Para Sempre - A Escolha
26 Realidade cruel
Notas iniciais
Larissa
Só me dou conta do que está acontecendo quando o corpo dele está colado ao meu, a boca dele a dois centímetros da minha.
Eu já desconfiava que o maldito destino estivesse tentando nos aproximar, mesmo fazendo até o impossível para me afastar dele. E nada parece me favorecer em minhas frustrantes tentativas de apagá-lo do coração. Nada, nem ninguém.
Coincidências podem existir, mas com o único objetivo de nos azucrinar. Era no que eu estava pensando quando o professor de Educação Artística pediu – isto é, ordenou – que Adrian e eu fôssemos à biblioteca buscar os malditos livros. Quase sugeri que ele arrumasse outra pessoa para fazer essa desagradável tarefa. Bem, não seria tão desagradável se eu tivesse que ir com outra pessoa. Por que não com uma das minhas amigas, ou com meu namorado? Por que justamente com Adrian? O que eles esperam que aconteça enquanto isso?
Agora, não tenho certeza de absolutamente nada. Nem sei direito como minha mente funciona, nem se está no lugar certo. Entre todos os pensamentos desconcertantes, está aquela cena que me pegou totalmente desprevenida. O beijo que Adrian me roubou no dia em que nos encontramos no dormitório. Naquele instante, eu me senti arrasada. A raiva me subiu à cabeça, e isso fez com que eu o agredisse. Mas pouco tempo depois a raiva simplesmente sumiu e uma estranha mistura de alegria e prazer tomou conta de mim. Pela primeira vez e, infelizmente, por um mero instante, me senti amada e desejada pelo garoto que eu realmente amo. Foi o momento em que todas as minhas defesas desmoronaram. O único momento em que considerei a possibilidade de desistir do noivado.
Beijei ele com todo o amor que flui de dentro de mim, explorando os lábios dele exatamente como ele fez comigo. Mas novamente a culpa caiu sobre a minha consciência como uma bigorna de meia tonelada. O que estou fazendo? Estou traindo Victor, o garoto que me ama e com quem estou comprometida. Enquanto ele se mantém fiel a mim – como eu imagino que será durante toda a vida – eu o traio descaradamente, me deixando levar pelas emoções. "Não, isso não pode acontecer. Tenho que me afastar dele. Tenho que ficar com quem me ama de verdade, e parar de correr atrás de quem não se importa comigo, e que certamente me vê apenas como objeto de distração."
Essa tem que ser a explicação. Me tornei uma garota atraente e até mesmo Adrian está caindo na minha teia, embora essa não seja a minha intenção. "Claro que ele não está apaixonado por mim. É obvio que o que ele sente por mim se traduz em 'atração física', 'desejo carnal'. Se existisse a menor possibilidade de alguma coisa rolar entre nós, Adrian com certeza nunca me levaria a sério. Não aconteceria o mesmo que aconteceu entre ele e Hannah, que sem sombra de dúvida é o grande amor da vida dele. E, sim, sofreríamos como nunca. Em algum momento nos desprezaríamos e nos afastaríamos um do outro, não havendo a menor possibilidade de reconciliação."
Enquanto tudo isso gira em torno da minha cabeça, sigo apressadamente pelo corredor, com Adrian logo atrás de mim. Tento manter a maior distância possível, mas logo percebo que ele também anda depressa, tentando me acompanhar. De repente, sinto a mão dele agarrar meu braço.
— Me solte!
— Por que tanta pressa?
— Acho que isso está bastante óbvio.
— Eu te ponho medo?
Não, seu idiota! Não percebe que o que eu mais quero no mundo é que você me toque, me abrace, me ame? — diz uma voz em meu interior.
— E o que te faz pensar que eu tenho medo de você?
— Não faço a menor ideia.
Adrian avança um passo, a mão esquerda dele indo para o meu outro braço.
— Por favor, Adrian, me solte.
— Tem medo que eu te beije de novo?
— Está louco!
Adrian se aproxima mais, me deixando cada vez mais nervosa.
— Diz na minha cara que aquele beijo não significou nada para você.
Neste momento, penso em falar tudo o que eu senti depois daquele beijo. Mas decido optar pela resposta que eu considero a mais inteligente:
— É evidente que não significou nada. Aliás, quer mesmo saber o que eu senti?
— Estou louco para saber.
O corpo de Adrian se gruda ao meu, e sinto o vapor quente e inebriante da sua boca roçar minha pele. Quer me beijar de novo. E, como da última vez, estou prestes a ceder. Me agarrando à pouca força de vontade que tenho, o empurro. Adrian recua, claramente desapontado. Com certeza achou que repetiria a façanha, que conseguiria roubar outro beijo. Mas se ele acha que vou cair outra vez nessa, ah, ele está redondamente enganado.
"Chega de fraqueza."
— Nunca mais se aproxime de mim. Fui clara?
Aponto um dedo para ele e depois me viro. Sigo adiante, outra vez andando depressa para manter a maior distância possível entre nós.
Só mais tarde descubro que todo esse esforço foi em vão.
***
— Bom dia à todos -— diz o Sr. King. Sua voz soa rouca e calma, mais parecendo um sussurro do vento.
Todos respondem em uníssono, num tom desanimador. E não é para menos. Todos concordam que esta é a aula mais chata do mundo. E eu, por mais que adore inglês, também sou obrigada a concordar.
— Hoje vamos estudar sobre as diferenças existentes entre o Inglês Americano e o Inglês Britânico.
Não demora muito para que eu comece a escutar bocejos a se propagar pelo ambiente. Não os culpo por isso. O professor fala em um ritmo tão lento que é inevitável um aluno sentir sono.
— Os alunos do segundo ano fizeram, no bimestre passado, um trabalho para a disciplina de Inglês — continua o professor, os lábios gordos abrindo e fechando de uma forma quase sofrida. — Eles produziram cartazes sobre algumas diferenças linguísticas. Vocês irão fazer trabalhos.
Com o canto do olho, vejo um garoto despencar da cadeira. Ele só desperta quando a lateral da cabeça se choca contra o piso duro e frio. Uma chuva de risadas ecoa, e para a surpresa de todos, o Sr. King simplesmente torce os lábios em sinal de desaprovação, e não se levanta e ordena aos gritos que os alunos calem a boca, como costuma fazer.
— Sugiro que não nos distraiamos e continuemos a falar sobre o trabalho que fechará a nota deste bimestre.
À minha esquerda, uma garota levanta a mão, mas o Sr. King ignora. Continua falando:
— A apostila bimestral aborda tal diferença na língua. E vocês ficarão incumbidos de pesquisar mais sobre o assunto. Vocês farão trabalhos em dupla.
Um desagradável arrepio cruza o meu corpo quando ouço a palavra "dupla" sair da boca do Sr. King. Temo que até mesmo o Sr. "Olhos de Coruja" siga o mesmo raciocínio que os outros professores (O Prof. Arthur, o Prof. Ricardo e o Prof. Adilson) seguiram: "vamos selecionar a melhor dupla da sala para fazer este trabalho, porque eles são muito bons no que fazem, têm uma inteligência invejável e blá, blá, blá..." Se for assim, este será o quarto trabalho consecutivo que farei com Adrian. E o que eu menos preciso no momento é de um empurrãozinho para tornar a minha semana pior do que já está.
Enquanto tento me distrair escrevendo poesias no caderno, a ponta do meu lápis quebra e tenho que fazer uma forcinha para sair do lugar. Sinto meu corpo trêmulo e estranhamente mole — resultado da insônia que os malditos pensamentos me causam —, e as provas finais que se aproximam é a única razão que me faz vir à escola.
Vou até a lixeira e, com um apontador, resolvo meu problema em segundos. Estou tranquila até então, mas um pequeno incidente se encarrega de mudar a situação. Por algum motivo acabo tropeçando e, antes de me esborrachar no chão, Adrian se levanta depressa e me segura pela cintura. Fico tão perplexa com isso que nem mesmo dou atenção à chuva de risadas que cai sobre a sala. Enquanto as mãos de Adrian envolvem minha cintura, ambos nos encaramos fixamente, quase sem piscar, sem nenhum dos dois se preocupar em perguntar o que aconteceu.
— Você está bem?
— Estou. Obrigada.
— Não tem que agradecer.
Adrian abre um sorriso tímido, o qual deixa minhas bochechas coradas. Devolvo o sorriso, lembrando do que Viviane me disse semanas atrás: "Um sorriso abre portas. Um simples sorriso pode fazer maravilhas para chamar a atenção de um garoto. É infalível para quebrar o gelo."
De repente, ouço o Sr. King pigarrear bem atrás de mim. Adrian solta a minha cintura e se senta. Ando depressa para o meu lugar, agora com mais entusiasmo do que vergonha. O Sr. King volta para a mesa e recomeça sua lengalenga maçante.
— Como estava dizendo, vocês farão trabalhos em dupla. Cada dupla ficará incumbida de pesquisar sobre este assunto e apresentá-lo na data que eu escolher. Vamos às seleções...
***
— Não acredito que isso esteja acontecendo outra vez — digo, sentada em frente ao espelho, escovando nervosamente o cabelo ligeiramente embaraçado.
Aconteceu exatamente como eu temia. Pela quarta vez consecutiva, Adrian e eu fomos escolhidos para produzir um trabalho e apresentá-lo para a turma. Quando o velho "Olhos de Coruja" disse nossos nomes — com uma certa ênfase que me deixou de cabelos em pé —, senti vontade de enfiar a cabeça no primeiro buraco que eu encontrasse pelo caminho. Tive que me segurar para não berrar alto o bastante para o internato inteiro escutar.
A tarde está agradavelmente quente e uma leve brisa faz as cortinas da janela se moverem em um ritmo dançante. Olho para o relógio. Faltam dez para as quatro. Está na hora de ir. Olho de novo para o espelho. Estou usando uma blusa regata com renda, saia jeans e sandálias brancas de salto baixo com tiras de couro em volta dos tornozelos. No cabelo, minha tiara favorita — de strass, com pérolas prateadas. Sobre a blusa, um belo colar de estrela, dado pela minha mãe no meu aniversário anterior. Aparentemente, estou pronta. Já psicologicamente...
Por um momento, paro para pensar no que estou fazendo. Desta vez, combinamos de fazer o trabalho na casa de Adrian. Mesmo não querendo, estou agindo como sempre, preocupada em ficar bonita o bastante para ele. A única diferença é que agora ele repara em mim.
Esta é uma questão duvidosa. Demonstrei desapontamento quando escutei meu nome ser mencionado depois do dele durante a escolha das duplas. Mas, assim que cheguei em casa, a máscara caiu, e percebi que estava mais feliz do que eu poderia imaginar. De nada adianta tentar esconder ou dissipar os sentimentos de alegria e ansiedade que me dominam. Vê-lo e estar perto dele são duas vontades contra as quais estou prestes a desistir de lutar.
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