Para Sempre - A Escolha
30 O encontro - Segunda Parte
Roberta
No início, tudo parecia muito simples. Miguel planejou tudo perfeitamente bem. Mas, mesmo assim, não tinha cem por cento de certeza de que tudo sairia conforme combinamos. Muitas coisas poderiam dar errado: Adrian poderia recusar o convite, o que poria tudo a perder. Ou então Victor e Larissa poderiam não aparecer no restaurante, de modo que o encontro não faria sentido algum. Ou, na pior das hipóteses, poderíamos passar percebidos pelo casal.
Chego ao restaurante dez minutos depois do horário combinado. Estou preocupada. O que Adrian dirá sobre isso? Minha preocupação logo some quando o vejo se levantar da mesa, com um sorriso meigo surgindo em seus lábios carnudos e apetitosos. Retribuo o sorriso e ando em sua direção. Está usando uma calça cáqui preta, camisa de malha cinza com um blazer de couro e sapatos da marca OXFORD. Encarando-me com seu olhar penetrante e misterioso, ele se aproxima, pega a minha mão e, após me beijar no rosto, diz suavemente:
— Boa noite, Roberta. Você está muito linda.
Fico encabulada diante de sua fala romanesca e cheia de galanteios. Ele começa a me olhar de cima a baixo, o que me deixa ainda mais nervosa. Estou usando um vestido preto de renda curto, justo, que ressalta minhas curvas e deixa minhas pernas à mostra, e o decote está... digamos... sensual. Para dizer a verdade, não estou tão bonita como gostaria de estar, mas o elogio de Adrian logo me faz esquecer desse problema.
— Obrigada. Gostou da roupa?
— Não. Não gostei. Eu amei.
Adrian põe a mão nas minhas costas e me conduz gentilmente a mesa na qual está.
— Por favor — diz Adrian, puxando uma cadeira para mim.
— Obrigada.
Enquanto Adrian olha o cardápio, aproveito para olhar ao redor. De cara, avisto as duas pessoas que eu mais queria ver. Victor e Larissa ocupam uma mesa no centro, e nessa mesma mesa está Bárbara, sua mãe. Perfeito, sinto vontade de gritar. Mais que perfeito! Magnifico! Estupendo!
Noto que eles estão olhando fixamente para nossa mesa. Enquanto que nos olhos de Victor é claramente perceptível sua raiva por estarmos dividindo o mesmo restaurante, nos olhos de Larissa é perfeitamente notável o ciúme que sente ao me ver junto com Adrian. Mal pisca os olhos. Nem mesmo está preocupada em disfarçar sua dor de cotovelo.
Por um instante a música pára e o silencio paira no ar, quebrado apenas pelas vozes descompassadas das pessoas à nossa volta.
— Era só o que me faltava! — diz Victor. — Esse mundo é mesmo pequeno demais!
— Victor, por favor...
Bárbara intervém na conversa.
— Quem é ele, filha? É algum colega de vocês?
— É. A garota que está com ele se chama Roberta. E, sim, estudamos na mesma classe.
— Tem problemas com ele, Victor?
— Digamos que ele e eu temos nossas diferenças.
— Poderia, pelo menos, disfarçar, ou seria pedir demais? — diz Larissa, nervosa.
— Me desculpe, amor. Não viemos até aqui para brigar.
Ignoro-os e volto a prestar atenção em Adrian. Acho que, antes de mais nada, temos que esclarecer algumas coisas.
— O Miguel te deu o recado?
— Deu, sim. Conversamos sobre isso hoje mais cedo. Confesso que fiquei um tanto surpreso. Não esperava que justo você fosse me convidar para sair.
— Entendo. Em outras palavras, nunca lhe passou pela cabeça que uma garota como eu, cuja reputação não é lá essas coisas, pudesse se interessar por um cara como você.
— Eu, francamente, não vejo por que não poderia. Para começar, você... — pensa por um momento. — Vejamos, como posso dizer? Você é uma garota excêntrica. Não pode negar que o seu modo de ser chama a atenção de qualquer um. Mas você tem uma coisa que pouca gente possui. Você é autoconfiante, sincera, não tem medo de dizer o que pensa... Eu admiro muito isso em você.
Sorrio timidamente.
— Nossa. Por um segundo me senti a garota perfeita. Mas você está enganado numa coisa. Por mais incrível que pareça, eu não tenho toda essa confiança que você diz admirar. Também tenho meus medos, como qualquer pessoa normal.
— Incrível. Não parece. Eu sempre te achei uma garota segura, do tipo que nada no mundo seria capaz de intimidar.
— As aparências enganam, não é? Mas não esqueça que tudo na vida sempre tem dois lados.
— Ninguém melhor do que eu para saber disso.
Um garçom se aproxima da mesa:
— Já sabem o que vão querer?
— Sim — diz Adrian, abrindo o cardápio. — Para mim pode trazer uma torta de carne e uma coca normal, por favor.
— Ok. — O garçom anota o pedido dele e olha para mim. — E a senhorita?
— Para mim pode trazer um suco natural de laranja e de comida... hum... pode ser um Irish Stew.
— Ok.
O garçom anota o meu pedido e sai. Adrian olha para mim com curiosidade.
— O que é um Iri... Ishi... Irish Stew?
— Irish Stew? Quer dizer "ensopado irlandês". É um guisado elaborado com carne de cabrito ou borrego, batatas, alho-porro, cenoura e aipo. É uma delícia.
— É a primeira vez que ouço falar nesse prato.
— Ele é muito conhecido internacionalmente. No seu país de origem, é considerado um prato substancial e saboroso, preparado com ingredientes da época. Historicamente, os irlandeses criavam ovelhas e cultivavam raízes comestíveis para sua subsistência. As ovelhas forneciam lã para roupas quentes, leite para beber e para fazer queijo e comida. As batatas constituíam o cultivo principal, principalmente no fim do século XVIII e no início do século XIX. As batatas são adicionadas numa fase adiantada da preparação do prato, para não ficarem cozidas demais. Por vezes, são cozidas separadamente e adicionadas no fim. A carne deve ser cozida lentamente, durante cerca de duas horas e meia, para que fique macia.
— Uau. A cada dia você me surpreende mais.
— Esse é meu dom. Gosto de surpreender as pessoas. "Saia do padrão e conquiste a multidão". É o meu lema.
— Você é realmente muito diferente das garotas que conheci.
— E isso é bom?
— É ótimo. Se observar bem, há pessoas que agem como se fossem um poço de virtudes, mas na realidade não passam de uma miragem de um oásis. Já me deparei com muitas pessoas desse tipo. Muitas querem deixar sua marca, mas poucas, na sua humildade, sujam os pés para deixar suas pegadas. Agora vejo que você se encaixa perfeitamente nesse padrão. Confesso que antes eu pensava de outra forma. Não fique brava se eu disser que não fui muito com a sua cara na primeira vez que te vi. Eu seguia aquele famoso lema: "a primeira impressão é a que fica". Mas com o passar do tempo, eu percebi o quão estava errado. Hoje acredito que isso não passa de um julgamento apressado do nosso cérebro. Com o tempo, os disfarces se revelam, o que não é o seu caso. E acho que não seria exagero se eu dissesse que seu jeito de ser me fascina. Acho que, se a tivesse conhecido em outra época, teria me apaixonado perdidamente por você.
— Jura?
— Juro. Uma coisa que eu gosto que as pessoas saibam é que sou uma pessoa muito sincera. Assim como você, gosto de ter a verdade nua e crua na ponta da língua, mesmo que algumas verdades machuquem. Também gosto de ser direto. Houve um tempo em que eu sentia vergonha de me expressar, mas isso mudou. Sou o que sinto e vivo o que penso. Quebro a cara, mas me reconstruo. E se caem lágrimas dos meus olhos, permito que elas escorram firmemente sobre minha face, e depois as enxugo, quantas vezes forem necessárias, sem nunca me arrepender.
— Agora sou eu que digo "uau"! Você é mesmo um cara muito interessante. Sempre tive esse conceito, mas nunca tive a oportunidade de lhe dizer isso. Bem, até agora.
— O fato de eu ser um cara interessante foi uma das razões pelas quais você decidiu sair comigo?
Fico calada por alguns segundos. Não posso dizer que o objetivo do encontro é provocar ciúmes em Larissa e fazê-la reagir. Mas também não preciso mentir. É verdade que eu sempre estive interessada em Adrian, e sempre sonhei em compartilhar um momento como o que estou vivenciando agora. Minha vontade é de esquecer o real motivo para este encontro estar acontecendo e aproveitá-lo ao máximo. Não posso ultrapassar o limite que eu mesma tracei, mas nada me impede de chegar a divisa.
— Já que estamos sendo sinceros, vou contar a verdade tal qual ela é. Sim, Adrian. Eu te acho um cara muito interessante. E, sim, essa é uma das razões pelas quais decidi sair com você. Agradeço por não ter recusado. Meu maior desejo é poder conhece-lo melhor, mas, claro, longe dos muros do internato. E devo dizer que você tem um bom gosto para passeios. Este lugar é perfeito. A atmosfera é maravilhosa. E com você aqui, tudo fica ainda melhor.
— Me sinto lisonjeado. Realmente pensa tudo isso de mim?
— Isso e muito mais. Nunca conheci alguém como você, Adrian. Você é diferente. Muito mais do que eu imaginava.
Adrian se inclina para mim.
— Sabe que eu nunca tinha reparado no quanto você é bonita?
— Realmente me acha bonita?
— Não. Te acho linda. Sensual. Maravilhosa. Estou adorando estar aqui com você.
Está ficando cada vez mais difícil manter o foco. Um turbilhão de sensações percorre o meu corpo de uma ponta a outra. Cada palavra sua é como um mel que adoça meus ouvidos. Talvez essa não seja sua intenção, mas a natureza lhe deu esse dom. Quanto mais ele fala, mais me sinto hipnotizada por ele.
— Posso te fazer uma pergunta?
— Sim.
— Promete não ficar chateado?
— Prometo.
— Se eu te pedisse para ficar comigo... mesmo que fosse por um minuto... você ficaria?
Adrian fica mudo por um momento.
— Olha... Roberta...
— Espera! Não diga nada. Só me escute. Eu sei o que você sente pela Larissa, e sei também que nada do que eu disser vai mudar isso. Mas quero que saiba que o que eu sinto por você vai muito além do amor. Isso significa que eu não me importo de renunciar à você, contanto que você seja feliz. E, se você for feliz, eu prometo que encontrarei um caminho para conseguir ser também.
— Roberta...
— Só mais uma coisa. Há alguns meses, quando a Larissa chegou ao internato, eu soube que jamais poderia rolar alguma coisa entre a gente. Por isso eu te peço, Adrian... não desista dela.
— Por que está me dizendo isso?
— Porque ela é o seu verdadeiro amor, sua história, seu passado. A Hannah foi o seu presente, mas a Larissa sempre foi o seu futuro.
— Não quero falar disso. Acho melhor mudarmos de assunto.
— Adrian, pára! Eu sei que você a ama. E sei também que se eu amasse alguém desse jeito, faria até o impossível para ficar com essa pessoa. Não sei por que você insiste em negar. Escuta. Você está prestes a perdê-la outra vez. Eu, no seu lugar, largaria tudo e lutaria por ela.
Adrian estica a mão e toca levemente o meu rosto.
— O que está fazendo?
— Sabia que você é uma joia rara?
— Adrian, não foge do assunto...
— Shhh... — Diz ele, tocando os meus lábios com a ponta do dedo. — Não diga nada. Agora você vai me escutar. Você me perguntou se eu ficaria com você. Não vou negar. Para mim está sendo muito difícil assimilar tudo isso que você disse. Mas, neste momento, se eu fosse dedicar um minuto da minha vida a alguém... esse alguém seria você.
— Você não sabe o que está dizendo.
— Sim, eu sei perfeitamente o que estou dizendo. Agora eu vejo que tinha uma ideia totalmente equivocada a seu respeito. Você é um anjo, Roberta. Agora sou eu que te peço: me beija.
— O que disse?
— Quero que me beije.
— Você... Você quer que eu...
— Sim. Eu preciso sentir esse amor, Roberta. — Seus lábios agora estão bem próximos do meu rosto, tão perto que quase posso ouvir seu coração bater num pulsar rápido e definido, um jogo de emoções e sentidos. — Preciso sentir que alguém me ama de verdade. Por favor, não me negue isso.
Desta vez, Adrian chega tão perto que nossos narizes se tocam. Ele abre um sorriso encantador e percorre lentamente com o polegar a linha do meu queixo, levando a minha mão ao nariz dele, inalando meu aroma. Meus olhos vagam por seu rosto claro, descendo até os lábios, vermelhos como um romã. Não posso mais negar que me sinto hipnotizada. Adrian é extremamente atraente e sedutor. O perfume dele é inebriante. Seu sorriso é capaz de me controlar. "Oh, Deus, essa boca tão perto da minha..." Sei que não devo me deixar levar pelo desejo, mas já é quase impossível manter o controle. Ele quer me beijar, e, para piorar, eu também quero.
Só um beijo, uma voz ecoa em minha cabeça. Apenas um. Você o ama. Larissa também o ama, mas tudo o que tem feito é fugir desse amor. Você o quer. Beije-o, nem que seja pela primeira e última vez.
Quando dou por mim, sinto os lábios dele tocando levemente os meus. Fecho os olhos, entreabrindo lentamente a boca para tocar seus lábios persuasivos. Sua língua morna golpeia sensualmente contra a minha, repetindo o movimento avidamente. Devolvo o beijo devorador, precisando do seu contato, desfrutando-o. O sabor é quente e adocicado, quase febril. Melhor do que jamais poderia imaginar. O que estará pensando Larissa, vendo-me agora tão entregue e tão sem condições de dizer não, sem chance de recusa?
Mas como tudo que é bom dura pouco, o momento é logo interrompido com a chegada do garçom.
— Aqui estão os pedidos.
Me afasto rapidamente de Adrian e solto um pigarro. "É mesmo um ladrão! Ladrão de corações."
— Obrigado.
— Obrigada.
— Vão querer algo mais?
— Não. Por enquanto é só. Muito obrigado.
— Não há de que. Bom apetite.
Olho para Adrian, que sorri timidamente. Não evito sorrir junto com ele. Tudo está saindo melhor que o planejado. Tenho certeza de que esse beijo ficará marcado em mim para sempre.
E, de repente, o silêncio que paira no ar é cortado por uma bela canção da cantora Celine Dion: "MY HEART WILL GO ON".
Não há como este momento ficar melhor.
— Adoro essa canção — diz Adrian. — Ela me faz flutuar.
— Eu também adoro. Sabia que é a minha favorita?
— Hum... Se nota que você tem um bom gosto musical.
— E, pelo visto, temos mais em comum do que pensávamos.
Ambos rimos desse comentário. Neste momento, penso que se alguém me tivesse dito que este plano daria tão certo, eu não teria acreditado. A verdade é que tudo está saindo melhor do que a encomenda. E tenho ainda mais certeza disso quando, por um momento, me viro para a mesa do centro e vejo Larissa se levantar e, depois de dar uma desculpa, sair do restaurante quase chorando.
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