Para Sempre - Parte II
12 Boas vindas aos franceses
Notas iniciais
JULIE
30 de dezembro, 17:00 horas.
E lá estava eu, esperando Stuart no aeroporto. Viria ele e Charles para o ano novo e ficariam uma semana. Uma hora depois, eu ouvi um grito estrangulado e olhei para trás para encontrar um Charles correndo na minha direção.
— Quanto tempo! – Ele disse, enquanto me girava.
— Me coloca no chão!
— Grosseira. – E então ele me soltou e segurou sua mala.
— Vocês dois ao menos tiveram a dignidade de aprender algumas palavras em português?
— Mas é claro, eu aprendi a dizer “obrigado” – ele disse com um sotaque muito engraçado. – “Por favor” “praia” “mulheres” “festa” e “tchau”.
— Que superficial você. Nem vamos ver a praia. São Paulo não tem praia.
— Quoi? Estou decepcionado.
— Está na hora de vocês europpéen aprenderem geografia...
Stuart me deu um beijo e eu não pude deixar de ficar desconfortavel, afinal, eu tinha transado com outro cara.
— O que foi, mon amour?
— Nada – e sorri.
***
Nós iremos ficar na casa da minha avó, porque tem mais quartos e a casa é maior – e porque eu também estava me instalando lá. Chegamos, Stuart e Charles conheceram a minha família brasileira e minha mãe – essa última muito encantada com Stuart – e eu instalei eles em seus respectivos quartos. Jantamos e eles tentaram entender o que dizíamos, já que eles não falam português. Foi engraçado, porque teve aquela famosa comunicação por mímica e essas coisas. Charles estava com um livro de viagem, aqueles com frases prontas para viajantes iniciantes e eu não conseguia parar de rir.
Eles amaram a comida e a hospitalidade, dizendo que todos aqui riem demais. Eu até tinha esquecido que eu havia traído Stuart, e só lembrei disso de fato quando fomos para o quarto e ele se agarrou na minha cintura, acariciando levemente meus seios.
— Stuart...
— Eu estava sentindo sua falta – e beijou minha nuca.
Me afastei dele, que ficou me olhando sem entender.
— O que foi?
Suspirei.
— Só estou muito cansada. – Menti.
— Faz tanto tempo que não tenho suas mãos na minha pele, que não sinto seu cheiro. – E me puxou para si novamente.
Que merda, Julie – pensei.
Eu sabia que eu tinha que tomar uma decisão, que eu teria que escolher entre Stuart e Steve. Se eu escolhesse Steve, eu ficaria aqui no Brasil e se eu escolhesse Stuart, eu voltaria para Paris, mas sabia que se eu voltasse eu me sentiria da mesma forma como foi da última vez. Eu sabia que era Steve a pessoa certa para mim, a pessoa que eu amava de verdade.
E aí não está a resposta? Eu acabara de dizer o que eu tinha que fazer...tinha acabado de fazer minha escolha.
— Stuart, eu...
Ele o dedo indicador nos meus lábios.
— Não precisa dizer de novo que está casada. Eu só preciso dormir ao seu lado e já é o suficiente – ele sorriu.
Sorri de volta. Que bom que ele entendeu que eu não queria nada. Deitamos na cama, com ele agarrado em mim e eu dormi com o peito cheio de culpa.
***
Durante o café da manhã, minha avó disse que passaríamos o ano novo na casa de Franchesca, a sua vizinha. Eu sabia que a família de Marrie, a avó de Steve, estava convidade e que ele iria.
— O que ela disse?- Charles me perguntou.
— Disse que passaremos o ano novo na casa da amiga dela. Essa vizinhança adora uma festa.
Ele fez um “ah” e voltou a tomar seu café com leite.
Minha avó olhou para mim e depois para Stuart, que mexia no celular.
— Você já sabe o que vai fazer?
— Em relação...ah, sim. – Suspirei. – Vai ser muito dificil mas eu já sei o que fazer.
Stuart virou-se para mim e disse que queria dar uma volta, eu tinha prometido a ele que o levaria para conhecer um pouco da cidade.
Nos despedimos de minha avó e eu, Stuart e Charles entramos no carro e eu fui em direção a Paulista, já que lá era o meu lugar preferido. Eles foram olhando pela janela, tirando fotos e comentando algumas coisas. Eu parei na estação de metrô e nós fomos por ele até a paulista. Quando chegamos, eles disseram que era íncrivel e não entendiam o motivo de dizerem que aqui só tem mato e jacarés andando na rua. Dei um tapa em Charles – que foi quem disse isso – e ele deu risada, dizendo que estava brincando.
— Tira uma foto minha – ele disse, e algumas pessoas olhava para ele, porque brasileiros amam gringos.
Eu tirei uma foto dele na ciclofaixa, dando aquela vista linda da cidade. Meu celular apitou e eu vi que tinha recebido uma mensagem de Steve.
“Eu te amo”
Sorri quando li a mensagem.
— O que foi? – Stuart perguntou.
— Nada, foi só uma mensagem de uma amiga. Vamos, a paulista é bem grande, vocês precisam ver.
Andamos aquele lugar todo, entrando na Rua Augusta, na Pamplona e em várias outras. No final do passeio, Stuart parou no Starbucks para comprar um café e eu e Charles ficamos sentados esperando.
— Você está estranha – ele disse.
— Eu queria muito te contar mas eu sei que você vai ficar do lado de Stuart, afinal, você conhece ele há mais tempo.
— Deixa disso, você é minha irmã.
— Eu estou apaixonada por outra pessoa.
— Quem? – Ele ficou espantado. – Sempre achei que a relação de vocês dois era tão forte...
— Steve.
— Aquele Steve de cinco anos atrás? Aquele por quem você ficou um ano inteiro chorando?
Balancei a cabeça.
— Quando nos vimos de novo foi tão intenso, Charles. Eu nunca deixei de amá-lo, eu só tinha me dado outra chance para se feliz, mas agora...agora eu posso estar com ele, entende?
— Você vai ter que escolher entre os dois.
— Eu já escolhi.
— E qual foi essa escolha?
— Você vai saber, mas não quero que fique com raiva de mim.
— Ta, então você escolheu o outro cara. Isso é óbvio.
— Está sendo muito difícil para mim porque eu gosto muito do Stuart. Gosto mesmo.
— Fique com quem você ama, Julie.
— É o que eu vou fazer.
***
Quando eu já tinha colocado o meu vestido branco para a véspera do Ano Novo, fomos todos para a casa de Franchesca. Era uma casa grande com móveis em cores pasteis. Uma típica casa de gente velha, porém, velhos ricos.
Cumprimentei o pessoal e vi que Steve já estava lá. Tentei parecer o mais desinteressada possível, já que a namorada dele estava ao lado dele e bom, Stuart também estava ao meu lado. Steve olhou para Stuart e me olhou feio, tentando entender. Fiz um movimento com a cabeça, dizendo para ele me seguir.
— Charles, Stuart...fiquem aqui. Eu vou resolver um assunto e já volto. Mãe, fique aqui com eles.
— Mas eu não falo francês.
— Não se preocupe, eu falo – Augusto disse e minha mae suspirou aliviada.
Eu fui para fora da casa e segundos depois Steve apareceu.
— Quem são eles?
— Charles, meu irmão e Stuart...
— Seu namorado. – Ele completou e então sua mandibula tricou, indicando que ele estava tenso.
— O que? A sua namorada também está aqui.
— É mas... certo, você está certa. Por que ele veio?
— Eu tinha combinado com ele antes de tudo acontecer. Não pude evitar.
— Certo. Vamos voltar lá para dentro – e ele foi na frente. Esperei algum tempo para entrar e me juntei a Stuart e Charles.
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