Notas iniciais
Jen tinha sumido. Por mais estranho que se possa parecer, eu sabia que ela não teria ido para a casa dela, mesmo que esse fosse o seu desejo. Ela teria ido para a minha casa, tudo para manter o disfarce, as aparências.
Assim, acabei indo para a casa dela, pensando em tudo o que eu tinha enfrentado hoje. Em cada uma das palavras, dos olhares. Vendo a agenda dela para a semana e tendo que me encaixar em um mundo que eu achei que conhecia.
Lá dentro, a única coisa que percebi era a semelhança. A semelhança de que nada, nem ninguém a esperava quando ela chegava, assim como acontecia comigo. Jen não tinha ninguém. Todo dia ela era uma das primeiras pessoas a chegar na agência e a última a sair. Tudo porque ela também não tinha ninguém, e não tinha um porão com um barco, assim, se afundava em trabalho.
Eu não fazia ideia do que ela estava fazendo na minha casa, não sabia no que ela estava pensando, porém, eu ainda precisava de explicações. Que ela jamais daria por telefone.
Vaguei pela casa dela até que parei no quarto. Se tinha um cômodo nessa casa imensa que gritava a presença de Jen, era esse. Nem o escritório – que eu acredito ainda estava do mesmo jeito desde quando o pai dela o usava – demonstrava tanto a presença dela quanto aqui.
Se eu tinha ficado aterrorizado com o closet e a bolsa dela, nada tinha me preparado para a penteadeira. Eu tinha visto, de relance, enquanto ela pegava um desses negócios de passar maquiagem, uma caixa, assim que ela viu que eu observava o objeto, fechou a gaveta com força. E foi exatamente essa gaveta que eu abri.
A caixa estava ali, trancada. Dei uma olhada na fechadura, nada muito elaborado, com a pressão certa de um grampo...
Abri, só para ver algo que eu não deveria.
Ela tinha guardado tudo. Cada um dos presentes que eu dera a ela. Diferentemente de mim que coloquei em uma caixa e larguei no quarto que seria de hóspedes da minha casa, ela guardou com cuidado. Até as fotos estavam ali. Sendo uma delas, a que eu tinha pedido para McGee entregar a ela, pouco antes de dizer que voltaria para o México.
Eu só ia dizer que o seu cabelo assim me lembra de quando estávamos na Sérvia. Você se lembra, aquela casinha de fazenda, não tínhamos nada o que fazer a não ser... – Recordei o comentário e me lembrei do sorriso dela ao dizer isso.
Naquele dia eu a interrompi e disse que não me lembrava. Que minha memória estava confusa.
A verdade era que eu me lembrava, só não quis dizer a ela.
E aqui, na minha frente, estava o motivo dela se lembrar tanto, de tantos detalhes.
Passei foto por foto, minha memória voltando aos momentos exatos, ou até além.
Por que ela fazia isso com ela mesma? Será que Jen nunca tinha aprendido a lição sobre “seguir em frente”?
Ironia minha... como eu queria que alguém seguisse em frente quando eu não sabia o que era fazer isso?
Mas eu me importava demais com Jenny para saber que ela estava sofrendo pelo passado.
Sem ninguém para voltar... ela era nova o suficiente para poder ter uma família. Ainda tinha tempo e esperança para ela. Não tinha?
Passei pelas fotos novamente. Cada uma delas. Não eram só fotos, eram memórias.
Jenny não tinha ninguém esperando por ela em casa, porque...
— Não, Jen... você não fez isso comigo! Você não fez isso com você!! Por quê?
O imenso relógio do primeiro andar bateu dez e meia da noite. Que se dane as aparências.
Dispensei o detalhamento de segurança e fui para onde eu deveria ter ido desde cedo. Junto comigo, levei a caixa.
Parei um tanto afastado, só para ver que tinha um outro carro, com pouco Hollis saía da casa.
Mais uma complicação...
Esperei ela se afastar e sumir de vista, antes de entrar, quis ter a certeza de que ela não voltaria.
Abri a porta destrancada e olhei em volta. Tudo estava apagado e silencioso. Nada muito diferente do normal. Me sentei no sofá da sala e esperei. Depois fui até o meu quarto e fiquei impressionado em saber que Jen não tinha vasculhado a casa inteira. Peguei o que me interessava e voltei para a sala.
Levou quase uma hora para que ela saísse do porão. Estava quase descendo para ter certeza de que Hollis não tinha vindo aqui em uma missão assassina, ainda mais depois que ela descobriu sobre o anel... Quando Jen surgiu das trevas. Ela só disse uma palavra quando me viu:
— Você.... – Disse sem emoção.
Eu rodava a caixinha na minha mão. Era hora de pôr os pingos nos is.
— Sim, Jen.
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— Jethro, por favor. Não hoje. – Eu pedi, mas na verdade eu queria dizer: “por favor, nunca!”
Ele me encarou. Era estranho encarar o meu rosto e ver a expressão de Jethro. Algo que não combinava.
— Vem aqui. – Ele apontou para o lugar ao lado dele no sofá.
Meus olhos seguiram seus movimentos e eu vi, que além a caixinha na mão dele, havia uma outra caixa do seu lado. E eu conhecia aquela caixa.
— Por que você mexeu nas minhas coisas? – Precisei saber. – Eu não toquei em nada que não devia dentro da sua casa, por que você se achou no direito de vasculhar a minha vida? – Estourei.
Ele não pareceu tão desconfortável como eu achei que ele tinha que parecer, ao invés disso, simplesmente abriu a caixa de madeira e tirou duas fotos.
A primeira foi a que ele mandou McGee me entregar, antes que ele fosse embora novamente para o México.
E a segunda era uma foto dele, quase no mesmo local. A única diferença, além de quem aparecia, é claro, era o estado da foto. A que ele havia me dado estava praticamente intacta, já a foto dele estava um tanto desgastada nas bordas. E estava assim por um motivo, eu passei muito tempo olhando para aquela foto em particular depois que eu fui embora. Se olhasse com cuidado era bem capaz de se ver algumas manchas das lágrimas do meu arrependimento.
— Quando eu pedi que McGee te entregasse essa foto, Jen, eu tinha certeza de que você entenderia.
— Que você se lembrou do que eu disse, só não quis me falar?
— Mais ou menos isso...
— Mais ou menos, por quê?
— Porque em partes era verdade, eu ainda estava confuso. Estava tentando por cada uma das lembranças que tinha de você em uma ordem cronológica e ainda entender o motivo de você ter ido embora.
Eu não tinha o que dizer. Hoje... depois de tanto tempo, os meus motivos pareciam tão tolos. Depois que eu vi as consequências da minha escolha, eu faria tudo para mudá-las. Mas era tarde.
— E então, a Abby fez isso aqui acontecer. – Ele continuou. – E eu acabei por descobrir que nós dois...
— Temos mais em comum do que poderíamos imaginar. – Terminei a sua frase.
— Isso. Nós temos.
— Não pelos mesmos motivos. – Falei.
— Os motivos não importam, Jen.
— É claro que sim, Jethro. Você não escolheu ficar sozinho. Você não quis isso! Eu sim. Eu fiz a minha escolha! Essa é a diferença vital entre nós dois.
— Isso não é totalmente verdade. – Ele me respondeu depois de algum tempo.
— Como é?
— Eu não escolhi perder a minha família, Jen. Sobre isso você está certa. Mas eu também não fiz nada quando você me deixou. Eu não fui atrás de você; eu não insisti com você sobre o não que você me deu quando você voltou. Nessa parte eu pude escolher e, assim como você escolhi errado.
Eu já estava tão confusa, que levei o dobro do tempo para processar as palavras que Jethro falava.
— Você... não... você não disse o que eu acho que você disse. – Me levantei e saí da sala, mas o espaço aberto entre os três cômodos ali não me dava muita privacidade.
— Por que você guardou essas fotos, Jen? Por que você sempre olha para elas?
Hoje era, indiscutivelmente o pior dia da minha vida.
Decidi por ficar calada. Não foi uma escolha sábia, quando notei que ele estava perto de mim.
— Você usou o meu nome como se eu fosse o seu parceiro de longa data porque você tinha provas, não foi? E de tantos nomes que você poderia escolher...
— Pare, por favor. Você não quer ouvir isso, tanto como eu não quero falar.
— Me fale a verdade. – Ele ordenou.
— Que verdade? Que eu não consigo seguir em frente? Que eu tentei, Deus sabe que eu tente, Jethro, mas isso – sem querer apontei para nós dois. – é mais forte do que eu. Eu não consigo te esquecer. Eu não consigo. E não me pergunte o porquê, sendo que fui eu quem parti. Mas eu parti por medo, por medo do que eu sentia e por tudo o que o você disse. Eu tentei colocar a minha felicidade abaixo da minha carreira, porque eu tinha certeza de que nada seria mais importante do que ser o que eu sou agora. Mas eu estava errada. Completamente errada. Não há nada pior do que chegar em casa e não ter nada nem ninguém te esperando. E essa sensação de vazio ficou dez vezes pior nessa semana, porque aqui, dentro dessa casa, eu sei que existem memórias que eu jamais vou saber como são, porque eu nunca vou saber o que é ter uma família, por minha culpa. Porque eu joguei minha felicidade no lixo e deixei o homem que eu sempre amei para trás. Está feliz? – Eu nem sabia de onde tinha vindo todas essas palavras.
Como eu havia pensado mais cedo, eu realmente entendia Jethro agora, mais do que eu jamais poderia pensar.
— Você não foi a única a jogar a felicidade fora, Jen. Eu também fiz isso.
— Em qual dos seus casamentos?
— Em nenhum deles. – Ele tornou a estender a foto da Sérvia. – Eu deveria ter ido atrás de você. Eu sabia onde você estava, onde esteve. Eu poderia ter te encontrado e pedido explicações. Mas eu não fiz, como você, preferi viver de um passado e não dei oportunidade para um futuro. – E ele colocou uma caixa de joia em cima da mesa que no separava.
Será que era a mesma caixa que a Coronel tinha visto?
— Posso fazer uma última pergunta? – Ele perguntou, me fitando atentamente nos olhos.
— Sim.
— Você foi sincera naquela noite?
Uma miríade de imagens passou pela mente, a última delas, o exato momento em que eu disse “Eu te amo”, para Jethro.
— Eu nunca falei tão sério na minha vida quando naquele momento. – Foi a minha resposta.
Logo em seguida outra frase queimou minha memória: “Esse vai ser o dia.”
— Sabe o que “esse vai ser o dia” significava, Jen?
Se pensar já doía, escutá-lo falando as mesmas palavras era como jogar sal em uma ferida aberta.
— Não. – Já que estava sendo sincera, decidi por continuar nesse caminho. – Mas sempre tive curiosidade em saber.
— Aquele seria o dia em que eu te daria isso. – Ele abriu a caixinha e a empurrou para o meu lado.
Eu quis correr para bem longe dali. Quis gritar. Quis chorar. Quis bater em Jethro. Quis... eu quis estar no meu corpo para saber como reagir a tudo isso de uma maneira normal.
— Não faça isso... – Foi quando eu notei que a minha voz estava saindo certa. E eu olhava para Jethro e não para o meu corpo.
Aprendam a respeitar o sentimento um do outro e a troca será automática....
Eu me permiti chorar, não de alívio por estar no meu corpo, mas de desespero. O que eu tinha feito com ele? Comigo? Conosco?
— Eu sou tão culpado quanto você, Jen. Você fugiu por não entender o que eu disse, mas eu nunca te expliquei a verdade... – Jethro veio até o meu lado e me encarava. Era um alívio ver aqueles olhos azuis no rosto certo, com a personalidade certa.
— Eu acho que era isso....
— Que a Abby queria nos dizer? – Ele completou.
— Também...
— Mann?
— Você a viu saindo daqui?
— Vi. Ela falou...
— Sobre o anel. Sobre ter sido boba e não ter percebido algo antes... – Deixei a frase no ar.
— Percebido o que? – É claro que ele iria querer saber o que era. E eu não poderia enganá-lo mais.
— Sobre o que nós dois fomos cegos para ver. Ou teimosos demais. Ela viu o mesmo que Abby teve tanto trabalho em nos mostrar. Mas que pelo visto ainda não temos coragem de falar.
Nos encaramos. Era a oportunidade perfeita. Não teria outra chance. Se um de nós saísse por aquela porta, talvez jamais o outro tivesse a coragem de dizer o que sentia. Quando seríamos tão sinceros um com outro quanto agora? Ainda mais depois de sentir na pele o que o outro passa todo dia? Jamais.
— Eu... você viu o que eu sou, o que eu faço, o que eu passo, Jethro. Eu vi o que você faz, aguenta e passa todo dia... será que... – Ele me calou colocando um dedo na frente dos meus lábios. Depois abaixou o olhar até que ficasse da minha altura.
— Eu te amo, Jen.
Foi o que bastou para que as lágrimas que eu segurei enquanto estava no corpo dele, rolassem pelo meu rosto.
— Nenhum de nós é perfeito. Eu já sabia disso. Você também. Mas também não conseguimos ficar longe um do outro. Se conseguíssemos tínhamos seguido com nossas vidas normalmente e não tentado fazer ciúme no outro, enquanto tentávamos arrancar uma reação a mais, que quebrasse a nossa fachada e nos fizesse ceder para contar a verdade.
Eu só sabia encará-lo. Jethro jamais disse tanto em tão pouco tempo. E com tamanho significado.
— Mesmo depois de tudo? – Balbuciei as palavras.
Ele me devolveu as palavras.
— Mesmo depois de tudo, Jen?
Eu sabia muito bem o que era tentar viver sem ele, tentar substituí-lo. Tê-lo de volta para perdê-lo de novo.
— Sim. Mesmo depois de tudo. – Eu não conseguia parar de chorar.
Jethro me abraçou tão forte que eu achei que eu iria me fundir a ele, o que não seria tão estranho, tendo em vista que eu fui ele pelos últimos dias. Depois, olhou para mim de um jeito que me tirou o fôlego e me beijou.
— Dessa vez vai dar certo, Jen. – Ele me garantiu e eu jamais duvidaria dessas palavras.
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Novamente acordei no sofá, minhas costas doendo. Antes mesmo de abrir os olhos, que mesmo fechados ardiam como se eu tivesse chorado por toda a noite, comecei a praguejar.
— Por que meus sonhos têm que ser tão... vívidos?
— Eu tenho certeza de que não foi um sonho, Jen.
Minha respiração ficou presa na minha garganta. Devagar abri os olhos e praticamente me joguei para fora do sofá, mas dois braços me impediram de cair no chão.
— O que não foi um sonho?— Tudo aquilo ainda parecia irreal para mim.
— Sinto muito em dizer que só a última noite. – Ele me respondeu.
A última noite... eu estava confusa, mas me lembrava exatamente da noite. De toda ela.
— Normalmente você, dentre nós dois é quem sempre tem as palavras na ponta da língua. – Jethro comentou e ele parecia feliz, mais relaxado do que nunca.
— Ainda não estou acreditando...
— Quer que eu resuma para você? – O sorriso inocente no rosto dele não me enganava.
— Só que seja sincero.
— Em qual parte?
Levantei uma sobrancelha para ele.
— Até onde me lembro, eu fui o responsável por todas as declarações da noite. – Ele deu de ombros, se sentou e me puxou junto com ele.
— É mesmo? Isso é bom. Agora você realmente sabe como é, ser o único que fala em uma relação.
E ao invés de me dar uma resposta sarcástica, ele apenas riu.
— Achei que você acordaria de bom humor, afinal de contas, está de volta ao seu corpo, pode calçar seus sapatos, vestir aquelas malditas roupas apertadas, sem falar nisso... – ele me estendeu uma peça bem específica.
— Tinha que arrebentar outro?!
— Minha vingança. Isso aperta. E nada de comentar que foi bem feito. Deixou uma marca nas suas costas e em seus ombros... – Ele não pareceu feliz ao falar disso e me deu um beijo em cima da marca do ombro.
— Obrigada. – Sussurrei. Um beijo não faria nenhuma marca desaparecer, contudo era um paliativo muito bom. Saber que alguém se importava.
— Ainda não acredita?
— Estou absorvendo o momento. Ou apreciando tudo isso.
— Isso o que?
— Nós. Essa calma e uma certeza estranha.
Jethro me apertou mais ainda pela cintura.
— Que certeza estranha?
— De que alguém se importa. De que eu não estou mais sozinha. Que...
Ele ficou em silêncio, esperando que eu colocasse em palavras as minhas certezas.
— Que eu não vou te perder. Que eu vou, finalmente, ficar com você.
Minha última frase teve um efeito mais do que bem vindo em Jethro, pois a gargalhada que ele deu foi a melhor resposta que ele poderia me dar.
— Nem se você quisesse, eu te deixaria partir dessa vez, Jen. – Ele, então, esticou o braço e pegou a caixinha, a mesma caixinha da noite anterior, e a equilibrou no meu joelho. – Não vou apressar nada, mas já que foi você quem inventou um noivo, parceiro, marido ou sei lá qual foi a desculpa que você deu sobre mim, acho que seria uma boa ideia você ter algo para provar que eu existo de verdade.
Foi quando eu tomei coragem para encará-lo pela primeira vez. Tinha a caixinha na minha mão quando me sentei virada para ele.
— E se Jethro fosse meu cachorro? – Perguntei séria.
— Esse Jethro está com o McGee. – Ele me respondeu entrando na brincadeira.
— E se fosse outro Jethro?
— Eu fiquei na sua casa por cinco dias, Jen, lá não tem sinais de que, um dia, existiu um cachorro.
Dei de ombros.
— Mas poderia ser um cachorro. Eles são bichinhos fiéis.
— Você quer um cachorro, Jen?
— Você, eu e um cachorro chamado...
— Duke.
— Isso é jogo sujo! John Wayne dando vida a Duke foi quem falou...
— Esse vai ser o dia?
— É! – Respondi com um bico. Ele poderia fazer graça, mas essas palavras ainda cortavam fundo.
— Você quer um cachorro, Jen?
Eu tive que rir.
— Eu acho que é você quem quer ter um peludo pela casa, Jethro... – Levantei uma sobrancelha.
— Eu não me importaria. Tive um quando criança.
— Qual raça? – Me interessei pelo assunto.
— Era de rua.
— Resgatou um filhote? Que bonitinho.
— Jen, você não respondeu a minha pergunta.
— Sobre o cachorro? – Me fiz de desentendida.
— Sobre isso. – Ele tomou a caixinha da minha mão e abriu. Mais uma vez eu perdi o fôlego com a beleza da peça. Ainda não sabia se merecia tamanha consideração.
Meu dedo indicador flutuou sobre o anel, passando pelo aro simples, e parando perto do diamante azul claro. Tão claro quanto os olhos da pessoa sentada na minha frente.
— Você tem certeza? Podemos viver sem isso. Eu nem ligo para o que as pessoas pensam mesmo. – Dei de ombros, mas fascinada com a joia.
— Não é pelos comentários, Jen. Se trata de nós. E sim, eu tenho certeza.
— Cinco é o seu número da sorte? – Perguntei.
— Não sei sobre isso. Mas tenho certeza de que será.
Sorri e estendi a mão direita. Jethro não hesitou um mísero minuto e foi logo colocando o anel onde eu tinha certeza, ficaria pelo resto da minha vida. Para agradecer o presente completamente inesperado, o abracei pelo pescoço e o beijei.
— Eu bem que gostaria de continuar com essa comemoração, Jen, mas acho que a sua fiel assistente vai ter um troço se você não seguir à risca o cronograma que ela preparou para você. E isso inclui uma prova de vestido dentro de... – Jethro conferiu as horas. – oitenta minutos. E eu sei que você não vai querer sair vestida de qualquer jeito, não é? – Seus olhos refletiam seu sorriso e seu bom humor.
Eu tinha me esquecido disso. Aliás, eu queria fingir que estava doente e não ir trabalhar...
— Eu ainda posso te arrastar comigo amanhã? – Perguntei.
— Eu não tenho roupa para isso, Jen... – Foi a resposta que recebi.
— Bem... você não deveria ter deixado a senha do seu cartão dentro da sua carteira... – Dei de ombros. Jethro me afastou e me encarou.
— O que você fez?
— Você vai ficar muito bonito dentro do terno que eu te comprei, fica pronto amanhã de tarde. Depois de passo o endereço da loja. – Falei o mais depressa possível e pulei do sofá.
— Jen... – Ele veio com aquele tom.
— Eu te disse que você iria a esse baile, querendo ou não... Agora vá se arrumar que eu preciso de uma carona até a minha casa.
Ele pareceu bem interessado nesse ponto.
— E que desculpa a Diretora do NCIS vai dar aos seguranças por estar desaparecida desde ontem à noite?
— Ela tem direito de ter uma vida, não tem? – Foi a minha resposta. – Agora vá vestir a roupa que já está separada lá em cima enquanto eu faço o café.
É claro que ele foi mais rápido do que eu jamais conseguiria ser. E menos de quinze minutos depois, estávamos saindo para a minha casa.
— Acho melhor você entrar pela porta dos fundos... – Ele comentou com um sorriso.
Ainda tentava dar um jeito no meu cabelo, quando ele parou na frente da minha casa.
— Vou te mostrar um segredo. Não conte a ninguém. – Falei e tirei o controle do portão da garagem de dentro do porta-luvas. – Agora, guarde o carro lá.
Jethro fez o que eu pedi e, assim que o portão se fechou, disparei para dentro da casa. O relógio não queria ser paciente comigo.
— Señora? – ouvi Noemi me chamando. – Saiu para correr?
— Sim, Noemi. – Respondi já do segundo andar.
Assim que saí do banheiro para procurar algo para vestir no meu closet, vi que Jethro estava sentado na minha cama, com um copo de café na mão.
— Outro? – Perguntei incrédula.
— Ainda vai demorar muito?
— Me erra.
Procurei por uma peça específica e enquanto eu me vestia ouvi o seguinte comentário:
— Você ainda não me respondeu para que servem certos conjuntos que estão dentro de uma das suas gavetas, Jen.
E como eu o ignorei, veio o segundo:
— Nem sei o motivo de você estar se escondendo aí. Até parece que... – Antes que ele pudesse terminar a frase, eu o calava com a minha mão.
— Vamos combinar que tudo o que você viu nos últimos dias, fica entre eu e você, ou só com você... tudo bem?
Ele me olhou com interesse.
— Vai vestida assim?
— Não tem nada demais na minha roupa. Eu já usei isso antes!
— Nada demais porque não é você que vai ficar olhando!
— Vai dar ataque de ciúmes agora?
— Acho que tenho direito. – Ele estava bem atrás de mim, e me fitava através do espelho.
— Não tem não. Tem o direito de me deixar em paz e parar de ser a polícia da moda. – Me virei na sua direção e, finalmente calçada com meus saltos, igualei as nossas alturas. – Agora seja gente boa, e me dê uma carona até o centro de D.C. preciso fazer a prova de um vestido! – Encostei de leve meus lábios no dele.
— Jen... – E ali estava o alerta de novo.
— Jethro... – Me fingi de santa.
— Isso vai ter troco. – Ele falou enquanto me guiava escada abaixo, eu estava tão feliz, que até Noemi notou a mudança no clima da casa, sorrindo quando me despedi dela.
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Depois de esperar por quase uma hora Jen experimentar o vestido para o tal de baile e tentar arrancar dela, no caminho até o NCIS, o que ela havia comprado com o meu cartão, sem conseguir que ela falasse. Era hora de voltar ao normal.
— Vamos manter a fachada de que ainda estamos brigando ou vamos jogar a bomba de uma vez? – Ela quis saber pouco antes de nos separarmos no elevador.
— Deixa que eles descubram. Vamos ver se são bons nisso...
— Falando em ser bom em algo. – Jen começou, assim que travou o elevador. – Monitore a última aposta do DiNozzo, por mim.
— Que aposta?
— Você vai ver no seu e-mail.
— Você não recebeu nada! – Repassei mentalmente a lista de e-mails de Jen. Não havia nenhum vindo de Tony.
— É claro que não. A Diretora é o alvo da aposta.
— É sobre o que? – Quis saber.
— Bem... você vai saber responder mesmo. – O sorriso dela não era nada ingênuo, — Então eu te pergunto, Agente Gibbs, a Diretora do NCIS colocou silicone?
DiNozzo não se atreveu a fazer uma aposta dessas!
— Como estão as respostas? – Perguntei.
— Com a exceção de uma pessoa, todos dizem que sim. Sua Diretora passou por uma cirurgia plástica.
— E quem disse que ela não passou?
— Você! – Ela me respondeu sorrindo.
— Eu falei isso?!
Jen colocou o elevador para se movimentar novamente.
— Sim, Jethro, você falou. Creio que a essa altura, você é o único, depois de mim, que saiba a verdade. Assim, peça o dinheiro à Tony hoje. Você venceu essa aposta. – Ela falou e saiu do elevador na minha frente.
Vi que todo o andar acompanhava com interesse nós dois e a forma como saímos do elevador. McGee, Ziva e Tony eram os mais interessados.
Jen seguiu para a sala dela e eu, antes de me sentar, dei um tapa atrás da cabeça de Tony.
— Bom dia, Chefe. Esse foi por...
— Pague a aposta, DiNozzo. A agência inteira perdeu.
— Que aposta, Chefe? – Ele se fez de desentendido.
— A última que você abriu.
— Eu te disse para não fazer isso. – McGee falou.
Ziva começou a rir. E Tony, com uma cara de quem queria começar a chorar, estava contando do dinheiro. Assim que me entregou, começou a murmurar.
— Eu tenho que tirar o Chefe das apostas que dizem respeito à Diretora, esqueci que ele já teve acesso direto a ela...
Dei outro tapa na cabeça dele.
— Esse foi...
— Respeite a Diretora, DiNozzo. Se você quiser manter o seu emprego.
Na mesma hora ele parou de murmurar.
Quando o caso acabou por me mandar até o laboratório de Abbs, era ela quem murmurava dessa vez.
— Será que eles não vão se acertar, Bert? Já tá passando da hora... – Ela estava com o rosto apoiado nas mãos e encarava o hipopótamo de pelúcia.
Então, Abbs ainda não sabia sobre a troca... vamos ver o que eu ficaria sabendo.
Assim que me escutou, Abbs deu um giro e correu para me abraçar.
— Jenny!! Ah, Jenny! Você ainda está presa no corpo do Gibbs! E, pelo visto deve ter ficado sabendo da aposta que o Tony fez... eu sinto muito!! – Ela me abraçava com força. – Mas não fique tão triste, tem uma outra aposta, um tanto pior do que a sua, rondando pelos e-mails corporativos... Essa envolve o Gibbs e foi a Susan da contabilidade que começou.
Isso era muito interessante...
Levantei uma sobrancelha para Abby, creio que Jen teria feito isso...
— Uma pena que você, estando no corpo do Gibbs, não vai poder participar, mas ele vai ficar sabendo e vai ser um Deus nos acuda aqui dentro...
— Abbs, a aposta.
— Ah, sim. Leia aqui... – Ela apontou para a tela do computador. – Esqueceu os óculos de novo! – Abby ralhou. – Toma, eu tenho um reserva. – Me entregou os óculos e foi fazer algo no outro computador. Eu comecei a ler o e-mail da aposta, começava como todos do DiNozzo, só tinha uma coisa diferente...
— MAS O QUE?! QUEM É ESSA SUSAN? – Disparei.
Abby soltou o CAF-POW! E me olhou horrorizada.
— Gibbs? – Disse baixinho.
— Sim, Abbs.
— Vocês destrocaram... que... que.... cadê a Jenny? – Ela estava apavorada.
— Esse e-mail... quem é a Susan?
— Ai meu Deus... – Ela murmurava. – Bert, hora de sair daqui. – Ela saiu correndo em direção às escadas.
— Abby volta aqui! Eu quero saber.
— Eu não sei de nada! – Escutei a voz dela ao longe.
— Sim, ela sabia... – Fui para o elevador, eu tinha uma vaga ideia de onde ela pediria asilo. Só que ao invés de chegar mais rápido do que ela até o quarto andar. O elevador parou andar por andar, quando resolvi descer na sala do esquadrão, cada uma das mulheres que cruzaram meu caminho me olhavam... e Tony já parecia saber sobre a aposta também.
Não disse nada, até porque ouvi:
— JENNY!! JENNY!! JENNY!! JENNY! Me ajuda!
Todos olharam para a entrada do MTAC onde Abby passava correndo e esbaforida.
Subi atrás de Abby, escutando logo em seguida os passos de Tony, Ziva e Tim.
— Acho que o chefe já sabe da aposta... – Foi o que ouvi vindo de Tony.
Entrei no escritório de Jen, sem me anunciar, Cynthia estava mais apavorada do que tudo com as duas invasões seguidas e parou na porta.
— Não é culpa sua, Cynthia, pode ficar tranquila. – Jen tentou acalmar a moça.
Abbs estava agachada atrás da cadeira de Jenny, me olhando pela beirada.
— Abbs, você vai apagar o e-mail. – Ordenei.
— Não dá, Gibbs! Não fui eu quem mandei.
Jenny ficou como a intermediadora da situação.
— Que e-mail? – Quis saber.
— Não abra nada vindo de Susan. – Falei.
Do outro lado da porta ouvi algumas risadas.
— Abra a porta. – Jenny ordenou.
Fiz o que ela disse, e dentro do escritório caíram, Tony, Ziva e McGee.
— Algum problema, agentes especiais? – Jenny quis saber.
— Não senhora. Nenhum – Eles disseram ao se levantarem.
— Então, qual é o motivo de estarem atrás da porta do meu escritório?
Os três se olharam.
— Abby. Estamos preocupados com a Abby. – Ziva disse.
— A Abby está bem, agora, se houver algo que queiram dizer.
— Não senhora, nada.
— Muito bem. Em breve todos receberam um e-mail que é de importância de toda a agência. – Jen terminou e os dispensou. – Agora sobre vocês dois. – Fez menção para Abby ficar de frente para ela.
— Jenny eu não fiz nada... achei que era você e não o Gibbs no corpo do Gibbs! – Abbs começou a se desculpar.
— Eu sei, Abbs. E você, Jethro. Ficaria sabendo sobre e-mail de qualquer maneira. E é por isso que eu quero que você abra o próximo e-mail, assim que ele chegar na sua caixa de entrada.
— Posso saber do que se trata? – Abby perguntou.
— Você verá, Abbs. Agora pode voltar para o seu laboratório.
Abby saiu de mansinho e eu fiquei, assim que a porta foi fechada, Jen começou a rir.
— Não é motivo para riso.
— Por que não, Jethro? Acha que isso vai influenciar na escolha do agente mais bonito no final do ano?
— Existe isso?
Ela riu com gosto.
— Sim... e sinto lhe dizer, você não é a preferência da agência. Pode até ser a minha, mas não agrade 100% das mulheres do prédio.
— Desde que eu não perca para o DiNozzo...
— Acho que nem o Tony superaria a derrota da última votação.
— Você está contornando a situação. Sobre o e-mail.
— Ah, sim... que coisa não é mesmo... o prédio inteiro falando de nós pelas costas... ora sobre a diretora, ora sobre o Agente Gibbs. Achei um tanto ofensivo os dois e-mails de apostas, mas sabe o que mais eu fiquei sabendo...
— Não faço ideia, Jen. Não teria como você ficar sabendo de nada, se você estava no meu lugar nos últimos três dias.
— Mas essa aposta começou na semana passada. Até onde eu sei... é por pura dor de cotovelo. Creio que ela está magoada com você, algo sobre você não ter se lembrado o nome dela. – Jen se divertia.
— Eu não sei quem ela é!
— E é por isso que a Susan fez isso. Mas não se preocupe, eu já dei um jeito nisso. – Ela disse depois de clicar em algo na tela do computador. – Se quer saber o resultado, abra o seu e-mail.
Abri a porta para sair e ela me chamou novamente, voltei e a encarei.
— E Jethro... ainda bem que eu sei que é mentira, não é mesmo?
Deixei Jen e o seu sorriso de gato que comeu um canário em seu escritório e assim que cheguei as escadas, vi que DiNozzo parecia desesperado.
— Eu não merecia isso. Como ela ficou sabendo? Não era para ter chegado até os ouvidos dela. – Ele murmurava com a cabeça apoiada na mesa.
— Eu te avisei, Tony, não se deve mexer com pessoas que tem ouvidos em todas as paredes. – Ziva alertou.
— Lugares. – DiNozzo a corrigiu.
— Ainda mais com a Diretora. Mas pense bem, a Susan da Contabilidade não é aquela com quem você saiu no ano passado? – McGee perguntou.
— Isso! E ela disse que tinha um outro tipo de homem... do tipo...
— Já chega Ziva! Eu me lembro do que ela falou! – Tony levantou a cabeça. – Não precisa ficar me falando que a garota da Contabilidade me trocaria pelo... – DiNozzo parou. – Ele tá atrás de mim, não está?
Ziva e McGee só fingiram que não viram nada. Dei um tapa na cabeça de Tony.
— Seja lá o que a Diretora mandou você e a tal de Susan fazer, é o que vocês irão fazer.
— Mas Chefe! Isso não é justo! Eu não quero passar o resto do ano trabalhando nos arquivos do NCIS junto com a Susan! Eu disse todos os finais de semana? Porque vão ser todos eles! – Ele queixava, totalmente desesperado.
— Pensasse antes de mexer com quem tem o poder, DiNozzo.
Tony só se afundou na mesa.
— E eu nem sei como ela ficou sabendo disso... não tem o e-mail dela em nenhum dos destinatários. – Continuou a murmurar.
Internamente Gibbs começou a rir, não era preciso saber o que dizia o e-mail enviado pela Diretora, não quando o olhar dos dois se encontraram e ele conseguiu ler perfeitamente o que ela pensava:
— Satisfeito, Jethro?
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Depois de me acostumar com a rotina novamente – eu jamais iria admitir em voz alta, mas serviço burocrático era pedante e chato – e, obviamente ajeitar todos os pormenores que Jethro ignorou por três dias, – como ele pôde fazer isso com comigo? Eu não deixei um mísero clipe de papel fora do lugar! — era hora de saber o estrago que Jethro causara fora do ambiente de trabalho.
Se dentro da agência ninguém chegou a comentar o comportamento estranho da Diretora ou do Chefe da MCRT, confesso que estou com medo de descobrir o que as incansáveis e intermináveis reuniões tinham feito com Jethro e, consequentemente, comigo.
Logo eu vou saber, por pior que seja, não deve ter sido tão terrível, já que o pedido de renúncia do cargo não chegou às minhas mãos...
O baile começava às 21:00 em ponto. E, como se tratava de um evento organizado pelo Presidente, um atraso era imperdoável. Assim, consegui agendar para que ficasse pronta, com meu vestido sob medida, maquiagem, unha e cabelo feitos por profissionais às 20:30. E com que surpresa eu vi que Jethro parecia não acreditar nesse pequeno fato!
— Que cara é essa? E nem adianta conferir o relógio, estamos com folga hoje! – Soltei, quando ele não parou de me encarar.
— Só estava pensando que dessa vez, Jen, você conseguiu se arrumar em tempo recorde!
— Espero que você não esteja sentindo falta de estar no meu lugar, Jethro! Ou você está? – Cutuquei. E a reação dele foi hilária, arregalou os olhos e abriu a boca.
— Prefiro ter você do meu lado a ser você. Não tem tanta graça.
— Então você está me dizendo que gosta de mim pela minha personalidade e não por conta da cor do meu cabelo? – Parei na frente dele e o encarei divertida.
— Só descobriu isso agora, Jen?
Não consegui conter o deleite em saber disso... Os últimos três dias foram uma montanha russa de emoções, mas eu passaria por eles novamente, se o prêmio fosse esse.
— Só checando, Jethro. – Me virei em direção à porta, esperando que ele entendesse a deixa e me guiasse até o carro.
— Você não me engana, Jennifer Shepard. – Ele sussurrou ao passar por mim.
Minha resposta foi em forma de sorriso... Por que eu demorei tanto tempo para ter isso? Por que me sabotei por tanto tempo?
O baile foi tudo o que se esperava. Políticos, lobistas, gente influente, algumas celebridades, nada que me desse vontade de dizer: quero ser convidada para o próximo! Porque, para mim, aquilo era só mais uma noite de trabalho, vestida em uma roupa de gala, mas ainda tendo que pisar em ovos e ser diplomata o tempo todo.
Jethro foi paciente durante as minhas conversar totalmente políticas, ficando do meu lado e sendo educado quando pediam a opinião dele. Porém, por baixo, eu sabia que ele queria sair dali tanto quanto eu.
— Só mais uma hora, e eu acho que poderemos ir. – Falei quando ele me guiava, com uma facilidade ímpar, no meio do salão apinhado até o mezanino dos fundos.
— Não está tão ruim assim, Jen. Podia ser pior. Poderia ser eu dentro desse vestido, que eu não sei como você está respirando com ele, poderia ser eu tendo que ser educado com pessoas que não te respeitam. Você é muito melhor do que eu nisso.
Olhei espantada pelo rompante de sinceridade em Jethro.
— Nossa. Fico lisonjeada que me tenha em tão alta conta. Mas posso te contar um segredo? – Cheguei perto dele e falei ao pé de seu ouvido.
Ele se me olhou pelo canto do olho.
— Eu te invejo. – Ele me afastou para conferir se eu não tinha ficado louca. — Sério! Você pode sair esbravejando com quem quer em uma cena de crime. Pode prender qualquer pessoa sem ter medo de que o seu cargo fique na berlinda. E só a sensação de saber que você pode atirar em qualquer um desses políticos é muito melhor do que qualquer status que o meu cargo me dá. Você tem uma liberdade que eu não tenho. – Disse por fim.
— Eu poderia jogar o senador Bobby Sanders da escada agora mesmo se isso te fizesse feliz... ou poderia afogá-lo em uma dessas fontes. – Ele me respondeu e ao mesmo tempo me abraçou pela cintura, me trazendo para junto dele.
— Eu ficaria imensamente feliz se esse bastardo fosse parar no inferno. Mas para isso precisaríamos envolver a Abby...
Nos encaramos.
— Melhor não! — Começamos a rir.
— Acho que temos que manter distância da Abbs por um tempo... – Ele me deu um beijo na têmpora. – Só para que ela não banque a casamenteira e cisme de nos sequestrar e levar para Las Vegas para um casamento de última hora.
— Casar em Vegas? Nossa! O que nós somos? Dois jogadores compulsivos que se conheceram na mesa de blackjack? – Comecei a rir.
Jethro não me respondeu de pronto, vi que ele ficou tenso e olhava por sobre o meu ombro. Acompanhei o seu olhar.
— Senador Sanders. – Cumprimentei o ser desprezível.
— Diretora Shepard! Espero que esteja gostando do baile. – Ele devolveu.
Baixinho, em meu ouvido, Jethro rosnou:
— Agora você é Diretora Shepard? Há quatro dias era Jenny e ele tentava te agarrar a força. – E com isso, ele apertou seus braços em minha cintura.
— Não tem como desgostar de algo feito pelo Presidente! – Fui política. E notei que o Senador não me olhava, mas tinha um interesse incomum na minha companhia. – Onde estão os meus modos? – Balancei a cabeça. – Senador Sanders, este é Jethro Gibbs, o meu noivo. Jethro, Senador Sanders. – Apresentei os dois formalmente, fazendo questão de balançar a mão onde o meu anel estava.
O Senador apenas acenou com a cabeça, sem proferir palavra alguma. Na verdade, eu podia jurar que ele estava um tanto pálido.
— Algum problema? – Quis saber, por fora parecia cordial, mas eu só queria vê-lo ficar ainda mais sem graça com a presença do meu noivo, já que ele tinha duvidado da existência dele.
— Nenhum, Diretora. Tenham uma boa-noite. – Disse e voltou para dentro do salão.
Esperamos que ele estivesse longe o suficiente para começarmos a rir.
— Eu quero morrer seu amigo, Jen! — Jethro disse ainda olhando para dentro do salão.
Dei de ombros.
— Ele procurou por isso, quando te encurralou entre as pilastras... Mas eu acho que vi uma pontada de medo nos olhos dele... O que mais você disse a ele?
— Ele deve estar pensando se você me contou ou não o que ele fez.
— Ele não pensou, Jethro, ele tem certeza. Pois a sua cara dizia isso. Agora ele deve estar procurando uma forma de não esbarrar em você sem, no mínimo, umas dez testemunhas por perto.
— Eu tenho tempo, Jen... Ele não vai longe.
— O que eu faria sem você, hein? — Pisquei para ele e dei um soco em seu ombro.
E, com o ego maior do que já é, ele apenas sorriu para mim.
— Vamos lá para dentro, Jen. Isso é um baile e você merece dançar um pouco, a menos que esses sapatos estejam te machucando.
— É você o sensível aqui! – Brinquei.
Estávamos na terceira música, dançando em silêncio, um aproveitando a companhia do outro, quando soltei:
— Eu acho que não deveríamos manter distância da Abby... Sabe ela não fez por mal...
— Claro, Abby só quer ver a mamãe e o papai juntos de qualquer forma. – Jethro foi sarcástico.
— Ela se preocupa com você, Jethro.
— Eu sei, Jen. – Ele suavizou o tom. – Mas bem que, agora que ela conseguiu o que queria, ela deveria procurar outras pessoas para perturbar.
Levantei minha cabeça para olhá-lo. Ele soube quem eu falaria antes que abrisse a boca:
— Tony e Ziva! – Falamos juntos.
— Sabe que seria engraçado ver os dois trocados! – Ele comentou.
— Coitada da Ziva... ou melhor dizendo, do corpo da Ziva.
— Aí, Jen, isso seria problema deles.
— Se você desconfiar de algo, por favor, me avise. Deve ser interessante observar os trocados.
— Agora você acha graça?
— Jethro, isso jamais irá acontecer conosco de novo. A menos que entremos em pé de guerra por algum motivo muito ruim...
— Como os seus sapatos, Jen?
— Não comece! Ou eu vou começar a falar da sua escassez de roupa.
— Melhor ter essa conversa em outro lugar, e bem longe da Abby. – Ele me conduziu para fora do salão. – Acha que é uma hora adequada para a Diretora do NCIS deixar o baile?
Olhei para trás, nada iria acontecer ali mesmo.
— Não vejo motivos para não fazê-lo!
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CINCO ANOS DEPOIS...
— Que cara é essa? – Jethro me perguntou assim que acabei de dependurar o meu casaco no cabide.
— Nunca mais quero ser a responsável por acompanhar uma operação onde Tony e Ziva sejam parceiros! Acho que vou mandar a Abby fazer uma intervenção naqueles dois! – Resmunguei e fui em direção à Jethro. No meio do caminho tive que parar e me ajoelhar para acariciar a cabeça de Duke, nosso pastor alemão.
— Nossa, Duke, você tá com mais poeira que o Jethro! – Falei com o cachorro. – Seu melhor amigo estava rolando no porão enquanto você montava o barco, Jethro?
— Não é o barco. Pelo menos não um para nós!
— Você sabe como vai ser a reação de Jazz, não sabe?
— Estou contando com isso! – Jethro abriu um sorriso e me guiou para a cozinha, Duke em nossos calcanhares.
— Ele não vai te dar sossego até que você o leve até um lago para que ele possa brincar com ele.
— E vou ter que explicar para ele que por enquanto, teremos que esperar.
— Seu filho? Ser paciente? Nunca! Não mesmo! – Foi a minha vez de rir.
— Ele sabe que Alice ainda não pode sair.
— Falando na pequena, você conseguiu fazê-la dormir? – Perguntei espantada.
— É a garotinha do papai. Claro que eu iria conseguir fazê-la dormir. – Jethro piscou para mim.
— Garotinha do papai... vou me lembrar disso quando ela acordar berrando de madrugada querendo que a troquem. – Brinquei.
Nesse momento, fomos interrompidos pelos passos de nosso primogênito.
— Manhê!! Por que a senhora não foi lá em cima me ver? – Ele demandou.
— Porque a mamãe acabou de chegar, Senhor Sem Paciência. – Abri meus braços e Jazz se sentou no meu colo. – Mas teve tempo de brincar com o Duke. – Ele acusou.
— Jazz, Duke está onde seu pai está. É a sombra canina dele, nunca se esqueça disso. – Falei e dei um beijo no alto da cabeça do meu menino.
— É mesmo... e como foi o seu dia? O tio Tony e a Tia Ziva já estão voltando? A senhora vai poder ir no meu jogo de futebol no sábado? E depois, será que podemos ir no zoológico? – Jethro teve que colocar um dedo na frente dos lábios do filho para fazê-lo parar de falar na velocidade da luz.
— Jazz, sua mãe está cansada. Nada de ficar fazendo um monte de perguntas.
Jazz encarou o pai com a mesma intensidade que este lhe encarava.
— Vou resumir as suas respostas em uma única resposta, pode ser?
Jasper me olhou curioso.
— Sim!
Seus grandes olhos verdes se arregalaram e ele me deu um abraço apertado.
— A senhora é a melhor mãe do mundo! – Ele falou. Ao fundo escutei Jethro coçar a garganta.
— Alguém está com ciúmes. – Falei contra os cabelos do meu garoto.
Jazz pulou do meu colo e voou até o pai que o levantou de primeira.
— E o senhor?
Jethro fez mistério, fingiu pensar. Jazz foi ficando impaciente e começou a chutar o ar.
— Acho que a reposta é...
— A resposta é? – Ele quis saber, já ansioso.
— Sim.
Foi o que bastou para o garoto sair correndo por todo o primeiro andar, gritando que tinha os melhores pais do mundo. Duke saiu correndo e latindo atrás dele e eu sabia que era questão de minutos para que uma bebê muito manhosa, acordasse chorando.
— Faltam quantos anos até que ele pare de correr pela casa gritando? – Jethro me perguntou.
— Bem... se formos contar até que ele vá para a faculdade, quinze. E não se esqueça dos dezessete e meio da mocinha que começou a chorar agora. – Me levantei sorrindo, passei por trás de Jethro, dei um beijo na cabeça dele e fui ver minha filha.
— Mamãe já está indo, Alice!
No sábado, depois de toda a confusão que foi para que todos pudessem se sentar juntos e acompanhar o jogo de futebol, achei que ficaríamos em paz por todo o tempo que o jogo durasse.
Só que isso não aconteceu.
Com menos de dois minutos, Tony e Ziva, que tinham voltado para o país há menos de trinta e seis horas, começaram a brigar. Brigavam por tudo, desde o que um estava comendo até mesmo os lugares que eles queriam.
Me virei para ver se eles desconfiavam que estavam atrapalhando, nem se importaram. Antes que pudesse me virar e ver o meu menino ser o quarterback do time, notei que Abbs tinha um sorriso diabólico se espalhando no rosto.
Abbs notou que eu a olhava e abriu um sorriso ainda maior. Eu sabia no que ela estava pensando.
Em língua de sinais, ela me perguntou:
— Posso dar uma lição nesses dois?
— Que lição? – Respondi da mesma forma. Meus gestos chamaram a atenção de Jethro que olhou para nós duas.
— A mesma que deu tão certo para você e o raposa prateada. – Ela disse simplesmente.
Jethro suspirou do meu lado e voltou sua atenção ao jogo, eu só sorri.
— Você está mexendo onde não deve, Jen? – Jethro sussurrou no meu ouvido.
— Nada disso, Jethro. Se deu certo com nós dois. Vai dar certo com eles! – Respondi e apoiei minha cabeça no seu ombro. Ele me deu um beijo na cabeça e depois beijou a testa de Alice que estava no canguru. E antes que pudesse dizer qualquer coisa, deu um pulo e comemorou o lançamento que Jazz tinha feito.
E vendo aquela cena, vendo o quão feliz eu estava ao lado da minha família, cutuquei Abby, ela se virou com sua sombrinha na minha direção.
— Faça. – Sinalizei para ela.
Na mesma hora ela abriu um sorriso e começou a bater os pés em ansiedade. Sorte a nossa que vinha uma sexta-feira 13 por aí. E depois dessa sexta-feira, uma semana bem interessante. Já sabendo que esses dois só precisavam de um empurrão, seria interessante ver o resultado daqui a cinco anos.
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