Notas iniciais
Meses se passaram desde a fatigante luta pela vida travada pela avó de Adrian, e agora eles comemoram a chegada de um novo ano. Que surpresas aguardam Adrian nos próximos dias? Acompanhem esta envolvente história de amor e superação!

— MEU NÃO TÃO QUERIDO DIÁRIO —

Terça. 01/01/13. 08:42 A.M.

Olá, diário. Faz muito tempo que não escrevo nada, mas decidi escrever hoje, só para descontrair! Não tenho nenhuma queixa a fazer, exceto que ultimamente o tempo tem passado depressa demais, tão depressa que às vezes me perco, e eu não gosto nada disso!

Estamos no Ano Novo, minha época favorita do ano. A noite passada foi incrível. A ceia estava deliciosa. Além do tradicional peru assado, vovó fez arroz com lentilhas, salada de folhas e verduras variadas, lasanha à bolonhesa e mais um prato que eu não consegui identificar o que era, mas que também não dei muita atenção por ter me empanturrado com os outros três.

Esperamos dar meia-noite para colocarmos sete uvas na boca e comê-las pulando sete ondas de costas para o mar. E para começar um ano cheio de prosperidade, pegamos sete caroços de uma romã madura, deixamos secar e colocamos dentro da carteira ou bolsa para atraírem dinheiro durante todo o novo ano que virá.

O que eu não sabia é que, assim que chegássemos em casa, teria uma surpresa nada agradável. Depois de vários meses acreditando que Érica tinha esquecido aquela história de nos mudarmos para São Paulo e de me mandar para um internato, ela voltou a me assombrar como um fantasma que volta do além só para puxar o nosso pé.

“Não, eu não me esqueci,” disse ela. Estávamos no meu quarto. Eram quase duas da manhã e ainda estávamos um pouco zonzos por causa do rebuliço da noite. “Eu só dei um tempo. Um tempo para nós.”

“Eu não acredito no que estou ouvindo, Érica Lindenberg!”

“Filho, escuta...”

“Estamos ‘bem’ aqui, não estamos? Somos felizes, não somos? Por que precisamos mudar de casa, deixar a vovó? Como vamos dizer isso a ela?”

“Você vai me deixar falar ou não?”

“ Vou,” disse, fazendo um muxoxo.

“Em primeiro lugar, quero deixar claro que eu sempre penso muito bem antes de tomar qualquer decisão. E esta não foi uma decisão que tomei de forma impensada. Em segundo lugar, já conversei com a sua avó, e ela está plenamente de acordo que tentemos a vida em outro lugar. No início, eu achei que ela fosse ficar desapontada, mas foi o contrário. Ela ficou feliz por nós e desejou boa sorte.”

“Você falou com ela e ela concordou. Ótimo. Muito bem. Mas a senhora não acha que deveria... sei lá... ter falado comigo antes?”

“Acho.”

“A senhora não pensou nisso, não foi?”

“Claro que pensei. Mas tive minhas razões para não te incomodar com esse assunto. Primeiro, teve a doença da sua avó. Não podíamos deixá-la sozinha. Mas Deus, em sua infinita bondade, ouviu nossas suplicas e a curou, e agora ela goza de uma saúde perfeita outra vez. E você vai ficar surpreso quando eu disser que foi ela mesma que me aconselhou a ir em busca de novas oportunidades, conhecer novos lugares, mudar a direção do caminho que nos trouxe até aqui. Eu estava decidida a fazer isso naquele mesmo dia, sete meses atrás. Mas vi que você precisava de uma injeção de autoestima, se desvencilhar do passado, voltar a ser o que era antes do seu pai nos deixar. Por isso decidi passar uma longa temporada aqui. Dei um tempo para você pensar no que pretendia fazer assim que o ano acabasse. Você fez isso?”

Ela esperou que eu dissesse algo, e quando viu que eu não tinha nada para dizer, prosseguiu:

“Certo, eu não te culpo. Afinal, é para isso que serve um ano sabático. Esfriar a cabeça. Relaxar. Se divertir... Deus nos deu a oportunidade de fazer isso. Mas agora, é hora de tomarmos um novo rumo. E você precisa voltar a estudar.”

“Mas por que São Paulo? Por que justo lá?”

“Vou explicar. Dentre os bens que seu pai nos deixou, tem uma casa na capital, e um carro.”

“Ele nos deixou uma casa?”

“Sim. Uma casa escriturada e registrada em meu nome,” diz ela, com uma empolgação visível. “Vamos ter uma casa só nossa. Vou arrumar um emprego e você vai voltar a estudar. Vamos fazer do jeito que seu pai sempre sonhou. Tenho certeza de que ele ficaria feliz. Não tenho a menor dúvida disso.”

De certa forma, fiquei feliz com a notícia, mas não totalmente. Por dois motivos: A) Para sair dali, eu tinha que deixar minha amada vovó para trás. Um fato sobre mim: eu me apego muito fácil às pessoas e demoro para esquecê-las. Vivo me perguntando: Por que essa memória tão boa? Eu não podia ter um pouco de amnésia? Um pouco de amnésia não me faria mal, não mesmo... B) Por uma razão que ainda desconheço, vou para um colégio interno. A sensação de ficar “sozinho” num lugar desconhecido faz os meus pelos eriçarem. Não sei se vou me adaptar.

“Espero que compreenda, Adrian. A partir de amanhã, uma nova etapa da sua vida vai começar. Talvez agora não seja uma boa hora. Mas se não for a hora, dane-se! Faça com que seja!”

Infelizmente, fiquei sem reação. Apenas disse:

“Está bem.”

“É assim que eu gosto. Amo você.”

“Também te amo.”

Com um suspiro, ela se levantou e saiu. A porta se fechou e eu me virei, procurando a melhor posição para dormir. Fechei os olhos, imaginando uma porta que estava fechada havia anos. Estava empolgado. Finalmente, ela iria se abrir. E eu mal podia esperar para descobrir o que havia do outro lado.

2 de Janeiro de 2013

A mala já está pronta. Antes de puxar o zíper, me certifiquei de que tudo estava no seu devido lugar. Minhas roupas, meu videogame, meus gibis do Superman, meus materiais escolares e, não menos importantes, meus tesouros preciosos.

Quando terminei de fazer as malas, fui para a cozinha arranjar algo para comer, já que não comia nada desde o café da manhã. Minha barriga estava roncando demais, parecia mais um trovão. Dei uma olhada na geladeira e peguei um chips, sem me importar se passaria mal. Me sentei no sofá e, involuntariamente, comecei a refletir sobre a nova vida que me espera. Não sei se para melhor ou pior, mas com certeza as coisas irão mudar.

Depois de muito refletir, cheguei à conclusão de que onde estou não é o meu lugar. Decidi que o melhor para mim é deixar a vida me levar para onde ela quiser e esperar para ver até onde vou chegar. Pressinto nuvens sombrias no horizonte, mas imagino superá-las.

23 de Janeiro de 2013

O lugar é lindo. As ruas são arborizadas, os endereços são pertinentes com os nomes escolhidos, as casas são altas, de tijolos vermelhos, com portões brancos, venezianas de vidro, jardins lindamente enfeitados por rosas e ficam muito próximas umas das outras. Imagino que este seja o tipo de lugar com o qual meus pais sempre sonharam em viver.

A casa é amplamente espaçosa, muito mais do que pensei, com um jardim exuberante na frente e um caminho de cascalho que leva até a porta de entrada. A área externa é sustentada por três colunas de gesso e há trepadeiras descendo pelas paredes. As janelas, cujas persianas de madeira se mantém hermeticamente fechadas, ficam quase totalmente escondidas por um muro verde vivo. O jardim é coberto por grama e arbustos com flores dos mais variados tipos. Rosas, gardênias, cravos e copos-de-leite. É um lugar com a cara da minha mãe.

Estamos sentados na área externa, saboreando uma pizza de calabresa e vislumbrando a rua à frente toda iluminada pelas luzes e pela lua, os carros entrando e saindo, as casas ao redor, algumas com suas luzes acesas e seus habitantes sentados em cadeiras de balanço. Não se vê nenhuma pichação nos arredores. Tudo aqui é diferente.

Com o passar do tempo, fomos nos adaptando e descartando a hipótese de que não seriamos bem recebidos neste bairro charmoso e deslumbrante. Érica é uma pessoa muito comunicativa e logo fez amizades com os novos vizinhos. Graças a uma amiga que é dona de uma agência de viagens, ela conseguiu o emprego de secretária, e, graças ao seu novo meio de transporte, vai e vem sem nenhuma preocupação ou desconforto. Bem, quando o trânsito coopera.

E, graças às minhas novas amizades, tenho um programa marcado em quase todos os dias da semana. Nas segundas, nas terças e nas sextas, fazemos academia. Nos sábados e domingos, temos treino de futebol. E nos demais dias em que não temos nada para fazer, passeamos juntos, andamos de bike pela cidade, vamos ao cinema ou ao teatro, e todas as vezes nosso percurso nos leva à praça principal, onde um grupo de garotas se reúne todas as noites.

Falamos de muitas coisas. Rimos bastante e também conversamos sobre anseios e angústias pessoais. Na companhia deles, sinto confiança suficiente para falar o que durante muito tempo ficou guardado dentro de mim. A timidez já não é mais um problema. As palavras fluem da minha boca sem medo nem preocupação.

“Durante muito tempo fiquei isolado numa espécie de prisão. Em outras palavras, proibia a mim mesmo de viver. Quando meu pai morreu, me desconectei do mundo. Eu não queria seguir em frente. Não queria fazer nada. Parei de estudar. Abandonei meus amigos. Esqueci até que tinha uma mãe lutando por mim. Mas, um dia, tudo mudou. Coisas aconteceram e me fizeram ver que eu estava cometendo um grave erro. E, no final, tudo voltou à sua normalidade.”

“Você já teve uma namorada?”

“Só uma. Uma garota que conheci em Londrina. O nome dela é Mônica. Tivemos um breve relacionamento. Se é que posso chamar o que tivemos de relacionamento.”

“Por quê?”

“Mônica é uma pessoa muito fechada. E, na época em que estivemos juntos, eu tinha acabado de passar por um transtorno. A morte do meu pai. Então estávamos insatisfeitos com o rumo que nossa vida havia tomado e decidimos terminar.”

“E desde então nunca mais se apaixonou?”

“Bem... não.”

Sei melhor do que ninguém que isso não é verdade. Em parte, meu relacionamento com Mônica não durou muito por causa das muitas brigas e diferenças, mas falta um detalhe que eu nunca revelei a ninguém, nem mesmo para Miguel. Esse detalhe tem nome e sobrenome: Hannah Anderson. Meu primeiro amor. Alguém que conviveu comigo durante quase toda a minha infância e, assim como Miguel, desapareceu misteriosamente.

Antes de conhecê-la, minha resposta para aquela famosa pergunta “você acredita em amor à primeira vista?” era sempre “não”. Mas como explicar o que se passou comigo no dia em que a vi pela primeira vez? Como explicar o fato de não conseguir pensar em mais ninguém além dela? E o fato de ficar enfeitiçado de tal maneira que até hoje não sei ao certo como ou por que isso aconteceu?

Até hoje me pergunto o que devo fazer acerca disso. Esquecê-la? É uma boa alternativa, já que não faço a mínima ideia de como encontrá-la. Tentar encontrá-la? Como? Ela não deixou vestígios, simplesmente sumiu...

Certa vez ouvi dizer que a vida é a arte do reencontro... então, irei esperar um dia reencontrá-la...

Notas finais
Estão gostando? Se sim, continue lendo e sintam-se livres para comentar e opinar! Sua opinião é de suma importância! Até logo!!!!!!