Para Sempre - A Escolha
6 Velhos amigos
Notas iniciais
— Miguel! – grito, sem pensar duas vezes.
— Adrian? – grita de volta.
A garota que está do lado me espia por cima do ombro, com uma mochila de panda espiando por cima dos ombros dela. Encaro-a brevemente. É alta, magra, tem cabelos ruivos, pele clara e olhos num tom dourado hipnotizante. Nossos olhares se encontram, e por um instante penso que está rolando alguma química entre nós.
Mas a alegria de rever meu melhor amigo depois de muito tempo me faz esquecer disso num piscar de olhos.
— Não acredito que você está aqui em São Paulo! Só posso estar sonhando.
— Não é sonho não, parceiro – diz Miguel, beliscando meu braço, o jeito dele de fazer alguém cair na real. – Sou eu mesmo, ao vivo e em cores.
— Há quanto tempo não nos vemos.
— Há mais de um ano.
— É – Fico sério de repente. – Por mais de um ano, fiquei sem notícias suas. E na carta você dizia que...
— ... iria escrever para você. Eu sei. Mas não pense que esqueci de você. Não foi a minha intenção. – O semblante dele também se modifica. Se eu não o conhecesse tão bem, juraria que ele está prestes a chorar. – Você não sabe, mas aconteceram muitas coisas. Coisas que mudaram a minha vida. Uma delas foi a morte do meu avô. As coisas nunca mais foram as mesmas depois que ele se foi. Também passamos por uma grave crise financeira. Meus pais ficaram desempregados durante meses. Eu não sabia o que estava acontecendo. Parecia que havia uma verdadeira conspiração contra nós. Acredite, nós passamos fome. Chegamos, inclusive, a sair correndo pelas ruas pedindo ajuda. Nessa época, ainda não morávamos em São Paulo.
"Eu gostaria de ter incluído na carta o endereço do lugar para onde estava indo. Mas não tive tempo. Como já estávamos atrasados e tínhamos que pegar o avião, não pude me despedir. Mas, apesar disso, eu tinha decidido que, assim que chegasse à minha nova casa, lhe escreveria uma carta contando sobre a minha repentina mudança de ares.
"Eu lamento que as coisas não tenham saído como eu esperava. Mudamos de cidade para melhorar nossa situação. Meu pai ganhava pouco e, ainda por cima, vivia endividado. Mamãe ganhava menos da metade do que ele ganhava e, óbvio, não era o bastante para pagar as contas e suprir nossas necessidades. Um dia nos reunimos e concordamos que o melhor para nós seria mudar de cidade, tentar a vida em outro lugar. E foi o que fizemos. Só não imaginávamos que dali em diante as coisas iriam piorar.
"Foi como um colapso. Nada do que planejamos correu como esperado. Meus pais não conseguiram emprego. Meu avô ficou doente – tuberculose – e, como não tínhamos dinheiro suficiente para o tratamento, ele não resistiu e se foi. Durante os meses em que mamãe e papai ficaram desempregados, sofremos horrores. As dívidas do meu pai cresceram assustadoramente. Ficamos literalmente na sarjeta! Comemos o pão que o diabo amassou!
"Quando mamãe ficou doente, nos desesperamos. Temíamos que acontecesse com ela o mesmo que aconteceu com o meu avô. Sem dinheiro, não tínhamos condições de cuidar dela. Diante daquela situação horrível, eu cheguei a pensar que Deus tinha realmente se esquecido de nós. Mas, daí, um milagre aconteceu. Isso é o que eu chamo de um verdadeiro milagre.
— O que aconteceu?
— Meu pai recebeu uma oferta de emprego de um recrutador que mora aqui, na capital. Acho que o nome dele é Tomás... Tomásio... Tomé... não sei. Só sei que ele gostou do currículo dele e o contratou.
— Que legal! Você tem toda razão. Foi mesmo um milagre. Eu lamento pelo que você passou. Sinceramente, não fazia a mínima ideia.
— Na verdade, eu não fazia ideia de que chegaria a morar aqui. Quando papai nos contou que tinha arranjado um emprego, mamãe quase teve um infarto. Foi uma surpresa para todos nós. Após meses sombrios, uma luz, finalmente, havia aparecido no fim do túnel.
"Não pensamos duas vezes. Levantamos cedo no dia seguinte, arrumamos nossas coisas, ligamos o carro e pegamos estrada, mesmo sem saber muito bem onde encontraríamos ajuda. Mas, apesar da decisão repentina, meus pais estavam com muito medo. Medo de que não desse certo, de que não conseguissem trabalho, de não serem aceitos. Tanto que, durante a viagem, não conseguiam parar de pensar nem por um minuto se estavam tomando a decisão certa. Mas, no fim, eles conseguiram superar a insegurança para nos estabelecermos logo com a certeza de que não estávamos sozinhos. Tivemos muito apoio de nossos amigos e familiares, que não hesitaram em nos dar uma mão quando ficaram cientes da nossa situação.
"As coisas mudaram muito desde que chegamos em São Paulo. Ainda no ano passado, fizemos uma rifa para arrecadar fundos. Quando o fizemos, esperávamos que desse tudo certo, mas o grande sucesso das vendas nos pegou de surpresa. Com o dinheiro arrecadado, mamãe deu início ao tratamento e, graças a Deus, recuperou a saúde. Papai voltou a trabalhar e, devido a sua competência, ganhou um aumento de salário. Alugamos um apartamento, o que facilitou as coisas para o meu pai, já que a empresa na qual ele trabalha fica somente a duas quadras de lá."
— Acredite, amigo, eu fico muito feliz por você. Mas, só para esclarecer, o que te fez vir para este lugar? Você sabe, o internato.
— Ah, sim. Essa foi uma decisão que eu tomei por conta própria. Para ser sincero, vir para o internato não fazia parte dos meus planos. Antes disso, eu pensava em concluir o Ensino Médio em uma escola pública, como todo mundo da minha turma. Mas então ouvi falar deste lugar. Ouvi muito. Resolvi pesquisar e fiquei interessado. Quem estudou aqui afirma que este o melhor lugar para se formar. Eu disse: por que não? Afinal, há riscos que valem a pena correr.
— Quer saber? Você tem toda razão. É muito bom te ver de novo, amigo.
Encerramos a conversa com um abraço forte e um aperto de mão demorado. São quase sete da manhã, e de acordo com meu relógio, faltam exatamente quinze minutos para as primeiras aulas começarem. De repente, sinto uma vontade enorme de sair e caminhar um pouco. Infelizmente, o pouco tempo que nos resta não é suficiente para andar livremente ao redor do internato, mas nada nos impede de ir até o jardim.
— Ainda não acredito que vamos morar num colégio.
— Nem eu.
— E pensar que, há algum tempo, quando mamãe falou que me matricularia neste internato, fiquei tão revoltado que até greve de fome eu fiz.
— Não posso acreditar. Adrian Martins Lindenberg fazendo greve de fome? Que molecagem! O que pretendia fazer? Se matar?
— Para ser sincero, não sabia ao certo o que diabos estava fazendo nem por que estava me deixando envolver por tudo aquilo. Sozinho, trancado no meu quarto, tentava me recompor mesmo com aquilo fora do normal. Fazia de tudo para me acalmar. Cantava mentalmente, tentava lembrar dos momentos felizes que vivi antes de ir para Londrina, lia e relia os textos do papai... mas nada adiantava. Pelo contrário. A cada dia que passava, me sentia pior. Entre um suspiro e outro, um soluço e outro, a depressão se esgueirava. Não sabia mais no que pensar para resolver aquela situação.
— Nossa, cara! E como foi que começou tudo isso?
— Tudo começou quando meu pai faleceu... – Quando dou por mim, meus olhos já estão cheios de água. – Desde então, nada mais foi igual. A morte dele foi o golpe mais duro que já tive que enfrentar, e embora as coisas tenham melhorado bastante nos últimos meses, acho que nunca mais vou superar sua perda.
— Não posso imaginar o que você está sentindo agora, mas posso dizer que lamento muito. Seu pai era um cara muito legal. Ele e meu avô também eram muito amigos, lembra? Eles adoravam cantar "Rock This Party". Quando um parava de cantar, o outro começava a cantoria. Não seria nada mal, se meu avô soubesse cantar direito. O problema é que ele sempre foi muito desafinado. E ele nem se preocupava se estava fora do tom. Cantava e cantava até ficar cansado. Ops... perdão! Não quis te machucar.
— Tudo bem. Não esquenta. Aliás, ainda bem que você está aqui. De verdade, não sei o que aconteceria se estivesse sozinho nessa.
— Mesmo que eu não estivesse aqui, você não ficaria sozinho. Olhe em volta. Se ainda não reparou, metade da nossa antiga turma está aqui. Olhe para lá! – Miguel aponta para um trio de garotas conversando à sombra de um Ipê vermelho. Reconheço imediatamente a do meio. Tem cabelo castanho, desalinhado, olhos azuis e é bonita de um jeito delicado. – Bianca Werneck, a garota descolada e meio ranzinza que tem um péssimo gosto para escolher namorado. E lá... – Aponta para outro trio de garotas perto dos arbustos, fazendo pose para uma fotografia. Todas são magras, de estatura mediana, tez alva. – Leticia Miller, Kristen Smoak e Andreia Ribeiro, as amigas inseparáveis que não se desgrudam nem na hora de dormir. – Aponta, em seguida, para o caminho de cascalho que divide o jardim em dois. – Lá vão os caras do flíper, os que se acham "invencíveis", mas que ainda não viram nada. E, a caminho do prédio de ciências, os CDFs, que além de puxarem o saco dos professores, entendem bem qualquer matéria e se dão bem nas provas.
Surpreso, começo a olhar ao redor. Em meio à multidão que lota os arredores de Crossfield, rostos conhecidos começam a surgir. Harry Jones, um garoto loiro com óculos de armação redonda, que tem fama de ser pouco asseado e muito guloso. Giovanna Lopes, loira, tímida, muito bonita, de ar ingênuo. Uma garota do interior. Rony e Mike Jason, os gêmeos idênticos que se divertem enganando todo mundo. E, finalmente, Steven, cuja maior qualidade é a quantidade de disparates que diz por metro quadrado.
— Esse tal destino, hein? Sempre aprontando das suas. Coincidência? Vai saber.
Antes que eu possa sugerir que a gente troque uma palavrinha com alguns deles, Miguel bate com a mão na testa como se estivesse lembrando de algo importante. De fato, está. Diz que esqueceu o celular dentro do dormitório.
— Não tem problema. Podemos ir lá pegar. Onde fica o seu quarto?
— Onde fica o nosso quarto, você quis dizer. Esqueci de te contar. Parece que o Sr. Destino bolou tudo direitinho. Nós vamos dividir o mesmo quarto.
— Jura? Não está tirando uma com a minha cara, está?
— Qual foi a última vez em que tirei uma com a sua cara, hein? – diz ele, fazendo uma careta de raiva e, segundos depois, desfazendo-a. – Te assustei, não foi? E eu que pensei que estava sem prática.
— Não posso acreditar nisso.
— Não? Então vamos dar um pulinho no 114.
— 114?
— É o nosso quarto. Vamos lá. Fica bem ali.
Miguel aponta para o prédio de parede azul turquesa de 3 andares que fica à direita do edifício principal.
— Eu sei onde fica!
— Então vamos lá. Nós temos... hã... – Olha para o relógio. – Nove minutos e vinte e quatro segundos.
Vamos rapidamente ao Residencial Masculino, onde, quem passa pelo imponente portão de entrada, chega a uma grande sala de recepção cujo teto é forrado com chita, e em cujas paredes há uma série de quadros de azulejo datados do início do século XVIII. No interior, uma mesa de recepção grande e moderna, com dois funcionários – um homem de terno escuro, pele morena, alto e magro; e uma jovem atraente, de origem asiática, sentada a um computador –, e do lado direito, uma ampla sala de espera mobiliada com poltronas de couro e uma mesinha baixa com revistas. Além da recepção, um interminável labirinto de corredores com pelo menos dez portas de cada lado, todas com um número entalhado na madeira.
Continuamos até o andar seguinte, onde mais corredores com portas numeradas se cruzam. O quarto 114 fica quase no final do corredor principal.
Se precisamos de chave? Óbvio. Mas o estranho é que, quando pedimos a chave do quarto aos recepcionistas, eles responderam que um garoto chamado Pablo, que chegou ali uns dez minutos antes, já tinha pego a chave e ido para lá. Com as sobrancelhas franzidas, vamos até o quarto e, para nossa surpresa, a porta se acha entreaberta. De dentro, vem um som de acordes de violão. Miguel olha para mim e assente. Entramos rapidamente.
Há um garoto lá, sentado numa das camas, tocando uma guitarra ornamentada pousada na perna direita. É alto e esguio, e sua pele é escura. Miguel o conhece bem, tão bem quanto eu.
— Pablo?
O garoto pára de tocar e levanta a cabeça.
— Miguel? Adrian? Caramba! – diz sorrindo. – Mas que surpresa ótima! Quanto tempo, hein? Nunca imaginei encontrá-los aqui.
— Podemos dizer o mesmo sobre você. Não disse que passaria uma temporada em Madri?
— É verdade. Tínhamos planejado viajar para a Espanha no final do ano. Ficaríamos lá por um mês e depois voltaríamos para o Brasil, pois um homem como meu pai, com sua agenda lotada de compromissos, não pode se dar ao luxo de ficar fora do país por muito tempo. Ele sempre diz: "Minha profissão é um legitimo 'corta-barato', para não usar outra expressão mais sacana."
"Enfim, estava tudo pronto. Já tínhamos feito uma reserva no hotel de Madri e estávamos a caminho do aeroporto. Mas aí surgiu um imprevisto e tivemos que cancelar a viagem no último minuto... Bem, sabem como é, né? Meu pai é advogado e essas coisas vivem acontecendo. Ah, vocês tinham que ver a cara dele! Pensei que o cara fosse surtar."
— Até posso imaginar.
— Foi seu pai quem te mandou para cá? – pergunta Miguel.
— Não. Meu pai não tem nada a ver com isso. Eu vim por vontade própria. Sabe o que dizem sobre este lugar? Que é o melhor do país. Claro que, comparado à outros colégios internos, parece exagero. Mas, de certa forma, eles têm razão. – Pablo abre os braços. Há três camas no total. Duas beliches. Janelas de vidros triplos se erguem do chão ao teto. Os roupeiros são igualmente de madeira, as paredes são brancas e tanto o teto quanto o chão são vermelhos. Ricas tapeçarias de veludo escarlate, exibindo um emblema prateado de uma lua crescente cortada ao meio, escorrem nas paredes. Pequenas escadas em espiral levam aos banheiros. – Este lugar é fantástico! Nunca vi nada igual!
— É, finalmente um colégio onde valeu a pena ser matriculado – diz uma voz atrás de mim. Miguel e eu nos viramos quase ao mesmo tempo na direção da porta, por onde entram dois garotos, um baixo e o outro de estatura mediana, ambos usando jaquetas pretas da marca MAREMOTO.
— Henrique? Alex?
— E aí, seus otários? – diz Alex. É o mais novo do grupo, com seus cabelos ruivos escuros que caem na testa, um rosto oval que acaba num suave queixo pontudo, e olhos verdes brilhantes, ofuscados pela grossa sobrancelha. Um milhar de sardas salpica suas bochechas e a testa, e os sapatos negros que está usando são tão pontudos quanto seu nariz. – Estão de castigo?
— Castigo? – respondo, rindo. – Isso é tão anos 2000. Para o seu governo, meu amigo, esse negócio de que colégio interno é para padre e filho desobediente já era faz tempo.
— Só eles que não se deram conta disso – brinca Pablo.
— Olha só quem está aqui – diz Miguel, aproximando-se de Henrique. Tem olhos castanhos, quase pretos, e pele cor de café com leite, com muito leite. O cabelo curto é negro e cai em cachos na testa. Seus traços são perfeitos, exceto por uma cicatriz ainda recente sobre a orelha esquerda. – Henrique Correia. O cara mais disciplinado e metódico que já vi na vida.
— Bom ver você também, Miguel. E aí? Ainda solteiro?
— Pois é. Ultimamente ando em uma maré de azar que só Deus sabe. Mas, tirando isso, estou numa boa.
De repente, Pablo abre um sorriso de mil watts, daqueles de mostrar todos os dentes, sem ser exagerado, mas totalmente sincero. Sei muito bem o que ele está sentindo, pois sinto exatamente a mesma coisa.
— Galera, é ótimo rever todos vocês. Francamente, não esperava reencontrar meus camaradas nesta cidade gigantesca, e ainda mais neste internato. Parece até coisa de cinema.
— Parece coisa de cinema, mas é vida real mesmo – falo, e como sempre, outra lágrima desce pelo rosto até desaparecer por debaixo do queixo.
— E sabem qual é a melhor parte disso tudo? – pergunta Alex. – Vamos todos dividir esta belezinha de suíte! E olha que eu não botava fé nessa história de morar em colégio interno. Mas já vi que não vai ser tão ruim como parecia.
— Agora que estamos todos juntos outra vez, vamos botar para quebrar.
— Pelo visto, esse ano vai ser sensacional. Como nos velhos tempos.
— Como nos velhos e bons tempos – complemento.
Alguns segundos de silêncio se instalam. Então, uma voz grossa acompanhada de um chiado começa a ser ouvida por todo o internato. É a voz do diretor, saindo de uma caixinha de alto falante pendurada acima da porta.
— Atenção, estudantes do Internato Crossfield. As primeiras aulas terão início dentro de dois minutos. Por favor, dirijam-se às suas respectivas salas.
— Vamos lá! – digo em voz alta, indo em direção à saída. Os demais vêm logo atrás de mim.
— Sigam-me os bons! – grita Alex.
— Aqui vamos nós!
Não acredito em minha sorte. Estou contente e confiante. Lá no fundo, algo me diz que este será o meu ano.
Fale com o autor