Para Sempre - A Escolha
9 Mau presságio
Notas iniciais
Dias depois...
Começo a sentir o aroma ludibriante do perfume dela assim que chego ao Salão Principal. Hoje estou um pouco atrasado. A maioria dos alunos já se encontra na sala e não há quase ninguém nos corredores. Avisto ela do outro lado do salão, perto da escadaria. Está elegante como sempre naquele terno azul marinho, com a saia xadrez vermelha.
Beijo-a rapidamente e dou bom dia. Sei que o sinal vai tocar em menos de dois minutos, e por mais que eu queira ficar mais tempo com Hannah, não posso ignorar a rigorosa regra da pontualidade.
— Não tenho dúvida de que me ama, mas preciso ouvir isso de você – diz ela, sussurrando em meu ouvido.
— Eu te amo – respondo, olhando diretamente nos olhos dela, com candura e desejo. Puxo-a mais para perto de mim e a beijo novamente. Os dedos de Hannah se colocam na parte de trás do meu pescoço, deslizando suas unhas escarlates por minha nuca, fazendo-me estremecer. – Gostaria de poder ficar um pouco mais com você. Sei que isso é só o começo, mas cada segundo que passo longe de você reforça uma saudade que nunca chega ao fim. Não consigo pensar em mais nada a não ser ter você ao meu lado, nos meus braços, dizendo que você é a única que eu amo e que vou te amar até o último dia da minha vida.
— Eu também te amo, Adrian. Nunca duvide disso. Pode parecer meio tosco, mas a verdade é que eu não vivo sem você. Não sei como explicar isso. Talvez nem tenha como. Mas digo isso com toda convicção. Você é meu primeiro amor. Sei que é o primeiro porque nunca me senti assim por ninguém. Talvez eu não tenha dito para você que amar para mim é como respirar. Eu respiro você. Eu vivo você. Eu te amo e vou te amar por toda a vida.
Estou prestes a beijá-la outra vez quando o sinal soa por todo o prédio anunciando que as aulas começarão imediatamente. Temos aproximadamente trinta segundos para chegar à sala antes do professor. É necessário que todos estejam presentes quando o professor, seja ele quem for, chegar para a aula, ou quem estiver ausente ficará de fora, ou, se quiser assistir à aula, terá que ir até a sala do diretor pegar uma permissão.
— E aí? Topa uma corrida?
— Não temos escolha, certo?
Damos as mãos e corremos o mais rápido que podemos até a sala. Infelizmente não damos sorte. Quando chegamos ao corredor, vemos que todas as salas estão com suas portas fechadas, inclusive a nossa. Ouso abri-la, e a primeira coisa que vejo é um homem de meia idade, rechonchudo, com cabelos escassos – usando uma roupa que obviamente não serve para ele –, agachado, apanhando do chão um mapa que alguém derrubou. Imagino que podemos entrar de mansinho sem que ele perceba. Sinalizo para Hannah me seguir, e teríamos conseguido se um garoto que está sentado no final da sala não tivesse assobiado, chamando a atenção do professor gorducho.
— Nada de assobios... – diz ele encarando o garoto, os lábios retorcidos num semblante sério. – E vocês... Hannah Anderson e Adrian Martins Lindenberg, certo? – Assentimos, mais surpresos com o fato de ele lembrar perfeitamente dos nossos nomes, embora tenhamos tido somente uma aula com ele. – Estão acostumados a chegar atrasados na escola?
— Desculpe, professor, mas é que...
— Não tolero desculpas! Vocês já me conhecem!
Engulo em seco. A voz dele é estridente e seus modos, assustadiços. Seu nome é King, e é conhecido por todos como PLD (o Professor Linha Dura), o terror da galera, o sujeito mais rabugento que já se teve notícia. Ninguém que o conhece se atreve a tirar sarro dele. Diferente dos demais professores, ele não ri, não cumprimenta ninguém e não deixa pistas sobre os motivos que o levam a ter esse tipo de comportamento. Leciona Inglês e Espanhol, e por mais curioso que alguém possa estar, ninguém se atreve a fazer qualquer pergunta que não esteja relacionado à essas disciplinas.
— Já que hoje vamos tratar de um assunto muito importante, o qual, acredito eu, será muito útil na vida de cada um de vocês, deixarei os dois entrarem. Mas, prestem atenção, esta foi a última vez. Estamos entendidos?
— Sim – respondemos quase ao mesmo tempo.
Hannah me encara com raiva, provocando em mim um riso discreto. Nunca fui de guardar rancor. Simplesmente ignoro essas "meigas" palavras e vou para o meu lugar, observando Hannah enquanto ela se senta, os lábios escarlates retorcidos em raiva.
De repente, um assobio alto e cantante se faz ouvir pelo corredor. King volta à porta, suspirando raivosamente. Miguel solta um riso baixo antes de ficar sério novamente. Me permito rir também. Eu, tão bem quanto Miguel, conheço esse assobio, que está ficando cada vez mais alto, fazendo todas as cabeças se virarem bruscamente na direção da porta. Olhando para o lado, percebo que há um lugar vago, que, se não me falha a memória, é normalmente ocupado pela garota de cabelos ruivos e olhos dourados que conheci na semana anterior. Como é mesmo o nome dela?
— Roberta Kelly! – exclama o professor assim que a garota aparece na porta. Está com fones de ouvidos e parece tão distraída que provavelmente nem percebeu que está atrasada. – Passe para cá esses fones!
A ruiva entrega os fones de ouvido de maneira estranhamente despreocupada, como se isso já tivesse acontecido outras vezes. Olha brevemente ao redor, parecendo não dar a mínima para os garotos que estão rindo. E, pelo brilho no olhar dela, percebo que, se não estivesse na presença do Sr. King, teria rido junto com eles.
— Imagino que não saiba que horas são – diz o Sr. King, os dedos nervosos batendo no relógio. – Me dê um bom motivo para não puni-la.
— Um motivo? – pergunta a ruiva, passando a língua por entre os lábios sedutoramente rosados. – Bom, sabe o que é, Sr. King? É que eu gosto muito da sua aula. E o senhor sabe que eu sou uma aluna muito assídua, não é? Ah, é claro que sabe... Aliás, quer saber o que eu acho? Que esse colégio seria muito melhor se houvesse mais professores assim como o senhor. Vou te contar, professor, se eu não te conhecesse, diria que o senhor é a reencarnação de Einstein...
Não consigo segurar o riso, e desta vez a garota parece ficar um pouco envergonhada. O Sr. King me encara feiamente, o que me leva a pensar que rir é a última coisa que ele admitiria para alguém.
— Srta. Kelly! – Exclama o PCA (Professor Cara Antipática). – A senhorita tem exatos cinco segundos para entrar, ou serei obrigado a entrar em contato com seus pais para termos uma conversinha.
— Acho melhor não, professor. Meus pais são pessoas bastante ocupadas.
— Bastante... ocupadas?
— Ocupadíssimas. Carambolas, o senhor não faz ideia. A vida na cidade é uma correria. Sei que o senhor entende disso...
A voz dela se perde no ar.
— Entre agora – murmura o Sr. King, indicando o lugar vago para a simpática ruiva, que entra na sala sorridente e satisfeita, como qualquer um aqui ficaria depois de conseguir passar são e salvo pelo Sr. Não Chegue Atrasado Senão Leva Uma Advertência.
Sigo ela com o olhar até os fundos da sala, onde a cadeira vaga ao lado da janela a aguarda. Não sei muita coisa sobre Roberta Kelly, mas basta prestar atenção na sua maneira de agir e no jeito espalhafatoso de se comunicar com as pessoas para concluir que ela é extrovertida, engraçada, espontânea, alegre e inteligente nas respostas. E meio doidinha! Tira onda com o sujeito mais casca-grossa deste lugar. Esse traço de caráter em especial me fascina.
Aproveitando que o Sr. Anti-sorrisos está virado para o quadro-negro, me viro para Miguel e pergunto num sussurro:
— Você que é amigo dessa garota... Ela é sempre assim?
— É pior do que você imagina. Roberta Kelly é a garota mais fofoqueira que eu conheço. Aqueles olhos dourados são piores do que antenas de monitoramento.
— Sério? Mas, na primeira vez em que a vi, ela parecia ser tão inofensiva. Até achei que tinha rolado um clima entre a gente.
— Inofensiva? Clima? Ah, por favor, não se deixe levar pelas aparências. Roberta não tem nada de inofensiva. E se você acha que ela está te dando mole, meu conselho é: não dê brecha. Não que eu esteja insinuando qualquer coisa, mas tem vezes que a Roberta não leva nada a sério. Às vezes, parece que a única coisa que ela sabe fazer é falar da vida dos outros. Deve ser por isso que até hoje ela nunca namorou alguém por mais de duas semanas. Posso até estar enganado, mas uma coisa é certa: você sempre deve ficar de olho nela. Essa garota é mais esperta do que você possa imaginar.
— Talvez você tenha razão. Mas e daí? Todos nós temos nossos "diabinhos". Todos estamos inevitavelmente errados. Não somos flor que se cheire.
— Concordo. Mas, de qualquer maneira, fique esperto. E não deixe ela chegar muito perto. Dizem que ela também é expert em destruir relacionamentos.
— Eu tenho que dizer que isso é um tanto injusto. Ela pode ser bonita, sexy e tal, mas eu não me deixo levar assim tão fácil. Já você...
— Eu o quê? O que insinua?
— Que se essa garota consegue mesmo envolver tanta gente na teia dela, você, meu amigo, já pode se considerar a sua mais nova presa. Em outras palavras, Roberta Kelly já tem um passe livre para dentro do seu coração.
— Ah, é aí que você se engana, meu caro.
— Mesmo? Olhe bem nos meus olhos e me diga se essa garota não mexe nem um tantinho com você.
— Eu...
— Admite, Miguel. Você está caidinho pela Roberta.
— Essa mina não é para o meu bico. Nesse campeonato, eu sou o sol e ela é a lua. Eu sou o fogo e ela é a água. São coisas que não se misturam.
— Corta essa, cara!
Vejo com o rabo do olho o Sr. King pegar um pincel e escrever alguma coisa no quadro-negro. Assim que termina, sua voz áspera e assustadiça se ergue outra vez:
— Alunos. Terei que me ausentar da classe por alguns instantes. Enquanto isso, façam o exercício da página 39. As questões estão no quadro. Vocês têm até o final da aula para concluir o exercício. Mantenham a ordem enquanto eu estiver fora. Volto num minuto.
Um segundo depois, toda a sala se transforma em um tremendo alvoroço. Alguns garotos começam a construir aviõezinhos de papel com folhas de caderno e a atirar em todo mundo. Outros pegam gizes e, para provocar as meninas, arrastam eles na superfície da lousa, produzindo um som estridente e arrepiante. Outros pegam uma caixa de leite vazia que está no cesto de lixo e chutam um para o outro, como se fosse uma bola de futebol. Em menos de trinta segundos, a sala está literalmente um caos.
— Isso é um absurdo! – diz alguém no fundo da sala. – Onde é que está a vergonha desse pessoal?
— Isso eu não sei dizer, colega – responde Roberta. – Só sei que este é o momento perfeito para contar uma novidade que reservei para hoje.
— Você não se cansa de fazer fofoca?
— Não é fofoca. Bom... não exatamente. Ah, não enche, flor. Em todo caso, o que eu tenho para contar vai interessar a todos.
— E quando pretende falar?
— Agora mesmo.
Apesar do intenso barulho, posso ouvir claramente os passos da ruiva vindo em minha direção. Ela vai até o birô e, uma vez parada de costas para a lousa, bate palmas ritmadas para chamar a atenção de todos. Os que estão jogando com a caixa de leite param por alguns segundos, mas depois continuam. Roberta insiste em chamar a atenção deles, e como não consegue, toma a caixa deles. Em seguida, ordena que se sentem e calem a boca. Eles vão. E nos dez segundos seguintes, o silêncio reina absoluto na sala.
— Peço um minuto da atenção de vocês. Eu tenho uma novidade para todos.
— Ah, não! – exclama Henrique. – Fofoca a essa hora? Pelamor...
— Ninguém pediu a sua opinião, seu idiota!
Estou prestes a dizer algo quando Hannah se empertiga na cadeira e pergunta:
— Querida, vai falar ou vai ficar enrolando?
— Não vou ficar enrolando, querida. Como eu estava dizendo, tenho uma novidade que vai deixá-los de queixo caído.
— Do que se trata? – pergunta alguém.
— Se trata de alguém que não vemos há bastante tempo. Alguém que vocês conhecem perfeitamente, mas posso garantir que nenhum de vocês a reconheceria se voltassem a vê-la.
— Roberta, quer parar de fazer hora e falar de uma vez?
— Tudo bem, tudo bem! – diz Roberta, levantando as mãos em um gesto de desculpas. – É uma garota. O nome dela é Larissa.
Larissa. Esse nome, embora não tenha produzido nenhum efeito perceptivo, não me é estranho. Mas de onde o conheço? Tento puxar pela memória, mas não consigo. Também não me ocorre nada que me faça dar um palpite sobre quem é essa garota.
— Larissa de quê? – um garoto pergunta.
— Larissa Oliveira.
Aquele nome se abate sobre a sala como um machado de guerra, causando uma grande agitação. Expressões de surpresa soam por toda parte. Todos se entreolham, murmurando entre si, e logo se voltam para Roberta como se pedissem uma explicação.
— Larissa Oliveira?
— Não pode ser.
— Não acredito.
— Isso não pode ser verdade.
De repente, num estalar de dedos, lembranças de um passado não muito distante inundam meus pensamentos. Imagens de uma garota de cabelos loiros platinados, de aproximadamente 16 anos, que, por conta da timidez, se escondia atrás de um par de óculos grandes e roupas largas, aparecem em minha mente como um flash. Nesse ponto, como se meu cérebro estivesse ligado por um fio a estas imagens, outras lembranças surgem rapidamente. Uma delas está bastante nítida! Um envelope amarelado com a figura de um coração e o nome LARISSA OLIVEIRA escrito à caneta. E dentro dele, uma carta que nunca ousei ler, e que por orgulho quase joguei fora.
Os murmúrios de surpresa só acabam quando Roberta ergue a mão, pedindo silêncio.
— Gente, por que vocês ficaram tão surpresos?
— Vai dizer que não se lembra mais da Larissa? – pergunta Henrique.
— Da garota que todo mundo zoava por ser incrivelmente tímida e estranha? É óbvio que me lembro. Mas vocês ainda não me responderam. Por que ficaram tão surpresos?
— Ficamos surpresos porque, na época em que ela deixou o colégio, correram boatos de que ela tinha ido morar em outra cidade. Ninguém nunca mais ouviu falar nela. Foi como se ela tivesse sido engolida pela terra.
— Ah, fala sério! – exclama Alex, impaciente. – O que há de tão interessante nisso?
— É claro! – diz Bianca com uma voz carregada de raiva. Olho para ela com espanto. Nunca vi uma expressão tão dura no rosto de alguém. Quem a conhece jamais a viu tão indignada, tão cheia de brios. – Por que algo assim deveria interessar, não é? – Ela se levanta tão depressa que suas pulseiras prateadas cheias de badulaques ficam fazendo barulho. – A verdade é que vocês não fazem a mínima ideia de como aquela coitada sofreu por causa do orgulho estúpido de vocês!
— Espere um minuto! Se refere a nós?
— Sim, a vocês mesmos. E a forma mesquinha e cruel como você e seus amiguinhos a trataram no passado!
Alex e os demais se entreolham. Eu poderia ter feito a mesma coisa, se no fundo não soubesse que Bianca está coberta de razão; se não estivesse ciente dos motivos que ela tem para se revoltar com a gente; se ela não conhecesse Larissa tão bem como alega conhecer; se no passado eu não tivesse sido o principal culpado pelas lágrimas que ela derramou; e se em vez de magoá-la e julgá-la pela sua maneira estranha de se portar, tivesse sido mais... tolerante. Contudo, embora eu reconheça que não fui muito gentil com ela naquela época, não me sinto preparado para encarar meu erro.
— Eu acredito que a maioria de vocês sabe do que estou falando – Ela se junta a Roberta. – Larissa era uma garota ingênua, humilde, que não tinha noção da própria beleza e por isso não sabia se portar muito bem. Foi por isso que ela sofreu tanto. Porque as pessoas a recriminavam pelo seu jeito de ser. Chamavam ela de desajeitada e esquisita. Ninguém a respeitava. Preferiam tirar sarro da cara dela e tratá-la como se fosse lixo.
— Então você está querendo dizer que tudo o que aquela garota sofreu foi por nossa causa? – pergunto.
— Deixe-me pensar... Sim!
— Eu... reconheço que não fui muito gentil com ela no dia em que nos conhecemos – diz Pablo, cabisbaixo. – Eu lembro que ela usava aparelho nos dentes e tinha um sotaque meio caipira do interior. Eu caçoei dela e a coitada saiu chorando.
— E eu ri do cabelo dela, e dos óculos também – complementa Alex.
— Eu lembro dos óculos – diz Miguel, fazendo um óculos com as mãos. – Eles eram desse tamanho. E o cabelo, com aquelas franjas desgrenhadas que tapavam a testa toda, parecia uma saia de babado...
Miguel se cala de repente quando percebe as duas garotas olhando feio para ele.
— Foi mal.
— O mesmo aconteceu quando ela veio para Crossfield. Ela nunca teve um dia de paz. Sofria bullying todo santo dia. A chamavam de estranha e faziam piadinhas quando ela passava. Não aceitavam o fato de ela ser uma pessoa antissocial, vítima da própria ignorância, a qual não permitia que ela se misturasse com os outros.
— Mas ela era tímida demais – Hannah contesta. – Não tinha um pingo de confiança em si própria. Também mal falava durante a aula, não saía da sala na hora do recreio, não conversava com ninguém, nem sequer fazia o esforço de se juntar a nós.
— Talvez ela soubesse que, se tentasse, seria ignorada.
— É verdade que ela vai voltar? – pergunto.
— Ouvi dizer que os pais dela a matricularam neste internato – respondeu Roberta.
— Uma pergunta: por que disse que ninguém aqui a reconheceria se a visse de novo?
— A Larissa mudou. Ela não é mais a mesma de antes.
— Mudou como?
— Mudou de uma forma inacreditável. É até difícil encontrar palavras capazes de descrever uma mudança tão incrível. É como se ela tivesse nascido outra vez.
A sala é inundada por um silêncio constrangedor. Todos, com exceção de mim e de Henrique, ficam igualmente surpresos.
— Francamente, Roberta, acho que você está extrapolando – diz Henrique.
— O que o faz pensar nisso?
— Eu ouvi uns amigos meus falando sobre isso. Fiquei até surpreso pelo modo como a descreviam. Nunca na vida aquela garota recebeu um elogio sequer, e eles falavam dela como se estivessem falando da miss universo. Eu, obviamente, não acreditei muito. Achei que fosse uma brincadeira.
— Só pode ser uma brincadeira – diz Hannah.
— Não sei se reparou, mas já se passaram oito meses desde que a vimos pela última vez.
— E daí? O tempo não cura nada!
— Oito meses é tempo de sobra para dar um novo sentido à vida.
— Se não acreditam, esperem para vê-la – diz Bianca. – Eu mesma estou ansiosa.
— Como dizem por aí, você pode esperar até que a vaca tussa, certo? – digo. Assim como Henrique, estou convencido de que esta história não passa de mero boato.
— Você também nunca gostou da Larissa, não é, Adrian? – diz Bianca, vindo em minha direção. – Mal olhava na cara dela. Aposto que também não acredita que ela mudou.
— Parabéns! Você acertou! Eu não acredito. Comigo é assim. Só vendo para crer.
Bianca chega ainda mais perto.
— É bom ter cuidado com o que diz!
— Ou o quê? Vai me bater? Quero só ver!
Trincando os dentes, Bianca dá um passo à frente, fechando parcialmente o punho direito. Posso ver a raiva refletida em seus olhos, que parecem arder num fogo interior. De repente ouço, muito perto, um pigarro ostensivo, um clarear de garganta. Engolindo em seco, ergo os olhos para encarar a figura alta e gorda que está bem na minha frente, esperando ser percebido. É o Sr. King.
Bianca se inclina para mim e murmura em meu ouvido:
— Você ainda vai lamentar. Vai se arrepender.
— Algum problema?
— Nenhum, Sr. King. – responde ela. – Está tudo bem.
— Já começou o exercício?
— Er... sim? Quero dizer... sim!
— Então sugiro que a senhorita volte para o seu lugar e termine a tarefa antes do sinal tocar. E quanto ao senhor... – King dá um passo em minha direção. – É bom cumprir o seu horário e não chegar atrasado, ou não serei tão bonzinho da próxima vez. Fui claro?
Sem conseguir dizer nada, simplesmente concordo com a cabeça e espero King se afastar para poder me sentar. De repente, sinto um arrepio percorrer todo o meu corpo ao relembrar o nome da garota que conheci na sétima série. Larissa Oliveira. Consequentemente me lembro do envelope, que deixei guardado em algum lugar e esqueci onde. Tento afastar esses pensamentos mórbidos da cabeça, mas eles voltam de novo e de novo. Não entendo por que, agora, minha mente se empenha em me fazer recordar constantemente desse passado. Como se fosse algo muito importante, que não pudesse ser esquecido. Tudo isso – suponho – não pode ser outra coisa que não o efeito da estranha emoção de voltar a escutar o nome daquela garota, de saber que, em breve, voltarei a vê-la.
***
Eu não saberia explicar o que me ocorreu na noite em que Miguel teve aquele sonho. Hoje, quando lembro que nossa amizade quase chegou ao fim por um deslize meu, sinto um grande constrangimento me invadir.
Mas foi uma coisa inevitável. Deixei a raiva me mover, e quando dei por mim, estava com o punho fechado, pronto para bater em meu melhor amigo. E tudo por causa de meras hipóteses. Bem, eu achava que eram apenas hipóteses. Bobagens. Mas o que para mim parecia bobagem, para Miguel significava que o meu destino iria mudar. Coisas ruins iriam acontecer e ninguém poderia interferir.
Fiquei assustado. Mas não foi isso que me fez perder a cabeça. Foi o que Miguel disse depois. Todo aquele papo de que minha vida estava prestes a mudar envolvia o fim do meu relacionamento com Hannah, e isso eu jamais poderia aceitar. Sempre confiei cegamente nele, mas, naquele momento, eu via Miguel como um estranho. Não parecia ele falando. E foi quando o inesperado aconteceu. Ameacei bater nele...
A noite cai e me sinto completamente exausto. E como se não bastasse, estou com uma baita dor de cabeça. Me jogo na cama com a esperança de dormir um pouco para aliviar a dor. Não dá certo! Só consigo rolar de um lado para o outro, provocando-me vertigem e enjoo. Cada vez mais tenso, trinco os dentes e tento ficar quieto, pensar em outra coisa, em qualquer coisa que possa colocar a dor em segundo plano. Mas não adianta!
De repente, começo a ouvir gemidos baixos, seguidos de suspiros abafados. Penso por um segundo que é minha imaginação me pregando uma peça. Mas os gemidos aumentam, e é quando vejo Miguel, rolando de um lado para o outro. Provavelmente está tendo um pesadelo.
— Nãããão!!!
O grito ecoa pelo quarto fazendo todos acordarem de sobressalto.
— O que aconteceu? – pergunta Alex. – É assalto?
— Parece que o Miguel teve um pesadelo.
— Pô! Quase tive um infarto!
— Eu sinto muito, gente. Tive um sonho estranhíssimo. Diria até que foi o mais estranho que eu já tive. Eu estava aqui, no internato. Mas estava tudo escuro e...
— Aí apareceu a Annabelle?
— Cala a boca, Zé mané! – exclama Pablo. – Deixe o cara contar o sonho. Você dizia que...
— Bem... Eu estava vagando pelo salão principal. Estava tudo coberto do mais imenso vazio. No meio de toda aquela escuridão, eu só conseguia ver um vulto e dois olhos. Dois olhos brilhantes, como duas bolas de fogo. Eles pareciam flutuar na escuridão. Achava que eram as coisas mais lindas que eu já tinha visto na vida. Tentei me aproximar deles, a fim de descobrir a quem aqueles olhos pertenciam, porém quanto mais eu avançava, mais eles se afastavam. Até que, num determinado ponto, onde havia uma réstia de luz que penetrava por um orifício no teto, eu pude ver a dona dos "olhos de fogo".
— Quem era? – pergunto, curioso.
— Não saberia dizer quem era, mas algo nela me fez ter arrepios. Ela me olhava com rancor, como se eu lhe tivesse feito algum mal. Tentei me aproximar, mas eu sentia um medo dentro de mim que me impedia. Olhei atentamente para ela, tentando reconhecê-la, mas ela me deu as costas. Eu tive a impressão de que a conhecia de algum lugar. De algum passado não muito distante. Não sei. Me pareceu familiar.
— E o que aconteceu depois?
— Ela desapareceu, de repente, em meio à escuridão. Comecei a procurá-la e foi aí que vi você e a Hannah, juntos.
— E a garota?
— Eu a vi de novo. Ela estava lá, observando vocês de longe. Ela olhava para você com a mesma frieza com que olhava pra mim. De repente, ela andou em sua direção, e como se a presença da Hannah não fizesse a menor diferença, ela simplesmente te arrancou de lá e...
— E?
— Vocês saíram de mãos dadas. Eu gritei seu nome, mas você não me ouviu. Tentei te seguir, mas foi inútil. Quanto mais eu andava, mas distante você ficava. Parei de andar e olhei para trás. Hannah estava indo na direção oposta. Comecei a gritar e foi aí que eu acordei.
Ninguém fala nada por alguns segundos. Tento imaginar quem é a garota em questão.
— Uau! – exclama Henrique, quebrando enfim o silêncio incômodo. – Que sonho mais louco.
— O que você acha disso, Adrian? – pergunta Miguel, encarando-me seriamente.
Encaro-o com uma sobrancelha levantada, sem saber muito bem do que ele está falando.
— O que eu posso dizer? Talvez você devesse parar de beber refrigerante antes de dormir.
— O que você disse?
— Adrian, por favor, não me leve a mal – diz Henrique, o indicador direito levemente erguido, como fazem os alunos mais tímidos na hora de responder a alguma pergunta. – Sou daqueles que acreditam que todo sonho tem um significado. Algo que pode ser bom ou ruim. E, pelo pouco que pude entender, sua felicidade com a Hannah parece ter prazo de validade.
Num estalar de dedos, meu semblante normalmente sereno se transforma numa carranca sem medidas. Aquelas palavras me deixam sem chão. Percebo que meus colegas também estão tensos.
— Como é que é? – Gaguejo, achando que não ouvi direito. – Mas que história é essa? Andou bebendo outra coisa além de refrigerante?
— Não – responde Henrique rapidamente. – Procure entender. Como eu disse, os sonhos têm significado. Esse me parece um aviso. Um aviso de que alguma coisa ruim vai acontecer.
— Ah, é? Por exemplo?
— Você pode achar que estou exagerando, mas quase posso garantir que assim que essa garota, a tal Larissa Oliveira, pôr os pés neste colégio, as coisas vão ficar pretas para o seu lado.
— Pensei a mesma coisa – diz Miguel. – E eu não ficaria surpreso se ela fosse a garota com quem sonhei. Se for, então isso significa que...
— ... vocês perderam completamente o juízo!
— Não precisa ficar nervoso, Adrian. Entenda que...
— Já chega, Henrique! – disparo. Em seguida, olho para Miguel. – Deixa eu te dizer uma coisa. Sonho é apenas sonho. É uma viagem da sua cabeça. Me desculpe, mas, francamente, acho que você anda vendo muita TV. E vou dizer mais, escute com atenção: nada nem ninguém vai me separar da Hannah. Nós nos amamos. Nosso amor é forte o bastante para superar qualquer desafio.
— Acho que você deveria considerar que a vida é imprevisível. – insiste Miguel. – É como meu avô dizia: um dia parece que tudo tem tudo para ser como a gente sempre sonhou. No outro, dá tudo errado e você acaba perdendo o que já havia ganhado.
— Isso... Isso é... Inacreditável! – Uma raiva incontrolável começa a borbulhar em meu estômago. Isso tudo é demais. Fecho os olhos por um momento e respiro fundo, tentando me recompor. – Escutem. Isso não faz o menor sentido. Aliás, eu acho até que já entendi tudo. É claro! Vocês não aprovam meu namoro com a Hannah, não é? Não é isso?
— Isso não tem nada a ver, Adrian! – grita Henrique, dando um passo em minha direção. – Você sabe que não temos nada contra o seu namoro com a Hannah. Muito pelo contrário.
Lágrimas inundam meus olhos, e então a raiva atinge em cheio a minha garganta, queimando-a com tamanha fúria que minha voz parece um rosnado quando as palavras irrompem da boca:
— Não me venha com hipocrisia!
— Olha aqui! Eu não engulo desaforo, não, tá entendendo?
Henrique parte para cima de mim, com os dentes à mostra e os olhos ardendo em furor. Francamente, não sei o que teria acontecido se Alex não tivesse se metido entre nós.
— Opa, opa! Calma aí, vocês dois. Paz! Se houver uma briga aqui, vão arranjar encrenca da grossa e, o que é pior, podem acabar sendo expulsos.
— Então manda esse cara baixar a bola!
— Querem saber? Para mim já deu!
Levanto-me da cama com pressa. Não posso ficar aqui. A coisa está ficando tensa demais. Quando estou prestes a sair, Miguel bloqueia meu caminho.
— Adrian, escuta!
— Sai da frente, Miguel!
— Adrian, fica frio! Me escute!
— Saia da minha frente, eu já disse!
— Não enquanto você não parar de gritar e se acalmar!
— Eu disse para sair da frente!
Com um movimento brusco, levanto o punho para bater nele, mas algo me detém. Minha voz interior. No último segundo, ouço o seu clamor:
Pare! Não faça isso! Não percebe que está cometendo um erro?
Fecho os olhos. Em seguida, olho de volta para Miguel. Só então percebo até onde a falta de controle me levou. Estava agindo como um animal, sem me dar conta disso.
— Quer mesmo fazer isso? – pergunta Miguel, dando um passo à frente. Uma lágrima escorre do seu olho esquerdo. Isso me faz recuar.
— Escuta... – digo, baixando o tom da fala. – Já chega disso, ok? Não quero ouvir mais nada.
— Adrian, nós somos seus amigos. Você pode confiar na gente.
— Eu vou deixar uma coisa bem clara para vocês. – Faço uma breve pausa, deixando o ar invadir os pulmões. – Eu juro... que nenhuma outra garota vai me separar do amor da minha vida. E tenho dito.
Volto à cama. Embora minha cabeça esteja a ponto de explodir, consigo adormecer. Quando acordo na manhã seguinte, a cabeça já não está mais doendo, mas o corpo pesa como chumbo, como se todo o peso do mundo estivesse em cima dele. Briguei com meus melhores amigos – é o que martela em minha mente. E o pior de tudo: eu estava consciente do meu erro mesmo enquanto agia. Minha consciência agora pesa, e muito. Preciso reverter esta situação. Só não sei como.
Você sabe o que tem que fazer – diz a voz irritante. – Peça perdão.
Essa voz que soa ríspida e intimidante, como se fosse minha própria mãe falando, vive me cobrando e dando bronca. Já estou cansado dela. Finalmente, esfrego os olhos e me espreguiço. Estou hesitante, não somente pelo fato de que, muito provavelmente, qualquer movimento brusco vá me deixar tonto, mas também pelo desafio que terei que enfrentar daqui a pouco.
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