta-se ao meu lado. Encara-me com preocupação, passando gentilmente a mão pelo meu cabelo.
— Você é a garota mais teimosa do mundo, sabia?
— Acho que sou mesmo. Mas o que eu quero que você entenda é que não quero mais ninguém se metendo nesse assunto. Nem mesmo meus pais. Acredite, tenho razões fortes para não querer envolver mais gente nisso. Primeiro, porque não sei ao certo o que está acontecendo. A única coisa que eu sei é que estou com medo. Nunca na minha vida eu senti tanto medo de alguma coisa. E se quer saber minha opinião, acho que isso é só a ponta do iceberg. Sinto que o pior ainda está por vir. Não me pergunte o que é. Aliás, não me pergunte nada. Neste momento, só quero uma coisa de você. Que me abrace bem forte, e me prometa que, haja o que houver, você nunca vai sair do meu lado. Me promete?
— Meu amor...
— Apenas me prometa.
— Ok. Eu prometo.
Antes que perceba, estou abraçando Adrian com toda força. Ele retribui o ato e, sem pensar muito, encosto meus lábios nos dele. Adrian me abraça ainda mais forte e me beija com intensidade, suas mãos percorrendo febrilmente minhas laterais e sua língua quente acariciando meu lábio inferior.
— Ficar com você já é suficiente para deixar o meu dia mais colorido.
***
Voltar à escola no dia seguinte foi um tremendo – para não dizer “terrível” – sacrifício. Ainda me sinto fraca, mesmo me esforçando ao máximo para melhorar meus hábitos alimentares. Me entupi de omelete e salada de frutas no café da manhã e ainda peguei uma maçã para comer durante o intervalo. Passei duas camadas de blush para disfarçar a palidez e fiquei parada por um bom tempo na frente do espelho, concentrada nos meus olhos, quase querendo conversar comigo mesma, esperando que algo dentro de mim me aconselhasse ou me dissesse claramente o que eu deveria fazer.
Não consigo imaginar o que vai acontecer comigo se as coisas ficarem piores do que já estão. Francamente, não sei como isso seria possível. O que de pior pode acontecer? O que pode ser mais terrível do que passar semanas sem dormir, sem comer direito? O que pode ser pior do que viver com medo?
Enquanto meus pensamentos se misturam em penumbras incoerentes e irregulares, tento me concentrar na aula e não sucumbir ao sono. Felizmente, não é a aula chata de inglês do Sr. King, ou a terrível e diabólica aula de Educação Física do Prof. Paulo, um sujeito desmiolado que parece ter um fetiche secreto por nádegas.
Estamos na aula do Prof. Arthur, alguém de quem particularmente gosto muito. Seu jeito de ensinar e de lidar com os alunos é admirável. Ele é o que o pessoal daqui chama de professor Stand Up, o tipo que faz graça e sempre dá um jeito de interromper a aula com histórias pessoais engraçadas, como numa genuína apresentação de stand up.
Um silêncio tumular paira no ambiente. Até que, de repente, o barulho alto e irritante de celular tocando se faz ouvir:
— Alô! – diz o Prof. Arthur, levantando-se depressa como se já esperasse a ligação. – O que disse? Ela já chegou?
Ela?, pergunto-me, curiosa.
— Ótimo. Muito obrigado, irmão. Fico te devendo essa.
Fico cada vez mais curiosa para saber com quem o professor está falando. Ele parece feliz. Bem mais que o normal. Como se estivesse a receber uma boa notícia.
Mordo o lábio inferior e volto a me concentrar na minha tarefa.
— Ok. Já estou indo. Obrigado mais uma vez. Até logo.
Arthur desliga o celular e o põe no bolso.
— Pessoal, continue fazendo a atividade. Vou sair por um minutinho. Tenho um assunto para resolver na diretoria. Volto logo.
Arthur pega o casaco que está pendurado em um gancho atrás da porta e sai. Digo a mim mesma que, seja lá o que estiver acontecendo, não tem nada a ver comigo e volto a focar no que realmente importa.
Um segundo depois, sinto alguém cutucar meu ombro com um lápis.
— O que foi? – pergunto, sem desviar o olhar.
— É falta de educação não olhar nos olhos das pessoas, sabia?
É Roberta, que, para variar, não está nem um pouco interessada em concluir o exercício antes do sinal tocar.
— Acho que nem preciso perguntar o que você quer me dizer. É fofoca, não é?
— Você me conhece muito bem.
— Então fala. Qual é a boa da vez?
— Parece que a filha do professor Arthur chegou à São Paulo ontem.
Sem querer, fico boquiaberta. Pisco os olhos, incrédula.
— Espere um minuto. Filha? Não sabia que ele era casado.
— Divorciado. A garota tinha uns cinco anos quando a mulher e ele se separaram. Daí ela foi para o Canadá, levando a menina junto. Enfim, é uma longa história. Ouvi boatos de que ela voltou porque a mãe perdeu a linha, virou alcoólatra e a justiça concedeu a guarda dela ao professor. Uma loucura.
— Como ela se chama?
— Yasmin. Yasmin Parker.
— Eu ouvi direito? – pergunta Bianca, sentada logo atrás de mim. – Você disse Yasmin?
— Disse. Por quê? Por acaso a conhece?
— Isso depende. Se for quem estou pensando... – Bianca desvia o olhar por alguns segundos, antes de voltar a olhar para Roberta. – Não. Seria muita coincidência.
— Do que você está falando? – pergunto.
— Vocês se lembram que, uma vez, eu disse que conheci uma garota na minha última viagem ao Canadá?
— Sim.
— Só pode ser a mesma Yasmin. Ela disse que o sobrenome dela era Parker, e que era filha de um professor. Chegou até a mencionar o nome.
— Arthur?
— Exatamente.
— Ah! Tem outra coisa que eu não contei. Conseguem adivinhar onde a matricularam?
— Não vai me dizer que...
— Acertou, gata. Aqui, em Crossfield.
— Isso é sério? – pergunta Bianca.
— Claro que é. Logo, logo teremos uma novata.
— Yasmin Parker... – murmuro para mim mesma, surpresa por nunca ter suspeitado que Arthur fosse casado, ou divorciado, e menos ainda que tivesse uma filha.
Falando no diabo...
— Atenção, pessoal. – O professor ergue a voz, chamando a atenção de todos. – Quero lhes apresentar nossa nova aluna.
Todos paralisam por um segundo ou dois. Murmúrios de surpresa se espalham pela sala.
— Pode entrar, querida.
Todos os olhares se voltam para a porta. Segundos depois, uma garota mediana, de cabelos negros lisos e longos, olhos verdes claros, entra e pára à direita do professor. Timidamente, ela a olha ao redor da sala, vasculhando cada canto como se procurasse por algo ou por alguém.
Por um breve instante, nossos olhares se encontram, e vejo na mesma hora um brilho diferente surgir nos olhos dela. Pode parecer loucura da minha cabeça, mas a mim me parece que ela ficou surpresa em me ver. Mas isso não faz o menor sentido. Nunca nos vimos. Nunca ouvi falar dela, e com certeza ela nunca ouviu falar de mim. A não ser, talvez, que Bianca lhe tenha mencionado algo sobre mim. Ainda assim, sua reação foi um tanto estranha. Não gostei nem um pouco disso.
— Para quem não sabe, esta é Yasmin Parker, minha filha mais nova. Ela irá estudar conosco a partir de agora. Cumprimentam-na, por favor.
— Oi, Yasmin. Tudo bem? – pergunta Roberta.
— Tudo. E você?
— Indo.
Me identifico com seu jeito tímido de responder aos cumprimentos. Mas não consigo tirar da cabeça o jeito suspeito com o qual ela me olhou quando entrou. Não faço a mínima ideia de quem ela é, mas tenho a impressão de que ela sabe quem eu sou.
— Pode se sentar, querida. Seja bem-vinda ao internato Crossfield.
— Obrigada, pai.
Yasmin se senta no centro, bem atrás de Adrian, que no mesmo instante se vira para ela e a cumprimenta.
Sem tirar os olhos dela, me inclino para Bianca e murmuro:
— Não gostei muito dessa garota. Ela me parece... estranha.
— Estranha? Que nada. Achei ela bem simpática.
— Pode ser que seja. Mas aposto o que você quiser que o professor vai facilitar as coisas para ela, só porque é filha dele.
— Agora você viajou, amiga.
— Diga o que quiser. Só estou defendendo meu ponto de vista. Vai por mim, Bianca. Esta guria vai ser a queridinha do professor. Escreve o que estou te falando.
— Relaxa, Larissa – diz Roberta. – Ela pode ser a filha do professor, mas aqui todo mundo é tratado de forma igual. Ninguém é melhor do que ninguém.
— Quanto a isso você pode ter razão. Mas alguma coisa me diz que essa guria ainda vai provocar muita encrenca por aqui.
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