Para Sempre - A Escolha

23 Tudo sempre tem dois lados


Notas iniciais
Cada vez mais se aproxima o dia da tão falda festa de noivado. Mas será que Larissa está realmente feliz? Qual voz fala mais alto? A da razão, ou a da emoção?

Larissa

Simplesmente não consigo entender por que alguns pensamentos insistem em vir à minha mente, mesmo fazendo de tudo para não pensar neles. Só sei que é uma coisa tão irritante quanto grudar chiclete no sapato. Sinceramente, prefiro mil vezes isso a ficar com aquela cena ridícula gravada na cabeça dia após dia, a qual não consigo esquecer por mais esforço que eu faça.

Talvez no fundo eu nem queira. Adoro me sentir viva. Por isso deixo os sentimentos aflorarem e depois murcharem como as flores nos dias de inverno. Assim, pelo menos, me permito sonhar, imaginar o impossível, desejar o proibido... Até o momento em que um intenso sentimento de culpa se instala em meu coração por não ser forte o bastante para não pensar em coisas que eu não devo. Ou melhor, em quem não devo.

Não tenho a menor dúvida de que uma parte do meu mal-estar é graças a esses pensamentos insistentes. Achei que o contato com a água fria pudesse melhorar minha autoestima, mas descobri que quando alguém tenta combater um sentimento tão devastador como o amor, nada parece estar à altura. Nada parece ser suficiente para arrancar esse amor doentio do coração. Nem mesmo o que eu sinto por Victor.

E só de lembrar que naquele dia eu quase estraguei tudo por causa da minha estúpida obsessão, me sinto ainda pior. Para meu alivio, Victor logo esqueceu desse estranho acontecimento e eu consegui levar a conversa até onde queria. Falei da tão sonhada festa de aniversário e do tão desejado noivado. Não imaginava que Victor fosse ficar tão contente com a ideia. Apesar de ter confessado que me ama, eu esperava que ele dissesse para esperar até que nos formássemos ou pelo menos terminássemos o Ensino Médio. No entanto, ele se mostrou tão ansioso quanto eu em realizar a cerimonia. Isso me deixou muito feliz... até aquilo acontecer.

Desde então, não paro de pensar em Adrian. Maldito garoto! Por que você tem que chatear a minha vida e atrapalhar os meus planos mesmo quando não está por perto? Penso que tudo isso mudará depois que meu noivado com Victor se realizar. Eu o adoro, e se eu me empenhar em ser feliz e fazê-lo feliz, vou esquecer Adrian de uma vez por todas. Todas as lembranças ruins se apagarão. Faltam apenas sete dias para meu sonho se tornar realidade. Nada poderá impedir isso.

***

A última conversa com Viviane não foi bem o que eu esperava. Ela estava um pouco estranha. Num determinado ponto da conversa, percebi que seu tom de voz havia mudado, que havia uma certa desaprovação em suas palavras. Isso depois que contei a ela sobre os meus planos para o próximo fim de semana. Algo que Viviane não esperava.

Adoro receber conselhos da minha melhor amiga, mas ontem suas palavras me deixaram chateada. Talvez não tenha se dado conta, mas sem querer ela me pôs contra a parede. Pela primeira vez na vida me sinto dividida, como se um lado meu correspondesse à esses sentimentos todos e o outro me acusasse de trair Victor, nossa história, nossos sentimentos...

Fui à casa dela assim que terminei de tomar café. Estava ansiosa para contar a ela o que rolou entre mim e Victor.

— Bom dia, dorminhoca. Pelo visto, a festa de ontem foi boa.

— Boa é pouco. Foi ótima. Pena que você não foi. Teria adorado. Só que hoje acordei com uma dor de cabeça daquelas.

— Coitadinha. Me desculpe se te acordei. É que eu preciso muito falar com você.

— Não se preocupa. Já estou acordada há horas. Só não tive coragem de sair da cama. Minha cabeça parece que vai explodir... Ok, não vamos falar da minha terrível dor de cabeça. Vamos falar do seu encontro. E então? Conseguiu fisgar o carinha?

— Era sobre isso mesmo que eu queria falar. O encontro foi maravilhoso.

— E?

— E... Estamos namorando.

O grito que Viviane deu quase me deixou surda. Tomei um susto daqueles.

— Jura? Amiga, por que não me contou isso ontem?

— E interromper a sua noite?

— E daí? Você sabe com quem está falando, certo? Podia ter me ligado. Claro que não teria problema. Mas tudo bem, isso não tem mais importância. Pode me contar tudo agora mesmo. Me diz, ele beija bem?

— Se ele beija bem? Quase tive um troço. Fiquei toda arrepiada. – Soltei um suspiro longo. – Ele me disse coisas tão lindas. Disse que sempre me amou e que o sonho dele era ficar comigo. Claro, me senti um pouco insegura no início. Mas depois deixei a emoção me levar. Foi tudo perfeito, muito além do que eu esperava. Juro que eu não imaginava que um beijo pudesse ser tão gostoso, que o simples ato de unir meus lábios aos de alguém me fizesse flutuar até as nuvens. Não é à toa que dizem que o primeiro beijo a gente nunca esquece...

Achava que Viviane estivesse prestando atenção ao que eu estava dizendo, mas quando parei de falar, notei que ela estava com o olhar vago, olhando para o nada. Tive a impressão de que ela queria me dizer algo, mas não sabia como.

Estendi o braço à frente dela e estalei os dedos.

— Viviane?

— Se eu te perguntar uma coisa, promete não ficar brava comigo?

Sua pergunta me deixou um pouco surpresa. Esperei alguns segundos antes de responder.

— Prometo.

— Esse garoto com quem você está ficando, o Victor...

— Correção: não estamos ficando. Estamos namorando sério.

— Ok. Que seja. O que eu quero perguntar é se... – hesitou por um segundo, depois continuou. – ... se você está realmente segura de que gosta dele, se não tem nenhuma dúvida...

— É claro que não. Eu gosto do Victor, de verdade. Por que está me perguntando isso?

— Bem, é que... Não posso deixar de me perguntar o que aconteceu com todo aquele amor que você dizia sentir pelo tal Adrian.

— Outra vez essa história? Já disse mais de mil vezes que isso é passado. O amor que eu sentia pelo Adrian morreu. Acabou. Já era.

— Você parecia tão apaixonada. Não creio que seja possível um amor tão grande acabar de um dia para o outro.

— Pois, acredite, é possível sim. O Adrian, com seu jeito rude de ser, conseguiu destruir todo o amor que eu sentia por ele. Mas, graças ao Victor, eu sei o que é amar de novo.

Viviane olhou para o lado, torcendo o canto da boca.

— Desculpa, Larissa. Não quero que me interprete mal. Nem que fique brava comigo. Mas algo me diz que você não está sendo totalmente sincera.

— Meu Deus, mulher! Do que mais você precisa para acreditar que eu realmente estou apaixonada pelo Victor, e que o Adrian, para mim, não passou de uma... – revirei os olhos por um segundo – ... mera ilusão?

— Não é a mim que você tem que convencer, Larissa. É a você mesma. O que sente quando olha para ele? Como seu coração reage quando a imagem dele vem na sua cabeça?

— Chega...

— Me perdoe, amiga, mas você sabe como eu sou. Eu falo o que penso. E me desculpe também pelo que vou dizer agora, mas acho que, antes de dar qualquer passo, você tem que pensar muito bem no que vai fazer. Não se deve pôr a carroça na frente dos bois.

— Não há o que pensar. Sei muito bem o que eu quero.

Algo dentro de mim fez meu coração despencar. De repente me senti pequena e sem forças. Minhas recordações deixaram o baú empoeirado e iniciaram uma dança etérea em meus pensamentos. Lembrei dos motivos que me levaram a voltar para o internato. Lembrei do que estava disposta a deixar para trás sem nenhum remorso. Lembrei dele.

Saí do quarto dela sem me despedir, sentindo ódio e tristeza ao mesmo tempo. Ódio por causa desse maldito sentimento. Um sentimento que agora é proibido para mim, e que terei que arrancar do coração de qualquer jeito. Não tenho escolha. De agora em diante, é tudo ou nada.

***

Me encontro deitada na cama – a monótona noite se arrastando lentamente em direção às duas da manhã –, com meus fones de ouvido, ouvindo uma música que parece ter sido feita especialmente para mim (acho que alguém se sensibilizou com minha trágica história de amor e gravou uma música para eu dedicar ao meu amor proibido), e, claro, pensando nele: "É o cúmulo! Me deito para dormir, depois de um dia chato e cansativo, mas não é isso o que acontece. Eu me deito e ele invade meus pensamentos. O causador da minha insônia. Será que isso nunca vai acabar? Estou condenada a amá-lo para sempre?"

Também penso no que Viviane disse sobre o meu noivado com Victor. Me pergunto constantemente se ela não tem razão quando diz para eu não agir tão depressa. "Afinal, não se deve pôr a carroça na frente dos bois". Sinceramente, não consigo entender o que Viviane quis dizer com isso. É como se, do ponto de vista dela, eu estivesse fazendo uma coisa extremamente errada, da qual eu posso me arrepender mais tarde. Talvez seja isso. "Tem que se pensar duas vezes antes de cometer uma loucura". Para mim, não parece loucura. Uma decisão precipitada, talvez. Mas loucura, não. Estou quase me tornando maior de idade e posso fazer da minha vida o que bem entender, desde que eu seja uma garota responsável (palavras da mamãe) e não me deixe influenciar por ninguém (palavras do papai). Se bem me lembro, é isso o que venho fazendo desde que me entendo por gente.

Mas, apesar dos meus sentimentos por Victor, Viviane não acha que isso seja suficiente para levar adiante um compromisso tão sério. Não quero aceitar a possibilidade de ela estar certa. Tampouco suporto o fato de que nunca consigo enganá-la, de que ela sempre sabe quando estou mentindo ou não. Surpreendentemente, Viviane parece me conhecer melhor do que qualquer um, e se eu digo que não há nada de errado comigo, é porque algo de muito ruim está acontecendo. Como agora. Em plena madrugada, estou numa batalha entre o sentimento e a razão. O que vou fazer se tudo o que planejei para o meu futuro der errado? E se eu não conseguir ser feliz e fizer Victor infeliz? Ele não merece isso. Posso sentir que seus sentimentos por mim são verdadeiros, e eu não consigo acreditar que num determinado momento cheguei à conclusão de que os meus também eram.

Mas o que eu posso fazer? Não posso mais voltar atrás. Victor não merece que eu desmanche nosso compromisso por algo que nem em um milhão de anos poderá se concretizar. Como posso pensar em deixar alguém que me ama por uma pessoa que sempre me deu as costas e nunca ligou para mim? Não, não sou tão louca a ponto de condenar a minha vida a uma coisa assim. Victor é a pessoa certa para mim. Mesmo amando absurdamente outra pessoa, não vou perdê-lo por causa dos caprichos do destino. Estou decidida a tentar outra forma de ser feliz, embora a pessoa em quem eu mais confio insista que essa não é a melhor escolha.

Afinal de contas, estar com Victor não é nada ruim. Pelo contrário. Nunca conheci alguém tão divertido e espontâneo. Sempre que nos encontramos, ele me recebe com um sorriso radiante e me abraça dizendo o quanto me ama e como estou linda. Adoro a maneira como ele fala. Passamos horas e horas conversando. Ele adora acariciar minhas mãos e passar a mão no meu cabelo, e diz ser o cara mais sortudo do mundo por ter uma namorada como eu. Isso me deixa feliz. Faz com que eu me sinta única.

O tempo passa rápido quando estou com ele. Saímos quase todas as noites e sempre nos despedimos com um beijo quando a noite de diversão chega ao fim. Toda noite é um programa diferente. Cinema no sábado, parque de diversões no domingo, jantar no restaurante na segunda, discoteca na terça... Enfim, gosto de estar com ele. Sua presença afasta meus maiores fantasmas, e algo me diz que se isso continuar assim, poderei provar para Viviane que ela está enganada, que eu fiz a escolha certa.

Espero que o destino esteja a meu favor. Caso contrário, estarei perdida.

Notas finais
Aqui termina a segunda fase desta comovente história de amor. Prepare-se para se emocionar ainda mais na terceira e última fase, que é onde as coisas esquentam pra valer! Comentem e não se esqueçam de favoritar, blz? Até lá!!!